AS SERRAS E AS ÁGUAS

Morangos de Atibaia

Na nossa última postagem, falamos do trágico escorregamento da encosta de um morro em uma comunidade da cidade de Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, onde foram confirmadas 15 mortes e pelo menos 11 pessoas feridas. Também falamos dos escorregamentos de encostas na Serra do Mar, na região do Vale do Rio Paraíba, faixa Leste do Estado de São Paulo, que provocaram o bloqueio de duas importantes rodovias estaduais. Na temporada das chuvas, as regiões de morros desmatadas e/ou alteradas por obras humanas, estão entre as mais propensas a escorregamentos. 

Deixando temporariamente de lado essas fatalidades, as áreas de serras com seus incontáveis morros são fundamentais para os recursos hídricos – essas regiões costumam abrigar importantes nascentes e fontes de água, que formam e alimentam alguns dos mais importantes rios brasileiros. Normalmente, pela dificuldade de acesso, essas áreas apresentam a cobertura florestal nativa bem preservada, fator fundamental para a recarga das reservas de água subterrâneas e garantia dos volumes e da qualidade das águas que brotam das nascentes. 

A partir da postagem de hoje, vamos explorar algumas das mais importantes serras do Brasil. Vamos começar falando da Região Entre Serras e Águas, no Estado de São Paulo, que resume bem todas essas características. 

Entre a face Norte da Serra da Cantareira e a face Sul da Serra da Mantiqueira está localizada a Região Entre Serras e Águas. Famosa por seu clima ameno e paisagens serranas deslumbrantes, a Região é reconhecida como uma área de grande qualidade ambiental e com um dos mais altos índices de qualidade de vida do Estado de São Paulo. As nascentes de importantes rios, cujas águas abastecem dezenas de cidades, ficam nessa região: Jaguari, Camanducaia, Atibainha, Juquerí, Jacareí e Cachoeira. Essa grande concentração de rios acabou colaborando para a criação de um outro nome para designar a região: Circuito das Águas.

Nos finais de semana e nos feriados, a Região disputa com as praias da Baixada Santista a preferência dos turistas da Grande São Paulo, que lotam as cidades do Circuito das Águas: Atibaia, Bragança Paulista, Bom Jesus dos Perdões, Joanópolis, Mairiporã, Nazaré Paulista, Pedra Bela, Pinhalzinho, Piracaia, Tuiuti e Vargem. A culinária local, fortemente influenciada pela cozinha das Minas Gerais (que fica “logo ali na frente”), a produção de frutas – destaque para os morangos (vide foto), e o clima estão entre os maiores atrativos locais. Também merecem destaque as represas do famoso Sistema Cantareira, que a partir de meados da década de 1960, passaram a ocupar os fundos de vales e incorporaram espelhos d’água às paisagens serranas. 

O crescimento vertiginoso da população da Região Metropolitana de São Paulo a partir da segunda metade do século XX levou o governo estadual a estudar novas fontes para o abastecimento de água e a Região Entre Serras e Águas se mostrou como uma das mais promissoras. A região possuía um importante grupo nascentes de rios, fragmentos florestais bem conservados e um relevo adequado para a construção de reservatórios relativamente pequenos, mas com grande capacidade de armazenamento de água. Na época, o governo estadual chegou a estudar a possibilidade de aproveitar as águas da região do Vale do Ribeira, no Sul do estado de São Paulo, mas a ideia foi abandonada devido aos altos custos do bombeamento até a Região Metropolitana de São Paulo. 

O Sistema Cantareira possui seis reservatórios espalhados pela Região Entre Serras e Águas, que respondem pela produção de mais da metade da água consumida na Região Metropolitana de São Paulo e por dois terços do consumo da região de Campinas. A importância da região e dos seus inúmeros mananciais ficou evidente quando, entre 2014 e 2015, uma violenta e inédita grande seca regional levou o Sistema Cantareira ao colapso – todos os habitantes das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas foram submetidos a um forte racionamento de água “camuflado”. A fim de evitar futuras surpresas, um sistema de interligação entre o Cantareira e a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul foi inaugurada em março último.

As cidades da Região Entre Serras e Águas possuem uma população fixa total de pouco mais de 400 mil habitantes. Nos fins de semana e em feriados prolongados, o grande fluxo de turistas vindos da Região Metropolitana de São Paulo e do interior do Estado fazem essa população triplicar. Essa grande população “temporária” amplifica alguns problemas ambientais locais das áreas urbanas, com destaque para a coleta e gestão dos resíduos sólidos e a falta de tratamento dos esgotos. Nas áreas rurais, os problemas envolvem o uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras de frutas, os desmatamentos para a ampliação de plantações e construção de condomínios e chácaras de lazer, avanço das plantações de pinus e eucaliptos, entre outros males. Todos esses problemas acabam produzindo reflexos no volume e na qualidade das águas dos reservatórios locais. 

Respeitando o direito que todos os cidadãos têm de usufruir das paisagens das áreas naturais para o lazer, o turismo e a contemplação, é preciso lembrar que outros tantos cidadãos têm o sagrado direito ao acesso a água potável produzida na Região Entre Serras e Águas e “exportada” para outras regiões do Estado de São Paulo. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio que atenda aos interesses de todos. 

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