A ACIDENTADA SERRA DOS ÓRGÃOS

Serra dos Órgãos

No dia 9 de abril de 1912, um grupo de montanhistas da cidade serrana de Teresópolis conseguiu atingir, pela primeira vez, o topo da formação rochosa conhecida como Dedo de Deus, na Serra dos Órgãos, no interior do Estado do Rio de Janeiro. A conquista, que foi um marco do montanhismo no Brasil, foi levada a cabo por José Guimarães Teixeira, Raul Carneiro e pelos irmãos Américo, Alexandre e Acácio Oliveira. O feito tem uma importância ímpar para o Rio de Janeiro, que desde a promulgação da sua Constituição Estadual em 1892, instituiu o Dedo de Deus como um dos símbolos oficiais do Estado.

O Dedo de Deus (vide foto) é uma grande formação rochosa com 1.692 metros de altura, que é bastante famosa pelo seu formato incomum, que lembra uma mão humana fechada com o dedo indicador apontando para o céu. Em dias claros, a formação é visível a partir da cidade do Rio de Janeiro e região, distante cerca de 60 km. Além do Dedo de Deus, outros monumentos geológicos da Serra dos Órgãos que também se destacam são a Pedra da Cruz, com 2.130 metros, o Garrafão, com 1.980 metros, São Pedro, com 2.234 metros, Cara de Cão, com 2.180 metros, a Pedra do Sino, com 2.255 metros, e o Pico Maior de Friburgo, o ponto mais alto da Serra do Mar com 2.366 metros. Vistas à distância, essas formações rochosas lembram os tubos metálicos dos antigos órgãos das igrejas, daí o nome dado à Serra dos Órgãos

A Serra dos Órgãos faz parte da Serra do Mar, uma cadeia montanhosa que se estende por cerca de 1.500 km entre os Estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina,  ao longo da faixa litorânea. A Serra do Mar é formada por uma sucessão contínua de morros e montanhas, onde se destacam grandes blocos rochosos de granitos e gnaisses, pertencendo ao chamado Complexo Cristalino Brasileiro. Conforme comentamos na postagem anterior, a Serra do Mar surgiu a partir da fragmentação de um gigantesco bloco rochoso que, até cerca de 160 milhões de anos atrás, se localizava no centro do antigo Supercontinente de Gondwana. A movimentação desse imenso maciço rochoso ao longo das eras também originou as Serras da Canastra, da Mantiqueira, do Espinhaço e de Maracaju. 

Em 1939, foi criado pelo Governo Federal o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, o terceiro mais antigo do Brasil, com o objetivo de proteger a biodiversidade, os recursos hídricos e as excepcionais paisagens da região. A Unidade de Conservação, que está sob administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, se estende pelos municípios de Guapimirim, Magé, Petrópolis e Teresópolis, com uma área total de 20.024 hectares 

A região possui uma complexa rede de cursos d’água, com destaque para os rios Paquequer (famoso por ser um dos cenários do romance indigenista “O Guarani”, de José de Alencar, publicado em 1857), Beija-flor, Soberbo, Iconha, Bananal, Santo Aleixo, Itamarati, Bonfim e Jacó. Como é usual durante a gênese das grandes formações geológicas, os grandes blocos rochosos da Serra dos Órgãos sofreram diversas fraturas ao longo de sua história. Essas fraturas foram preenchidas com fragmentos de rochas resultantes dos processos de erosão e de intemperismos da superfície das formações rochosas. Esses locais são propícios ao armazenamento da água das chuvas, que por sua vez alimentam as nascentes de uma infinidade de cursos d’água. Completando o quadro, os grandes paredões rochosos da Serra dos Órgãos interceptam grandes volumes de umidade vindas do Oceano Atlântico, que se precipitam na forma de chuvas abundantes.

Essas excepcionais condições ecológicas favoreceram o desenvolvimento de uma densa floresta, escalonada em diversos degraus de altitude. Nas altitudes entre 100 e 1.500  metros encontramos a floresta montana (também conhecida como mata de encosta e floresta tropical pluvial, ou ainda como floresta ombrófila densa), com espécies como o jequitibá, a canela, o baguaçu, além de diversas espécies de palmito e outras espécies típicas da Mata Atlântica. Nas altitudes mais altas, os solos e afloramentos rochosos têm predomínio de espécies gramíneas. 

Pelo isolamento e dificuldade de acesso, todo o Parque Nacional da Serra dos Órgãos constitui um dos últimos refúgios para diversas espécies animais e vegetais da Mata Atlântica ameaçados de extinção. Estudos científicos já realizados encontraram 462 espécies de aves, 102 de anfíbios, 83 répteis e 82 espécies de mamíferos – dessa lista, 130 espécies estão sob ameaça de extinção. Entre as espécies ameaçadas são destaque a onça (Panthera onca) e o muriqui (Brachyteles arachnoides), o maior primata das Américas. Entre as aves podemos citar a jacutinga (Aburria jacutinga) e o tietê-de-coroa (Calyptura cristata). 

