AS CUESTAS BASÁLTICAS EM SÃO PAULO

Rafiting em Brotas

Recebem o nome de cuestas as formações de relevo compostas por remanescentes de rochas vulcânicas da Era Mesozoica em áreas sedimentares. A palavra cuesta é de origem castelhana e significa encosta de uma colina ou de um monte. As cuestas se apresentam, normalmente, como montes ou formações rochosas com um cume plano e achatado, formato por uma camada de rochas vulcânicas como o basalto, que se sobrepõe a um empilhamento de camadas de arenitos ou outras rochas de origem sedimentar. Uma importante formação geológica com essa conformação se encontra na faixa Leste da bacia sedimentar do rio Paraná,. entre os Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul. Na região central de São Paulo, as formações são conhecidas como Cuestas Basálticas e concentram importantes nascentes de rios e afloramentos de águas. 

A origem das Cuestas Basálticas paulistas está ligada diretamente ao surgimento dos relevos conhecidos como Formações Serra Geral, que se formaram durante o Derrame de Trapp (ou Trapp do Paraná). Esse Derrame teve início quando o antigo Supercontinente de Gondwana começou a se fragmentar. Essa gigantesca formação continental era constituída pela América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagascar, Índia (o famoso Subcontinente Indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas menores. Esse evento teve início a cerca de 165 milhões de anos e, ainda hoje, esses “fragmentos” de Gondwana ainda se movem (pesquisa Tectônica de Placas). Com o início da ruptura continental, dezenas de vulcões entraram em erupção simultaneamente – um dos períodos de maior intensidade das erupções aconteceu no Período Cretáceo, entre 137 e 127 milhões de anos atrás.  

Na América do Sul, os derramamentos de lava, calculados em 650 mil km³, cobriram uma área de aproximadamente 1,2 milhão de km², especialmente na região onde encontramos hoje a bacia hidrográfica do rio Paraná, englobando áreas do Brasil, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. Os solos dessa região eram formados, originalmente, por extensas dunas de areia de desertos como o de Botucatu. Ao longo dos tempos geológicos, essas areias foram submetidas a forças externas (especialmente temperatura e pressão), que junto com a presença de água produziu um processo de cimentação dos grãos e fragmentos da massa de sedimentos, que acabou transformada nas chamadas rochas sedimentares, com destaque especial para os arenitos

Esse tipo de rocha tem uma característica especial – são extremamente porosas e, por isto, formam os depósitos ou lençóis subterrâneos de água. Os derramamentos de lava nessa extensa região de dunas originou o Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água conhecidos do mundo. Submetida a um longo e contínuo processo de erosão, a maior parte dessa capa de rochas vulcânicas acabou desaparecendo, levando junto várias camadas de rochas sedimentares. As Cuestas Basálticas que encontramos hoje no Estado de São Paulo são os resquícios da formação original, que sobreviveram a esse processo erosivo. 

As Cuestas Basálticas paulistas se estendem no sentido Nordeste-Sudoeste e são bastante proeminentes em municípios como Botucatu, Pardinho, Águas de São Pedro, Descalvado, Brotas, São Carlos e Santa Rita do Passa Quatro, entre outros. Quem passa pelas estradas da região reconhece imediatamente os perfis característicos dessas formações geológicas, que formam um importante patrimônio natural e com grande potencial turístico, além de fornecer importantes recursos hídricos para todas essas cidades. 

Um exemplo da importância econômica das Cuestas Basálticas pode ser visto no município de Brotas, localizado a 240 km da capital paulista. Descoberta pelos operadores do turismo de aventura e natureza na década de 1990, Brotas foi transformada, de acordo com o slogan da cidade, na Capital da Aventura. Praticantes de esportes radicais como escaladas, rafting (vide foto), ciclismo, arborismo e trilhas radicais, lotam os hotéis e áreas naturais do município em busca de adrenalina e muitas aventuras. Destaques do município são os rios Jacaré Pepira e do Lobo.

De acordo com dados da Prefeitura da cidade, cerca de 20 mil “aventureiros” visitam Brotas nos meses de férias. Pela sua proximidade da Grande São Paulo e de grandes cidades do interior do Estado, também é muito grande o número de visitantes que fazem o “bate e volta”, ou seja, que viajam até a cidade para curtir as aventuras e que voltam para as suas casas à noite. Cada um desses visitantes chega a gastar até R$ 500,00 em cada uma dessas viagens, onde se incluem despesas com alimentação, hospedagem, ingressos turísticos e pagamentos de guias, entre outros gastos, gerando importantes receitas para uma cidade com pouco mais de 21 mil habitantes e que sempre dependeu das atividades agropecuárias para sobreviver. O grande diferencial desse tipo de turismo é a preocupação com a conservação ambiental – esses aventureiros querem encontrar águas limpas e matas preservadas.

Os recursos hídricos das Cuestas Basálticas também são fundamentais para o abastecimento de inúmeras cidades da região, que captam as águas superficiais dos rios com nascentes e/ou tributários localizados nessas formações ou retiram as águas através de poços artesianos. Muitas áreas de recarga do Aquífero Guarani se encontram nos domínios das Cuestas Basálticas, o que é um motivo a mais para as preocupações com a conservação ambiental dessas formações.

Para você entender, como ninguém, as relações ecológicas entre serras e águas, nada melhor do que programar um passeio para essa fascinante região do interior do Estado de São Paulo.

AS ÁGUAS DA CANTAREIRA

Serra da Cantareira

No dia 2 de março de 1996, um jatinho executivo que tentava pousar no Aeroporto de Cumbica, na cidade de Guarulhos, abortou a aterrizagem e arremeteu, um procedimento normal nos casos em que os pilotos percebem que o pouso da aeronave está comprometido por excesso de velocidade ou ângulo de descida incorreto. Tragicamente, ao iniciar os procedimentos para uma nova tentativa de pouso, os pilotos erraram a direção a ser seguida e o jatinho se chocou contra a Serra da Cantareira, uma imensa massa de morros e matas que domina toda a Zona Norte da cidade de São Paulo (vide foto), funcionando como uma divisa natural com os municípios de Guarulhos, Caieiras e Mairiporã. Além dos pilotos, morreram no acidente os cinco membros de uma banda de música Pop que ocupava o topo das paradas de sucesso – Os Mamonas Assassinas. A tragédia chocou todo o país e colocou a Serra da Cantareira nas manchetes nacionais. 

Em 2014, teve início um grave período de seca na Região Entre Serras e Águas, localizada entre a face Norte da Serra da Cantareira e a face Sul da Serra da Mantiqueira. O colapso nos reservatórios de água da região, responsáveis pelo abastecimento de grande parte das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, colocou mais uma vez o nome Cantareira em evidência em todo o Brasil. Durante aquela crise hídrica, que se estendeu até o final de 2015, o nível dos reservatórios do Sistema Cantareira era matéria obrigatória em todos os telejornais. Para além dessas duas situações, a Serra da Cantareira é apenas um dos recantos mais bucólicos da grande mancha urbana Metropolitana. 

