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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

POBRE PORTO RICO

Furacão Maria 2017

A Ilha de Porto Rico, chamada inicialmente de San Juan Bautista pelos espanhóis, foi “descoberta” em novembro de 1493 por Cristóvão Colombo na sua segunda expedição às Américas. Como aconteceu com outras ilhas caribenhas, Porto Rico era densamente povoada por indígenas taínos, que chamavam sua ilha de Borikén. O gentílico popular “boricua”, usado para indicar as pessoas nascidas em Porto Rico, é derivado desse nome indígena. 

Porto Rico é a menor das Grandes Antilhas – a ilha possui apenas 9.100 km², o que equivale a menos da metade da superfície do Estado de Sergipe. A população é estimada em 3,5 milhões de pessoas. Desde 1898, quando foi assinado o Tratado de Paris que encerrou a chamada Guerra Hispano-Americana, Porto Rico passou a ser um Estado Livre associado aos Estados Unidos da América e, bem recentemente, foi elevado à condição de Estado norte-americano. 

O primeiro assentamento espanhol em Porto Rico foi fundado em 1508 por Juan Ponce de Leon, que foi nomeado o primeiro Governador da Ilha. Ponce de Leon entraria para a história por causa de sua busca obsessiva pela lendária Fonte da Juventude, uma saga que já foi tema de muitos livros e filmes como “Piratas do Caribe”.

A história colonial de Porto Rico não é muito diferente das outras ilhas do Mar do Caribe. Após a chegada dos primeiros colonizadores, a ilha acabou transformada em um grande canavial. Os indígenas taínos, que foram usados como mão de obra nos primeiros anos da colonização, morreram em grande quantidade devido a doenças trazidas pelos europeus e já em 1520, escravos africanos começaram a chegar na ilha para assumir os trabalhos na agricultura. 

Também como aconteceu com outras colônias espanholas nas ilhas caribenhas, Porto Rico foi relegada a um segundo plano diante das imensas riquezas geradas pela expropriação dos grandes tesouros dos Impérios Asteca e Inca no continente. Foi somente a partir do ano de 1700, com a ascensão da dinastia Bourbon ao trono da Espanha, que Porto Rico passou a receber maior atenção e maiores investimentos da Metrópole. Estradas começaram a ser construídas por toda a ilha, interligando as diversas cidades que surgiram ao longo da costa, favorecendo cada vez mais o escoamento e o comércio de produtos agrícolas. 

A partir do final do século XVIII, com o início de diversos conflitos emancipacionistas por todas as ilhas do Mar do Caribe, a Espanha passou a se preocupar com a manutenção da posse da Ilha de Porto Rico, que àquela altura já era um importante centro comercial na região. Em 1809, a Espanha reconheceu Porto Rico como uma de suas províncias ultramarinas e seus habitantes passaram a ter direto a eleger, por meio de voto, um representante para o Parlamento Espanhol.  

O Governo espanhol também estimulou a imigração de seus cidadãos para a Porto Rico, como forma de melhorar seus vínculos com a ilha – até o final do século XIX, perto de 450 mil imigrantes, a maioria espanhóis, desembarcaram na ilha. A Espanha também aumentou os seus fluxos comerciais com a ilha, tentando assim manter a posse de uma de suas últimas colônias nas Américas. 

Em julho de 1898, como uma consequência da Guerra Hispano-americana, os Estados Unidos invadiram Porto Rico e por lá ficaram. Após a assinatura do Tratado de Paris, a Espanha cedeu Porto Rico, Guam e as Filipinas para os Estados Unidos, além de conceder autonomia para Cuba, que se tornou um país independente. A partir de 1917, os porto-riquenhos passaram a ser considerados cidadãos norte-americanos. Em 2017, após um referendo popular, Porto Rico passou a ser o 51ª Estado norte-americano. 

Assim como aconteceu com a grande maioria das ilhas do Mar do Caribe, Porto Rico derrubou a maior parte de sua cobertura florestal com vistas a abertura de campos agrícolas. Como consequência direta dessa prática multissecular, grande parte da ilha sofre há vários anos com longos períodos de seca, um problema que também está ligado as mudanças climáticas e aos efeitos devastadores de sucessivos fenômenos do El Niño e La Niña. Mas nada disso, porém, se compara a uma sequência assustadora de fortes furacões que tem atingido a ilha como uma frequência e intensidade assustadoras. 