O clima ameno do alto da Serra dos Órgãos sempre funcionou como um atrativo turístico para as populações das áreas próximas ao litoral, onde as temperaturas na época do verão superam facilmente os 40° C. A cidade de Petrópolis foi fundada em 1843 a partir da assinatura de um decreto pelo Imperador Dom Pedro II. O imperador sonhava com a construção de um palácio de verão, onde pudesse desfrutar do frescor e da tranquilidade das montanhas em seus momentos de descanso e lazer. A fundação de Petrópolis, que significa a “Cidade de Pedro“, serviu de inspiração para a formação de outras cidades na Região Serrana do Rio de Janeiro, como é o caso de Teresópolis, fundada em 1891 e batizada assim em homenagem à Imperatriz Teresa Cristina, falecida dois anos antes.

O turismo é atualmente uma das principais atividades econômicas da chamada Região Serrana do Rio de Janeiro, onde se destaca o turismo de aventura, que atrai praticantes de todo o Brasil e do mundo. E, como já citei em outras postagens, esse tipo de turista quer encontrar, além de muita adrenalina, áreas naturais bem preservadas, algo que é muito bom para todos nós. Infelizmente, o crescimento desordenado de muitas dessas cidades serranas fluminenses é fonte de uma série de problemas, especialmente a ocupação das encostas dos morros – falaremos disso na próxima postagem. 

OS QUEIJOS E AS ÁGUAS DA SERRA DA CANASTRA

Serra da Canastra

A Serra da Canastra, localizada na região Sudoeste do Estado de Minas Gerais, é um recanto de Cerrado tipicamente mineiro, com muitos morros, rios, clima ameno, pastos naturais e fazendas produtoras de leite. O nome do lugar surgiu a partir da associação da forma do chapadão da serra com um baú usado pelas famílias nos tempos coloniais, que era chamado de canastra. Nos últimos anos, a região passou a ganhar notoriedade em todo o Brasil por causa da qualidade dos seus queijos, que desde de maio de 2008, passaram a integrar o Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, título concedido pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.  

Em 2012, o Queijo Canastra recebeu o Selo de Indicação Geográfica do INPI – Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Desde então, somente sete municípios estão autorizados a produzir os queijos com a denominação Canastra: Bambuí, Delfinópolis, Medeiros, Piumhi, São Roque de Minas, Vargem Bonita e Tapiraí. Com mais este trunfo nas mãos, a Serra da Canastra consolidou ainda mais a sua vocação como importante destino turístico em Minas Gerais. Além dos queijos e da culinária, o que atrai dezenas de milhares de turistas para as cidades da região, a Canastra vem se destacando como um polo de turismo de aventura, especialmente entre os amantes do mountain bike, rafting, trilhas, rapel, cicloturismo, cachoeirismo (rapel nas cachoeiras), entre muitos outros esportes radicais. 

A história geológica da Serra da Canastra é bem interessante e remonta ao tempo da fragmentação do antigo Supercontinente de Gondwana, iniciada a cerca de 160 milhões de anos atrás. A Canastra fazia parte de uma grande cadeia montanhosa com cerca de 800 km de comprimento e 300 km de largura, localizada no centro de Gondwana. Conforme a América do Sul foi se separando e se afastando da África, a movimentação dos solos foi fragmentando essa cadeia montanhosa e surgiram as formações rochosas que deram origem às Serras da Canastra, da Mantiqueira, do Mar, do Espinhaço e de Maracaju. Essa movimentação de solos também levou à formação de duas depressões, à Nordeste e à Sudoeste, onde se formaram, respectivamente, as bacias hidrográficas dos rios São Francisco e Paraná

Durante a primeira metade do período geológico conhecido como Paleogeno, entre 65 e 40 milhões de anos atrás, houve um aumento brusco da temperatura na região, que passou a conviver com fortíssimos períodos de chuvas. Os maciços rochosos passaram a enfrentar intensa erosão e intemperismo químico, o que moldou as paisagens e produziu alterações na composição química das rochas dos solos, que hoje são ricas em minerais. Para você ter uma ideia desse grau de erosão, a formação rochosa original da Serra da Canastra possuía altitudes superiores a 3.500 metros – hoje, os pontos mais altos do relevo se situam em altitudes de 1.500 metros.  

Esse processo de erosão e de intemperismo, associado à movimentação dos solos, também levou à formação inúmeras de fraturas entre os blocos rochosos e ao acúmulo de fragmentos das rochas decompostas nesses espaços, criando as condições para a infiltração das águas das chuvas e formação de grandes depósitos subterrâneos de água na Serra da Canastra. Toda a formação é uma importante fonte de recursos hídricos, com importantes nascentes e cursos de água. 