Contam as histórias que as antigas tropas de burros e de carretas se fartavam com as cristalinas águas que brotavam das encostas da Serra ao largo das trilhas abertas na mata. Para prosseguir nas viagens, os tropeiros se abasteciam com grandes quantidades de água, que eram armazenadas em cântaros de barro – esses recipientes eram carregados em uma espécie de prateleira de madeira presa nas carretas. Essas prateleiras eram chamadas de cantareiras – dizem que essa é a origem do nome da Serra da Cantareira. Essa fartura de fontes de águas levou à instalação de muitas fazendas na região do seu entorno já nos primeiros anos após a fundação da cidade de São Paulo.  

A partir da segunda metade do século XIX, os problemas de abastecimento de água na cidade de São Paulo passaram a ficar evidentes. Na década de 1870, a população da cidade alcançou a cifra de 30 mil habitantes, número insignificante se comparado aos 11 milhões que vivem na cidade atualmente, mas suficiente para levar as fontes de água ao colapso. O rio Tamanduateí, que desde a fundação da cidade pelos padres Jesuítas ainda no século XVI abastecia a população da cidade, já se apresentava bastante poluído. Os olhos dos administradores da cidade se voltaram então para o Norte, na direção da Serra da Cantareira. 

Em 1877 foi criada a Companhia Cantareira de Águas e Esgotos, uma autarquia da cidade de São Paulo que seria a responsável pelo abastecimento e a qualidade das águas servidas para a população. Um dos primeiros trabalhos realizados pela empresa foi o de aumentar o volume de águas que chegavam na Represa do Engordador, principal manancial de abastecimento da cidade na época, através de adutoras instaladas a partir de fontes de águas na Serra da Cantareira, permitindo a regularização do fornecimento de água nos chafarizes e bicas públicas ao longo de todo o ano. 

Em 1893, objetivando aumentar ainda mais o volume de águas usadas para o abastecimento da cidade de São Paulo, foi construída uma linha férrea destinada ao transporte dos materiais e equipamentos que seriam usados na construção de barragens e adutoras. Após a conclusão das obras, a linha férrea passou a ser usada para o transporte de passageiros Essa foi a origem do famoso Trenzinho da Cantareira, com sua antológica parada no bairro do Jaçanã, imortalizada na música “Trem das Onze” de Adoniran Barbosa e transformada num ícone cultural paulistano. 

O antigo Sistema Cantareira, mais conhecido pelos paulistanos como Cantareira Velho, manteve suas operações por mais de cem anos, abastecendo, entre outras, as populações da região central e da Zona Norte da cidade de São Paulo. Na década de 1980, com o aumento da produção de água no Novo Sistema Cantareira, o antigo sistema foi gradativamente desativado, deixando profundas marcas no inconsciente coletivo de toda a população. Apesar do novo sistema de abastecimento da cidade se valer de outros rios e de outras as fontes de água, na cabeça do cidadão médio nada mudou – as águas que saem das suas torneiras continuam vindo da Serra da Cantareira. 

Como se vê, a Serra da Cantareira ainda será tema de muitas notícias e histórias, continuando a ocupar um papel fundamental no abastecimento de águas da região Metropolitana de São Paulo. 

 

AS SERRAS E AS ÁGUAS

Morangos de Atibaia

Na nossa última postagem, falamos do trágico escorregamento da encosta de um morro em uma comunidade da cidade de Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, onde foram confirmadas 15 mortes e pelo menos 11 pessoas feridas. Também falamos dos escorregamentos de encostas na Serra do Mar, na região do Vale do Rio Paraíba, faixa Leste do Estado de São Paulo, que provocaram o bloqueio de duas importantes rodovias estaduais. Na temporada das chuvas, as regiões de morros desmatadas e/ou alteradas por obras humanas, estão entre as mais propensas a escorregamentos. 

Deixando temporariamente de lado essas fatalidades, as áreas de serras com seus incontáveis morros são fundamentais para os recursos hídricos – essas regiões costumam abrigar importantes nascentes e fontes de água, que formam e alimentam alguns dos mais importantes rios brasileiros. Normalmente, pela dificuldade de acesso, essas áreas apresentam a cobertura florestal nativa bem preservada, fator fundamental para a recarga das reservas de água subterrâneas e garantia dos volumes e da qualidade das águas que brotam das nascentes. 

A partir da postagem de hoje, vamos explorar algumas das mais importantes serras do Brasil. Vamos começar falando da Região Entre Serras e Águas, no Estado de São Paulo, que resume bem todas essas características. 

Entre a face Norte da Serra da Cantareira e a face Sul da Serra da Mantiqueira está localizada a Região Entre Serras e Águas. Famosa por seu clima ameno e paisagens serranas deslumbrantes, a Região é reconhecida como uma área de grande qualidade ambiental e com um dos mais altos índices de qualidade de vida do Estado de São Paulo. As nascentes de importantes rios, cujas águas abastecem dezenas de cidades, ficam nessa região: Jaguari, Camanducaia, Atibainha, Juquerí, Jacareí e Cachoeira. Essa grande concentração de rios acabou colaborando para a criação de um outro nome para designar a região: Circuito das Águas.

Nos finais de semana e nos feriados, a Região disputa com as praias da Baixada Santista a preferência dos turistas da Grande São Paulo, que lotam as cidades do Circuito das Águas: Atibaia, Bragança Paulista, Bom Jesus dos Perdões, Joanópolis, Mairiporã, Nazaré Paulista, Pedra Bela, Pinhalzinho, Piracaia, Tuiuti e Vargem. A culinária local, fortemente influenciada pela cozinha das Minas Gerais (que fica “logo ali na frente”), a produção de frutas – destaque para os morangos (vide foto), e o clima estão entre os maiores atrativos locais. Também merecem destaque as represas do famoso Sistema Cantareira, que a partir de meados da década de 1960, passaram a ocupar os fundos de vales e incorporaram espelhos d’água às paisagens serranas. 

O crescimento vertiginoso da população da Região Metropolitana de São Paulo a partir da segunda metade do século XX levou o governo estadual a estudar novas fontes para o abastecimento de água e a Região Entre Serras e Águas se mostrou como uma das mais promissoras. A região possuía um importante grupo nascentes de rios, fragmentos florestais bem conservados e um relevo adequado para a construção de reservatórios relativamente pequenos, mas com grande capacidade de armazenamento de água. Na época, o governo estadual chegou a estudar a possibilidade de aproveitar as águas da região do Vale do Ribeira, no Sul do estado de São Paulo, mas a ideia foi abandonada devido aos altos custos do bombeamento até a Região Metropolitana de São Paulo. 

O Sistema Cantareira possui seis reservatórios espalhados pela Região Entre Serras e Águas, que respondem pela produção de mais da metade da água consumida na Região Metropolitana de São Paulo e por dois terços do consumo da região de Campinas. A importância da região e dos seus inúmeros mananciais ficou evidente quando, entre 2014 e 2015, uma violenta e inédita grande seca regional levou o Sistema Cantareira ao colapso – todos os habitantes das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas foram submetidos a um forte racionamento de água “camuflado”. A fim de evitar futuras surpresas, um sistema de interligação entre o Cantareira e a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul foi inaugurada em março último.

