A ACIDENTADA SERRA DOS ÓRGÃOS

Serra dos Órgãos

No dia 9 de abril de 1912, um grupo de montanhistas da cidade serrana de Teresópolis conseguiu atingir, pela primeira vez, o topo da formação rochosa conhecida como Dedo de Deus, na Serra dos Órgãos, no interior do Estado do Rio de Janeiro. A conquista, que foi um marco do montanhismo no Brasil, foi levada a cabo por José Guimarães Teixeira, Raul Carneiro e pelos irmãos Américo, Alexandre e Acácio Oliveira. O feito tem uma importância ímpar para o Rio de Janeiro, que desde a promulgação da sua Constituição Estadual em 1892, instituiu o Dedo de Deus como um dos símbolos oficiais do Estado.

O Dedo de Deus (vide foto) é uma grande formação rochosa com 1.692 metros de altura, que é bastante famosa pelo seu formato incomum, que lembra uma mão humana fechada com o dedo indicador apontando para o céu. Em dias claros, a formação é visível a partir da cidade do Rio de Janeiro e região, distante cerca de 60 km. Além do Dedo de Deus, outros monumentos geológicos da Serra dos Órgãos que também se destacam são a Pedra da Cruz, com 2.130 metros, o Garrafão, com 1.980 metros, São Pedro, com 2.234 metros, Cara de Cão, com 2.180 metros, a Pedra do Sino, com 2.255 metros, e o Pico Maior de Friburgo, o ponto mais alto da Serra do Mar com 2.366 metros. Vistas à distância, essas formações rochosas lembram os tubos metálicos dos antigos órgãos das igrejas, daí o nome dado à Serra dos Órgãos

A Serra dos Órgãos faz parte da Serra do Mar, uma cadeia montanhosa que se estende por cerca de 1.500 km entre os Estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina,  ao longo da faixa litorânea. A Serra do Mar é formada por uma sucessão contínua de morros e montanhas, onde se destacam grandes blocos rochosos de granitos e gnaisses, pertencendo ao chamado Complexo Cristalino Brasileiro. Conforme comentamos na postagem anterior, a Serra do Mar surgiu a partir da fragmentação de um gigantesco bloco rochoso que, até cerca de 160 milhões de anos atrás, se localizava no centro do antigo Supercontinente de Gondwana. A movimentação desse imenso maciço rochoso ao longo das eras também originou as Serras da Canastra, da Mantiqueira, do Espinhaço e de Maracaju. 

Em 1939, foi criado pelo Governo Federal o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, o terceiro mais antigo do Brasil, com o objetivo de proteger a biodiversidade, os recursos hídricos e as excepcionais paisagens da região. A Unidade de Conservação, que está sob administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, se estende pelos municípios de Guapimirim, Magé, Petrópolis e Teresópolis, com uma área total de 20.024 hectares 

A região possui uma complexa rede de cursos d’água, com destaque para os rios Paquequer (famoso por ser um dos cenários do romance indigenista “O Guarani”, de José de Alencar, publicado em 1857), Beija-flor, Soberbo, Iconha, Bananal, Santo Aleixo, Itamarati, Bonfim e Jacó. Como é usual durante a gênese das grandes formações geológicas, os grandes blocos rochosos da Serra dos Órgãos sofreram diversas fraturas ao longo de sua história. Essas fraturas foram preenchidas com fragmentos de rochas resultantes dos processos de erosão e de intemperismos da superfície das formações rochosas. Esses locais são propícios ao armazenamento da água das chuvas, que por sua vez alimentam as nascentes de uma infinidade de cursos d’água. Completando o quadro, os grandes paredões rochosos da Serra dos Órgãos interceptam grandes volumes de umidade vindas do Oceano Atlântico, que se precipitam na forma de chuvas abundantes.

Essas excepcionais condições ecológicas favoreceram o desenvolvimento de uma densa floresta, escalonada em diversos degraus de altitude. Nas altitudes entre 100 e 1.500  metros encontramos a floresta montana (também conhecida como mata de encosta e floresta tropical pluvial, ou ainda como floresta ombrófila densa), com espécies como o jequitibá, a canela, o baguaçu, além de diversas espécies de palmito e outras espécies típicas da Mata Atlântica. Nas altitudes mais altas, os solos e afloramentos rochosos têm predomínio de espécies gramíneas. 

Pelo isolamento e dificuldade de acesso, todo o Parque Nacional da Serra dos Órgãos constitui um dos últimos refúgios para diversas espécies animais e vegetais da Mata Atlântica ameaçados de extinção. Estudos científicos já realizados encontraram 462 espécies de aves, 102 de anfíbios, 83 répteis e 82 espécies de mamíferos – dessa lista, 130 espécies estão sob ameaça de extinção. Entre as espécies ameaçadas são destaque a onça (Panthera onca) e o muriqui (Brachyteles arachnoides), o maior primata das Américas. Entre as aves podemos citar a jacutinga (Aburria jacutinga) e o tietê-de-coroa (Calyptura cristata). 

O clima ameno do alto da Serra dos Órgãos sempre funcionou como um atrativo turístico para as populações das áreas próximas ao litoral, onde as temperaturas na época do verão superam facilmente os 40° C. A cidade de Petrópolis foi fundada em 1843 a partir da assinatura de um decreto pelo Imperador Dom Pedro II. O imperador sonhava com a construção de um palácio de verão, onde pudesse desfrutar do frescor e da tranquilidade das montanhas em seus momentos de descanso e lazer. A fundação de Petrópolis, que significa a “Cidade de Pedro“, serviu de inspiração para a formação de outras cidades na Região Serrana do Rio de Janeiro, como é o caso de Teresópolis, fundada em 1891 e batizada assim em homenagem à Imperatriz Teresa Cristina, falecida dois anos antes.

O turismo é atualmente uma das principais atividades econômicas da chamada Região Serrana do Rio de Janeiro, onde se destaca o turismo de aventura, que atrai praticantes de todo o Brasil e do mundo. E, como já citei em outras postagens, esse tipo de turista quer encontrar, além de muita adrenalina, áreas naturais bem preservadas, algo que é muito bom para todos nós. Infelizmente, o crescimento desordenado de muitas dessas cidades serranas fluminenses é fonte de uma série de problemas, especialmente a ocupação das encostas dos morros – falaremos disso na próxima postagem. 

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