UMA BREVE HISTÓRIA DA OCUPAÇÃO HUMANA NA CHAPADA DIAMANTINA

Garimpo na Chapada Diamantina

Entre as décadas de 1920 e 1930, se consolidou nos meios acadêmicos dos países mais importantes do mundo a teoria da migração de populações humanas para o grande continente americano através do Estreito de Bering. De acordo com essa teoria, durante a última Era Glacial, que terminou a cerca de 20 mil anos atrás, a concentração de gelo nos continentes e nos mares provocou uma redução do nível dos oceanos em, pelo menos, 120 metros. Com essa redução, surgiram várias “pontes” de terra seca entre continentes e ilhas. Exemplos dessas “pontes” foram as ligações terrestres surgidas entre as ilhas do Japão e a península coreana, e também as ligações entre a Austrália, a ilha da Tasmânia e a Nova Guiné. No Estreito de Bering, que separa a América do Norte e a Ásia, surgiu uma dessas “pontes” secas, o que permitiu que populações humanas da Ásia, e também muitas espécies animais, migrassem para as Américas.

Apesar de toda a beleza e simplicidade dessa teoria, ela tem um problema grave – esqueceram de combinar as datas com os índios. Nas últimas décadas têm surgido inúmeras evidências arqueológicas por todo o continente americano – do Alasca à Terra do Fogo, que mostram a existência de agrupamentos humanos em datas bem anteriores à “ponte” do Estreito de Bering. Um exemplo importante são os sítios arqueológicos da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Estado do Piauí. A datação de achados arqueológicos e antropológicos dessa região pelo método de Radiocarbono (ou Método do Carbono 14) indicam a presença de populações humanas entre 20 e 50 mil anos atrás. 

Na região da Chapada Diamantina, conforme comentamos na postagem anterior, existem dezenas de sítios arqueológicos, especialmente em cavernas e sob formações rochosas “abrigadas”, onde a datação dos achados remonta a períodos de tempo entre 8 e 35 mil anos atrás, datas que também põem em xeque a teoria do Estreito de Bering. As razões para essa ocupação da Chapa Diamantina são bem simples: grande fartura de fontes de água e de alimentos, abrigos naturais nas cavernas e um clima muito mais agradável quando comparado ao calor escaldante do Semiárido. Graças a todas essas características, a região foi sendo ocupada por sucessivas gerações de diferentes povos indígenas ao longo dos milênios. 

Uma “segunda onda” de povoamento na região da Chapada Diamantina se deu, oficialmente, a partir de 1844, quando garimpeiros descobriram os primeiros diamantes nos rios da região, no local onde foi fundada a cidade de Mucugê. As notícias dessa descoberta correram os sertões como “um rastilho de pólvora” e provocaram uma verdadeira corrida de garimpeiros para a região (vide foto). Gradativamente, as áreas de garimpo começaram a assistir ao nascimento de pequenos povoados e vilas. Importantes cidades  da região, como Lençóis e Andaraí, surgiram assim. 

O tipo de mineração realizada por esses garimpeiros é conhecido como garimpo de aluvião – o cascalho do fundo dos rios é vasculhado com uma bateia, uma espécie de bacia metálica, e as pedras de diamantes são identificadas visualmente. Esse tipo de mineração também permite a busca de ouro, minério que costuma ocorrer nos mesmos solos onde se encontram diamantes. Para a separação do ouro dos cascalhos e areias, os garimpeiros utilizavam o mercúrio, um elemento químico extremamente danoso ao meio ambiente. A região da Chapada Diamantina nunca chegou a produzir os volumes de ouro e diamantes encontrados nas Minas Geraes no século XVIII e o garimpo entrou em decadência na década de 1970. Ainda hoje se encontram alguns garimpeiros tentando a sorte nos rios da região. 

Em décadas mais recentes, a região da Chapada Diamantina passou a ser invadida por uma “terceira onda” de seres humanos – os turistas. As grandes formações rochosas com seus picos cercados por nuvens; as fortes corredeiras, cachoeiras e piscinas naturais; as cavernas gigantescas, as trilhas rústicas que atravessam diferentes tipos de biomas, os sítios arqueológicos de importância ímpar, as pequenas cidades históricas com suas populações receptivas e clima agradável. Toda essa somatória de atrativos transformou a Chapada Diamantina em um importante polo para os praticantes de esportes radicais e do turismo de aventura. Esse fluxo de visitantes deu um novo fôlego econômico para as pequenas e decadentes cidades, que ficaram “órfãs” com a fim da mineração em larga escala. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, esse tipo de turismo, quando bem gerenciado e controlado, tem enorme potencial para a geração de renda nessas pequenas cidades. Os turistas precisam de hospedagem, alimentação, equipamentos esportivos, guias turísticos, transportes e apoio através de toda uma rede de serviços, que vai de mercadinhos a lavanderias, de farmácias a postos de gasolina. O mais importante – quanto mais naturais e preservados são os ambientes, mais felizes ficam esses turistas. 

A falta de uma melhor infraestrutura em toda a região, onde se inclui a falta de hotéis, de aeroportos, de estradas e de infraestrutura básica como restaurantes e banheiros nas proximidades de muitas das atrações da Chapada Diamantina, funcionam como uma espécie de limitador do número de turistas que visitam a região, o que, a seu modo, colabora para a preservação ambiental. Nada impede que, respeitadas as regras de preservação das paisagens e dos meios naturais, que se aumente a infraestrutura e o número de visitantes. 

Como exemplos podemos citar dois importantes parques naturais dos Estados Unidos, que têm características similares a Chapada Diamantina: o Yosemite Park, na Califórnia – criado em 1890, e o Gran Canyon, no Arizona – criado em 1919. Esses parques nacionais receberam 3 e 6 milhões de visitantes, respectivamente, em 2017 e continuam muito bem preservados e gerando grandes recursos com as bilheterias para investimento na manutenção e na preservação ambiental

Encerrando, um triste detalhe: as autoridades brasileiras não sabem ao certo qual é o número total de visitantes que a Chapada Diamantina recebe a cada ano. Fazer a gestão de uma área de preservação ambiental tão importante sem conhecer esse número de visitantes é, cá entre nós, algo bastante complicado. 

One Comment

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s