As cidades da Região Entre Serras e Águas possuem uma população fixa total de pouco mais de 400 mil habitantes. Nos fins de semana e em feriados prolongados, o grande fluxo de turistas vindos da Região Metropolitana de São Paulo e do interior do Estado fazem essa população triplicar. Essa grande população “temporária” amplifica alguns problemas ambientais locais das áreas urbanas, com destaque para a coleta e gestão dos resíduos sólidos e a falta de tratamento dos esgotos. Nas áreas rurais, os problemas envolvem o uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras de frutas, os desmatamentos para a ampliação de plantações e construção de condomínios e chácaras de lazer, avanço das plantações de pinus e eucaliptos, entre outros males. Todos esses problemas acabam produzindo reflexos no volume e na qualidade das águas dos reservatórios locais. 

Respeitando o direito que todos os cidadãos têm de usufruir das paisagens das áreas naturais para o lazer, o turismo e a contemplação, é preciso lembrar que outros tantos cidadãos têm o sagrado direito ao acesso a água potável produzida na Região Entre Serras e Águas e “exportada” para outras regiões do Estado de São Paulo. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio que atenda aos interesses de todos. 

AS CHUVAS E OS DESLIZAMENTOS EM ENCOSTAS DE MORROS

Niterói

O fim de semana foi de bastante angústia e ansiedade em Niterói, cidade vizinha ao Rio de Janeiro: na madrugada deste último sábado, dia 10 de novembro de 2018, um grande deslizamento de terra no Morro da Boa Esperança, próximo da famosa Praia de Piratininga, derrubou e soterrou diversas casas. Até o encerramento das buscas por vítimas na manhã deste domingo, 14 mortes foram confirmadas e, pelo menos 11 feridos foram levados para unidades médicas da cidade. A causa da tragédia foram as fortes chuvas, que desde de meados da última semana colocaram diversas localidades da Região Metropolitana do Rio de Janeiro em estado de atenção. 

De acordo com as informações disponíveis, uma grande rocha se deslocou por causa do excesso de água no solo e rolou morro abaixo, levando junto muita terra e diversas casas. O prefeito da cidade rapidamente se adiantou e afirmou que a região não apresentava nenhum risco geológico – sua fala, porém, não trouxe justificativas para a presença da comunidade em uma área inadequada para ocupação por residências. Na mesma linha, o Governador eleito do Estado do Rio de Janeiro afirmou que a construção de casas populares e a remoção de comunidades de áreas de encostas serão prioridade absoluta em seu Governo. Que sejam verdadeiras as promessas.

A tragédia, assustadoramente previsível, traz lembranças traumáticas de um outro grande deslizamento de terra em Niterói, ocorrido em 2010. Naquela ocasião, as fortes chuvas provocaram o escorregamento da encosta do Morro do Bumba, no bairro Vistoso Jardim, causando a morte de 46 pessoas. A origem do problema está no crescimento desordenado das cidades e a falta de políticas públicas continuadas de construção de casas populares. Sem maiores condições de acesso a essas moradias, as populações pobres ocupam os morros das cidades com as famosas “comunidades” (o tradicional termo favela não é considerado politicamente correto atualmente). 

A remoção das matas das encostas, o corte dos terrenos para a formação dos taludes e as técnicas construtivas e os materiais inadequados usados na construção das casas completam o quadro – uma temporada de chuvas mais forte pode fazer toda uma face de um morro escorregar, levando junto casas e muitas vidas. 

As fortes chuvas também têm causado fortes estragos na região do Vales do Paraíba, no Leste do Estado de São Paulo. Áreas de encostas às margens da Rodovia dos Tamoios, que liga a região ao Litoral Norte do Estado, não estão resistindo às fortes chuvas. Cerca de 20 deslizamentos de terra, árvores e pedras, especialmente entre os km 69 e 80 provocaram a interdição total da rodovia. Depois de mais de 90 horas de interdição e de trabalhos intensos para a remoção dos escombros, a Rodovia foi liberada na tarde desse domingo. 

Outra estrada na mesma região, a Rodovia Oswaldo Cruz, também acabou interditada pela queda de barreiras e bloqueios das pistas. Nas duas rodovias, os deslizamentos de encostas ocorreram no trecho da Serra do Mar, região propensa a acidentes deste tipo nos períodos de chuva forte. A alternativa para os motoristas durante o período da interdição foi desviar para a rodovia Mogi-Bertioga, que permite acesso ao Litoral Norte de São Paulo, ou acessar a região da Baixada Santista a partir das Rodovias do Sistema Anchieta-Imigrantes e seguir pelo Rodovia Rio-Santos em direção ao Litoral Norte.  

Regiões serranas dos Estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro também estão em estado de alerta. Com a chuvas que vem caindo por toda essa extensa região, os solos estão saturados de água e há riscos de deslizamentos em vários pontos. Esses riscos aumentam significativamente em áreas “urbanizadas” e também nas regiões rurais onde a vegetação nativa foi derrubada para a formação de pastagens e campos agrícolas. 

Infelizmente, nestes meses de chuvas em boa parte do país, a tendência será de aumento nos casos de deslizamentos de morros e de encostas nas cidades e em muitas áreas rurais. Nas cidades, as áreas de morros normalmente são desprezadas e/ou desvalorizadas, o que sempre as tornam alvos de invasões e ocupações por populações de baixa renda. Essa é uma realidade não só das cidades de grandes Regiões Metropolitanas como a de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas também das cidades grandes e médias de muitos outros Estados. 

Em áreas interioranas, a natureza cobra seu preço pelos muitos anos de destruição e desmatamentos em áreas de topos de morros, regiões críticas que merecem ter prioridade absoluta na sua conservação e recuperação. Nas rodovias em áreas de serra, grande parte dos problemas se deve a técnicas inadequadas de construção, onde serão necessário grandes investimentos na construção de muros de arrimo e obras para drenagem e escoamento das águas da chuva, o que poderá minimizar muito os riscos de acidentes. 

Como já comentamos inúmeras vezes em nossas postagens, as temporadas de chuvas são absolutamente previsíveis em um país de clima, predominantemente, equatorial e tropical como o Brasil. A menos que fortes alterações climáticas venham a ocorrer no planeta no curto e no médio prazo, precisaremos dotar nossas cidades e rodovias de melhor infraestrutura para o controle das águas pluviais, o que precisa incluir, necessariamente, soluções habitacionais para as populações urbanas de baixa renda e a recuperação ambiental das encostas de morros. 

Sem essas medidas, assistiremos à repetição de tragédias como a do Morro da Boa Esperança em Niterói e das Rodovias paulistas, felizmente sem vítimas dessa vez, a cada nova temporada de chuvas 

FATBERG: VOCÊ FAZ IDEIA DO QUE É ISSO?

Fatberg

Nessa época do ano que marca a volta do período das chuvas na Região Centro-Sul do Brasil, cidades e agricultores se animam com a renovação dos estoques de água, nos solos, nos rios e nos reservatórios de abastecimento e de geração de energia elétrica. Também, como uma espécie de efeito colateral do período, assistimos aos vendavais e as quedas de granizo em muitas cidades e regiões. Um outro tema, do qual não podemos fugir e que está diretamente ligado à volta das chuvas, são as enchentes e os alagamentos localizados.  

