OS PROBLEMAS COM A DRENAGEM DAS ÁGUAS PLUVIAIS NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

Enchentes em São Paulo

Na última postagem eu fiz um relato do caos criado pela primeira grande enchente desta nova temporada de chuvas na Região Metropolitana de São Paulo. Entra ano e sai ano, e os problemas parecem continuar os mesmos – aliás, a sensação é que na verdade estão num ritmo de crescimento contínuo. Esses problemas não são recentes – eles vêm acompanhando o forte crescimento das cidades da região desde meados do século XIX. Como a maior parte dos leitores do blog são de outras regiões do país e do exterior, acho que vale a pena relembrarmos um pouco da história das enchentes aqui na Paulicéia

Se qualquer um dos leitores tiver a oportunidade de subir ao terraço de um dos grandes edifícios da Avenida Paulista, terá a oportunidade de ter uma visão panorâmica da cidade de São Paulo e de trechos de algumas cidades vizinhas, que através de um intenso processo de conurbação, foram se juntando e formando uma única megalópole, com perto de 16 milhões de habitantes. Também será fácil observar que grande parte dessa área urbana é plana, formando uma extensa bacia sedimentar, com alguns maciços rochosos em destaque – a Serra da Cantareira, o Pico do Jaraguá e o espinhaço da Avenida Paulista/Vila Mariana, entre outros. 

O principal rio que corta a região Metropolitana é o famoso Tietê, que entra pela região Leste, atravessando os municípios de Arujá, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba e Guarulhos, até cruzar todo o município de São Paulo. Na Zona Oeste da cidade de São Paulo, na divisa com o município de Osasco, o rio Tietê toma o seu caminho de saída rumo ao interior do Estado, atravessando outros municípios da área Metropolitana como Carapicuíba, Barueri, Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, entre outros. 

Dentro da Região Metropolitana, o rio Tietê tem dois grandes afluentes, o Tamanduateí, que nasce no município de Mauá e atravessa parte da região do ABCD, e o rio Pinheiros, que atravessa boa parte da região Sul da cidade de São Paulo. Além desses dois rios maiores, a bacia hidrográfica do rio Tietê na Região Metropolitana possui milhares de pequenos rios e córregos. De acordo com dados da Prefeitura da cidade de São Paulo, existem pelo menos 186 sub-bacias hidrográficas somente dentro da área desse município. São entre 200 e 300 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 2.000. Essa falta de certeza sobre o número exato de cursos d’água dentro do município está na raiz do problema das enchentes e ajuda a entender o caos que se forma em toda a Região Metropolitana nos dias de chuvas mais fortes. 

Até meados do século XIX, São Paulo era uma cidadezinha sem maior importância, perdida no alto da Serra do Mar. A cidade só começou a ganhar alguma relevância após a chegada das primeiras linhas férreas, que ligavam os grandes centros produtores de café no interior do Estado ao Porto de Santos. Foi justamente por estar no entroncamento dessas linhas de trens, que São Paulo começou a se destacar e se transformou, bem aos poucos, em um importante entreposto comercial entre o litoral e o interior. 

Canalizando os lucros dos grandes cafeicultores do interior do Estado, a cidade começou a crescer rapidamente, recebendo gente de todo o mundo. Os grandes contingentes de imigrantes estrangeiros que foram recrutados para trabalhar nas plantações de café, passavam obrigatoriamente pela cidade de São Paulo – alguns acabavam ficando por aqui e outros voltariam mais tarde. Com o crescimento da cidade, passou-se a uma busca frenética por terrenos para a construção de casas, hotéis, lojas, galpões e, mais tarde, fábricas. As várzeas e margens dos muitos córregos que cortavam a cidade passaram a ser vistas como áreas com enorme potencial para receber todas essas construções. Então, sem maiores estudos e preocupações ambientais, córregos e rios passaram a ser canalizados e aterrados – a cidade, literalmente, cresceu por cima dessa imensa rede hídrica.

Décadas mais tarde, foram as áreas de várzeas dos rios Tietê e Tamanduateí que entraram na alça de mira da especulação imobiliária. O curso destes dois rios era extremamente sinuoso e com grandes áreas de várzeas ou baixadas, justamente para permitir que nos períodos das fortes chuvas, que sempre caíram no Planalto de Piratininga, houvesse espaço para o transbordo do excesso de água. Essas áreas enchiam rapidamente e liberavam a água aos poucos, evitando assim maiores enchentes em outras regiões da cidade. 

Pois bem – para conseguir mais áreas para o crescimento das cidades, tanto o rio Tietê quanto o Tamanduateí passaram por grandes obras para a retificação dos seus cursos. Os antigos e longos leitos sinuosos foram transformados em canais, burocraticamente, retos. As antigas áreas de várzeas passaram a ser aterradas e as cidades, que nunca paravam de crescer, avançaram sobre essas antigas áreas. Outros tantos rios e córregos das cidades também passaram por esses processos de retificação dos seus leitos e foram ocupados pelas famosas avenidas de fundo de vale

O resultado de todo esse longo processo de canalização de rios, córregos, e ocupação das  suas áreas de várzea foi um só – não sobrou muito espaço nas áreas urbanas da Região Metropolitana de São Paulo para acumular os excedentes de águas nos dias de grandes chuvas. É por isso que basta uma chuva mais forte para aparecer um ponto de enchente; se for uma chuva generalizada e forte, como essa de poucos dias atrás, teremos então uma mega enchente. Simples assim. 

Existem soluções? 

Sim – é necessário ampliar e rebaixar a calha dos rios e córregos que restaram, criando assim espaço para se acumular água. Também é necessária a construção de piscinões e bacias de detenção, entre outros dispositivos hidráulicos, que permitam a acumulação da maior quantidade possível de água das chuvas. Outro caminho é tornar os solos das áreas urbanas permeáveis, de forma que parte da água das chuvas seja absorvida antes de chegar aos canais dos corpos d’água. Tanto a realização das obras quanto a desapropriação dos terrenos exigem grandes volumes de dinheiro, dinheiro esse que as cidades não têm. Vemos então o jogo de empurra-empurra dos políticos após cada grande enchente. 

Essa história aconteceu nas cidades da Região Metropolitana de São Paulo e em outras por todo o Brasil – a rede natural de drenagem das águas pluviais, que são os rios e córregos, foi comprometida pelo crescimento das próprias cidades e agora não há dinheiro para se criar uma rede de drenagem artificial. 

Então, as enchentes dos períodos de chuva passaram a fazer parte das paisagens. 

 

A CIDADE DE SÃO PAULO E A PRIMEIRA MEGA ENCHENTE DA TEMPORADA

Enchente em São Paulo

Um roteiro dos mais manjados: entre as 19 horas e a meia noite desta última sexta-feira, dia 30 de novembro, a cidade de São Paulo registrou 45,1 mm de chuvas, o que corresponde a exatamente um terço das chuvas esperadas para todo o mês de novembro. Já no sábado, dia 1° de dezembro, foram registradas até as 7 horas da manhã mais 21 mm de chuvas na cidade, o que corresponde a 11% do que é esperado para todo o mês de dezembro. Resultado: um caos em grande parte da cidade (vide foto)

Os problemas, infelizmente, não se limitaram à cidade de São Paulo: na região do ABCD, sigla usada para identificar as cidades vizinhas de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema, os estragos com a chuva não foram menores. Do outro lado da Região Metropolitana, foram as cidades de Franco da Rocha, Caieiras e Francisco Morato que sofreram as consequências do transbordamento do rio Juqueri. Em Itaquaquecetuba, município limítrofe com o extremo Leste da cidade de São Paulo, também foram registrados inúmeros alagamentos. Entre outros graves problemas, as chuvas provocaram o fechamento do Aeroporto de Congonhas, cancelando ou atrasando dezenas de voos.  