Um dos mais importantes rios brasileiros com nascente na Serra da Canastra é o São Francisco. Oficialmente, a nascente do rio fica no município de Medeiros. Outras fontes afirmam que a nascente do rio fica em São Roque de Minas – o ponto exato da nascente de um rio é, em grande parte dos casos, uma convenção geográfica e gera todo o tipo de discussões. Nos paredões e formações rochosas de toda a Canastra existem centenas de pequenas nascentes e afloramentos de água, que vão correndo morro abaixo e se juntando, formando assim cursos d’água que correm na direção das bacias hidrográficas dos rios São Francisco e Paraná. 

Pela sua importância em recursos hídricos, paisagísticos e em vida silvestre, a Serra da Canastra foi transformada em Parque Nacional em 1972 através de decreto. Dos 200 mil hectares previstos inicialmente, somente 83 mil hectares foram efetivamente desapropriados e os antigos proprietários das terras foram indenizado – a área restante não foi regularizada e há dúvidas se algum dia ainda será. O Parque Nacional da Serra da Canastra inclui, entre outros monumentos naturais, o Chapadão da Canastra e a nascente do rio São Francisco. Um dos pontos turísticos mais procurados do Parque é a Casca D’anta, uma cachoeira com 186 metros de altura no rio São Francisco. 

Como acontece em toda a área do Cerrado Brasileiro e já comentamos em diversas postagens aqui no blog, a vegetação nativa desse bioma tem um papel fundamental na recarga dos lençóis subterrâneos de água e aquíferos, o que foi uma razão a mais para a transformação da região da Serra da Canastra em Parque Nacional. As raízes profundas dessa vegetação facilitam a infiltração da água das chuvas nos solos durante o período das chuvas, que tem uma maior intensidade entre os meses de novembro de março. A preservação de espécies animais e vegetais, que vêm sofrendo enorme pressão por conta do avanço das frentes agrícolas em áreas do Cerrado, também estão entre os destaques do Parque Nacional da Serra da Canastra. 

Com paisagens que incluem montanhas, rios, cachoeiras e piscinas naturais, a Serra da Canastra é uma ótima opção de lazer para os amantes do turismo de aventura. Mas se você é do tipo “paradão” e não gosta muito de adrenalina, tudo bem: os queijos e a culinária mineira da Canastra vão conquistar você! 

A BELEZA DESLUMBRANTE DA SERRA GERAL E DOS APARADOS DA SERRA NO SUL DO BRASIL

Itaimbezinho

Na nossa última postagem falamos das Cuestas Basálticas, localizadas na região Central do Estado de São Paulo. Essas formações geológicas foram criadas a partir da erosão dos solos de origem vulcânica que encobriram grossas camadas de rochas sedimentares como os arenitos. Esses solos surgiram após um intenso processo de vulcanismo iniciado há cerca de 165 milhões de anos atrás com a fragmentação do Supercontinente de Gondwana. As erupções vulcânicas lançaram gigantescos volumes de lava – esse derrame de material magmático cobriu uma área de 1,2 milhão de km² na Região Centro-Sul do Brasil e em áreas do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. 

Além das Cuestas Basálticas de São Paulo, esse grande derrame de rochas vulcânicas deixou suas marcas na geologia e nas paisagens de toda essa extensa região. O Aquífero Guarani, um dos maiores depósitos subterrâneos de água do mundo – ele surgiu a partir do soterramento de extensas áreas de dunas de areia por uma espessa camada de rochas vulcânicas. Nas paisagens podemos citar as formações do Parque Nacional de Vila Velha, nas proximidades da cidade de Ponta Grossa no Paraná; as Cataratas do Rio Iguaçu, na fronteira entre a Argentina e o Brasil, ou ainda a Serra Geral e os Aparados da Serra, na divisa entre os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, temas de nossa postagem de hoje. 

Os solos da Formação Serra Geral e dos Aparados têm uma constituição química diferente das Cuestas Basálticas, o que explica em parte as diferenças nas feições desses relevos. Os derramamentos de lava na porção Centro-Norte dessa grande formação magmática deram origem a rochas vulcânicas básicas e ácidas como os basaltos e basalto-andresitos, com maiores concentrações de fósforo, potássio e titânio. Na porção Sul dessa formação magmática, especialmente na região entre o Sul de Santa Catarina e o Norte do Rio Grande do Sul, esses derrames deram origem a rochas bimodais como o basalto-riolito, mais pobres nesses elementos químicos, porém, mais resistentes à processos erosivos. Os canyons ou desfiladeiros da região Sul se formaram a partir de fraturas que o solo sofreu durante a movimentação das placas tectônicas, enquanto as Cuestas se formaram a partir da erosão dos solos.

