RELATÓRIO DO WWF: POPULAÇÕES ANIMAIS SOFRERAM UMA REDUÇÃO DE 60% EM APENAS 40 ANOS

 Tamanduá-bandeira

Um conjunto de notícias de grande impacto ambiental foram divulgadas nesta semana e merecem alguns comentários. O WWF  World Wide Fund for Nature, ou Fundo Mundial para a Vida Selvagem e Natureza em português, uma das mais importantes organizações não governamentais de proteção ao meio ambiente do mundo, divulgou um relatório alarmante sobre a situação caótica e desesperadora em que se encontra o meio ambiente no planeta. 

De acordo com os dados divulgados, a Terra vive hoje uma das maiores ondas de destruição de ambientes naturais e de perda espécies já vista ao longo da história. Populações de mamíferos, peixes, anfíbios e de aves sofreram reduções de 60% em apenas quatro décadas. Outra gravíssima ameaça detectada foi o aumento do volume de plásticos no oceano, um problema que ameaça as espécies marinhas como um todo. Um exemplo da gravidade desse problema é o aumento de aves com fragmentos de plástico no estômago: na década de 1960, cerca de 5% das aves tinham esses fragmentos em seu trato digestivo; hoje são 90%

Um dos destaques negativos do relatório, como sempre, foi o avanço da destruição da Floresta Amazônica em terras brasileiras. Dados levantados a partir de imagens de satélites mostram que uma área de matas equivalente a 1,4 milhão de campos de futebol desaparecem a cada ano na região e cerca de 20% da área original do bioma já foi devastada. O relatório prossegue com a apresentação de outros inúmeros problemas ambientais em outras partes do mundo. 

É aqui que entro para fazer alguns comentários – a situação da Amazônia é preocupante, especialmente por causa do avanço das frentes agrícolas e da pecuária, que vêm o bioma como uma espécie de “Eldorado” para o crescimento dessas atividades e consolidação definitiva do Brasil como o novo “celeiro do mundo”. Existem, porém, dois biomas brasileiros em situação muito mais dramática que a Amazônia e que não costumam ter a mesma exposição nas mídias mundiais: falo do Cerrado e da Caatinga

O Cerrado, que foi tema de uma série de postagens recentes aqui no blog, é o segundo maior bioma brasileiro, ficando atrás apenas da Amazônia, e ocupa uma área total equivalente a 20% de nosso território. A forte expansão das fronteiras agrícolas nas últimas décadas já devastou cerca de 50% da sua vegetação original. Existe aqui um enorme agravante – o avanço das fronteiras agrícolas no bioma não para de crescer e as expectativas para o Cerrado não são as melhores. 

Um exemplo de fauna carismática (animais que representam um bioma) que vem tendo reduções expressivas em suas populações são os tamanduás. O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), é o maior da espécie. Um adulto pode atingir o peso de 45 kg e 1,8 metro de comprimento, incluindo a cauda. Pois bem – um animal com todo esse tamanho se alimenta única e exclusivamente de insetos, mais especificamente formigas e cupins: são 30 mil insetos a cada dia (vide foto). Com o avanço da agricultura, os habitas naturais dos tamanduás estão sendo gradativamente destruídos e os animais não estão encontrando seus alimentos na quantidade adequada. O uso de agrotóxicos para o controle de insetos nas plantações reduz ainda mais a disponibilidade dos seus alimentos. 

Outro bioma extremamente importante e que está desaparecendo silenciosamente é a Caatinga Nordestina, assunto que já tema de dezenas de postagens aqui no blog. O bioma já perdeu, pelo menos, metade de sua área original, que vem sucumbindo com o avanço de populações e de gados desde os tempos coloniais. Nos dois primeiros séculos de nossa história, a principal atividade econômica colonial era a produção do açúcar nas regiões litorâneas, especialmente na faixa Nordeste do país. Como já relatamos em outros textos, os grandes senhores dos canaviais entravam em constantes conflitos com os criadores de bois – os animais invadiam as plantações e comiam os brotos açucarados de cana-de-açúcar. Esses constantes embates levaram à decretação de uma Carta Régia por parte do Governo Colonial, proibindo a criação de bois a menos de 60 km dos canaviais.  

Indesejados no litoral, os criadores e suas boiadas iniciaram um processo maciço de penetração na região do Semiárido Nordestino. Áreas de vegetação de caatinga começaram a ser queimadas para a ampliação das áreas de pastagens e a criação de roças para a agricultura de subsistência. Esse processo de ocupação dos sertões do Nordeste por populações humanas e animais prosseguiu ao longo dos séculos e transformou o Semiárido Brasileiro na região semiárida mais habitada do mundo. Hoje, cerca de 23,5 milhões de pessoas vivem na região do Semiárido Brasileiro, uma população que chega a ser dez vezes maior que a de outras áreas semiáridas do mundo. 

Essa superpopulação de gentes e de bichos, termo que eu costumo usar com bastante frequência, estão na raiz da pressão ecológica sobre o bioma Caatinga. Todas essas populações necessitam de alimentos e de água, de materiais para a construção de casas, móveis, cercas e outros utensílios. Também necessitam de lenha para os fogões e de áreas de pastagens para todos os tipos de gados: bois, cabras, ovelhas, equinos e muares – são as áreas de vegetação de Caatinga que fornecem tudo isso. Os animais dos caatingais, que já sofrem com a destruição e fragmentação dos seus habitats, também são caçados e transformados em fontes de proteínas complementares pelas sofridas populações sertanejas. 

Além das preocupações legítimas e necessárias de toda a comunidade científica internacional em relação à contínua e implacável destruição da Floresta amazônica, é preciso também mostrar a situação caótica dos biomas Cerrado e Caatinga que, infelizmente, acabam não tendo maiores destaques aos olhos do mundo.

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