A segunda parte do roteiro: de acordo com informações publicadas pelo Portal G1, a Prefeitura da Cidade de São Paulo tinha uma previsão de gastar, nos exercícios de 2017 e 2018, cerca de R$ 575 milhões em obras e sistemas de monitoramento contra enchentes – desse total previsto, somente R$ 222 milhões, ou 38% do orçamento, foram gastos. Do total previsto no mesmo período para obras de drenagem de águas pluviais, um dos serviços mais básicos de competência das prefeituras, foram gastos R$ 279 milhões, cerca de 35% do valor previsto de R$ 824 milhões.  

Sem nos preocuparmos com a qualidade das obras e dos serviços que foram efetivamente realizados, e que normalmente deixam muito a desejar, peço que observem que há um verdadeiro descaso das autoridades municipais em relação aos problemas ligados às chuvas. Em nosso país, onde felizmente não estamos sujeitos a nevascas, furacões e terremotos mais fortes, temos uma característica bem tropical – uma temporada de chuvas, que se repete ano após ano, com algumas variações de intensidade e de período, conforme a região do país. 

Com tamanha previsibilidade desse período de chuvas e, previsivelmente, das consequências e problemas que essas chuvas vão provocar nas áreas urbanas e rurais de todo país, como é que as autoridades de todos os níveis de Governo não conseguem, ao menos, executar num orçamento municipal, o que foi previsto? Vejam que, no caso da cidade de São Paulo, apenas um terço do que foi orçado foi realizado. 

Sem entrar no mérito da incompetência de muitas “otoridades” indicadas para exercer cargos técnicos na administração pública e nos muitos desvios de condutas (uma forma mais simpática de falar de roubalheira) na contratação de obras pelos Governos, deixem-me citar dois exemplos da dificuldade que as empresas de construção civil enfrentam para realizar obras públicas lícitas na Região Metropolitana de São Paulo: 

Entre os anos de 2010 e 2012, eu trabalhei em diversas obras do Projeto Tietê na Região Metropolitana de São Paulo. Essas obras tinham como meta a ampliação do volume de esgotos coletados e tratados na Região Metropolitana, contando com financiamento de um banco do Japão e realização a cargo da Sabesp, a empresa estadual de saneamento básico. Projeto bem definido, metas claras e recursos financeiros disponíveis – tudo o que se precisa para tocar uma obra, certo?

Não! 

Em cidades como Francisco Morato, Pirapora do Bom Jesus, Arujá e Caieiras, as Prefeituras liberavam o alvará para a realização das obras entre 7 e 15 dias. Explicando: para realizar obras em vias públicas (redes de água tratada, de águas pluviais e de esgotos, além de redes elétricas, de TV a cabo, internet e de telefonia), uma construtora precisa apresentar o projeto e o cronograma das obras para a Prefeitura da cidade, onde será feita uma análise dos impactos das obras no dia a dia da população local. Alterações no fluxo do trânsito, rotas de linhas de ônibus, acessos a hospitais e serviços públicos – tudo é analisado e pensado de forma a se minimizar os impactos. Uma vez liberado o alvará, a Prefeitura tem obrigação de fiscalizar a obra e cobrar a execução dos prazos pela construtora. 

Pois bem – enquanto nessas cidades vizinhas era relativamente fácil realizar as obras contratadas, em São Paulo era praticamente impossível. Ao entrar com a documentação na Prefeitura da Cidade solicitando o alvará para realização das obras, as repartições responsáveis pediam de 6 a 8 meses apenas para analisar o pedido, além de um prazo indefinido para a liberação do alvará. Não há como uma construtora esperar tanto tempo, mantendo funcionários e equipamentos em ritmo de espera. 

Um outro caso – nesse mesmo pacote de obras, realizamos obras no Jardim São José, um bairro da cidade de Osasco. A certa altura, era necessário fazer a interligação das redes de esgotos do bairro, atravessando a principal avenida local. Após conversas com a Prefeitura de Osasco, ficou acertado que a obra seria realizada numa madrugada de sábado para domingo, causando o mínimo de transtornos para a população. No dia e na hora programados, nossa equipe mal iniciou os trabalhos de corte do asfalto quando o engenheiro responsável recebeu um telefonema com ordem vinda diretamente dos altos escalões da Sabesp, mandando parar a obra e desbloquear a avenida. 

Foi somente no começo da semana seguinte que se entendeu o que aconteceu – um ex-diretor da Sabesp, que bem por acaso morava na região, se sentiu incomodado em pegar um engarrafamento no começo da madrugada e ligou para o presidente da empresa exigindo uma explicação. Uma única “ex-otoridade” teve poder suficiente para paralisar uma obra pública,  que beneficiaria dezenas de milhares de pessoas e causou um prejuízo de dezenas de milhares de reais para a construtora. 

Moral da história: enquanto burocratas e “otoridades” desqualificadas continuarem a mandar e a desmandar no serviço público sem critérios técnicos claros, todos os cidadãos vão continuar sofrendo com enchentes e alagamentos, com esgotos correndo a céu aberto, com encostas de morros desmoronando, com viadutos e pontes sem manutenção (vejam o caso do viaduto de São Paulo que cedeu), entre outros problemas que assistimos no nosso dia a dia. 

Muito pior: desperdiçando dinheiro público, que de público não tem nada – é nosso dinheiro.

OS FÓSSEIS DA CHAPADA DO ARARIPE

Pterossauro

Na última postagem falamos dos sérios problemas ambientais enfrentados pela Chapada do Araripe, na divisa dos Estados do Piauí, Ceará e Pernambuco, uma importante Unidade de Conservação cercada pela Caatinga por todos os lados. A exploração da gipsita, matéria prima do gesso, e os desmatamentos estão entre os maiores problemas. 

Existe, porém, um outro problema grave, que diferencia a Chapada do Araripe de outras Unidades de Conservação brasileiras: os solos da sua bacia sedimentar, que num passado geológico distante já foi o fundo de um mar raso, concentram uma grande quantidade de fósseis de animais e de plantas dos Períodos Jurássico e Cretáceo.

Essa grande concentração de fósseis, que ajuda a entender a biologia e os biomas de épocas remotas da história de nosso planeta, são alvos da cobiça de muitos estudiosos das mais diferentes universidades mundo afora, que por meios legais e, digamos, não convencionais, se esforçam para conseguir ter acesso a eles.  

O contrabando desses fósseis, que conta com a cumplicidade de muitos moradores pobres da região, é um negócios bastante rentável para alguns grupos e uma fonte de dinheiro extra para muitos. Essa atividade ilícita ajuda a empobrecer o patrimônio cultural do país e é um dos grandes desafios para os gestores ambientais da Chapada do Araripe e das autarquias que cuidam do patrimônio mineral e geológico do país. Apesar de fugir da linha editorial do blog, será interessante analisarmos um pouco mais esse problema. 

O botânico escocês George Gardner realizou as primeiras pesquisas na Chapada do Araripe em 1840. Ele coletou uma série de fósseis na região, que foram encaminhados para análise do cientista suíço Louis Agassiz, um especialista em ictiologia, ramo da zoologia que se dedica ao estudo dos peixes.

Após vários estudos, chegou-se à conclusão que os fósseis eram do Período Cretáceo, que se estende entre 145 e 66 milhões de anos atrás. A divulgação dessas conclusões atraiu para a Chapada do Araripe alguns dos mais importantes pesquisadores estrangeiros do século XIX, como Edward Drinker Cope, Arthur Smith Woodard, David Starr Jordan e John Casper Branner.

Desde aqueles anos pioneiros até os nossos dias, a Chapada do Araripe vem recebendo cientistas de todo o mundo e também de universidades de todo o Brasil. Todos esses pesquisadores realizaram inúmeras escavações e fizeram descobertas de fósseis de peixes, répteis, insetos, dinossauros, pterossauros e plantas de inúmeras espécies.