Como já tratamos inúmeras vezes aqui no blog, nossas cidades, em regra geral, não possuem uma infraestrutura adequada para o escoamento das águas pluviais. A situação se agrava quando passamos a incluir nas discussões o crescimento desordenado de nossas cidades, especialmente em áreas de várzeas e encostas de morros, o que costuma resultar, com frequência incômoda, em graves acidentes e mortes de pessoas. 

A precária situação da infraestrutura de drenagem de águas pluviais de nossas cidades é bastante agravada pelo uso inadequado das redes de esgotos para o lançamento de águas de chuva. Como já demonstramos em várias postagens, as redes de águas pluviais e as redes de esgotos sanitários são sistemas de escoamentos de efluentes diferentes e independentes. Águas pluviais não necessitam de nenhum tipo de tratamento e a função das suas redes coletoras é escoar e transportar, no menor tempo possível, essas águas na direção de rios, lagos e represas, entre outras estruturas, evitando ou reduzindo transtornos como enchentes e alagamentos nas vias de uma cidade.  

As redes coletoras de esgotos, como expressa o próprio nome, são construídas para coletar e transportar os efluentes domésticos e industriais na direção das Estações de Tratamento de Esgotos (ETE), onde esses efluentes passarão por um processo de tratamento antes de serem despejados de volta na natureza. O lançamento incorreto desses efluentes nas redes coletoras erradas causam uma série de problemas: esgotos lançados em redes de águas pluviais irão causar a contaminação do meio ambiente; gases liberados pela decomposição dos esgotos, como o gás sulfídrico, corroem o concreto das tubulações, que no longo prazo podem entrar em colapso e arrebentar. 

Águas pluviais lançadas nas redes de esgoto podem, entre outros problemas, provocar o retorno do esgoto para as casas, podendo também provocar o alagamento de cozinhas e banheiros. A chegada de grandes volumes de águas pluviais nas Estações de Tratamento de Esgotos também causa enormes problemas, que vão desde a paralisação dos processos de tratamento a danos na infraestrutura. 

Os problemas e desafios na área de saneamento básico, que já não são poucos, estão ficando um pouco maiores: em todo o mundo tem se observado um crescimento no lançamento de resíduos de óleos comestíveis e gorduras nas redes de esgoto. Em contato com a água fria e com outros resíduos indesejáveis em redes de esgotos como lenços umedecidos, absorventes, cotonetes e preservativos, entre outros, essa gordura está formando grandes blocos sólidos que estão sendo chamados com o nome de “fatbergs”. A palavra, que foi inspirada nos grandes blocos de gelo flutuante conhecidos como “icebergs” (todos vocês devem se lembrar da história com a tragédia do transatlântico Titanic em 1911), significa, literalmente, gordura (fat em inglês) e montanha (berg em alemão), ou seja, montanha (ou, numa forma menos exagerada, bloco) de gordura. 

O lançamento de resíduos de gordura em redes de esgoto é um problema já bastante antigo e há muito é considerada uma causa importante dos entupimentos. A gordura gruda nas paredes das tubulações e passa a se misturar com outros resíduos, formando algo parecido com uma rolha. Um outro problema tem a ver com a proliferação das baratas, um inseto que aprecia muito o consumo dos resíduos de gordura – com fartura do alimento, as baratas se multiplicam e passam a invadir casas e estabelecimentos comerciais, para o horror de muita gente e riscos de proliferação de doenças.  

Uma das técnicas mais conhecidas para o controle dos resíduos de gordura nas redes de esgotos se dá com a instalação das caixas de gordura na saída das pias das cozinhas. O grande problema é que, com a mudança de hábitos alimentares em diversos países, a produção e o lançamento de resíduos de gordura e de óleos comestíveis nos sistemas de esgotos não para de crescer. Os problemas decorrentes também aumentaram, e muito. 

Em 16 de setembro de 2017, eu publiquei aqui uma notícia sobre um gravíssimo entupimento na rede de esgotos da cidade de Londres, na Inglaterra. O chamado “monstro do esgoto de Whitechapel”, batizado assim pela implacável imprensa popular britânica, era um aglomerado de sujeira com cerca de 130 toneladas de peso, que se estendeu por cerca de 260 metros nas tubulações de esgotos da cidade. Essa grande massa de resíduos era formada por gordura, fraldas descartáveis, lenços umedecidos, óleo congelado e, em escala bem pequena, resíduos de fezes humanas. As autoridades inglesas calculam que, aproximadamente, 14 milhões de litros de óleos comestíveis usados são lançados na rede de esgotos de Londres a cada ano. Os trabalhos de desmonte e remoção desse “fatberg” levou três semanas e mobilizou dezenas de operários e muita maquinaria. A foto que ilustra esta postagem mostra um operário carregando um pedaço do imenso bloco de gordura e detritos.  

Um outro exemplo das dimensões que esse tipo de problema está tomando é encontrado na cidade de Nova York, nos Estados Unidos. Conforme apresentamos em postagem publicada no dia 13 de janeiro de 2018, os esgotos da Big Apple (ou a “Grande Maçã”, apelido carinhoso da cidade), estão sendo ameaçados por uma outra mítica “criatura” – as “white whales” ou baleias brancas em português. Compostos em grande parte por toalhinhas perfumadas e umedecidas usadas pela população para a higiene das mãos e lançadas inadvertidamente nos vasos sanitários, esses resíduos acabam amalgamados pelo grande volume de gorduras e óleos dos esgotos, formando grandes blocos com mais de 80 metros de comprimento e até 100 toneladas de peso. O desmonte e a remoção dessas “baleias” das redes de esgoto da cidade, é claro, requer muita mão de obra e custa muito dinheiro

Aqui no Brasil o problema também está crescendo, mas, até onde eu saiba, ainda não cunhamos nenhuma expressão tupiniquim para representar o problema – a expressão “monstro dos esgotos“, inclusive já chegou a ser utilizada. Deixo aqui minhas sugestões: jabuticabas subterrâneas e/ou peixes-boi

É O VENTO VENTANDO…

Venatania no Litoral de São Paulo

No final da tarde do último sábado, dia 3 de novembro de 2018, um forte e repentino vendaval colocou grande parte da Baixada Santista, no Litoral Sul do Estado de São Paulo, em alerta. As rajadas de vento, com velocidades entre 80 e 100 km/h, passaram a espalhar as cadeiras e mesas dos quiosques à beira-mar, e também guarda-sóis e cadeiras de praia dos turistas – lembrando que foi um fim de semana prolongado por causa do feriado de Finados e as praias da região estavam lotadas de turistas, que tiveram de fugir às pressas (vide foto). Árvores e postes então passaram a sofrer com a força dos ventos e não foram poucos os bairros que ficaram sem energia elétrica, sinal de TV a cabo e internet. As torres de telefonia celular também passaram a apresentar problemas, silenciando grande parte das comunicações. 