As paisagens formadas a partir dos derramamentos de rochas vulcânicas na Região Sul do Brasil apresentam feições típicas da formação Serra Geral, com relevos acentuados de planalto com topo plano, que terminam abruptamente em abismos, os chamados canyons (ou canhões, usando a palavra correspondente na língua portuguesa). O mais famoso de todos os canyons da região é o Itaimbezinho (vide foto), nome que vem do tupi-guarani e significa “pedra cortada”. Localizado no Parque Nacional dos Aparados da Serra, esse canyon tem 5.800 metros de extensão e uma largura que varia de 600 a 2 mil metros, com paredes que chegam a atingir uma altura de 750 metros.

No Parque Nacional da Serra Geral, que fica ao lado dos Aparados da Serra, encontram-se formações geológicas semelhantes, com destaque para os canyons ou desfiladeiros do Churriado, o Malacara e o Fortaleza. Esses dois Parques, que se distribuem entre os municípios de Jacinto Machado e Praia Grande, em Santa Catarina, e Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul, constituem um dos maiores destinos turísticos da Região Sul do Brasil. 

De acordo com dados do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, autarquia federal responsável pela gestão da unidade, o Parque Nacional dos Aparados da Serra recebeu 111.778 visitantes em 2017, o que o coloca como o 9° parque mais visitado do Brasil. Já o Parque Nacional da Serra Geral recebe, em média, 90 mil visitantes por ano. Apesar de muito distante dos números dos mais famosos destinos turísticos do Brasil, como o Corcovado e a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro e de Foz do Iguaçu, no Paraná, esses números são surpreendentes dada a falta generalizada de infraestrutura na região e nos parques – quem visita os canyons é mesmo um amante da natureza e do turismo de aventura.

Uma das características mais marcantes desses parques é a variação abrupta das formações vegetais. Nos terrenos altos dos platôs, com altitudes médias acima dos 700 metros em relação ao nível do mar, encontramos biomas com características da Mata das Araucárias e dos Campos Sulinos ou Pampas, típicas do clima Subtropical; já nos vales profundos dos canyons, que se situam em altitudes bem próximas do nível do mar, encontramos vegetação de Mata Atlântica, características das áreas de clima Tropical do país. Toda essa variedade de biomas, concentrados em uma área relativamente pequena resulta em uma imensa diversidade de vida animal, abrigando espécies como o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), lobos-guará (Chrysocyn brachyurus), jaguatiricas (Leopardus pardalis), guaxinin (Rocyon lotor) e até mesmo onças-pardas ou suçuaranas (Felis concolor), conhecidas no Sul do Brasil como leão-baio. 

A região da Serra Geral e dos Aparados da Serra se destaca também pela grande riqueza de recursos hídricos. As nascentes da região alimentam três bacias hidrográficas principais: a Taquari-Antas, que segue para o Sul na direção do Lago Guaíba e da Lagoa dos Patos; a bacia hidrográfica do Mampituba, que corre na direção do litoral do Rio Grande do Sul e inclui os rios localizados no fundo dos canyons; e também a bacia hidrográfica do Araranguá, que corre no Sentido Norte dentro do Estado de Santa Catarina.  

A conservação desses importantes recursos hídricos, por si só, já justifica qualquer esforço para a preservação ambiental dessa belíssima região de serras e águas no Sul do Brasil. 

AS CUESTAS BASÁLTICAS EM SÃO PAULO

Rafiting em Brotas

Recebem o nome de cuestas as formações de relevo compostas por remanescentes de rochas vulcânicas da Era Mesozoica em áreas sedimentares. A palavra cuesta é de origem castelhana e significa encosta de uma colina ou de um monte. As cuestas se apresentam, normalmente, como montes ou formações rochosas com um cume plano e achatado, formato por uma camada de rochas vulcânicas como o basalto, que se sobrepõe a um empilhamento de camadas de arenitos ou outras rochas de origem sedimentar. Uma importante formação geológica com essa conformação se encontra na faixa Leste da bacia sedimentar do rio Paraná,. entre os Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul. Na região central de São Paulo, as formações são conhecidas como Cuestas Basálticas e concentram importantes nascentes de rios e afloramentos de águas. 

A origem das Cuestas Basálticas paulistas está ligada diretamente ao surgimento dos relevos conhecidos como Formações Serra Geral, que se formaram durante o Derrame de Trapp (ou Trapp do Paraná). Esse Derrame teve início quando o antigo Supercontinente de Gondwana começou a se fragmentar. Essa gigantesca formação continental era constituída pela América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagascar, Índia (o famoso Subcontinente Indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas menores. Esse evento teve início a cerca de 165 milhões de anos e, ainda hoje, esses “fragmentos” de Gondwana ainda se movem (pesquisa Tectônica de Placas). Com o início da ruptura continental, dezenas de vulcões entraram em erupção simultaneamente – um dos períodos de maior intensidade das erupções aconteceu no Período Cretáceo, entre 137 e 127 milhões de anos atrás.  