Relembrando apenas os furacões que atingiram a ilha em anos recentes: em 2016, o Furacão Matthew passou perto de Porto Rico e assustou muita gente. Em 7 de setembro de 2017, Porto Rico foi atingido pelo Furacão Irma e, poucos dias depois, pelo Furacão Maria no dia 20. O Maria foi a pior tempestade a atingir a ilha em 100 anos, gerando ventos com velocidade acima de 250 km por hora e provocando chuvas torrenciais e alagamentos generalizados. Esse furacão deixou um saldo oficial de 2.975 mortos e dezenas de bilhões de dólares em prejuízos materiais (vide foto).

Essas duas tempestades em sequência destruíram grande parte da infraestrutura de Porto Rico. Em setembro de 2019, a população de Porto Rico se preparou para a chegada do Furacão Dorian, que felizmente perdeu força e não causou maiores prejuízos. O aumento da incidência e da intensidade dos furacões no Mar do Caribe estão ligados às mudanças climáticas globais

Além de destruir casas e edifícios, esses sucessivos furacões têm causado grandes impactos nos remanescentes florestais de Porto Rico. As fortes ondas geradas pelos ventos avançam contra o litoral, destruindo a faixa de areia das praias e danificando a vegetação de áreas de mangue. No interior da ilha, as áreas florestais sofrem com a força intensa dos ventos e muitas árvores acabam sendo derrubadas. 

Imagens de satélite feitas pela NASA – Agência Espacial Norte-americana na sigla em inglês, logo após a passagem do Furacão Maria, mostraram a ilha de Porto Rico praticamente toda devastada e parecida com uma região que sofreu um pesado bombardeio aéreo numa guerra. Calcula-se que cerca de 30 mil pessoas ainda não conseguiram reconstruir suas casas até hoje

Um exemplo claro da devastação deixada pelos furacões pode ser visto na ilhota de Palominito, localizada nas proximidades da famosa Ilha de Palomino. Até cerca de 25 anos atrás, a ilhota era coberta por vegetação e possuía uma grande população de animais. Nos últimos anos, Palominito passou a ser varrida pelas ondas e fica submersa ao longo de grande parte do ano. Foi em Palominito que o pirata Jack Sparrou acabou abandonado num dos filmes da franquia “Piratas do Caribe”.

Um levantamento recente feito em 60% do litoral de Porto Rico constatou que ao menos 1/5 das praias do país estão sofrendo com a forte erosão marinha, criada por ressacas cada vez mais fortes e frequentes entre os meses de novembro e março, além dos estragos deixados pelos furacões. Esse problema afeta diretamente a indústria do turismo, uma das mais importantes atividades econômicas da ilha. Aliás, faz muito tempo que a economia de Porto Rico não anda “bem das pernas”. 

Apesar de ser o mais novo Estado do país mais rico do mundo, os Estados Unidos, a economia de Porto Rico vai de mal a pior. A economia da ilha está em recessão desde 2005, com uma dívida total de mais de US$ 120 bilhões. Para piorar a situação, o Estado vem enfrentando um decréscimo populacional já há vários anos

Em 1950, a população de Porto Rico era de 2,2 milhões de habitantes e continuou crescendo até 2001, quando atingiu um pico de 3,8 milhões de habitantes. Além da redução da taxa de fertilidade, que tem reflexos diretos na população local, cerca de 90 mil porto-riquenhos migram para a área continental dos Estados Unidos a cada ano. A destruição causada pelas sucessivas tragédias climáticas tem desaminado os porto-riquenhos, que cada vez mais optam por recomeçar a vida em Estados com grandes populações “latinas” como a Flórida e o Texas. 

Com o êxodo de parte cada vez mais expressiva da sua população, principalmente jovens, Porto Rico perde parte importante da sua força de trabalho, o que afeta profundamente o crescimento econômico. E a situação que já não é das melhores, tenderá a piorar cada vez mais ao longo dos próximos anos. 

Devastação ambiental, decréscimo populacional e uma longa e perturbadora recessão econômica – essa é a triste sina do cada vez mais pobre Porto Rico. 

A CRESCENTE ESCASSEZ DE ÁGUA EM CUBA

Falta de água em Havana

Na nossa última postagem falamos de alguns dos principais problemas ambientais da Ilha de Cuba, onde destacamos a destruição de remanescentes florestais para a retirada de madeira e também da caça predatória de animais silvestres para abastecer o mercado negro de carnes do país. Esses dois problemas estão acabando com a biodiversidade de Cuba.