Na região foi encontrada também uma floresta petrificada – existia na região uma grande floresta de pinheiros há cerca de 140 milhões de anos, que acabou encoberta pelas águas e teve parte dos seus troncos e raízes petrificados.

Como a região é muito grande e a fiscalização pelo poder público sempre foi deficiente, foi muito grande o número de fósseis que foram levados ilegalmente para outras regiões do Brasil e também para outros países. Coleções de universidades e museus de todo o mundo possuem fósseis encontrados na Chapada do Araripe. 

Desde o começo do século XX, com a criação do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil em 1907, que as autoridades tentam controlar o acesso de pesquisadores e a escavação dos solos em busca desses preciosos fósseis. Entre outros esforços, foram fundadas duas instituições voltadas a pesquisas na região – o Museu de Paleontologia da cidade de Santana do Cariri, que tem um convênio com a URCA – Universidade Regional do Cariri, e o CPCA – Centro de Pesquisas Paleontológicas da Chapada do Araripe, com sede na cidade do Crato, no Sul do Ceará.  

O CPCA possui um acervo com mais de 4 mil peças, coletadas nos sítios paleontológicos da região e também conta com peças confiscadas de contrabandistas. Cerca de 80% dos fósseis do seu acervo já foram identificados e catalogados, apesar da instituição possuir um quadro de especialistas extremamente reduzido. Devido à falta de espaço em sua sede, a entidade só consegue expor para visitação do público uma pequena parte desse acervo. Um outro grave problema é a falta de fiscalização – são apenas dois funcionários da entidade para fiscalizar uma área com 12 mil km². 

Entre os fósseis mais cobiçados pelos contrabandistas estão os pterossauros, espécies de répteis que conseguiam voar ou planar, e que podem ter alguma ligação com os ancestrais de muitas espécies de aves modernas. Um dos mais magníficos desses pterossauros é o Tupuxuara deliradamus (vide foto), que chegava a atingir uma envergadura de 4,5 metros e sobrevoava a região há mais de 100 milhões de anos.

Vários contrabandistas com fósseis desta espécie já foram presos na região, mas é impossível calcular quantos outros conseguiram ser levados para o exterior e que estão sendo expostos em museus de todo o mundo.  

Segundo informações de policiais locais, há notícias de contrabandistas da região que receberam até US$ 10 mil por conseguir despachar um fóssil raríssimo de uma ave fossilizada com as penas. Esse fóssil está em exposição no Museu de História Natural da Universidade de Tóquio, onde os visitantes pagam ingresso para ver esse espécime legítimo da Chapada do Araripe. Como se tudo isso não bastasse, foram os cientistas japoneses que fizeram a descrição do animal e a publicação de artigos científicos nas revistas especializadas. 

É sonhando com o recebimento dessas grandes quantias que muitos habitantes da região se embrenham pelas matas e saem escavando o solo e derrubando importantes fragmentos das matas. Isso isoladamente pode parecer pouco, mas vai se juntando com a mineração da gipsita e a queima de lenha para a produção do gesso, com os incêndios acidentais nas matas que começam com as queimadas nos roçados dos pequenos agricultores, com a caça de animais para o consumo da carne pelas populações pobres e a captura de animais vivos para venda nas feiras da região. 

De pouco em pouco, a luxuriante Chapada do Araripe vai se transformando em uma terra destruída e calcinada, como vem acontecendo por toda a região da Caatinga nordestina desde os primeiros anos de nossa história colonial. Simplesmente, lamentável. 

AS AGRESSÕES AMBIENTAIS QUE PÕEM EM RISCO A CHAPADA DO ARARIPE

Chapada do Araripe

Nas últimas postagens falamos das belezas naturais e das fontes de águas de diversas serras, chapadas e outras formações geológicas importantes do país. Entre outras, falamos da Serra da Canastra, em Minas Gerais, da Serra dos Órgãos no Rio de Janeiro, da Chapada Diamantina, na Bahia, e da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Em todas essas belas localidades existem problemas, de menor ou de maior gravidade, que merecem uma atenção cada vez maior das autoridades ambientais de todos os níveis de Governos. 

Para a postagem de hoje, foi escolhida a Chapada do Araripe, uma importante formação geológica que fica na divisa dos Estados do Piauí, Pernambuco e Ceará. A Chapada se distribui por 33 municípios nesses três Estados, onde vivem mais de 800 mil habitantes. Infelizmente, a situação do Araripe é deveras preocupante – o grau de problemas e de agressões ambientais vivenciados em seus domínios geram muito mais notícias negativas do que todas as boas manchetes criadas pelas belezas naturais do lugar, que são muitas aliás. 

A mais antiga Unidade de Conservação da região é a Floresta Nacional do Araripe, criada através de Decreto-Lei em 1946, no Governo Eurico Gaspar Dutra. A área da Floresta possuía 38.263 hectares, englobando terras dos municípios de Santana do Cariri, Crato, Barbalha e Jardim, no extremo Sul do Estado do Ceará. Em 1996, foi criada uma APA – Área de Proteção Ambiental e, em 2016, o Geoparque do Araripe, o primeiro das Américas a ser reconhecido pela UNESCO – Fundo das Nações Unidas para Educação e Cultura.  A área total corresponde a mais de 1 milhão de hectares, sob administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Proteção a Biodiversidade. O formato dessa área lembra uma “ilha verdejante” no meio da Caatinga, com cerca de 178 km de extensão, no sentido Leste-Oeste e 58 km de largura no sentido Norte-Sul

Parte dos solos da Chapada do Araripe, os latossolos, foram formados num período que se situa entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás e são ricos em fósseis de animais pré-históricos dos períodos Jurássico e Cretáceo. Pesquisadores já encontraram fósseis de diversas espécies de dinossauros e afirmam que toda a região da Chapada do Araripe possui importantes sítios paleontológicos (vide foto). A região também é rica em solos de origem sedimentar, propícios para a infiltração de grandes volumes de águas das chuvas e formação de aquíferos, um recurso extremante importante para a região do Semiárido. 

Contrapondo-se ao clima seco do Semiárido, os relevos da Chapada do Araripe apresentam uma atmosfera bem mais amena, com uma densa cobertura vegetal e com inúmeras fontes de água – entre 250 e 348 nascentes, conforme a fonte consultada. A vegetação mistura a Caatinga com fragmentos de Cerrado e da Mata Atlântica. Com toda essa diversidade de biomas, a Chapada do Araripe teria enorme potencial para ser a “grande arca” da biodiversidade do Semiárido Nordestino. Mas não é exatamente isso o que está acontecendo por lá.  

A Chapada do Araripe concentra 40% das reservas mundiais de gipsita, minério que é a matéria prima do gesso. O gesso é um material de construção dos mais versáteis e muito utilizado na fabricação de placas para tetos, divisórias de escritórios (os famosos “drywalls”) e blocos para a construção de paredes, entre outras peças. A gipsita da região apresenta um grau de pureza entre 88 e 98%, sendo considerada a mais pura do mundo. Cerca de 95% da produção de gesso do Brasil sai de minas e de empresas instaladas no entorno da Chapada do Araripe

Os números “açucarados” dos Governos locais falam dos ganhos econômicos e dos empregos gerados pela indústria do gesso – somente no Estado de Pernambuco, a atividade emprega, direta e indiretamente, 12 mil empregos em 42 minas, 174 usinas de calcinação e em 750 indústrias de peças pré-moldadas em gesso. Para a produção do gesso, a gipsita é primeiro britada (quebrada em pequenos pedaços) e depois colocada em fornos, onde é calcinada sob altas temperaturas – é justamente aqui onde se apresentam os maiores problemas ambientais dessa atividade. 