Eu estava em Peruíbe, a cidade mais ao Sul da Baixada Santista, na casa de familiares e percebi a chegada da ventania pelo brusco uivo que envolveu toda a vizinhança. A ventania durou cerca de vinte minutos e causou estragos em telhados, placas, vidraças, postes de energia elétrica e de suporte de semáforos – o bairro ficou mais de três horas sem energia elétrica e sinal telefônico. Um dos testemunhos mais visíveis do vendaval foram os grandes volumes de areia da praia que foram carregados até a avenida principal da cidade, distante cerca de 500 metros do oceano. Ao verificar os estragos do fenômeno climático no dia seguinte, lembrei de um trecho da música “Águas de Março”, de Tom Jobim, que acabou usado como título desta postagem – o vento ventando

O mesmo fenômeno se abateu sobre a Região Metropolitana de São Paulo logo depois, deixando também um rastro de destruição – foram registradas 454 quedas de árvores na região e, pelo menos, 400 mil pessoas ficaram sem energia elétrica em suas casas. Somente no município de São Paulo, 100 árvores foram derrubadas pelo vento, bloqueando diversas ruas e avenidas da cidade, causando todo o tipo de transtornos para a população. Um dos mais tradicionais pontos turísticos da cidade, o Mercadão da Cantareira, na região central, não funcionou no domingo devido à falta de energia elétrica. Para quem não é ou não conhece a cidade, o Mercadão é um dos mais disputados centros gastronômicos de São Paulo e atrai milhares de visitantes nos finais de semana. 

Dois dias depois, o fenômeno se repetiu em várias cidades do interior do Estado de São Paulo, e, de acordo com os registros oficiais, pelo menos três pessoas morreram em consequência dos fortes ventos – entre as vítimas, uma criança de 12 anos, vítima dos escombros após o desmoronamento de sua casa. Ao lado das quedas de granizo, os vendavais repentinos são uma espécie de “subprodutos” que se formam junto com as tempestades de primavera e de verão

Os vendavais compreendem ventos com velocidades entre 50 e 102 km/h, o que corresponde a valores entre 7 e 10 na Escala de Beaufort (esses valores são aproximados porque essa Escala usa a unidade Milhas para a velocidade). Nessas faixas da Escala, os ventos vão de moderados a muito fortes. Esses ventos são gerados pelo deslocamento violento de uma massa de ar e normalmente estão associados aos sistemas formadores de tempestades. Ventos com velocidade entre 103 e 119 km/h são chamados de ciclone extratropical e, quando a velocidade dos ventos supera a casa dos 120 km/h, eles passam a ser chamados de ciclone tropical ou furacão

Essa escala de velocidade de ventos foi criada originalmente em 1810 pelo hidrógrafo irlandês Sir Francis Beaufort, a partir de observações feitas no mar pelos navios da Marinha Inglesa. Os valores da Escala correspondem ao número de rotações de um anemômetro, um equipamento que mede a velocidade do vento. Essa Escala foi aprimorada e, no final de década de 1830, foi padronizada para uso em todos os navios da Marinha Real Inglesa. Ao longo da década de 1850, ela se tornou popular e passou a ter outros usos não militares. 

Os Estados da Região Sul do Brasil, além de São Paulo, Mato Grosso do Sul e a região do Triângulo Mineiro, e também as regiões contíguas nos países vizinhos, formam um extenso corredor onde há grande probabilidade de formação de fortes vendavais. Essa região, aliás, é considerada como o segundo maior “Corredor de Tornados” do mundo, só ficando atrás do Meio-Oeste dos Estados Unidos e dos seus famosos twisters. Massas de ar frio vindas da Patagônia, no sul do Continente, e massas de ar quente vindas da Amazônia e do Oceano Atlântico, costumam se encontrar na região. O encontro de duas dessas massas de ar, com diferentes temperaturas e com a rotação dos ventos em sentidos opostos pode gerar, como resultante, uma terceira massa de ar com uma grande concentração de energia – essa é a origem dos fortes vendavais.

Os meteorologistas, a partir da análise de imagens de satélite, conseguem estimar as áreas com maior probabilidade para a formação de tempestades e vendavais, informações que são comunicadas à população através de alertas meteorológicos e boletins dos telejornais da TV. Ontem, dia 07 de novembro, toda a região Sul do Brasil estava em estado de atenção por causa dos riscos generalizados de vendavais. 

Ficar atento aos alertas da meteorologia, algo que nós brasileiros costumamos não dar tanta atenção, pode ajudar muito na prevenção de acidentes causados por esses fenômenos climáticos.  

 

A SEGURANÇA DAS BARRAGENS DE REJEITOS DE MINERAÇÃO NO BRASIL, OU O EFEITO “BARRAGEM DE FUNDÃO”

Barragem de Rejeitos de Mineração

“Depois da porta arrombada, é comum que os donos das casas corram para trocar a fechadura.” 

Comecei a postagem de hoje citando esse antigo ditado, numa referência ao terceiro aniversário do acidente com a Barragem de Fundão, em Mariana, e a uma série de mudanças que ocorreram nos sistemas de fiscalização e controle das barragens de rejeitos da mineração, ocorridas nos últimos anos. Essa questão foi tema de um Workshop – “Gestão de barragens de rejeitos de mineração”, como parte dos eventos do CBMINA – Congresso de Minas a Céu Aberto e Subterrâneas. O evento foi organizado pelo IBRAM – Instituto Brasileiro de Mineração, e pela UFMG –Universidade Federal de Minas Gerais e realizado na cidade de Belo Horizonte no início do mês de agosto.  

Entre as opiniões expressas pelos palestrantes do evento, houve um relativo consenso em se afirmar que houve uma significativa melhoria na gestão de segurança das barragens de rejeitos minerais no Brasil nos últimos anos. Segundo os relatos, o Brasil passou a ser considerado como uma espécie de referência internacional em gestão de emergências neste tipo de infraestruturas, observando-se também uma evolução nos sistemas de fiscalização e de controle. O número de barragens consideradas de alto risco de acidentes também é menor do que há cinco anos atrás. Todos concordaram que, apesar da melhora geral do quadro, existe muita coisa a ser melhorada nas barragens de rejeitos de mineração. 

De acordo com os dados do setor disponibilizados, existem hoje no Brasil 786 barragens de rejeitos, sendo que 417 dessas estruturas estão inseridas na PNSB – Política Nacional de Segurança de Barragens – em 2013, estavam cadastradas no PNSB 243 barragens em todo o Brasil. 

O número de barragens classificadas como de alto risco de acidentes em 2013 era de 41 – esse número baixou para 7 em 2018. Existem 36 barragens classificadas como de médio risco e 374 como de baixo risco. Entre os Estados, Minas Gerais continua na liderança em número de barragens de rejeitos com 355 estruturas seguido pelo Pará, com 109 e por São Paulo, com 79 barragens

Entre os anos de 2001 e 2018, seguindo os palestrantes, foram registrados 35 acidentes com barragens de rejeitos de mineração em todo o mundo, numa média de quatro acidentes por ano e destes, pelo menos um acidente á considerado de grande proporção. No Brasil, foram registrados cinco acidentes no período, incluindo-se na lista o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, no ano de 2015. Entre outros grandes acidentes, foi lembrado o rompimento da barragem de rejeitos de uma mina de cobre em Mount Polley, no Canadá, em 2014, quando uma grande onda de lama e resíduos tóxicos atingiu o Lago Polley, e também os lagos Hazeltine Creek e o Quesnel, todos na região da Columbia Britânica. 

