A DESTRUIÇÃO DAS MATAS E DAS FONTES DE ÁGUAS

Derrubada de Mata - Rugendas

Por mais estranho que possa parecer hoje aos nossos ouvidos, acostumados que estamos a ouvir relatos sobre seca no sertão nordestino e problemas no abastecimento de água nas grandes capitais da região, a água era um elemento dominante e abundante na faixa litorânea do Nordeste, o que foi fundamental para a implantação da cultura da cana-de-açúcar. Essa cultura é dependente dos rios, riachos e chuvas que lhe fornecem água para o desenvolvimento das plantas; os engenhos dependiam da força das águas para mover as moendas e das suas vias fluviais para o transporte das canas cortadas dos campos para os centros de produção. Todos os registros históricos dos antigos engenhos nordestinos, como este de Gilberto Freire, sempre citam o nome de algum rio:

“Rios do tipo do Beberibe, do Jaboatão, do Una, de Serinhaém, do Tambaí, do Tibiri, do Ipojuca, do Pacatuba, do Itapuá. Junto deles e dos riachos das terras de massapê se instalaram confiantes os primeiros engenhos. Rios às vezes feios e barrentos, mas quase sempre bons e serviçais, prestando-se até a lavar os pratos das cozinhas das casas-grandes e as panelas dos mucambos (ou Mocambos).”

Com a destruição das matas a ferro e a fogo (a imagem que ilustra este post é uma gravura do pintor alemão Rugendas, que mostra a derrubada de um trecho da Mata Atlântica no início do século XIX), a qualidade e a disponibilidades das águas dos rios da Zona da Mata nordestina entrou em um processo rápido de declínio. Foi iniciado um ciclo de destruição: sem a presença da floresta úmida com suas inúmeras árvores e raízes, as águas das chuvas não conseguem se infiltrar nos solos para a recarrega dos aquíferos que alimentam as inúmeras nascentes, o que reduz o volume de água para os rios tributários; sem essa recarga, muitas nascentes simplesmente secam; sem a proteção das matas ciliares, a erosão do solo pelas chuvas tropicais leva embora em poucos anos a grossa camada de húmus que a natureza levou milhares de anos para formar, impedindo assim o nascimento e desenvolvimento de novas árvores. A descrição a seguir é de Josué de Castro no clássico livro “Geografia da Fome”:

“O homem moderno aperfeiçoou dois inventos capazes de aniquilar por completo a civilização. Um deles é a guerra total, o outro é a erosão mundial do solo. Dos dois, o mais insidioso e fatalmente destrutivo é, sem nenhuma dúvida, a erosão. A guerra desequilibra ou destrói o meio social que é matriz da civilização; a erosão do solo destrói o meio natural que constitui o seu fundamento. A guerra é mais espetacular porque faz ruir cidades, tronos e potências. Mas estas coisas podem ser refeitas. A erosão do solo que, virtualmente, vai destruindo ou arrasando as terras, das quais dois bilhões de indivíduos (texto escrito em 1945) dependem para seu pão de cada dia, alcança uma etapa irreversível na qual o homem e as suas obras serão enterrados sob as areias amontoadas do esquecimento”.

Relatos de antigos cronistas e viajantes que passaram pelas terras do litoral do Nordeste nos primeiros tempos da cultura canavieira ou pelos antigos sertões da Zona da Mata mineira no início do ciclo do ouro, falam de rios caudalosos que antes só podiam ser atravessados de canoa – em nossos dias, esses mesmos rios podem ser atravessados facilmente a pé graças ao contínuo assoreamento e entulhamento dos seus leitos. Eu tenho relatos familiares muito parecidos de rios em Mato Grosso do Sul, como o Rio Coxim, que na década de 1950 era caudaloso e profundo e que hoje pode ser atravessado com água na altura dos joelhos – à semelhança da Zona da Mata nordestina e mineira, as antigas florestas de Mato Grosso também sucumbiram ao machado e a motoserra  e os rios da região hoje pagam o preço do assoreamento.

Nas palavras de Gilberto Freire, as águas límpidas e transparentes que permitiam os banhos de rio, as lavagens de roupas e louças transformaram-se em esgotos:

“O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório de caldas fedorentas de suas usinas. E as caldas fedorentas matam os peixes. Envenenam as pescadas. Emporcalham as margens. A calda que as usinas de açúcar lançam todas as safras nas águas dos rios sacrifica cada fim de ano parte considerável da produção de peixes no Nordeste.”

Na Zona da Mata mineira a situação não foi muito diferente. Os resíduos e rejeitos da mineração foram carreados para os leitos dos rios e acabaram por envenenar as águas com os mais diferentes tipos de metais, alguns altamente tóxicos como o mercúrio, o níquel, o cádmio e o chumbo; em tempos mais modernos, com o crescimento das cidades e a instalação das grandes indústrias, os rios passaram a receber grandes cargas de esgotos domésticos e industriais. Um exemplo dessa degradação é o Rio das Velhas, um dos mais importantes afluentes do Rio São Francisco, que sofre com o assoreamento, com a destruição das poucas matas ciliares que restaram, com o despejo de esgotos da região Metropolitana de Belo Horizonte e de resíduos de mineração vindos de todos os cantos da sua bacia hidrográfica, apresentando águas malcheirosas e muito degradadas.

Como resultado do intenso e histórico desmatamento de grandes áreas da Zona da Mata, especialmente no Estado de Minas Gerais, o Rio São Francisco tem hoje um volume cada vez menor de água correndo pela sua calha altamente assoreada e entulhada. Essa água, além de pouca, apresenta uma baixa qualidade, com grandes volumes de esgotos e contaminantes de todo o tipo.

A mesma destruição que se deu em áreas da Zona da Mata, também assolou a Caatinga – falaremos disto no próximo post.

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