Os fornos primitivos utilizados para a calcinação do minério utilizam a queima da lenha como fonte de energia térmica. Segundo cálculos das próprias empresas do setor, são consumidos anualmente pelo Polo Gesseiro do Araripe cerca de 652 mil metros cúbicos de lenha nesses fornos. Essa lenha é oriunda da derrubada da vegetação local, onde as matas da Chapada do Araripe, especialmente a Caatinga, estão entre as principais fornecedoras.

Além do grande desastre ambiental que essa devastação representa, inclusive já se observam solos na região em estágio avançado de desertificação, a calcinação da gipsita gera uma nuvem de pó fino sobre toda a região. Quando inalado pela população, esse pó atinge os pulmões e causa sérios problemas nos brônquios. Outra fonte de problemas para as populações são os rejeitos minerais que sobram desse processo de calcinação da gipsita, que são descartados sem maiores cuidados pelas empresas. 

Além das pressões ambientais geradas pela indústria do gesso, a Chapada do Araripe também sofre com a extração de madeira e lenha para uso pelas populações da região de entorno. Outra grande fonte de problemas são os incêndios florestais, resultantes das queimadas sem controle feitas pelos agricultores pobres da região. Para a produção de suas culturas de subsistência, esses agricultores utilizam a tradicional técnica indígena da coivara – a vegetação é queimada para limpar o solo para o plantio – as cinzas resultantes da queima funcionam como um tipo de adubo para os solos. Sem controle, o fogo avança sobre as matas nativas.

Finalizando, um grave problema ambiental muito específico dessa região são as escavações feitas para a retirada clandestina de fósseis dos sítios paleontológicos. A venda de fósseis, o que é proibido pelas leis brasileiras, gera uma “renda extra”  para as populações pobres da região. Por mais irônico que possa parecer, não há qualquer irregularidade ou ilegalidade na calcinação de fósseis que estejam misturados nos blocos de gipsita.

Esse verdadeiro cerco à Chapada do Araripe, com agressões ambientais por todos os lados, tem alto potencial para comprometer os importantes recursos hídricos produzidos por suas inúmeras fontes de águas, prejudicando o abastecimento das populações dessa região do Semiárido e comprometendo ainda mais a sofrida produção agropecuária. E, como sempre acontece nesses caso, a grande riqueza da região, que são os ganhos com a produção e venda das peças pré-moldadas de gesso para a construção civil e de gesso em pó para o uso na agricultura, ficam nas mãos de um pequeno e muito seleto grupo de empresários. 

Enquanto isso, a Chapada do Araripe e seu povo, padecem… 

CHAPADA DOS VEADEIROS: ONDE A BELEZA NATURAL DO CERRADO É O GRANDE DESTAQUE

Chapada dos Veadeiros

O Cerrado é um dos mais importantes biomas do Brasil, ocupando uma área com aproximadamente 2 milhões de km² ou algo próximo de 25% do território do país. Apesar da vegetação típica do Cerrado, com suas árvores relativamente pequenas e com galhos irregulares, não parecer lá grande coisa quando comparada com a vegetação da Amazônia ou de trechos preservados da Mata Atlântica, ela tem uma importância fundamental na recarga dos grandes aquíferos do território brasileiro. As raízes dessa vegetação são extremamente longas, facilitando a infiltração das águas das chuvas nos solos – não por acaso, das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem nascentes na região do Cerrado. 

A importância dos recursos hídricos da região do Cerrado, em especial do Planalto Central, é tamanha que, entre outras definições, o bioma é chamado de “berço das águas” e “caixa d’água” do Brasil. A Chapada dos Veadeiros, localizada na região Central do Estado de Goiás, nos dá um grande exemplo dessa fartura de recursos hídricos do Cerrado. Criado em 1961 com o nome de Parque Nacional do Tocantins e remodelado através de Decreto Federal em 2017, já com o nome oficial de Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, essa Unidade de Conservação abriga 466 nascentes de água, além de proteger espécies da flora e da fauna do Cerrado sob grave ameaça. 

Localizada a pouco mais de 270 km de Brasília, a Chapada dos Veadeiros tem muitas histórias para contar. A ocupação da região começou em meados do século XVIII e, segundo os registros históricos, foi delimitada inicialmente com o nome de Fazenda Veadeiros, que era utilizada basicamente para a criação de gado. Em um outro capítulo de sua história, a Chapada foi visitada em 1892 pela Comissão Exploradora do Planalto Central. A Constituição Republicana do Brasil, promulgada em 1891, estabeleceu que a nova Capital do país deveria ser estabelecida no Planalto Central e essa Comissão Exploradora tinha como missão determinar o melhor sítio para essa futura mudança, o que só ocorreria em 1960

Em 1912, um novo capitulo – é encontrada a primeira jazida de cristal de rocha na Chapada dos Veadeiros, evento que dá início a uma corrida de garimpeiros para a região. Esses cristais, que normalmente são quartzo hialino, geralmente são transparentes, mas também podem ser encontrados em diversos tons de roxo e, mais raramente, na cor azul. Esses cristais, além de sua importância como pedras semi preciosas para a indústria de jóias, também possuem, segundo os mais místicos, propriedades energéticas, fato que acabou ajudando a transformar a Chapada dos Veadeiros em um centro místico do Brasil Central. 

Pouco mais de um ano após a inauguração de Brasília, a nova Capital do Brasil, o Presidente Juscelino Kubitschek assinou um decreto criando o Parque Nacional do Tocantins, com uma área prevista de 625 mil hectares. Com o passar dos anos, a área oficial da unidade foi sendo gradualmente reduzida, após o Governo Federal perder disputas judiciais com os proprietários de áreas incorporadas ao Parque Nacional. Essa área chegou a ser reduzida a 65 mil hectares. Em 2017, a partir da publicação de um novo Decreto, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros voltou a crescer, ocupando agora uma área de 240 mil hectares e passou a ser administrado pelo ICMbio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade

O Cerrado, conforme já comentamos inúmeras vezes nas postagens do blog, é um dos biomas brasileiros que mais vem sofrendo pressão ambiental nas últimas décadas, especialmente ante o avanço implacável dos campos de soja e de outros grãos, cujas culturas se expandem fortemente nos seus domínios. Calcula-se que algo em torno de 50% da vegetação original do Cerrado já foi suprimida, colocando em risco a sobrevivência de plantas e de animais característicos do bioma. A criação e a manutenção de Unidades de Conservação (UC), como o Parque Nacional da Chapadas dos Veadeiros, é de suma importância.

Entre os grandes destaques da Chapada dos Veadeiros temos o rio Preto, afluente do rio Tocantins, que ao longo do seu curso inicial apresenta uma série de cachoeiras. Outro destaque são as piscinas termais, onde a temperatura da água chega aos 38° C. Da vegetação típica do Cerrado, o Parque abriga cerca de 1.500 espécies já identificadas, de um total de 6.429 existentes no bioma, o que demonstra sua importância como unidade de Conservação. Dessas espécies da flora, cerca de 50 são consideradas como raras, endêmicas e em risco de extinção

Destaques entre as espécies animais são o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) e o veado-campeiro (Ozotocerus berzoarticus), animais de grande porte ameaçados pela caça predatória e pela perda de habitat. Também entram nessa lista a onça-pintada (Panthera onca) e o lobo-guará (Chysocyon brachyurus), duas espécies icônicas do Cerrado. Entre as aves, destacam-se a ema (Rhea americana) e o urubu-rei (Sarcorampus papa). No total, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros abriga 32 espécies animais sob risco de extinção.

As belas formações rochosas da Chapada dos Veadeiros têm a predominância do quartzito, uma rocha metamórfica (que foi modificada ao longo das eras por vulcanismo). Essas rochas são extremamente duras e com alta resistência à erosão e ao intemperismo, o que resultou no aspecto atual das formações rochosas, com grande destaque para as inúmeras cachoeiras e formações incomuns como o Vale da Lua.