Apesar do visível otimismo dos palestrantes, informando que todos os profissionais eram ligados direta ou indiretamente ao setor da mineração, também se apresentaram alguns problemas. Um dos mais preocupantes diz respeito ao número total de barragens de rejeitos de mineração existentes no Brasil. Segundo foi informado, existem diversos cadastros de diferentes órgãos “fiscalizadores” e não se pode afirmar, com toda a certeza, que o número total de barragens do tipo no Brasil são mesmo 786 – podem ser mais ou menos. 

No último mês de fevereiro, em Barcarena, cidade do interior do Estado do Pará, uma barragem de rejeitos de uma empresa de mineração de origem norueguesa, a Norsk Hydro, transbordou aparentemente por causa do excesso de chuvas na região. De acordo com análises feitas em amostras de água pelo Instituto Evandro Chagas,da cidade de Belém, foi atestada a presença de altos níveis de produtos químicos como fósforo, alumínio, nitrato e sódio nas águas, que também sofreram uma forte elevação no pH (potencial hidrogeniônico), passando a alcalina e se tornaram impróprias para o consumo humano. Os níveis de alumínio encontrados na água, para citar um único exemplo, estavam 25 vezes acima do nível máximo permitido pela legislação.  

Com a avanço das investigações sobre esse acidente no Pará, as autoridades ambientais encontraram várias tubulações de drenagem clandestinas nas barragens, que estavam sendo utilizadas para escoar os excessos de água armazenada – ou seja, mesmo antes das denúncias dos moradores locais sobre um grande vazamento de rejeitos de mineração, a empresa já estava liberando água contaminada com altos níveis de resíduos no meio ambiente. Esse “acidente” mostra com absoluta clareza a falta de fiscalização nesse tipo de estruturas aqui no Brasil. 

Um outro caso bastante sério, que foi citado em uma postagem de outubro de 2017 aqui do blog, mostrou duas barragens de rejeitos abandonadas há vários anos na cidade de Rio Acima, em Minas Gerais. A empresa responsável pela estrutura, a Mundo Mineração, faliu em 2011 e todo o canteiro da mina foi abandonado. A empresa era especializada na extração de ouro, um processo em que existe a produção de grandes volumes de rejeitos com arsênico, um metal pesado altamente tóxico.  

Sem receber manutenção há muito tempo, as barragens de terra compactada de Rio Acima estão cobertas por mato, apresentando sinais de erosão e só esperando a chegada de uma temporada de chuvas mais fortes para consolidar o desastre “rio abaixo”. O arsênico (trióxido de arsênio) é um elemento químico que provoca o surgimento de diversos tipos de câncer em seres humanos e a sua ingestão oral é responsável por aumento na incidência de tumores no fígado, sangue e pulmões. 

Como é fácil de se notar e apesar de toda essa aparente melhoria na gestão das barragens de rejeitos em nosso país, as lições deixadas pelo rompimento da Barragem de Fundão não foram completamente absorvidas por todos. Encerrando, deixo uma preocupação que já externei várias vezes aqui: imaginem as consequências do rompimento de uma barragem de rejeitos na região do alto rio Paraíba do Sul, nos moldes do que aconteceu no rio Doce – a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro que depende dessas águas para o seu abastecimento, vai ficar, literalmente, com as torneiras secas… 

Pensem nisso. 

Leia também:

O VAZAMENTO DE BARRAGENS DE REJEITOS E OS RISCOS PARA O ABASTECIMENTO DE ÁGUA NO RIO DE JANEIRO

LEMBRANDO DO ACIDENTE DE MARIANA, OU SALGADAS LÁGRIMAS PARA UM RIO DOCE

Acidente em Mariana

O dia 5 de novembro é uma data de tristeza e de reflexão sobre a importância das águas e do meio ambiente – há exatos três anos, a Barragem de Fundão, em Mariana, Estado de Minas Gerais, rompeu e houve o vazamento de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, especialmente resíduos de ferro, manganês, chumbo, cádmio e outros metais pesados. Esse volume de rejeitos equivale a dez vezes o volume armazenado na Lagoa Rodrigo de Freitas, na cidade do Rio de Janeiro, ou 80% do volume da represa Guarapiranga, na cidade de São Paulo

A onda de lama e de rejeitos minerais avançou impiedosamente, arrebentando e soterrando tudo e todos que encontrava pela frente. Mais de duzentas e cinquenta edificações do distrito de Bento Rodrigues foram soterradas; pelo menos 1.500 hectares de vegetação de mata ciliar foi arrancada das margens dos rios Gualaxo e do Carmo, afluentes que deságuam no Rio Doce. A onda de destruição só não foi maior por que a barragem Candonga, da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, conseguiu segurar grande parte da onda de lama e de entulhos, que nesse ponto atingiu 17 metros de altura.

Dezenove pessoas, entre funcionários da mineradora e moradores de Bento Rodrigues, morreram em consequência do desastre.  Essa tragédia é considerada como o maior desastre ambiental já ocorrido no Brasil e o maior acidente com barragens de rejeitos de mineração do mundo. A foto que ilustra essa postagem foi tirada no dia seguinte ao rompimento da barragem no Distrito de Bento Rodrigues e foi destaque em publicações jornalísticas em todo o planeta.

Passados três anos da tragédia, muitos dos problemas ainda persistem e falta muita coisa a se fazer para recuperar a calha do Rio Doce. As empresas controladoras da Samarco Mineração, a brasileira Vale S.A. e a australiana BHP Billiton Brasil Ltda, receberam dezenas de multas dos mais diversos órgãos ambientais de todos os níveis de Governo e, até hoje, nenhuma dessas multas foi paga – as empresas recorreram de todas as multas. Como forma de desenvolver e implementar ações de recuperação ambiental e de indenização às vítimas da tragédia, foi criada a Fundação Renova, que alega já ter gasto cerca de R$ 4,5 bilhão nessas ações de reparação. 

Os exames de laboratório realizados em amostras de água coletadas ao longo de todo o trecho de 650 km desde os dos rios Gualaxo e do Carmo, até a foz do rio Doce no Oceano Atlântico na altura da cidade de Linhares, no Espírito Santo, mostram que houve uma redução nos níveis de metais pesados, porém, ainda se encontram em níveis superiores aos limites estabelecidos pela legislação. A origem do problema está no grande volume de resíduos de rejeitos minerais decantados no fundo da calha do rio – serão necessárias várias décadas, quiçá séculos, para que a correnteza do rio consiga, naturalmente, revolver e transportar esses resíduos na direção do Oceano.  

Enquanto isso não acontecer, os 39 municípios cortados pelas águas do Rio Doce continuarão enfrentando problemas na captação de água para o abastecimento de populações e usos em agricultura e pecuária; milhares de pescadores também continuarão impedidos de trabalhar, uma vez que peixes e crustáceos que vivem nas águas do rio apresentam altos níveis de contaminação. 

