A REDUÇÃO DOS REBANHOS NO NORDESTE POR CAUSA DA SECA

Morte de gabo por causa da seca

Na semana passada foi divulgado um relatório do Banco Central do Brasil confirmando que houve um pequeno crescimento da economia do país no 3º trimestre de 2017 – 0,1% de crescimento. Apesar de muito pequeno, esse crescimento se junta ao crescimento do 1º e do 2º trimestre do ano, confirmando que saímos de uma profunda recessão vivida nos anos de 2015 e de 2016. Olhando com maior cuidado os números, perceberemos facilmente que a situação econômica do país só não foi pior nos últimos anos devido ao crescimento dos setores ligados ao agronegócio, que apresentou um crescimento próximo de 3% em 2016 e em 2017 deve fechar com 2% de expansão. Segundo dados da CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, o setor agropecuário é responsável por aproximadamente 4% das exportações totais do Brasil.

O sucesso do agronegócio no Brasil se deve, em particular, às atividades agrícolas e pecuárias desenvolvidas na região Centro -Oeste, assim como no Sul e no Sudeste do país. Todo este sucesso e estes números acabam escondendo um grave problema que vem crescendo desde o ano de 2011 – a forte estiagem que assola a região Nordeste vem provocando uma redução sistemática dos rebanhos de animais, especialmente de bovinos. Enquanto em 2016, o efetivo nacional de bovinos atingia a marca de 218 milhões de cabeças, indicando forte crescimento nas regiões Centro-Oeste e Norte, além de pequenas altas nas regiões Sul e Sudestena região Nordeste, ao contrário, foi registrada uma queda de 2,1% e as razões são bem conhecidas: falta de pastagens e de água para os animais. A redução dos rebanhos de pequenos animais – especialmente de ovinos e caprinos, foi menor porque estes animais conseguem se adaptar melhor ao clima do Semiárido. Somente no ano de 2012, no início do período da estiagem, o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apontou uma perda de 4 milhões de animais em toda a região Nordeste. Além da morte de imensa quantidade de cabeças por fome e sede, os números demonstram que não houve a reposição de animais aos rebanhos e que os produtores da região sofreram enormes prejuízos financeiros: o preço de venda dos animais se dá em função do peso, onde a cotação é feita em arrobas (equivalente a 15 kg) – boi magro (como se diz na pecuária) vale muito pouco. Um exemplo desta perda é o município de Itapetinga, na Bahia, onde a redução do rebanho bovino foi de aproximadamente 24,5%.

A pecuária, desde os primeiros tempos da povoação do interior da região Nordeste, é uma das atividades econômicas mais importantes, praticada especialmente em pequenas propriedades rurais. Diferente da pecuária comercial em larga escala, particularmente aquela praticada intensivamente na região Centro-Oeste em grande fazendas, nos sertões do Nordeste a pecuária é uma atividade essencialmente familiar e extensiva, onde pequenos rebanhos garantem o sustento das famílias. Os impactos negativos da forte estiagem sobre os rebanhos e, de quebra, sobre a produção agrícola de subsistência destas famílias, é fatal para a sobrevivência destas populações.

Os problemas socioambientais da região Nordeste, tema ao qual dediquei alguns anos de estudo, têm origens que estão diretamente ligadas a problemas climáticos sazonais e naturais, mas também apresentam muitos problemas derivados da ações humanas durante a ocupação de extensas áreas do Semiárido – o avanço das boiadas pelos sertões, tema sobre o qual já escrevi em postagens anterior, está na raiz dos problemas vividos pelas populações nos tempos atuais.

Os bois chegaram junto com as primeiras mudas de cana-de-açúcar ao Brasil, nas mesmas naus que trouxeram os primeiros colonizadores da terra. Em um dos meus textos sobre o tema, descrevi assim o momento dessa chegada:

“Os ventos alísios sopram com força o velame da nau; o madeiramento range de popa a proa e vibra à medida que avança rumo à costa. As folhas verdes dos chuços de cana-de-açúcar plantados nas caixas de madeira vibram intensamente, como se soubessem que estão próximos de sua nova morada. Em breve, os diferentes tons de verde da Mata Atlântica sucumbirão ao monótono verde folha da cana-de-açúcar. Grandes clareiras no meio da mata, onde outrora imperava o pau-brasil, estão com os sulcos já arados à espera da saccharum officinarum.