Finalizando, mais um capítulo na história da Chapada dos Veadeiros – um grande incêndio, em outubro de 2017, destruiu cerca de 35 mil hectares da vegetação nativa do Parque. O resiliente Cerrado, como a fênix mitológica, mais uma vez ressurge das cinzas e já mostra todo o seu esplendor e beleza, pouco mais de um ano depois da tragédia.

É ver para crer.

UMA BREVE HISTÓRIA DA OCUPAÇÃO HUMANA NA CHAPADA DIAMANTINA

Garimpo na Chapada Diamantina

Entre as décadas de 1920 e 1930, se consolidou nos meios acadêmicos dos países mais importantes do mundo a teoria da migração de populações humanas para o grande continente americano através do Estreito de Bering. De acordo com essa teoria, durante a última Era Glacial, que terminou a cerca de 20 mil anos atrás, a concentração de gelo nos continentes e nos mares provocou uma redução do nível dos oceanos em, pelo menos, 120 metros. Com essa redução, surgiram várias “pontes” de terra seca entre continentes e ilhas. Exemplos dessas “pontes” foram as ligações terrestres surgidas entre as ilhas do Japão e a península coreana, e também as ligações entre a Austrália, a ilha da Tasmânia e a Nova Guiné. No Estreito de Bering, que separa a América do Norte e a Ásia, surgiu uma dessas “pontes” secas, o que permitiu que populações humanas da Ásia, e também muitas espécies animais, migrassem para as Américas.

Apesar de toda a beleza e simplicidade dessa teoria, ela tem um problema grave – esqueceram de combinar as datas com os índios. Nas últimas décadas têm surgido inúmeras evidências arqueológicas por todo o continente americano – do Alasca à Terra do Fogo, que mostram a existência de agrupamentos humanos em datas bem anteriores à “ponte” do Estreito de Bering. Um exemplo importante são os sítios arqueológicos da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Estado do Piauí. A datação de achados arqueológicos e antropológicos dessa região pelo método de Radiocarbono (ou Método do Carbono 14) indicam a presença de populações humanas entre 20 e 50 mil anos atrás. 

Na região da Chapada Diamantina, conforme comentamos na postagem anterior, existem dezenas de sítios arqueológicos, especialmente em cavernas e sob formações rochosas “abrigadas”, onde a datação dos achados remonta a períodos de tempo entre 8 e 35 mil anos atrás, datas que também põem em xeque a teoria do Estreito de Bering. As razões para essa ocupação da Chapada Diamantina são bem simples: grande fartura de fontes de água e de alimentos, abrigos naturais nas cavernas e um clima muito mais agradável quando comparado ao calor escaldante do Semiárido. Graças a todas essas características, a região foi sendo ocupada por sucessivas gerações de diferentes povos indígenas ao longo dos milênios. 

Uma “segunda onda” de povoamento na região da Chapada Diamantina se deu, oficialmente, a partir de 1844, quando garimpeiros descobriram os primeiros diamantes nos rios da região, no local onde foi fundada a cidade de Mucugê. As notícias dessa descoberta correram os sertões como “um rastilho de pólvora” e provocaram uma verdadeira corrida de garimpeiros para a região (vide foto). Gradativamente, as áreas de garimpo começaram a assistir ao nascimento de pequenos povoados e vilas. Importantes cidades  da região, como Lençóis e Andaraí, surgiram assim. 

O tipo de mineração realizada por esses garimpeiros é conhecido como garimpo de aluvião – o cascalho do fundo dos rios é vasculhado com uma bateia, uma espécie de bacia metálica, e as pedras de diamantes são identificadas visualmente. Esse tipo de mineração também permite a busca de ouro, minério que costuma ocorrer nos mesmos solos onde se encontram diamantes. Para a separação do ouro dos cascalhos e areias, os garimpeiros utilizavam o mercúrio, um elemento químico extremamente danoso ao meio ambiente. A região da Chapada Diamantina nunca chegou a produzir os volumes de ouro e diamantes encontrados nas Minas Geraes no século XVIII e o garimpo entrou em decadência na década de 1970. Ainda hoje se encontram alguns garimpeiros tentando a sorte nos rios da região. 

Em décadas mais recentes, a região da Chapada Diamantina passou a ser invadida por uma “terceira onda” de seres humanos – os turistas. As grandes formações rochosas com seus picos cercados por nuvens; as fortes corredeiras, cachoeiras e piscinas naturais; as cavernas gigantescas, as trilhas rústicas que atravessam diferentes tipos de biomas, os sítios arqueológicos de importância ímpar, as pequenas cidades históricas com suas populações receptivas e clima agradável. Toda essa somatória de atrativos transformou a Chapada Diamantina em um importante polo para os praticantes de esportes radicais e do turismo de aventura. Esse fluxo de visitantes deu um novo fôlego econômico para as pequenas e decadentes cidades, que ficaram “órfãs” com a fim da mineração em larga escala. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, esse tipo de turismo, quando bem gerenciado e controlado, tem enorme potencial para a geração de renda nessas pequenas cidades. Os turistas precisam de hospedagem, alimentação, equipamentos esportivos, guias turísticos, transportes e apoio através de toda uma rede de serviços, que vai de mercadinhos a lavanderias, de farmácias a postos de gasolina. O mais importante – quanto mais naturais e preservados são os ambientes, mais felizes ficam esses turistas. 

A falta de uma melhor infraestrutura em toda a região, onde se inclui a falta de hotéis, de aeroportos, de estradas e de infraestrutura básica como restaurantes e banheiros nas proximidades de muitas das atrações da Chapada Diamantina, funcionam como uma espécie de limitador do número de turistas que visitam a região, o que, a seu modo, colabora para a preservação ambiental. Nada impede que, respeitadas as regras de preservação das paisagens e dos meios naturais, que se aumente a infraestrutura e o número de visitantes. 

Como exemplos podemos citar dois importantes parques naturais dos Estados Unidos, que têm características similares a Chapada Diamantina: o Yosemite Park, na Califórnia – criado em 1890, e o Gran Canyon, no Arizona – criado em 1919. Esses parques nacionais receberam 3 e 6 milhões de visitantes, respectivamente, em 2017 e continuam muito bem preservados e gerando grandes recursos com as bilheterias para investimento na manutenção e na preservação ambiental

Encerrando, um triste detalhe: as autoridades brasileiras não sabem ao certo qual é o número total de visitantes que a Chapada Diamantina recebe a cada ano. Fazer a gestão de uma área de preservação ambiental tão importante sem conhecer esse número de visitantes é, cá entre nós, algo bastante complicado. 

A GRANDIOSA CHAPADA DIAMANTINA

Chapada Diamantina

As chapadas são formações naturais encontradas em todas as regiões do território brasileiro e se caracterizam por formar uma área elevada nos terrenos, geralmente de grandes dimensões, onde o topo é plano. Esse tipo de formação também é chamado de altiplano e planalto. Exemplos são a Chapada dos Guimarães, no Estado do Mato Grosso, a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e a Chapada do Araripe, na divisa dos Estados do Ceará, Pernambuco e Piauí. As chapadas geralmente se localizam em pontos onde diferentes biomas se encontram, o que as transforma em importantes locais de refúgio para a biodiversidade. Também se caracterizam pela presença de inúmeros afloramentos de água e nascentes de rios, o que lhes reserva um lugar cativo aqui nas páginas do blog

Vamos começar falando da Chapada Diamantina, que se localiza na região Central do Estado da Bahia e se destaca pelo seu tamanho: ocupa uma área de mais de 41,7 mil km², pouca coisa menor que o Estado do Rio de Janeiro, que tem uma área total de 43 mil km². A região da Chapada Diamantina compreende um total de 24 municípios baianos, onde vive uma população de mais de 400 mil habitantes. 