De acordo com informações do Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, as águas do rio Doce abrigavam uma importante ictiofauna, com mais de 80 espécies descritas de peixes, sendo que 11 dessas espécies já eram classificadas em risco de extinção e 12 espécies eram endêmicas do rio – caso populações desses peixes não tenham conseguido se refugiar nos diversos afluentes do rio, elas estarão perdidas para sempre. Além de peixes, as águas do rio eram abrigo de diversas espécies de crustáceos de água doce, anfíbios, répteis, aves, plantas e toda a infinidade de vida que se pode imaginar habitando a calha de um grande rio.  

Além dos incalculáveis prejuízos causados ao meio ambiente e às populações ribeirinhas, a paralisação das atividades da mineração está causando enormes prejuízos financeiros aos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, afetando também o emprego de milhares de trabalhadores. De acordo com um estudo encomendado a uma empresa de consultoria por uma das controladoras da Samarco, os primeiros 12 meses de paralisação das atividades representaram uma perda de receitas de R$ 8,3 bilhões.  

Ao longo dos próximos 10 anos, essa perda de receitas poderá atingir a cifra de R$ 46,7 bilhões.  Quando se fala em perda de empregos, estamos falando de 14,5 mil empregos perdidos em Minas Gerais, 4 mil no Espírito Santo e mais de 19 mil em todo o Brasil. Em termos de arrecadação de impostos para os Estados de Minas Gerais, Espírito Santo e para o Governo Federal, o valor poderá alcançar a cifra de R$ 10 bilhões em 10 anos. Todos saíram perdendo com essa pavorosa tragédia! 

Para encerrar, repito as palavras que foram publicadas na postagem do dia do primeiro aniversário desse “acidente” em 2016: 

“O que é um rio? 

Água doce que corre por um vale será a resposta fria de um atlas. 

Se você olhar com um pouco mais de atenção no mesmo atlas vai encontrar toda uma escala de definições para água doce: riacho, ribeiro, córrego, ribeirão, riachão e, finalmente, um rio. 

Para um pescador é seu local de trabalho, de onde retira o sustento da sua família; 

Para o barqueiro é mais do que um local de trabalho – o rio é o seu segundo lar (para alguns é o primeiro); 

O agricultor vê o rio como um parceiro, que empresta parte das suas águas para fazer brotar do chão os alimentos; 

Para as cidades, a água do rio é a fonte da vida, que sacia a sede, lava e leva embora tudo o que não presta; 

Para o romântico, o rio é a saudade que leva para longe todas as lembranças dos amores perdidos… 

Talvez o rio seja a soma de tudo isso e muito mais – é a fonte de todas as vidas! 

Mas, e quando o homem destrói o rio? 

A água deixa de ser doce, o pescador não tem onde trabalhar, o barqueiro encalha, o agricultor fica sozinho, as cidades desabastecidas e o romântico a morrer de amor em toda a sua a sua melancolia… 

Ficam somente as lágrimas salgadas e a triste lembrança da doçura de suas águas de outrora… “

 

OS EXTREMOS CLIMÁTICOS DO BRASIL

Chuva em São Paulo.

Na última semana, acompanhamos fortes tempestades na região Sul do Brasil, inclusive com quedas de granizo em algumas localidades. Em algumas cidades do Rio Grande do Sul, os volumes de chuva registrados, como em Alegrete e Santiago, atingiram altos volumes, com as marcas de 75 e 64 mm, respectivamente. Fortes vendavais, com velocidades superiores aos 85 km/h, causaram prejuízos em várias cidades. Enquanto isso, somente no Estado de Minas Gerais, mais de 100 municípios estão em estado de emergência por causa da seca e da estiagem

De acordo com o último relatório do Ministério da Integração Nacional, publicado em 1° de novembro de 2018, 982 municípios brasileiros contam com o reconhecimento federal de situação de emergência. A maior parte destes municípios está enfrentando problemas relacionados à seca e a estiagem, especialmente na região Nordeste; 50 municípios de 14 Estados estão em situação de emergência por conta de chuvas, inundações, alagamentos, tornados, granizo e vendavais. Esse quadro mostra a diversidade climática de nosso país. 

Com mais de 8,5 milhões de km² de território, o Brasil é um dos maiores países do mundo quando se fala em extensão territorial – não é incomum se ouvir referências como “país de dimensões continentais”. O território brasileiro tem quase o mesmo tamanho do Continente Australiano, formado por Austrália e ilha da Tasmânia, Nova Guiné e outras ilhas menores que ocupam a mesma plataforma continental. Em relação à Europa, o Brasil tem uma área equivalente a 85% daquele território. Vivemos em um país muito grande, onde coexistem diferentes padrões climáticos. 

Se traçarmos uma linha reta entre o Monte Caburaí, ponto extremo ao Norte (que substituiu o Oiapoque), e o Arroio Chuí, extremo Sul do Brasil, encontraremos uma distância de 4.394 km. Se repetirmos a medição entre os extremos Leste-Oeste, considerando o Pontal do Seixas na Paraíba à Leste e as nascentes do rio Moa, na Serra da Contamana no Acre, no Oeste, teremos uma medida bastante próxima – 4.319 km.  

Uma das razões que nos dão a falsa impressão do Brasil não ser um país tão grande é o sistema de registro cartográfico utilizado na confecção dos mapas mundiais mais conhecidos – a chamada Projeção de Mercator. Esse processo de desenho produz uma forte distorção nos territórios localizados mais ao Norte e mais ao Sul do globo terrestre, aumentando consideravelmente suas proporções. Territórios localizados mais próximos da Linha do Equador, como é o caso do Brasil, aparecerão com proporções relativamente menores. Um exemplo é a Groenlândia, ilha localizada no Norte do Oceano Atlântico, que tem uma superfície total de 2,16 milhões de km², mas que nos mapas sempre aparece com um tamanho maior que o Brasil, país que tem uma superfície quatro vezes maior

Todo esse tamanho do território brasileiro produz, às vezes, algumas notícias interessantes em relação ao clima. Cerca de três meses atrás, no auge do inverno na Região Centro-Sul do país, não foram poucas as vezes em que notícias sobre a queda de neve e as temperaturas negativas nas regiões serranas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, contrastavam com temperaturas próximas aos 40° C em capitais das regiões Norte e Nordeste. 

O território brasileiro possui cinco zonas climáticas diferentes, que podem, para fins didáticos, ser divididas em duas macrorregiões: na primeira, que engloba os Estados mais ao Sul do país, as estações do ano são claramente divididas em primavera, verão, outono e inverno. Todo o restante do país, ao Norte dessa macrorregião, onde encontramos os biomas Cerrado, Caatinga e Amazônia, as estações do ano se resumem basicamente ao verão, o período da seca, e ao inverno, período das chuvas. Considerando somente essa divisão, já teremos situações climáticas bastante diferentes ao longo do território brasileiro.

