AS ÁGUAS DA CANTAREIRA

Serra da Cantareira

No dia 2 de março de 1996, um jatinho executivo que tentava pousar no Aeroporto de Cumbica, na cidade de Guarulhos, abortou a aterrizagem e arremeteu, um procedimento normal nos casos em que os pilotos percebem que o pouso da aeronave está comprometido por excesso de velocidade ou ângulo de descida incorreto. Tragicamente, ao iniciar os procedimentos para uma nova tentativa de pouso, os pilotos erraram a direção a ser seguida e o jatinho se chocou contra a Serra da Cantareira, uma imensa massa de morros e matas que domina toda a Zona Norte da cidade de São Paulo (vide foto), funcionando como uma divisa natural com os municípios de Guarulhos, Caieiras e Mairiporã. Além dos pilotos, morreram no acidente os cinco membros de uma banda de música Pop que ocupava o topo das paradas de sucesso – Os Mamonas Assassinas. A tragédia chocou todo o país e colocou a Serra da Cantareira nas manchetes nacionais. 

Em 2014, teve início um grave período de seca na Região Entre Serras e Águas, localizada entre a face Norte da Serra da Cantareira e a face Sul da Serra da Mantiqueira. O colapso nos reservatórios de água da região, responsáveis pelo abastecimento de grande parte das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, colocou mais uma vez o nome Cantareira em evidência em todo o Brasil. Durante aquela crise hídrica, que se estendeu até o final de 2015, o nível dos reservatórios do Sistema Cantareira era matéria obrigatória em todos os telejornais. Para além dessas duas situações, a Serra da Cantareira é apenas um dos recantos mais bucólicos da grande mancha urbana Metropolitana. 

Contam as histórias que as antigas tropas de burros e de carretas se fartavam com as cristalinas águas que brotavam das encostas da Serra ao largo das trilhas abertas na mata. Para prosseguir nas viagens, os tropeiros se abasteciam com grandes quantidades de água, que eram armazenadas em cântaros de barro – esses recipientes eram carregados em uma espécie de prateleira de madeira presa nas carretas. Essas prateleiras eram chamadas de cantareiras – dizem que essa é a origem do nome da Serra da Cantareira. Essa fartura de fontes de águas levou à instalação de muitas fazendas na região do seu entorno já nos primeiros anos após a fundação da cidade de São Paulo.  

A partir da segunda metade do século XIX, os problemas de abastecimento de água na cidade de São Paulo passaram a ficar evidentes. Na década de 1870, a população da cidade alcançou a cifra de 30 mil habitantes, número insignificante se comparado aos 11 milhões que vivem na cidade atualmente, mas suficiente para levar as fontes de água ao colapso. O rio Tamanduateí, que desde a fundação da cidade pelos padres Jesuítas ainda no século XVI abastecia a população da cidade, já se apresentava bastante poluído. Os olhos dos administradores da cidade se voltaram então para o Norte, na direção da Serra da Cantareira. 

Em 1877 foi criada a Companhia Cantareira de Águas e Esgotos, uma autarquia da cidade de São Paulo que seria a responsável pelo abastecimento e a qualidade das águas servidas para a população. Um dos primeiros trabalhos realizados pela empresa foi o de aumentar o volume de águas que chegavam na Represa do Engordador, principal manancial de abastecimento da cidade na época, através de adutoras instaladas a partir de fontes de águas na Serra da Cantareira, permitindo a regularização do fornecimento de água nos chafarizes e bicas públicas ao longo de todo o ano. 

Em 1893, objetivando aumentar ainda mais o volume de águas usadas para o abastecimento da cidade de São Paulo, foi construída uma linha férrea destinada ao transporte dos materiais e equipamentos que seriam usados na construção de barragens e adutoras. Após a conclusão das obras, a linha férrea passou a ser usada para o transporte de passageiros Essa foi a origem do famoso Trenzinho da Cantareira, com sua antológica parada no bairro do Jaçanã, imortalizada na música “Trem das Onze” de Adoniran Barbosa e transformada num ícone cultural paulistano. 

O antigo Sistema Cantareira, mais conhecido pelos paulistanos como Cantareira Velho, manteve suas operações por mais de cem anos, abastecendo, entre outras, as populações da região central e da Zona Norte da cidade de São Paulo. Na década de 1980, com o aumento da produção de água no Novo Sistema Cantareira, o antigo sistema foi gradativamente desativado, deixando profundas marcas no inconsciente coletivo de toda a população. Apesar do novo sistema de abastecimento da cidade se valer de outros rios e de outras as fontes de água, na cabeça do cidadão médio nada mudou – as águas que saem das suas torneiras continuam vindo da Serra da Cantareira. 

Como se vê, a Serra da Cantareira ainda será tema de muitas notícias e histórias, continuando a ocupar um papel fundamental no abastecimento de águas da região Metropolitana de São Paulo. 

 

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