A região onde se encontra a Chapada Diamantina já foi, num passado geológico bastante remoto, uma grande bacia sedimentar e o fundo de um mar raso. Os terrenos da região sofreram um lento e contínuo processo de soerguimento (elevação), devido à movimentação das placas tectônicas. Os processos de erosão dos solos e de intemperismo moldaram as faces atuais do relevo, num trabalho que levou milhões de anos. Os solos e as formações da Chapada são ricos em rochas sedimentares, calcárias e de aglomerados minerais, rochas que facilitam a infiltração da água e a formação de grandes depósitos subterrâneos de água. 

A Chapada Diamantina se estende no sentido Norte-Sul, formando um divisor de águas entre a bacia hidrográfica do rio São Francisco e a bacia hidrográfica do Atlântico Nordeste, onde se incluem os rios Paraguaçu, Jacuípe e de Contas. A maior parte das nascentes desses rios estão localizadas na Chapada Diamantina e se formam a partir da junção das águas de inúmeros pequenos afloramentos nas paredes rochosas e nos cumes dos morros, que se juntam com as águas de incontáveis cachoeiras e de piscinas naturais transparentes. Esses recursos hídricos são fundamentais para uma extensa região da faixa Leste e Sul do Estado – as águas do rio Paraguaçu, citando um único exemplo, são usadas no abastecimento da cidade de Salvador, a capital e maior cidade da Bahia

A altitude média das formações rochosas da Chapada Diamantina se situa entre altitudes de 800 e 1.200 metros acima do nível do mar. Em alguns trechos, porém, os maciços rochosos atingem grandes altitudes e formam algumas das maiores elevações da região Nordeste do Brasil. Destacam-se o Pico do Barbado, com 2.033 metros, o Pico do Itobira, com 1.970 metros e o Pico das Almas, com 1.958 metros. As formações rochosas da Chapada Diamantina fazem parte da mesma formação geológica da Serra do Espinhaço, do Estado de Minas Gerais. 

A grande biodiversidade vegetal e animal, onde se incluem inúmeras espécies ameaçadas, em conjunto com os fartos recursos hídricos e paisagísticos desta esplêndida região, levaram à criação de uma área de preservação ambiental – o Parque Nacional da Chapada Diamantina. Criado através de Decreto Federal em 1985 e contando com uma área de 152 mil hectares, o Parque abrange áreas dos municípios de Adaraí, Ibicoara, Iramaia, Itaetê, Lençóis, Mucugê e Palmeiras. A administração do Parque cabe ao ICMbio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. 

A vegetação da Chapada Diamantina inclui plantas típicas da Caatinga nordestina, que ocorrem em altitudes entre 500 e 900 metros, vegetação de Mata Atlântica nas altitudes mais baixas e ao longo dos cursos dos inúmeros rios, além de possuir inúmeros fragmentos da vegetação do Cerrado. Entre as espécies animais em risco de extinção se incluem a onça-parda (Puma concolor), a onça-pintada (Panthera onca), o gato-do-mato (Leopardus tigrinus), o tatu-canastra (Priodontes maximus) e o Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla). É nececessário um destaque especial ao guigó (Callicebus barbarabrownae), uma espécie de macaco que já foi comum nas florestas ao Sul do rio São Francisco, mas que atualmente está restrita à região da Chapada Diamantina – calcula-se que existam apenas 250 indivíduos dessa espécie vivendo em liberdade. 

Dentre as inúmeras espécies de aves da Chapada Diamantina merecem proteção especial o gavião-pombo-pequeno (Amadonastur lacernulatus), a borboletinha-baiana (Phylloscartes bekeri), a águia-cinzenta (Urubitinga coronata) e o joão-baiano (Synallaxis whitneyi). Inúmeras espécies vegetais endêmicas, onde se incluem diversas espécies de orquídeas, fazem parte da flora local, o que é um motivo a mais para a preservação ambiental de toda essa importante região.

Além de todo esse patrimônio natural, a Chapada Diamantina possui um rico acervo cultural formado por dezenas de sítios arqueológicos, que testemunham a história da ocupação humana na região e que podem ter entre 8 e 35 mil anos de idade. As cavernas e paredões das formações rochosas apresentam inúmeras pinturas rupestres que contam a vida e os hábitos das diversas nações indígenas que vem ocupando a região há vários milênios, algo que fascina e encanta os milhares de turistas que visitam a região a cada ano.

Na próxima postagem vamos falar dessa história milenar da ocupação humana da Chapada Diamantina, que em séculos mais recentes está intimamente ligada à descoberta de ouro e de diamantes. Em anos mais recentes, a região foi redescoberta pela indústria do turismo, especialmente pelos amantes do turismo de aventura, que se transformou numa das atividades econômicas mais importantes e fundamentais para a preservação ambiental e para a geração de emprego e renda para as populações. 

 

SERRA DO IBIAPABA: O LADO MAIS “GELADO” DO CEARÁ E DO PIAUÍ

Bica do Ipu

Aqui pelas bandas do Sul e do Sudeste do país, o Ceará é vendido como a “terra do sol”, com magníficas praias de areias brancas e mares de águas verdes. O Piauí, que aparece bem menos nas propagandas turísticas, não fica muito longe disso. Pouca gente aqui dessa nossa parte mais meridional do país sabe que o Ceará e o Piauí possuem algumas cidades e regiões com temperaturas médias entre 14 e 25° C, amenas a ponto de fazer com que paulistanos e curitibanos se sintam “praticamente” em casa. Destaco a região de Guaramiranga, conhecida pelos locais com a “Suíça cearense”.

Podemos citar também a cidade de Pacoti, localizada num dos pontos mais altos do Maciço do Baturité; e ainda a região da Serra de Meruoca, famosa pelas cascatas, corredeiras e piscinas naturais. Na cidade de Guaraciaba do Norte, no Ceará, os termômetros chegam a marcar 13° C nos meses de inverno (que na região Nordeste corresponde ao período das chuvas), o que é uma temperatura “congelante” para qualquer sertanejo da gema.

A Serra do Ibiapaba, na divisa dos Estados do Ceará e do Piauí, que também é chamada de Serra Grande, Chapada de Ibiapaba e Cuesta da Ibiapaba, é um desses lugares gelados  e pouco conhecidos por brasileiros de fora da região Nordeste. A imensa massa rochosa domina o relevo de Norte a Sul, com altitudes médias de 750 metros. Na face nordeste da Serra, que fica voltada para a Depressão Cearense, o relevo é bastante íngreme, apresentando uma vegetação densa, considerada como um fragmento da Mata Atlântica. A região é uma zona de transição, apresentando micro biomas com características de Cerrado, Mata dos Cocais, Caatinga e também Floresta Amazônica.

A fauna desta face da Serra é extremamente rica, apresentando uma grande diversidade de aves e mamíferos, incluindo onças-pardas, veados-campeiros e pacas. O ambiente físico é diferenciado também pelos altos índices pluviométricos, superiores a 2 mil mm/ano, os mais intensos do território cearense. A face Oeste da Serra da Ibiapaba, que fica voltada para o Piauí, possui um declive suave e gradual, apresentando terras férteis e grande fartura de fontes e quedas de água.  

O relevo da Serra do Ibiapaba é do tipo Cuesta, uma formação que normalmente ocorre nos limites de bacias sedimentares e sobre as quais falamos em postagem recente. Cuesta é a definição geomorfológica usada para se nomear uma elevação ou serra com um cume assimétrico e com inclinação longa e suave. Com altitudes médias de 700 metros, esta Serra intercepta as massas de ar carregadas de umidade que vem do litoral. A umidade é direcionada para o alto dos morros, onde ocorre a condensação do vapor e a formação das chamadas chuvas orográficas ou chuvas de relevo.

Conforme já comentamos, os índices de pluviosidade da Serra da Ibiapaba são bastante altos para uma região no meio do Semiárido e são as águas destas chuvas que alimentam os aquíferos, garantindo, em épocas normais, uma grande disponibilidade de fontes de água, elemento essencial para a produção agrícola em todas as terras de entorno da Serra.