Se existe uma única palavra que pode definir Cuba como nenhuma outra ela seria “escassez“. Falta de tudo na Ilha: madeira, carnes, sabão, eletricidade, peças de reposição e combustível para carros, caminhões e motos; alimentos, entre muitas coisas mais. Os cubanos, assim como nós brasileiros, criaram “jeitinhos para tudo” e vão tocando a vida da melhor maneira possível. 

Um elemento essencial cuja escassez não para de aumentar na Ilha é a água. No início desse ano, citando apenas um exemplo, cerca de 1 milhão de habitantes de Havana ficaram até um mês sem receber uma única gota de água em suas torneiras e dependendo de caminhões pipa. Uma das regiões mais afetadas foi a Cidade Velha, mais conhecida como La Habana Vieja

De acordo com informações da chamada “Imprensa Cubana Livre”, dirigida por refugiados cubanos de Miami – Estados Unidos, cerca de 70% das tubulações da rede de água dessa região da cidade está deteriorada. A infraestrutura de La Habana Vieja e de outras regiões tradicionais da capital do país são anteriores à Revolução Cubana, encerrada em 1959. Tubulações de ferro fundido costumam ter uma vida útil na casa dos 50 anos, o que nos dá uma ideia da quantidade de água que é perdida em inúmeros vazamentos

Os problemas relacionados aos recursos hídricos em Cuba, entretanto, são bem mais complexos. Conforme comentamos em postagem anterior, perto de 70% da cobertura vegetal nativa da ilha desapareceu após cinco séculos de produção de cana de açúcar e tabaco. A presença de cobertura vegetal, como sabemos, é essencial para a infiltração da água das chuvas nos solos e recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos, reservas de água que alimentam as nascentes de rios, riachos e córregos.  

Sem esse processo, os corpos d’água só apresentarão bons volumes de água durante o período das chuvas – ao menor sinal de seca, a água simplesmente desaparece. Em ilhas como Cuba, onde os territórios são pequenos e as bacias hidrográficas costumam ser pouco extensas, a velocidade em que a redução dos caudais se processa é muito grande, o que agrava ainda mais o problema. 

As ilhas do Mar do Caribe estão entre as áreas com maior escassez de água do mundo. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, dos 36 países do mundo com maior escassez de água na atualidade, 7 estão no Caribe e Cuba, maior país insular e que possui a maior população entre todas as ilhas está no topo dessa lista

Como acontece na maioria dos países do mundo, a maior parte das águas superficiais disponíveis em Cuba são usadas pela agricultura. De acordo com dados de 2008, 65% da água disponível no país era usada em sistemas de irrigação – na maioria dos países esse volume está próximo de 80%. Agora, um dado interessante para ajudar a entender o tamanho do problema da escassez de água em Cuba – de um total de 6,2 milhões de hectares de área agrícola do país, menos de 500 mil hectares são irrigados. 

Segundo informações do Panorama de Uso da Terra de 2015, um informe do Governo Cubano, a maioria dos sistemas de irrigação em operação na Ilha são obsoletos e desperdiçam grandes volumes de água. Os planos do Governo local eram de duplicar a área irrigada até 2020, o que sem a troca dos sistemas de irrigação atuais por outros sistemas mais modernos como o micro gotejamento, é virtualmente impossível por falta de água

Plantações irrigadas costumam apresentar uma produtividade média até 30% maior que os cultivos tradicionais. Esse incremento na produção seria muito bem-vindo em um país que gasta mais de US$ 2 bilhões ao ano com a importação de alimentos básicos e que vem apresentando gravíssimos problemas de desequilíbrio em sua balança comercial desde o colapso da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991 e que era a grande parceira comercial de Cuba. 

O país também depende da produção e exportação de produtos de origem agrícola, onde os maiores destaques são o açúcar, o rum e os famosos charutos “habanos puros”. Nessa situação, há uma tentação natural das autoridades em “forçar a mão” para disponibilizar a maior parte dos recursos hídricos para a agricultura, reduzindo proporcionalmente os volumes disponibilizados para a população. Esse desequilíbrio, aparentemente, chegou ao seu limite e a população tem feito grandes protestos diante da sistemática falta de água em suas torneiras (vide foto). 

