O USO DA CAIXA DE GORDURA, OU O FAST FOOD DAS BARATAS

Pia com louça suja

Um dos efluentes mais problemáticos lançados nas redes coletoras de esgotos são aqueles gerados nas pias das cozinhas, onde a água usada na lavagem de pratos, panelas, talheres e demais utensílios retira tanto os restos de comida quanto os resíduos de óleo e de gordura. O problema aumenta muito quando o óleo usado na fritura de alimentos é indevidamente jogado na pia da cozinha – um litro de óleo é suficiente para contaminar até 25 mil litros de água, pois ele forma uma finíssima película flutuante.

Duas providências são essenciais: não descartar em hipótese nenhuma óleo usado na pia e deve-se instalar uma caixa de gordura na tubulação de saída da pia. Essa caixa tem a função de filtrar e reter os resíduos de gordura presentes na água. Óleo e gordura lançados na rede de esgotos causam dois problemas principais:

Primeiro: Durante o processo de tratamento dos esgotos na ETE (Estação de Tratamento de Esgotos), o acúmulo do óleo trazido pelos efluentes pode provocar entupimentos nos filtros e tubulações, levando à paralisações frequentes da operação da ETE para limpeza, sendo necessário o uso de produtos químicos desengordurantes. Em alguns casos extremos, segundo estudos de empresas de saneamento básico, a somatória de todos esses procedimentos pode encarecer o processo de tratamento dos esgotos em até 50%; esse custo extra fatalmente será repassado para as contas de água dos clientes.

Segundo: Em contato com a água fria, parte do óleo solidifica e se transforma numa gordura que gruda nas paredes das tubulações, podendo provocar entupimentos da rede coletora; empresas de saneamento básico relatam que muitos dos entupimentos de redes de esgotos estão ligados direta ou indiretamente a acúmulos de gordura nas redes. Para ter-se uma ideia do volume dessa gordura, uma família média pode lançar de 1 a 2 kg (a depender dos seus hábitos alimentares) de gordura a cada mês na rede coletora de esgotos.

Porém, o maior problema criado pela presença de gordura nas redes de esgotos está ligado a um dos vetores de doenças dos mais repugnantes – as baratas. A gordura das paredes das tubulações é um verdadeiro banquete para as baratas que, com a fartura de comida, se multiplicam sem controle e invadem as ruas e residências, podendo contaminar alimentos e utensílios domésticos com dezenas de vírus e patógenos presentes nos efluentes dos esgotos. Alguns predadores naturais das baratas – como os escorpiões, podem ter suas populações aumentadas graças à fartura de alimentos, o que poderá resultar em picadas e ataques acidentais – o veneno da picada de algumas espécies pode ser letal para uma criança pequena. Adiantando o assunto, os restos de entulhos e resíduos sólidos da construção civil, comumente descartados em terrenos baldios, formam o habitat ideal para a instalação de prósperas colônias de escorpiões.

Perceba neste post como os problemas do saneamento básico estão interligados: a água tratada é usada na lavagem de pratos e panelas na cozinha; o esgoto gerado carrega o óleo e os restos de gordura para as tubulações de esgotos; os resíduos de gordura alimentam as baratas; por fim, resíduos sólidos da construção civil abrigam escorpiões que se alimentam das baratas criadas em nossos esgotos – mais didático do que isso, impossível…

A caixa de gordura é um dispositivo muito simples, que instalado na tubulação de saída da pia da cozinha retém os resíduos de óleo e de gordura, que ficam acumulados numa câmara – periodicamente, essa câmara deve ser limpa pelos moradores do imóvel (observe aqui que parte da responsabilidade pelo tratamento dos esgotos é dos cidadãos) e a gordura removida dever ser descartada junto do lixo doméstico (na embalagem do lixo úmido).

Na próxima vez que você se deparar com uma barata correndo pelo piso da sua cozinha, pense que ela só está ali por que você a convidou para jantar no fast food da tubulação de esgotos da sua casa…

Para saber mais:

Esgoto Sanitário: que trem é esse sô?

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