Uma cidade que aproveita como nenhuma outra os recursos hídricos que descem da Serra do Ibiapaba é Castelo do Piauí, conhecida em todo o Nordeste pela qualidade de suas cachaças artesanais. Vários cursos d’água com nascentes no alto da Serra correm na direção de Castelo e irrigam grandes canaviais. Todos os anos, Castelo organiza uma espécie de carnaval local – a Cachaça Fest. Com muita música, comidas e quitutes típicos do sertão, além de dezenas de rótulos de cachaças produzidas na cidade, essa festa chega atrair um público diário de 40 mil pessoas, mais que o dobro da população da cidade

Em 2016, conforme informamos em uma postagem, a cidade foi obrigada a cancelar a festa por falta de cachaça – a forte seca que assolou toda a região Nordeste entre 2011 e 2016, reduziu fortemente as chuvas na Serra de Ibiapaba, o que resultou numa drástica redução dos caudais dos rios e riachos e comprometeu toda a produção dos canaviais e destilarias de Castelo do Piauí. 

Esse rápido exemplo mostra a importância estratégica dos recursos hídricos da Serra do Ibiapaba, que tem seu controle disputado pelos estados do Piauí e do Ceará há, literalmente, séculos. Com aproximadamente 3 mil km², o que corresponde a quase três vezes o tamanho do município de São Paulo, a Serra do Ibiapaba está envolvida em uma antiga disputa fronteiriça. Nos tempos do Brasil Império, um decreto assinado pelo Imperador Dom Pedro II tentou arbitrar uma solução para essa antiga disputa. O decreto transferiu uma área do litoral do Ceará para o Piauí, que em contrapartida transferiu uma área da sua região do Semiárido para o Ceará. Isso pode não parecer muita coisa para vocês, mas para o Piauí, Estado com a menor extensão de litoral do Brasil, foi um grande negócio. 

Porém, a questão não foi completamente resolvida – os dois Estados mantém a disputa, onde estão em jogo as terras férteis e de clima ameno da Serra do Ibiapaba e, é claro, as águas que descem do alto do relevo e correm na direções dos solos semiáridos dos sertões. Quase que totalmente cercada pelo Semiárido Nordestino, a Serra da Ibiapaba é, literalmente, uma ilha verdejante e fria, que será um verdadeiro troféu para o Estado que vencer essa antiga disputa. A questão agora está nas mãos do STF – Supremo Tribunal Federal, e serão necessários muitos anos e muitas negociações para que os Estados do Ceará e do Piauí consigam chegar a um difícil acordo que agrade as duas partes. 

Se você, bem por acaso, for passar algumas semanas de férias no Ceará ou no Piauí e ficar enjoado de tanto calor, dê uma esticada até a Serra da Ibiapaba para conhecer esse “autêntico recanto frio” do Nordeste brasileiro. 

OS GRANDES DESLIZAMENTOS DE ENCOSTAS NA REGIÃO SERRANA DO RIO DE JANEIRO EM 2011

A prefeitura de Teresópolis confirmou a morte de mais 25 pessoas em decorrência da chuva iniciada na noite de terça (11). Só no município, a combinação de chuva e deslizamento provocou a morte de um total de 114 pessoas. Outras 30 pessoas morreram em outr

Na última postagem falamos da belíssima região da Serra dos Órgãos, no interior do Estado do Rio de Janeiro, onde destacamos as paisagens, os recursos hídricos e a biodiversidade das matas. Desde meados do século XIX, quando a Família Imperial Brasileira se encantou pela Região Serrana, as cidades e vilas que surgiram na região foram transformados em refúgios de verão para a alta sociedade da Corte. Como exemplo podemos citar a cidade de Petrópolis, que foi o marco inicial desse tipo de ocupação e foi fundada por iniciativa do Imperador Dom Pedro II após a assinatura de um decreto em 1843. Esse também é o caso da cidade de Teresópolis, que surgiu na década de 1890.

Infelizmente, o crescimento dessas e de outras cidades que foram surgindo por toda a Região Serrana do Rio de Janeiro ao longo do século XX, alterou profundamente essa antiga concepção de “refúgio de verão”. Problemas urbanos nas áreas de saneamento, transporte, saúde e educação foram surgindo por todos os lados e aproximando essas cidades da realidade de outras tantas cidades de todas as regiões do Brasil. Num ponto, em particular, os problemas das cidades da Região Serrana se destacam entre todas as outras: a ocupação desordenada de morros íngremes transformou extensa áreas urbanas em verdadeiras armadilhas. No verão de 2011, desgraçadamente, centenas de moradores dessas cidades foram vitimados por essas armadilhas e morreram soterrados por violentos deslizamentos de encostas. 

Essa tragédia, que tem um lugar de destaque entre todos os grandes desastres naturais já ocorridos no Brasil, deixou um rastro de destruição por toda a Região Serrana do Rio de Janeiro, com especial ênfase às cidades de Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto e Bom Jardim, além de ter provocado reflexos na cidade de Areal, na região Centro-Sul do Estado. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro, foram registradas 916 mortes e perto de 345 desaparecidos nessa tragédia.

Foram registradas 428 mortes em Nova Friburgo, 382 em Teresópolis, 71 em Petrópolis, 21 em Sumidouro, 4 em São José do Vale do Rio Preto e 1 morte em Bom JardimOs números de pessoas desaparecidas na tragédia também são impressionantes: foram 45 em Petrópolis, 180 em Teresópolis, 85 em Nova Friburgo e 2 em Sumidouro. Outras 32 pessoas que moravam em pequenos distritos da Região também engrossam as estatísticas de desaparecidas. Os dados da Defesa Civil registram que aproximadamente 35 mil pessoas ficaram desabrigadas em toda a Região Serrana. Segundo dados da EMOP – Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro, foram registrados mais de 770 deslizamentos de encostas, especialmente entre os dias 11 e 12 de janeiro, período em que fortíssimas chuvas castigaram toda a Região Serrana.

Chuvas fortes em encostas ocupadas por construções, conforme já comentamos em diversas postagens aqui no blog, formam uma combinação com grande potencial de desastre. Conforme os solos vão ficando saturados de água, a terra se transforma em lama e começa a escorrer, desestabilizando as fundações das construções, que mais cedo ou mais tarde vão acabar ruindo e escorregando. Rochas soltas encravadas nesses solos, como aconteceu recentemente no deslizamento de uma encosta na cidade de Niterói, também podem perder seus pontos de apoio e rolar ribanceira abaixo, levando qualquer construção que encontre pelo caminho. Por fim, as árvores têm as suas raízes expostas e perdem a sua sustentação. As avalanches que surgem misturam terras, pedras, árvores e entulhos das construções – quem ou o quê estiver no caminho dessa massa destrutiva terá muito poucas chances de sobreviver e/ou escapar inteiro.

Uma das cidades mais fortemente atingidas pelos deslizamentos foi Nova Friburgo (vide foto), um dos mais antigos povoamentos da região, que nasceu em 1819 como uma colônia de imigrantes suíços. A cidade, que por muitas décadas ostentou orgulhosamente o título de “Suíça Brasileira” por causa da sua origem, nos últimos anos do século XX passou a ser mais conhecida como “A Capital Nacional da Moda Íntima” – cerca de um quarto de toda a produção nacional de calcinhas femininas e sutiãs sai das confecções da cidade. O crescimento do número de pequenas e médias empresas de confecção passou a atrair um número cada vez maior de novos moradores que buscavam trabalho – e sem espaço físico para crescer adequadamente, a mancha urbana da cidade começou a “subir” pelas encostas dos morros, criando assim todas as condições para a tragédia de 2011.