Em outras naus da frota é o gado vacum que se agita, talvez sentindo o cheiro da relva fresca que se aproxima. Trazido das ilhas d’além mar, será sua força bruta que dará vida às moendas fazedoras do valioso açúcar, suas pernas fortes puxarão os carros carregados de cana e, por fim, sua carne saborosa é que vai saciar a fome dos implacáveis colonizadores…

O boi e a cana-de-açúcar são dois lados de uma mesma moeda, que foi lançada pela mão do colonizador a fim de determinar os destinos de nossa terra. São elementos complementares de uma mesma paisagem, onde a existência de um está intimamente ligada ao outro.”

A relação de boa vizinhança entre os rebanhos e as plantações de cana não durou muito tempo: os famintos bois não resistiam à tentação de extensos campos cobertos com suculentos brotos de cana-de-açúcar: não tardou até surgirem leis proibindo a criação de boias a menos de 60 km dos canaviais. O açúcar expulsou as boiadas do litoral e os sertões do Semiárido passaram a ser o hábitat de sertanejos e de suas boiadas – o resto virou história.

A maioria das cidades de todo o interior do Nordeste têm sua origem ligada, direta ou indiretamente, às estradas boiadeiras, através das quais os criadores conduziam seus rebanhos na direção dos mercados consumidores, primeiro na zona canavieira do litoral nordestino, depois em direção aos polos de mineração de ouro na direção das Minas Gerais, isso a partir do século XVIII. A economia de toda a região do Semiárido, desde os primeiros tempos da colonização, sempre teve a pecuária como uma das suas atividades mais antigas e importantes. Muitos dos problemas ambientais que a região apresenta nos dias de hoje, estão ligados diretamente ao aumento das áreas de pastagens para o suporte de todas estas boiadas – grandes áreas de vegetação de Caatinga foram queimadas ao longo dos últimos séculos para a expansão dos campos de gramíneas para a formação de pastagens para as boiadas.

Teorias preservacionistas a parte, o momento vivido pelo produtores rurais de todo o Semiárido por causa da rigorosa estiagem são preocupantes. Sem condições de produzir e gerar o sustento de suas famílias, os pequenos produtores passam a ficar dependentes dos diversos programas assistenciais dos Governos, além de depender em muitos casos da distribuição de água através dos caminhões pipa, um tema que tratamos em publicações recentes. Essa dependência pode levar a toda uma série de consequências, que vão desde a formação dos conhecidos “currais eleitorais”, onde as populações acabam reféns de grupos políticos que tudo fazem para manter o poder político regional (as famosas oligarquias políticas) até ao abandono do campo por muitas famílias, que migram rumo a um futuro incerto nas grandes cidades ou em campos de outras regiões – a região Centro-Oeste, inclusive, tem se tornado o rumo de muito migrantes nordestinos nos últimos anos.

Os impactos socioambientais negativos criados com o intenso povoamento de todo o Semiárido nordestino, que é a região semiárida mais densamente povoada de todo o mundo, são irreversíveis – e a expansão dos rebanhos bovinos pelos sertões contribuiu fortemente para estes impactos. O “estrago” já está feito e temos uma população de mais de 24 milhões de habitantes vivendo na região do Semiárido, o que corresponde a 12% de toda a população brasileira – não é mais possível que toda essa população continue a depender dos caprichos do clima para tocar as suas vidas e suas atividades econômicas.

É preciso que se façam investimentos sérios e consistentes em culturas agrícolas adaptadas adequadamente ao clima dos sertões – a exemplo dos cajueiros anões-precoces que tratei recentemente em uma postagem. Outro exemplo que pode ser citado é a criação de ovinos e caprinos, animais que se adaptam muito bem aos climas semiáridos, e que bem gerenciados (a sobrecarga destes animais em áreas pequenas pode levar a processos de desertificação) podem ser uma alternativa econômica à criação de bovinos.

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