Na América do Sul, os derramamentos de lava, calculados em 650 mil km³, cobriram uma área de aproximadamente 1,2 milhão de km², especialmente na região onde encontramos hoje a bacia hidrográfica do rio Paraná, englobando áreas do Brasil, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. Os solos dessa região eram formados, originalmente, por extensas dunas de areia de desertos como o de Botucatu. Ao longo dos tempos geológicos, essas areias foram submetidas a forças externas (especialmente temperatura e pressão), que junto com a presença de água produziu um processo de cimentação dos grãos e fragmentos da massa de sedimentos, que acabou transformada nas chamadas rochas sedimentares, com destaque especial para os arenitos

Esse tipo de rocha tem uma característica especial – são extremamente porosas e, por isto, formam os depósitos ou lençóis subterrâneos de água. Os derramamentos de lava nessa extensa região de dunas originou o Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água conhecidos do mundo. Submetida a um longo e contínuo processo de erosão, a maior parte dessa capa de rochas vulcânicas acabou desaparecendo, levando junto várias camadas de rochas sedimentares. As Cuestas Basálticas que encontramos hoje no Estado de São Paulo são os resquícios da formação original, que sobreviveram a esse processo erosivo. 

As Cuestas Basálticas paulistas se estendem no sentido Nordeste-Sudoeste e são bastante proeminentes em municípios como Botucatu, Pardinho, Águas de São Pedro, Descalvado, Brotas, São Carlos e Santa Rita do Passa Quatro, entre outros. Quem passa pelas estradas da região reconhece imediatamente os perfis característicos dessas formações geológicas, que formam um importante patrimônio natural e com grande potencial turístico, além de fornecer importantes recursos hídricos para todas essas cidades. 

Um exemplo da importância econômica das Cuestas Basálticas pode ser visto no município de Brotas, localizado a 240 km da capital paulista. Descoberta pelos operadores do turismo de aventura e natureza na década de 1990, Brotas foi transformada, de acordo com o slogan da cidade, na Capital da Aventura. Praticantes de esportes radicais como escaladas, rafting (vide foto), ciclismo, arborismo e trilhas radicais, lotam os hotéis e áreas naturais do município em busca de adrenalina e muitas aventuras. Destaques do município são os rios Jacaré Pepira e do Lobo.

De acordo com dados da Prefeitura da cidade, cerca de 20 mil “aventureiros” visitam Brotas nos meses de férias. Pela sua proximidade da Grande São Paulo e de grandes cidades do interior do Estado, também é muito grande o número de visitantes que fazem o “bate e volta”, ou seja, que viajam até a cidade para curtir as aventuras e que voltam para as suas casas à noite. Cada um desses visitantes chega a gastar até R$ 500,00 em cada uma dessas viagens, onde se incluem despesas com alimentação, hospedagem, ingressos turísticos e pagamentos de guias, entre outros gastos, gerando importantes receitas para uma cidade com pouco mais de 21 mil habitantes e que sempre dependeu das atividades agropecuárias para sobreviver. O grande diferencial desse tipo de turismo é a preocupação com a conservação ambiental – esses aventureiros querem encontrar águas limpas e matas preservadas.

Os recursos hídricos das Cuestas Basálticas também são fundamentais para o abastecimento de inúmeras cidades da região, que captam as águas superficiais dos rios com nascentes e/ou tributários localizados nessas formações ou retiram as águas através de poços artesianos. Muitas áreas de recarga do Aquífero Guarani se encontram nos domínios das Cuestas Basálticas, o que é um motivo a mais para as preocupações com a conservação ambiental dessas formações.

Para você entender, como ninguém, as relações ecológicas entre serras e águas, nada melhor do que programar um passeio para essa fascinante região do interior do Estado de São Paulo.

AS ÁGUAS DA CANTAREIRA

Serra da Cantareira

No dia 2 de março de 1996, um jatinho executivo que tentava pousar no Aeroporto de Cumbica, na cidade de Guarulhos, abortou a aterrizagem e arremeteu, um procedimento normal nos casos em que os pilotos percebem que o pouso da aeronave está comprometido por excesso de velocidade ou ângulo de descida incorreto. Tragicamente, ao iniciar os procedimentos para uma nova tentativa de pouso, os pilotos erraram a direção a ser seguida e o jatinho se chocou contra a Serra da Cantareira, uma imensa massa de morros e matas que domina toda a Zona Norte da cidade de São Paulo (vide foto), funcionando como uma divisa natural com os municípios de Guarulhos, Caieiras e Mairiporã. Além dos pilotos, morreram no acidente os cinco membros de uma banda de música Pop que ocupava o topo das paradas de sucesso – Os Mamonas Assassinas. A tragédia chocou todo o país e colocou a Serra da Cantareira nas manchetes nacionais. 

