FATBERG: VOCÊ FAZ IDEIA DO QUE É ISSO?

Fatberg

Nessa época do ano que marca a volta do período das chuvas na Região Centro-Sul do Brasil, cidades e agricultores se animam com a renovação dos estoques de água, nos solos, nos rios e nos reservatórios de abastecimento e de geração de energia elétrica. Também, como uma espécie de efeito colateral do período, assistimos aos vendavais e as quedas de granizo em muitas cidades e regiões. Um outro tema, do qual não podemos fugir e que está diretamente ligado à volta das chuvas, são as enchentes e os alagamentos localizados.  

Como já tratamos inúmeras vezes aqui no blog, nossas cidades, em regra geral, não possuem uma infraestrutura adequada para o escoamento das águas pluviais. A situação se agrava quando passamos a incluir nas discussões o crescimento desordenado de nossas cidades, especialmente em áreas de várzeas e encostas de morros, o que costuma resultar, com frequência incômoda, em graves acidentes e mortes de pessoas. 

A precária situação da infraestrutura de drenagem de águas pluviais de nossas cidades é bastante agravada pelo uso inadequado das redes de esgotos para o lançamento de águas de chuva. Como já demonstramos em várias postagens, as redes de águas pluviais e as redes de esgotos sanitários são sistemas de escoamentos de efluentes diferentes e independentes. Águas pluviais não necessitam de nenhum tipo de tratamento e a função das suas redes coletoras é escoar e transportar, no menor tempo possível, essas águas na direção de rios, lagos e represas, entre outras estruturas, evitando ou reduzindo transtornos como enchentes e alagamentos nas vias de uma cidade.  

As redes coletoras de esgotos, como expressa o próprio nome, são construídas para coletar e transportar os efluentes domésticos e industriais na direção das Estações de Tratamento de Esgotos (ETE), onde esses efluentes passarão por um processo de tratamento antes de serem despejados de volta na natureza. O lançamento incorreto desses efluentes nas redes coletoras erradas causam uma série de problemas: esgotos lançados em redes de águas pluviais irão causar a contaminação do meio ambiente; gases liberados pela decomposição dos esgotos, como o gás sulfídrico, corroem o concreto das tubulações, que no longo prazo podem entrar em colapso e arrebentar. 

Águas pluviais lançadas nas redes de esgoto podem, entre outros problemas, provocar o retorno do esgoto para as casas, podendo também provocar o alagamento de cozinhas e banheiros. A chegada de grandes volumes de águas pluviais nas Estações de Tratamento de Esgotos também causa enormes problemas, que vão desde a paralisação dos processos de tratamento a danos na infraestrutura. 

Os problemas e desafios na área de saneamento básico, que já não são poucos, estão ficando um pouco maiores: em todo o mundo tem se observado um crescimento no lançamento de resíduos de óleos comestíveis e gorduras nas redes de esgoto. Em contato com a água fria e com outros resíduos indesejáveis em redes de esgotos como lenços umedecidos, absorventes, cotonetes e preservativos, entre outros, essa gordura está formando grandes blocos sólidos que estão sendo chamados com o nome de “fatbergs”. A palavra, que foi inspirada nos grandes blocos de gelo flutuante conhecidos como “icebergs” (todos vocês devem se lembrar da história com a tragédia do transatlântico Titanic em 1911), significa, literalmente, gordura (fat em inglês) e montanha (berg em alemão), ou seja, montanha (ou, numa forma menos exagerada, bloco) de gordura. 

O lançamento de resíduos de gordura em redes de esgoto é um problema já bastante antigo e há muito é considerada uma causa importante dos entupimentos. A gordura gruda nas paredes das tubulações e passa a se misturar com outros resíduos, formando algo parecido com uma rolha. Um outro problema tem a ver com a proliferação das baratas, um inseto que aprecia muito o consumo dos resíduos de gordura – com fartura do alimento, as baratas se multiplicam e passam a invadir casas e estabelecimentos comerciais, para o horror de muita gente e riscos de proliferação de doenças.  

Uma das técnicas mais conhecidas para o controle dos resíduos de gordura nas redes de esgotos se dá com a instalação das caixas de gordura na saída das pias das cozinhas. O grande problema é que, com a mudança de hábitos alimentares em diversos países, a produção e o lançamento de resíduos de gordura e de óleos comestíveis nos sistemas de esgotos não para de crescer. Os problemas decorrentes também aumentaram, e muito. 

Em 16 de setembro de 2017, eu publiquei aqui uma notícia sobre um gravíssimo entupimento na rede de esgotos da cidade de Londres, na Inglaterra. O chamado “monstro do esgoto de Whitechapel”, batizado assim pela implacável imprensa popular britânica, era um aglomerado de sujeira com cerca de 130 toneladas de peso, que se estendeu por cerca de 260 metros nas tubulações de esgotos da cidade. Essa grande massa de resíduos era formada por gordura, fraldas descartáveis, lenços umedecidos, óleo congelado e, em escala bem pequena, resíduos de fezes humanas. As autoridades inglesas calculam que, aproximadamente, 14 milhões de litros de óleos comestíveis usados são lançados na rede de esgotos de Londres a cada ano. Os trabalhos de desmonte e remoção desse “fatberg” levou três semanas e mobilizou dezenas de operários e muita maquinaria. A foto que ilustra esta postagem mostra um operário carregando um pedaço do imenso bloco de gordura e detritos.  

Um outro exemplo das dimensões que esse tipo de problema está tomando é encontrado na cidade de Nova York, nos Estados Unidos. Conforme apresentamos em postagem publicada no dia 13 de janeiro de 2018, os esgotos da Big Apple (ou a “Grande Maçã”, apelido carinhoso da cidade), estão sendo ameaçados por uma outra mítica “criatura” – as “white whales” ou baleias brancas em português. Compostos em grande parte por toalhinhas perfumadas e umedecidas usadas pela população para a higiene das mãos e lançadas inadvertidamente nos vasos sanitários, esses resíduos acabam amalgamados pelo grande volume de gorduras e óleos dos esgotos, formando grandes blocos com mais de 80 metros de comprimento e até 100 toneladas de peso. O desmonte e a remoção dessas “baleias” das redes de esgoto da cidade, é claro, requer muita mão de obra e custa muito dinheiro

Aqui no Brasil o problema também está crescendo, mas, até onde eu saiba, ainda não cunhamos nenhuma expressão tupiniquim para representar o problema – a expressão “monstro dos esgotos“, inclusive já chegou a ser utilizada. Deixo aqui minhas sugestões: jabuticabas subterrâneas e/ou peixes-boi

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