O TEMIDO “MONSTRO DO ESGOTO” DE GUARAPARI

Guarapari

Guarapari fica a aproximadamente 52 km ao Sul de Vitória, a capital do Estado do Espírito Santo. Apesar de ser uma autêntica cidade capixaba, Guarapari se transforma quando chega o Verão – a cidade chega a receber 1 milhão de visitantes, principalmente mineiros. Há quem diga que “mineiro que é mineiro tem de vir a Guarapari pelo uma vez na vida”.

Essa verdadeira “invasão” de turistas cria todo o tipo de problemas para a cidade, que na maior parte do ano conta com uma população de 120 mil habitantes. Começa a faltar água, sobram filas na padaria, no supermercado, nos postos de gasolina – tudo fica lotado. Em diversas ocasiões no passado, a Prefeitura de Guarapari sinalizou que estava estudando medidas para “limitar” o número de turistas que buscam a cidade nas temporadas de Verão. Um ex-prefeito, inclusive, chegou a cogitar alternativas para evitar a entrada de turistas de baixa renda na cidade. Na opinião dessa “autoridade” o “melhor para Guarapari seria receber 100 mil turistas de um nível econômico mais alto, ao invés de 1 milhão de turistas de baixa renda”. A proposta polêmica e discriminatória não caiu bem na cidade, gerando todo o tipo de reclamação, especialmente da parte dos turistas mineiros – a proposta, é claro, não avançou.

Durante as temporadas de Verão, esta superpopulação temporária também amplifica e expõe ainda mais uma série de problemas e deficiências na infraestrutura da cidade, particularmente os problemas de esgotos. E Guarapari tem sérios problemas nesta área. De acordo com dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, a cidade de Guarapari trata quase 90% do volume total de esgotos coletados. O problema é que apenas 32% dos domicílios da cidade estão ligados a redes coletoras de esgotos – 52% das residências usam fossas e 16% lançam os esgotos a céu aberto: são números muito ruins para uma cidade que tem no turismo a sua principal atividade econômica.

Um exemplo desta total falta de infraestrutura pode ser vista no Perocão, um bairro da Zona Norte de Guarapari. No ano 2000, a Prefeitura, em uma parceria com a FUNASA – Fundação Nacional de Saúde, iniciou a construção de uma estação de tratamento de esgotos no bairro. Infelizmente, como costuma acontecer com este tipo de obra, essa foi iniciada e paralisada diversas vezes e os despejos de esgotos no Rio Perocão continuaram. A indignação com o descaso das autoridades com os problemas de saneamento inspirou um cineasta local, Rodrigo Aragão, a produzir em 2015 o longa metragem “As Fábulas Negras”, dirigido e produzido com ajuda de amigos de infância do bairro. O filme conta diversas histórias do folclore brasileiro, onde foi incluído o “Monstro do Esgoto“, uma crítica às péssimas condições sanitárias do bairro Perocão. Curiosamente, existe um outro “Monstro do Esgoto” em “Saneamento Básico – o Filme”, de Jorge Furtado – sinal que sobra criatividade entre os cineastas brasileiros e que o país tem esgotos de sobra para usar como cenário.

Os problemas de despejo irregular de esgotos não se limitam ao rio Perocão – outros dois rios que cruzam a cidade têm o mesmo problema: os rios Jabuti e Una. As águas contaminadas atingem as áreas de manguezais e as praias, provocando mal cheiro, mortandade de peixes e oferecendo riscos à população e aos inúmeros turistas. A poluição não fica limitada apenas as águas do mar – as areias de Guarapari, famosas por suas propriedades terapêuticas, também são afetadas. Estudos que vem sendo realizados por biólogos desde 2013 em diversas praias do Espírito Santo, têm encontrado altas concentrações de bactérias dos grupos coliformes e enterococos, normalmente associadas a águas contaminadas por despejos de esgotos, nas areias das praias. Em Guarapari, foram realizadas análises microbiológicas na Praia do Morro, onde foram encontradas altas concentrações de bactérias de origem fecal na areia.

Em 2015, duas entidades ambientais, a ANAMA – Associação Nacional dos Amigos do Meio Ambiente e a ONG Juntos SOS Espírito Santo Ambiental, protocolaram na Justiça Federal uma ação civil pública pedindo a responsabilização das autoridades na fiscalização do lançamento de esgotos nas águas de Guarapari. A ação cobra o pleno funcionamento dos sistemas de coleta e tratamento de esgotos sob responsabilidade da CESAN – Companhia Espírito-Santense de Saneamento, além de questionar a omissão da Prefeitura de Guarapari.

A ação cita, entre outros problemas, o emissário de esgotos construído pela CESAN no município. De acordo com as entidades ambientais autoras da ação, há problemas técnicos na estação de tratamento de esgotos e os efluentes tratados que estão sendo despejados pelo emissário ainda apresentam grandes quantidades de bactérias ativas. A ação questiona a eficiência dos serviços da CESAN e também sugere a corresponsabilidade das autoridades municipais pelo potencial crime ambiental, que pode resultar em grave dano à saúde da população e dos turistas. Como todos sabem, a tramitação de ações na Justiça é bastante lenta e há inúmeros recursos que permitem protelar as decisões judiciais.

A fama de Guarapari perde-se, literalmente, nas “areias do tempo”. As areias monazíticas radioativas das suas praias, em tons de amarelo, marrom e preto, possuem supostas propriedade terapêuticas que auxiliam no tratamento de uma infinidade de males: nevralgias, artrites, reumatismos, problemas musculares e digestivos, entre outros. Isto criou uma espécie de “turismo terapêutico” na cidade. O estudo destas propriedades terapêuticas das areias de Guarapari tem chamado a atenção de um número cada vez maior de pesquisadores científicos nos últimos anos.

Estudos científicos realizados ainda no final do século XIX comprovaram que as areias de Guarapari possuíam pequenas quantidades de tório e urânio, que são elementos radioativos. Inclusive, há relatos que falam da exportação clandestina de até 200 mil toneladas de areia monazítica de Guarapari e de outros municípios para países como Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha entre as décadas de 1890 e 1960. O elemento tório foi inicialmente utilizado na fabricação de luminárias a gás; depois, com o avanço dos estudos em energia nuclear, o tório e o urânio passaram a ser componentes fundamentais para o desenvolvimento das bombas atômicas e do combustível usado nas usinas nucleares para geração de energia elétrica. 

Apesar da fama internacional das suas inúmeras praias, das história e “teorias da conspiração” sobre o contrabando de suas areias radioativas, que também tem fama de milagrosas, Guarapari ainda precisa avançar bastante na área de infraestrutura.

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