Em 2014, teve início um grave período de seca na Região Entre Serras e Águas, localizada entre a face Norte da Serra da Cantareira e a face Sul da Serra da Mantiqueira. O colapso nos reservatórios de água da região, responsáveis pelo abastecimento de grande parte das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, colocou mais uma vez o nome Cantareira em evidência em todo o Brasil. Durante aquela crise hídrica, que se estendeu até o final de 2015, o nível dos reservatórios do Sistema Cantareira era matéria obrigatória em todos os telejornais. Para além dessas duas situações, a Serra da Cantareira é apenas um dos recantos mais bucólicos da grande mancha urbana Metropolitana. 

Contam as histórias que as antigas tropas de burros e de carretas se fartavam com as cristalinas águas que brotavam das encostas da Serra ao largo das trilhas abertas na mata. Para prosseguir nas viagens, os tropeiros se abasteciam com grandes quantidades de água, que eram armazenadas em cântaros de barro – esses recipientes eram carregados em uma espécie de prateleira de madeira presa nas carretas. Essas prateleiras eram chamadas de cantareiras – dizem que essa é a origem do nome da Serra da Cantareira. Essa fartura de fontes de águas levou à instalação de muitas fazendas na região do seu entorno já nos primeiros anos após a fundação da cidade de São Paulo.  

A partir da segunda metade do século XIX, os problemas de abastecimento de água na cidade de São Paulo passaram a ficar evidentes. Na década de 1870, a população da cidade alcançou a cifra de 30 mil habitantes, número insignificante se comparado aos 11 milhões que vivem na cidade atualmente, mas suficiente para levar as fontes de água ao colapso. O rio Tamanduateí, que desde a fundação da cidade pelos padres Jesuítas ainda no século XVI abastecia a população da cidade, já se apresentava bastante poluído. Os olhos dos administradores da cidade se voltaram então para o Norte, na direção da Serra da Cantareira. 

Em 1877 foi criada a Companhia Cantareira de Águas e Esgotos, uma autarquia da cidade de São Paulo que seria a responsável pelo abastecimento e a qualidade das águas servidas para a população. Um dos primeiros trabalhos realizados pela empresa foi o de aumentar o volume de águas que chegavam na Represa do Engordador, principal manancial de abastecimento da cidade na época, através de adutoras instaladas a partir de fontes de águas na Serra da Cantareira, permitindo a regularização do fornecimento de água nos chafarizes e bicas públicas ao longo de todo o ano. 

Em 1893, objetivando aumentar ainda mais o volume de águas usadas para o abastecimento da cidade de São Paulo, foi construída uma linha férrea destinada ao transporte dos materiais e equipamentos que seriam usados na construção de barragens e adutoras. Após a conclusão das obras, a linha férrea passou a ser usada para o transporte de passageiros Essa foi a origem do famoso Trenzinho da Cantareira, com sua antológica parada no bairro do Jaçanã, imortalizada na música “Trem das Onze” de Adoniran Barbosa e transformada num ícone cultural paulistano. 

O antigo Sistema Cantareira, mais conhecido pelos paulistanos como Cantareira Velho, manteve suas operações por mais de cem anos, abastecendo, entre outras, as populações da região central e da Zona Norte da cidade de São Paulo. Na década de 1980, com o aumento da produção de água no Novo Sistema Cantareira, o antigo sistema foi gradativamente desativado, deixando profundas marcas no inconsciente coletivo de toda a população. Apesar do novo sistema de abastecimento da cidade se valer de outros rios e de outras as fontes de água, na cabeça do cidadão médio nada mudou – as águas que saem das suas torneiras continuam vindo da Serra da Cantareira. 

Como se vê, a Serra da Cantareira ainda será tema de muitas notícias e histórias, continuando a ocupar um papel fundamental no abastecimento de águas da região Metropolitana de São Paulo. 

 

AS SERRAS E AS ÁGUAS

Morangos de Atibaia

Na nossa última postagem, falamos do trágico escorregamento da encosta de um morro em uma comunidade da cidade de Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, onde foram confirmadas 15 mortes e pelo menos 11 pessoas feridas. Também falamos dos escorregamentos de encostas na Serra do Mar, na região do Vale do Rio Paraíba, faixa Leste do Estado de São Paulo, que provocaram o bloqueio de duas importantes rodovias estaduais. Na temporada das chuvas, as regiões de morros desmatadas e/ou alteradas por obras humanas, estão entre as mais propensas a escorregamentos. 

Deixando temporariamente de lado essas fatalidades, as áreas de serras com seus incontáveis morros são fundamentais para os recursos hídricos – essas regiões costumam abrigar importantes nascentes e fontes de água, que formam e alimentam alguns dos mais importantes rios brasileiros. Normalmente, pela dificuldade de acesso, essas áreas apresentam a cobertura florestal nativa bem preservada, fator fundamental para a recarga das reservas de água subterrâneas e garantia dos volumes e da qualidade das águas que brotam das nascentes. 

