OS FÓSSEIS DA CHAPADA DO ARARIPE

Pterossauro

Na última postagem falamos dos sérios problemas ambientais enfrentados pela Chapada do Araripe, na divisa dos Estados do Piauí, Ceará e Pernambuco, uma importante Unidade de Conservação cercada pela Caatinga por todos os lados. A exploração da gipsita, matéria prima do gesso, e os desmatamentos estão entre os maiores problemas. 

Existe, porém, um outro problema grave, que diferencia a Chapada do Araripe de outras Unidades de Conservação brasileiras: os solos da sua bacia sedimentar, que num passado geológico distante já foi o fundo de um mar raso, concentram uma grande quantidade de fósseis de animais e de plantas dos Períodos Jurássico e Cretáceo. Essa grande concentração de fósseis, que ajuda a entender a biologia e os biomas de épocas remotas da história de nosso planeta, são alvos da cobiça de muitos estudiosos das mais diferentes universidades mundo afora, que por meios legais e, digamos, não convencionais, se esforçam para conseguir ter acesso a eles.  

O contrabando desses fósseis, que conta com a cumplicidade de muitos moradores pobres da região, é um negócios bastante rentável para alguns grupos e uma fonte de dinheiro extra para muitos. Essa atividade ilícita ajuda a empobrecer o patrimônio cultural do país e é um dos grandes desafios para os gestores ambientais da Chapada do Araripe e das autarquias que cuidam do patrimônio mineral e geológico do país. Apesar de fugir da linha editorial do blog, será interessante analisarmos um pouco mais esse problema. 

O botânico escocês George Gardner realizou as primeiras pesquisas na Chapada do Araripe em 1840. Ele coletou uma série de fósseis na região, que foram encaminhados para análise do cientista suíço Louis Agassiz, um especialista em ictiologia, ramo da zoologia que se dedica ao estudo dos peixes. Após vários estudos, chegou-se à conclusão que os fósseis eram do Período Cretáceo, que se estende entre 145 e 66 milhões de anos atrás. A divulgação dessas conclusões atraiu para a Chapada do Araripe alguns dos mais importantes pesquisadores estrangeiros do século XIX, como Edward Drinker Cope, Arthur Smith Woodard, David Starr Jordan e John Casper Branner.

Desde aqueles anos pioneiros até os nossos dias, a Chapada do Araripe vem recebendo cientistas de todo o mundo e também de universidades de todo o Brasil. Todos esses pesquisadores realizaram inúmeras escavações e fizeram descobertas de fósseis de peixes, répteis, insetos, dinossauros, pterossauros e plantas de inúmeras espécies. Na região foi encontrada também uma floresta petrificada – existia na região uma grande floresta de pinheiros há cerca de 140 milhões de anos, que acabou encoberta pelas águas e teve parte dos seus troncos e raízes petrificados. Como a região é muito grande e a fiscalização pelo poder público sempre foi deficiente, foi muito grande o número de fósseis que foram levados ilegalmente para outras regiões do Brasil e também para outros países. Coleções de universidades e museus de todo o mundo possuem fósseis encontrados na Chapada do Araripe. 

Desde o começo do século XX, com a criação do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil em 1907, que as autoridades tentam controlar o acesso de pesquisadores e a escavação dos solos em busca desses preciosos fósseis. Entre outros esforços, foram fundadas duas instituições voltadas a pesquisas na região – o Museu de Paleontologia da cidade de Santana do Cariri, que tem um convênio com a URCA – Universidade Regional do Cariri, e o CPCA – Centro de Pesquisas Paleontológicas da Chapada do Araripe, com sede na cidade do Crato, no Sul do Ceará.  

O CPCA possui um acervo com mais de 4 mil peças, coletadas nos sítios paleontológicos da região e também conta com peças confiscadas de contrabandistas. Cerca de 80% dos fósseis do seu acervo já foram identificados e catalogados, apesar da instituição possuir um quadro de especialistas extremamente reduzido. Devido à falta de espaço em sua sede, a entidade só consegue expor para visitação do público uma pequena parte desse acervo. Um outro grave problema é a falta de fiscalização – são apenas dois funcionários da entidade para fiscalizar uma área com 12 mil km². 

Entre os fósseis mais cobiçados pelos contrabandistas estão os pterossauros, espécies de répteis que conseguiam voar ou planar, e que podem ter alguma ligação com os ancestrais de muitas espécies de aves modernas. Um dos mais magníficos desses pterossauros é o Tupuxuara deliradamus (vide foto), que chegava a atingir uma envergadura de 4,5 metros e sobrevoava a região a mais de 100 milhões de anos. Vários contrabandistas com fósseis desta espécie já foram presos na região, mas é impossível calcular quantos outros conseguiram ser levados para o exterior e que estão sendo expostos em museus de todo o mundo.  

Segundo informações de policiais locais, há notícias de contrabandistas da região que receberam até US 10 mil por conseguir despachar um fóssil raríssimo de uma ave fossilizada com as penas. Esse fóssil está em exposição no Museu de História Natural da Universidade de Tóquio, onde os visitantes pagam ingresso para ver esse espécime legítimo da Chapada do Araripe. Como se tudo isso não bastasse, foram os cientistas japoneses que fizeram a descrição do animal e a publicação de artigos científicos nas revistas especializadas. 

É sonhando com o recebimento dessas grandes quantias que muitos habitantes da região se embrenham pelas matas e saem escavando o solo e derrubando importantes fragmento das matas. Isso isoladamente pode parecer pouco, mas vai se juntando com a mineração da gipsita e a queima de lenha para a produção do gesso, com os incêndios acidentais nas matas que começam com as queimadas nos roçados dos pequenos agricultores, com a caça de animais para o consumo da carne pelas populações pobres e a captura de animais vivos para venda nas feiras da região. 

De pouco em pouco, a luxuriante Chapada do Araripe vai se transformando em uma terra destruída e calcinada, como vem acontecendo por toda a região da Caatinga nordestina desde os primeiros anos de nossa história colonial. Simplesmente, lamentável. 

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