REDE DE ÁGUAS PLUVIAIS E REDE COLETORA DE ESGOTOS – UMA ETERNA CONFUSÃO

Enchente em São Paulo

Dentro de umas poucas horas a partir do momento em que escrevo este post, estaremos entrando oficialmente no Inverno, época do ano que, na minha região, costuma apresentar um tempo seco e razoavelmente frio. Quando “eu era criança pequena lá em Santo Amaro”, roubando o bordão de um antigo comediante, Inverno era sinal de tempo seco e muito frio – lembro que, em dias de frio muito intenso, o gramado de casa amanhecia coberto com uma fina camada de gelo: há muito não se vê um Inverno assim aqui por estas bandas. Curiosamente, estes últimos dias tem sido extremamente chuvosos, o que não é muito comum para a estação – aliás, hoje no meio da tarde enfrentei chuva torrencial numa rodovia. Chuva forte em São Paulo e região, como deve ser do conhecimento geral, é sinal de preocupação com as enchentes.

Estou usando a lembrança destes fatos e memórias para falarmos de um tema bastante importante em hidrologia e que, infelizmente, vem sendo desprezado nas últimas décadas aqui na minha cidade e, imagino, na cidade de muitos de vocês: a Rede de Drenagem das Águas Pluviais. Essa Rede de Drenagem foi formada naturalmente ao longo de milhares (para não falarmos milhões) de anos, quando as águas dos cursos d’água e das chuvas escavaram canais no solo para permitir o escoamento natural dos caudais. Com a intensa urbanização e o crescimento desordenado das cidades, muitos destes canais naturais acabaram obstruídos por construções ou confinados em tubulações subterrâneas – basta uma chuva mais forte para as enchentes tomarem conta das ruas e avenidas. E pior – os cursos d’água passaram a receber os esgotos das casas e indústrias, passando a funcionar como uma “rede coletora de esgotos” a céu aberto. Essa é uma realidade na maioria das cidades brasileiras e na maior parte das cidades dos países pobres e em desenvolvimento.

Vou usar o exemplo da minha cidade: o município de São Paulo possui, ao menos, 186 sub-bacias hidrográficas catalogadas pela Prefeitura, o que representa mais de 200 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 300 cursos de água – outras falam em até 2.000 se considerados os pequenos afluentes: na verdade, ninguém sabe exatamente quantos são e onde estão esses córregos, riachos e nascentes que existem escondidos no subsolo da cidade. Desde a fundação da pequena Vila de São Paulo de Piratininga no século XVI pelos padres jesuítas, já se observa uma técnica de construção que virou a marca da cidade: a vila foi construída no alto de um morro ao lado do Rio Tamanduateí com um duplo objetivo – as águas do Rio seriam usadas para o abastecimento dos moradores e também como um veículo para dispersar os esgotos gerados nas casas. Ao longo de mais de quatro séculos, esse conceito de “urbanização” vem sendo mantido e essa imensa rede hidrográfica, que poderia estar garantindo parte do abastecimento da população, serve apenas para transportar esgotos. É por isso que explicar para uma pessoa comum a diferença entre Rede de Drenagem Pluvial e Rede Coletora de Esgotos é tão complicado – para um leigo, é tudo a mesma coisa. Vamos tentar:

Como já foi mostrado, a chamada Rede de Drenagem de Águas Pluviais utiliza toda a “infraestrutura natural” do relevo de uma região para escoar os excedentes de água que são precipitados nos dias de chuva – isso quer dizer que essa rede de canais precisa estar dimensionada para drenar toda a água dos cursos naturais da região e ainda possuir um espaço extra para absorver as águas das chuvas; quando esse equilíbrio natural é alterado por ações antrópicas, temos as famosas enchentes, matéria na qual nós paulistanos e muitos de vocês, já devem ter atingido o grau de doutorado (vide foto).

Para compensar as alterações provocadas no relevo pela construção das cidades, onde grande parte do solo é impermeabilizado por concreto e asfalto, a Rede de Drenagem de Águas Pluviais precisa receber adições artificiais de condutos para absorver e conduzir as águas: ruas com sarjetas ou meio fio, bueiros, grelhas, tubulações subterrâneas de grande porte, piscinões e áreas de detenção (para acumular rapidamente as águas e liberar aos poucos na rede de drenagem), entre outras obras. Nossas cidades cresceram rápido demais e muitas destas obras deixaram de ser feitas – todos nós arcamos com os custos das enchentes ano após ano.

Como se os problemas de drenagem já não fossem suficientes, grande parte dos cursos de água das cidades continuam sendo usados para o transporte e afastamento dos esgotos. Além de todos os riscos à saúde pública, seja pelo contato com águas poluídas, seja pela proliferação de vetores de todos os tipos e lançamento de lixo e resíduos nestas mesmas águas, existe um enorme agravante: uma Rede de Drenagem de Águas Pluviais não prevê a instalação de qualquer tipo de estação para o tratamento das águas – este tipo de instalação faz parte dos projetos das Redes Coletoras de Esgotos. A consequência óbvia do despejo destes esgotos é a contaminação das fontes usadas para a captação de água para o abastecimento público. No meu último post citei dois exemplos graves dessa contaminação: as Represas Billings e Guarapiranga aqui na Região Metropolitana de São Paulo – nós lançamos esgotos nas fontes de água que abastecem as nossas casas.

É fundamental que todos tenham em mente que são necessários o projeto, a construção e o uso de uma Rede de tubulações específicas para a coleta e o transporte dos esgotos da sua cidade e região – se esta Rede não existe, os governantes locais deverão sempre ser lembrados disto.

Vamos detalhar a Rede Coletora de Esgotos nos nossos próximos posts.

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