A partir da postagem de hoje, vamos explorar algumas das mais importantes serras do Brasil. Vamos começar falando da Região Entre Serras e Águas, no Estado de São Paulo, que resume bem todas essas características. 

Entre a face Norte da Serra da Cantareira e a face Sul da Serra da Mantiqueira está localizada a Região Entre Serras e Águas. Famosa por seu clima ameno e paisagens serranas deslumbrantes, a Região é reconhecida como uma área de grande qualidade ambiental e com um dos mais altos índices de qualidade de vida do Estado de São Paulo. As nascentes de importantes rios, cujas águas abastecem dezenas de cidades, ficam nessa região: Jaguari, Camanducaia, Atibainha, Juquerí, Jacareí e Cachoeira. Essa grande concentração de rios acabou colaborando para a criação de um outro nome para designar a região: Circuito das Águas.

Nos finais de semana e nos feriados, a Região disputa com as praias da Baixada Santista a preferência dos turistas da Grande São Paulo, que lotam as cidades do Circuito das Águas: Atibaia, Bragança Paulista, Bom Jesus dos Perdões, Joanópolis, Mairiporã, Nazaré Paulista, Pedra Bela, Pinhalzinho, Piracaia, Tuiuti e Vargem. A culinária local, fortemente influenciada pela cozinha das Minas Gerais (que fica “logo ali na frente”), a produção de frutas – destaque para os morangos (vide foto), e o clima estão entre os maiores atrativos locais. Também merecem destaque as represas do famoso Sistema Cantareira, que a partir de meados da década de 1960, passaram a ocupar os fundos de vales e incorporaram espelhos d’água às paisagens serranas. 

O crescimento vertiginoso da população da Região Metropolitana de São Paulo a partir da segunda metade do século XX levou o governo estadual a estudar novas fontes para o abastecimento de água e a Região Entre Serras e Águas se mostrou como uma das mais promissoras. A região possuía um importante grupo nascentes de rios, fragmentos florestais bem conservados e um relevo adequado para a construção de reservatórios relativamente pequenos, mas com grande capacidade de armazenamento de água. Na época, o governo estadual chegou a estudar a possibilidade de aproveitar as águas da região do Vale do Ribeira, no Sul do estado de São Paulo, mas a ideia foi abandonada devido aos altos custos do bombeamento até a Região Metropolitana de São Paulo. 

O Sistema Cantareira possui seis reservatórios espalhados pela Região Entre Serras e Águas, que respondem pela produção de mais da metade da água consumida na Região Metropolitana de São Paulo e por dois terços do consumo da região de Campinas. A importância da região e dos seus inúmeros mananciais ficou evidente quando, entre 2014 e 2015, uma violenta e inédita grande seca regional levou o Sistema Cantareira ao colapso – todos os habitantes das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas foram submetidos a um forte racionamento de água “camuflado”. A fim de evitar futuras surpresas, um sistema de interligação entre o Cantareira e a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul foi inaugurada em março último.

As cidades da Região Entre Serras e Águas possuem uma população fixa total de pouco mais de 400 mil habitantes. Nos fins de semana e em feriados prolongados, o grande fluxo de turistas vindos da Região Metropolitana de São Paulo e do interior do Estado fazem essa população triplicar. Essa grande população “temporária” amplifica alguns problemas ambientais locais das áreas urbanas, com destaque para a coleta e gestão dos resíduos sólidos e a falta de tratamento dos esgotos. Nas áreas rurais, os problemas envolvem o uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras de frutas, os desmatamentos para a ampliação de plantações e construção de condomínios e chácaras de lazer, avanço das plantações de pinus e eucaliptos, entre outros males. Todos esses problemas acabam produzindo reflexos no volume e na qualidade das águas dos reservatórios locais. 

Respeitando o direito que todos os cidadãos têm de usufruir das paisagens das áreas naturais para o lazer, o turismo e a contemplação, é preciso lembrar que outros tantos cidadãos têm o sagrado direito ao acesso a água potável produzida na Região Entre Serras e Águas e “exportada” para outras regiões do Estado de São Paulo. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio que atenda aos interesses de todos. 

AS CHUVAS E OS DESLIZAMENTOS EM ENCOSTAS DE MORROS

Niterói

O fim de semana foi de bastante angústia e ansiedade em Niterói, cidade vizinha ao Rio de Janeiro: na madrugada deste último sábado, dia 10 de novembro de 2018, um grande deslizamento de terra no Morro da Boa Esperança, próximo da famosa Praia de Piratininga, derrubou e soterrou diversas casas. Até o encerramento das buscas por vítimas na manhã deste domingo, 14 mortes foram confirmadas e, pelo menos 11 feridos foram levados para unidades médicas da cidade. A causa da tragédia foram as fortes chuvas, que desde de meados da última semana colocaram diversas localidades da Região Metropolitana do Rio de Janeiro em estado de atenção. 