Mas o mosaico de climas do Brasil é bem mais diverso: nos estados da região Sul e em parte do Estado de São Paulo, o clima é Subtropical. Nas regiões serranas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o padrão climático é o chamado Tropical de Altitude. Na extensa região que ocupa a maior parte das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste o clima é Tropical. Na região Norte o clima predominante é Equatorial. Na faixa Leste do litoral do país encontramos ainda o clima Tropical Atlântico. Além desses padrões climáticos bem definidos, o país possui diversas áreas com climas intermediários, como Tropical Úmido e Tropical Semi-Úmido.

Além de toda essa grande diversidade climática, que estamos apresentando de forma bastante simplificada e pela qual pedimos desculpas antecipadas aos geógrafos e climatologistas, o clima de nosso país ainda sofre interferências de grandes fenômenos globais – El Niño e La Niña. Após observações sistemáticas que se estenderam por várias décadas, os cientistas perceberam mudanças periódicas na temperatura das águas de uma extensa região do Oceano Pacífico, com reflexos no clima mundial. Em alguns anos, as águas apresentam uma temperatura acima do normal – El Niño; em outros, as águas ficam mais frias – La Niña. No Brasil, os anos de El Niño apresentam chuvas mais intensas na região Centro-Sul e secas mais fortes em algumas regiões; nos anos de La Niña, as chuvas caem com maior intensidade na região do Semiárido Nordestino e rareiam em outras regiões.

Com toda essa diversidade climática, sempre teremos notícias das mais diversas sobre chuvas, secas, calor e frio nas diferentes regiões do Brasil. Quando o assunto for clima, sempre haverá alguma novidade em algum lugar do nosso país. 

 

RELATÓRIO DO WWF: POPULAÇÕES ANIMAIS SOFRERAM UMA REDUÇÃO DE 60% EM APENAS 40 ANOS

 Tamanduá-bandeira

Um conjunto de notícias de grande impacto ambiental foram divulgadas nesta semana e merecem alguns comentários. O WWF  World Wide Fund for Nature, ou Fundo Mundial para a Vida Selvagem e Natureza em português, uma das mais importantes organizações não governamentais de proteção ao meio ambiente do mundo, divulgou um relatório alarmante sobre a situação caótica e desesperadora em que se encontra o meio ambiente no planeta. 

De acordo com os dados divulgados, a Terra vive hoje uma das maiores ondas de destruição de ambientes naturais e de perda espécies já vista ao longo da história. Populações de mamíferos, peixes, anfíbios e de aves sofreram reduções de 60% em apenas quatro décadas. Outra gravíssima ameaça detectada foi o aumento do volume de plásticos no oceano, um problema que ameaça as espécies marinhas como um todo. Um exemplo da gravidade desse problema é o aumento de aves com fragmentos de plástico no estômago: na década de 1960, cerca de 5% das aves tinham esses fragmentos em seu trato digestivo; hoje são 90%

Um dos destaques negativos do relatório, como sempre, foi o avanço da destruição da Floresta Amazônica em terras brasileiras. Dados levantados a partir de imagens de satélites mostram que uma área de matas equivalente a 1,4 milhão de campos de futebol desaparecem a cada ano na região e cerca de 20% da área original do bioma já foi devastada. O relatório prossegue com a apresentação de outros inúmeros problemas ambientais em outras partes do mundo. 

É aqui que entro para fazer alguns comentários – a situação da Amazônia é preocupante, especialmente por causa do avanço das frentes agrícolas e da pecuária, que vêm o bioma como uma espécie de “Eldorado” para o crescimento dessas atividades e consolidação definitiva do Brasil como o novo “celeiro do mundo”. Existem, porém, dois biomas brasileiros em situação muito mais dramática que a Amazônia e que não costumam ter a mesma exposição nas mídias mundiais: falo do Cerrado e da Caatinga

O Cerrado, que foi tema de uma série de postagens recentes aqui no blog, é o segundo maior bioma brasileiro, ficando atrás apenas da Amazônia, e ocupa uma área total equivalente a 20% de nosso território. A forte expansão das fronteiras agrícolas nas últimas décadas já devastou cerca de 50% da sua vegetação original. Existe aqui um enorme agravante – o avanço das fronteiras agrícolas no bioma não para de crescer e as expectativas para o Cerrado não são as melhores. 

Um exemplo de fauna carismática (animais que representam um bioma) que vem tendo reduções expressivas em suas populações são os tamanduás. O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), é o maior da espécie. Um adulto pode atingir o peso de 45 kg e 1,8 metro de comprimento, incluindo a cauda. Pois bem – um animal com todo esse tamanho se alimenta única e exclusivamente de insetos, mais especificamente formigas e cupins: são 30 mil insetos a cada dia (vide foto). Com o avanço da agricultura, os habitas naturais dos tamanduás estão sendo gradativamente destruídos e os animais não estão encontrando seus alimentos na quantidade adequada. O uso de agrotóxicos para o controle de insetos nas plantações reduz ainda mais a disponibilidade dos seus alimentos. 

Outro bioma extremamente importante e que está desaparecendo silenciosamente é a Caatinga Nordestina, assunto que já tema de dezenas de postagens aqui no blog. O bioma já perdeu, pelo menos, metade de sua área original, que vem sucumbindo com o avanço de populações e de gados desde os tempos coloniais. Nos dois primeiros séculos de nossa história, a principal atividade econômica colonial era a produção do açúcar nas regiões litorâneas, especialmente na faixa Nordeste do país. Como já relatamos em outros textos, os grandes senhores dos canaviais entravam em constantes conflitos com os criadores de bois – os animais invadiam as plantações e comiam os brotos açucarados de cana-de-açúcar. Esses constantes embates levaram à decretação de uma Carta Régia por parte do Governo Colonial, proibindo a criação de bois a menos de 60 km dos canaviais.  

Indesejados no litoral, os criadores e suas boiadas iniciaram um processo maciço de penetração na região do Semiárido Nordestino. Áreas de vegetação de caatinga começaram a ser queimadas para a ampliação das áreas de pastagens e a criação de roças para a agricultura de subsistência. Esse processo de ocupação dos sertões do Nordeste por populações humanas e animais prosseguiu ao longo dos séculos e transformou o Semiárido Brasileiro na região semiárida mais habitada do mundo. Hoje, cerca de 23,5 milhões de pessoas vivem na região do Semiárido Brasileiro, uma população que chega a ser dez vezes maior que a de outras áreas semiáridas do mundo. 

Essa superpopulação de gentes e de bichos, termo que eu costumo usar com bastante frequência, estão na raiz da pressão ecológica sobre o bioma Caatinga. Todas essas populações necessitam de alimentos e de água, de materiais para a construção de casas, móveis, cercas e outros utensílios. Também necessitam de lenha para os fogões e de áreas de pastagens para todos os tipos de gados: bois, cabras, ovelhas, equinos e muares – são as áreas de vegetação de Caatinga que fornecem tudo isso. Os animais dos caatingais, que já sofrem com a destruição e fragmentação dos seus habitats, também são caçados e transformados em fontes de proteínas complementares pelas sofridas populações sertanejas. 

Além das preocupações legítimas e necessárias de toda a comunidade científica internacional em relação à contínua e implacável destruição da Floresta amazônica, é preciso também mostrar a situação caótica dos biomas Cerrado e Caatinga que, infelizmente, acabam não tendo maiores destaques aos olhos do mundo.