Além dos deslizamentos e da destruição de centenas de casas, as populações dessas cidades enfrentaram um longo período de isolamento. Deslizamentos de encostas de morros ao largo das estradas bloquearam os acessos por via terrestre, impedindo a chegada de equipes de emergência e de suprimentos. Diversos rios tiveram seus leitos bloqueados pelo carreamento de terra e entulhos, o que produziu enchentes em extensas áreas, aumentando ainda mais o sofrimento e as dificuldades de milhares de vítimas. A recuperação da infraestrutura das cidades atingidas levou vários meses – em alguns casos, anos.

Infelizmente, aqui em nosso país, temos uma dificuldade muito grande em aprender alguma coisa após a ocorrência de tragédias dessa magnitude. Passados quase oito anos desde aqueles terríveis dias de 2011, muitas das obras de prevenção a futuros desastres acabaram não sendo concluídas. Diversas áreas de alto risco em encostas de morros de diversas dessas cidades, que deveriam ter transferido suas populações para locais mais seguros, continuam ocupadas por moradias. A cada novo período de chuvas que chega aqui em nosso país, há muita gente que sente um frio na espinha e fica se perguntando se será desta vez que sua casa vai rolar morro abaixo – muitos desses são moradores das encostas na Região Serrana do Rio de Janeiro.

A recente prisão do ex-governador do Rio de Janeiro e de muitas “otoridades” do Estado por corrupção e desvio de dinheiro, ajuda a explicar muitas obras e serviços que deixaram de ser realizados na Região Serrana. Torçamos todos para que o novo Governo recém eleito consiga retomar e concluir muitas dessas obras, não só na Região Serrana como em outras áreas de risco em encostas de todo o Estado do Rio de Janeiro, que aliás, são muitas. Oxalá!

A ACIDENTADA SERRA DOS ÓRGÃOS

Serra dos Órgãos

No dia 9 de abril de 1912, um grupo de montanhistas da cidade serrana de Teresópolis conseguiu atingir, pela primeira vez, o topo da formação rochosa conhecida como Dedo de Deus, na Serra dos Órgãos, no interior do Estado do Rio de Janeiro. A conquista, que foi um marco do montanhismo no Brasil, foi levada a cabo por José Guimarães Teixeira, Raul Carneiro e pelos irmãos Américo, Alexandre e Acácio Oliveira. O feito tem uma importância ímpar para o Rio de Janeiro, que desde a promulgação da sua Constituição Estadual em 1892, instituiu o Dedo de Deus como um dos símbolos oficiais do Estado.

O Dedo de Deus (vide foto) é uma grande formação rochosa com 1.692 metros de altura, que é bastante famosa pelo seu formato incomum, que lembra uma mão humana fechada com o dedo indicador apontando para o céu. Em dias claros, a formação é visível a partir da cidade do Rio de Janeiro e região, distante cerca de 60 km. Além do Dedo de Deus, outros monumentos geológicos da Serra dos Órgãos que também se destacam são a Pedra da Cruz, com 2.130 metros, o Garrafão, com 1.980 metros, São Pedro, com 2.234 metros, Cara de Cão, com 2.180 metros, a Pedra do Sino, com 2.255 metros, e o Pico Maior de Friburgo, o ponto mais alto da Serra do Mar com 2.366 metros. Vistas à distância, essas formações rochosas lembram os tubos metálicos dos antigos órgãos das igrejas, daí o nome dado à Serra dos Órgãos

A Serra dos Órgãos faz parte da Serra do Mar, uma cadeia montanhosa que se estende por cerca de 1.500 km entre os Estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina,  ao longo da faixa litorânea. A Serra do Mar é formada por uma sucessão contínua de morros e montanhas, onde se destacam grandes blocos rochosos de granitos e gnaisses, pertencendo ao chamado Complexo Cristalino Brasileiro. Conforme comentamos na postagem anterior, a Serra do Mar surgiu a partir da fragmentação de um gigantesco bloco rochoso que, até cerca de 160 milhões de anos atrás, se localizava no centro do antigo Supercontinente de Gondwana. A movimentação desse imenso maciço rochoso ao longo das eras também originou as Serras da Canastra, da Mantiqueira, do Espinhaço e de Maracaju. 

Em 1939, foi criado pelo Governo Federal o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, o terceiro mais antigo do Brasil, com o objetivo de proteger a biodiversidade, os recursos hídricos e as excepcionais paisagens da região. A Unidade de Conservação, que está sob administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, se estende pelos municípios de Guapimirim, Magé, Petrópolis e Teresópolis, com uma área total de 20.024 hectares 

A região possui uma complexa rede de cursos d’água, com destaque para os rios Paquequer (famoso por ser um dos cenários do romance indigenista “O Guarani”, de José de Alencar, publicado em 1857), Beija-flor, Soberbo, Iconha, Bananal, Santo Aleixo, Itamarati, Bonfim e Jacó. Como é usual durante a gênese das grandes formações geológicas, os grandes blocos rochosos da Serra dos Órgãos sofreram diversas fraturas ao longo de sua história. Essas fraturas foram preenchidas com fragmentos de rochas resultantes dos processos de erosão e de intemperismos da superfície das formações rochosas. Esses locais são propícios ao armazenamento da água das chuvas, que por sua vez alimentam as nascentes de uma infinidade de cursos d’água. Completando o quadro, os grandes paredões rochosos da Serra dos Órgãos interceptam grandes volumes de umidade vindas do Oceano Atlântico, que se precipitam na forma de chuvas abundantes.

Essas excepcionais condições ecológicas favoreceram o desenvolvimento de uma densa floresta, escalonada em diversos degraus de altitude. Nas altitudes entre 100 e 1.500  metros encontramos a floresta montana (também conhecida como mata de encosta e floresta tropical pluvial, ou ainda como floresta ombrófila densa), com espécies como o jequitibá, a canela, o baguaçu, além de diversas espécies de palmito e outras espécies típicas da Mata Atlântica. Nas altitudes mais altas, os solos e afloramentos rochosos têm predomínio de espécies gramíneas. 

Pelo isolamento e dificuldade de acesso, todo o Parque Nacional da Serra dos Órgãos constitui um dos últimos refúgios para diversas espécies animais e vegetais da Mata Atlântica ameaçados de extinção. Estudos científicos já realizados encontraram 462 espécies de aves, 102 de anfíbios, 83 répteis e 82 espécies de mamíferos – dessa lista, 130 espécies estão sob ameaça de extinção. Entre as espécies ameaçadas são destaque a onça (Panthera onca) e o muriqui (Brachyteles arachnoides), o maior primata das Américas. Entre as aves podemos citar a jacutinga (Aburria jacutinga) e o tietê-de-coroa (Calyptura cristata). 

O clima ameno do alto da Serra dos Órgãos sempre funcionou como um atrativo turístico para as populações das áreas próximas ao litoral, onde as temperaturas na época do verão superam facilmente os 40° C. A cidade de Petrópolis foi fundada em 1843 a partir da assinatura de um decreto pelo Imperador Dom Pedro II. O imperador sonhava com a construção de um palácio de verão, onde pudesse desfrutar do frescor e da tranquilidade das montanhas em seus momentos de descanso e lazer. A fundação de Petrópolis, que significa a “Cidade de Pedro“, serviu de inspiração para a formação de outras cidades na Região Serrana do Rio de Janeiro, como é o caso de Teresópolis, fundada em 1891 e batizada assim em homenagem à Imperatriz Teresa Cristina, falecida dois anos antes.

O turismo é atualmente uma das principais atividades econômicas da chamada Região Serrana do Rio de Janeiro, onde se destaca o turismo de aventura, que atrai praticantes de todo o Brasil e do mundo. E, como já citei em outras postagens, esse tipo de turista quer encontrar, além de muita adrenalina, áreas naturais bem preservadas, algo que é muito bom para todos nós. Infelizmente, o crescimento desordenado de muitas dessas cidades serranas fluminenses é fonte de uma série de problemas, especialmente a ocupação das encostas dos morros – falaremos disso na próxima postagem.