De acordo com as informações disponíveis, uma grande rocha se deslocou por causa do excesso de água no solo e rolou morro abaixo, levando junto muita terra e diversas casas. O prefeito da cidade rapidamente se adiantou e afirmou que a região não apresentava nenhum risco geológico – sua fala, porém, não trouxe justificativas para a presença da comunidade em uma área inadequada para ocupação por residências. Na mesma linha, o Governador eleito do Estado do Rio de Janeiro afirmou que a construção de casas populares e a remoção de comunidades de áreas de encostas serão prioridade absoluta em seu Governo. Que sejam verdadeiras as promessas.

A tragédia, assustadoramente previsível, traz lembranças traumáticas de um outro grande deslizamento de terra em Niterói, ocorrido em 2010. Naquela ocasião, as fortes chuvas provocaram o escorregamento da encosta do Morro do Bumba, no bairro Vistoso Jardim, causando a morte de 46 pessoas. A origem do problema está no crescimento desordenado das cidades e a falta de políticas públicas continuadas de construção de casas populares. Sem maiores condições de acesso a essas moradias, as populações pobres ocupam os morros das cidades com as famosas “comunidades” (o tradicional termo favela não é considerado politicamente correto atualmente). 

A remoção das matas das encostas, o corte dos terrenos para a formação dos taludes e as técnicas construtivas e os materiais inadequados usados na construção das casas completam o quadro – uma temporada de chuvas mais forte pode fazer toda uma face de um morro escorregar, levando junto casas e muitas vidas. 

As fortes chuvas também têm causado fortes estragos na região do Vales do Paraíba, no Leste do Estado de São Paulo. Áreas de encostas às margens da Rodovia dos Tamoios, que liga a região ao Litoral Norte do Estado, não estão resistindo às fortes chuvas. Cerca de 20 deslizamentos de terra, árvores e pedras, especialmente entre os km 69 e 80 provocaram a interdição total da rodovia. Depois de mais de 90 horas de interdição e de trabalhos intensos para a remoção dos escombros, a Rodovia foi liberada na tarde desse domingo. 

Outra estrada na mesma região, a Rodovia Oswaldo Cruz, também acabou interditada pela queda de barreiras e bloqueios das pistas. Nas duas rodovias, os deslizamentos de encostas ocorreram no trecho da Serra do Mar, região propensa a acidentes deste tipo nos períodos de chuva forte. A alternativa para os motoristas durante o período da interdição foi desviar para a rodovia Mogi-Bertioga, que permite acesso ao Litoral Norte de São Paulo, ou acessar a região da Baixada Santista a partir das Rodovias do Sistema Anchieta-Imigrantes e seguir pelo Rodovia Rio-Santos em direção ao Litoral Norte.  

Regiões serranas dos Estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro também estão em estado de alerta. Com a chuvas que vem caindo por toda essa extensa região, os solos estão saturados de água e há riscos de deslizamentos em vários pontos. Esses riscos aumentam significativamente em áreas “urbanizadas” e também nas regiões rurais onde a vegetação nativa foi derrubada para a formação de pastagens e campos agrícolas. 

Infelizmente, nestes meses de chuvas em boa parte do país, a tendência será de aumento nos casos de deslizamentos de morros e de encostas nas cidades e em muitas áreas rurais. Nas cidades, as áreas de morros normalmente são desprezadas e/ou desvalorizadas, o que sempre as tornam alvos de invasões e ocupações por populações de baixa renda. Essa é uma realidade não só das cidades de grandes Regiões Metropolitanas como a de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas também das cidades grandes e médias de muitos outros Estados. 

Em áreas interioranas, a natureza cobra seu preço pelos muitos anos de destruição e desmatamentos em áreas de topos de morros, regiões críticas que merecem ter prioridade absoluta na sua conservação e recuperação. Nas rodovias em áreas de serra, grande parte dos problemas se deve a técnicas inadequadas de construção, onde serão necessário grandes investimentos na construção de muros de arrimo e obras para drenagem e escoamento das águas da chuva, o que poderá minimizar muito os riscos de acidentes. 

Como já comentamos inúmeras vezes em nossas postagens, as temporadas de chuvas são absolutamente previsíveis em um país de clima, predominantemente, equatorial e tropical como o Brasil. A menos que fortes alterações climáticas venham a ocorrer no planeta no curto e no médio prazo, precisaremos dotar nossas cidades e rodovias de melhor infraestrutura para o controle das águas pluviais, o que precisa incluir, necessariamente, soluções habitacionais para as populações urbanas de baixa renda e a recuperação ambiental das encostas de morros. 

Sem essas medidas, assistiremos à repetição de tragédias como a do Morro da Boa Esperança em Niterói e das Rodovias paulistas, felizmente sem vítimas dessa vez, a cada nova temporada de chuvas