Uma solução usada tradicionalmente em países com baixa disponibilidade de recursos hídricos superficiais é a perfuração de poços para a captação de águas em lençóis subterrâneos profundos. Em Cuba, essa solução não é eficaz – a ilha é extremamente alongada e estreita, não existindo praticamente nenhum ponto do território distante mais de 50 km do mar. A perfuração maciça de poços vai aumentar consideravelmente os riscos de salinização das reservas de água ainda existentes. Conforme comentamos na última postagem, cerca de 1 milhão de hectares de terras agrícolas do país já sofrem com processos de salinização

Além, da destruição da cobertura vegetal do país e do grande desperdício de água na agricultura, Cuba e outras ilhas do Mar do Caribe vêm sofrendo fortemente com as mudanças climáticas e com alterações nos tradicionais padrões de chuva. Com clima tropical, as Ilhas caribenhas sempre conviveram com duas estações climáticas bem definidas – uma forte temporada de chuvas, equivalente ao inverno da nossa Amazônia, e um verão quente e seco.  

Fenômenos naturais com o El Niño e La Niña tem afetado esse ciclo natural e provocado fortes secas. Outro sério problema enfrentado na região é o aumento da intensidade e da frequência dos furacões, o que tem causado enormes estragos nas ilhas. Um exemplo recente foi o Furacão Matthew, que em 2016 causou enormes estragos no Haiti, Jamaica, Cuba, República Dominicana e Bahamas, além dos Estados Unidos. Outro foi o Furação George, que em 1998 atravessou o Caribe e causou grande destruição na República Dominicana, Haiti, Porto Rico, Antígua e Barbuda, São Cristóvão e Névis, Cuba e Estados Unidos. 

Existem várias soluções técnicas para amenizar o problema de escassez de água em Cuba – desgraçadamente, todas irão demandar pesados investimentos. Essas soluções incluem a troca das redes de distribuição de água nas grandes cidades, o que diminuiria grandemente as perdas. Outra solução é adoção de sistemas para o reúso de água – em Israel, onde a disponibilidade de água ainda é menor do que em Cuba, as águas servidas são usadas em sistemas de irrigação altamente eficientes. A construção de usinas de dessalinização da água do mar, como é feito por exemplo em Curaçao, é um outro caminho para aumentar a oferta de água no país. 

Infelizmente, enquanto os “companheiros revolucionários” ainda derem as cartas em Cuba, nenhuma dessas ideias poderá sair do papel. Sem dinheiro, sem água e com burocratas socialistas mandando no país, a situação em Cuba ainda vai piorar muito antes que qualquer sinal de melhora surja no horizonte. 

CUBA: TERRA DA “REVOLUCIÓN”, DOS ”HABANOS PUROS” E DO “JEITINHO”

Havana

Uma expedição espanhola comandada por Cristóvão Colombo chegou na Ilha de Cuba em 1492, logo após ter descoberto a Ilha de São Domingo, batizada de Hispaniola. Colombo batizou a ilha com o nome de Juana, como uma homenagem à filha dos Reis Católicos da Espanha, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Inicialmente, Colombo imaginou que a ilha fosse uma península do continente americano – foi somente em 1509, que o explorador Sebastián de Ocampo conseguir circunavegar todo o território e comprovar se tratar de uma ilha. 

Logo após desembarcar em terra, Colombo organizou e dividiu seus homens em grupos para explorar a ilha. Dois desses homens, Rodrigo de Jerez e Luís de Torres, ficaram vários dias fora e, quando retornaram, fizeram um relato dos mais curiosos a Colombo – os índios taínos “tinham tochas nas mãos e ervas das quais inalavam fumaça, ervas secas dentro de uma folha, igualmente seca… acesas na ponta, eram chupadas ou aspiradas, o que lhes entorpece a pele e é quase intoxicante, e dizem que dessa forma jamais sentem fadiga“. Acidentalmente, esses dois espanhóis descobriram o produto que faria a ilha famosa em todo o mundo – os charutos cubanos. 

Com o avanço das conquistas nas Américas Central e do Sul, os espanhóis descobriram que o plantio do fumo (Nicotiana tabacum) e o hábito de fumar faziam parte da cultura de diversas tribos indígenas americanas. Levado para a Europa, o fumo conquistou apreciadores no Velho Continente, o que criou uma forte demanda por esse novo produto das Américas. A região de Pinar del Rio, em Cuba, foi rapidamente identificada como a que possuía as melhores terras, além das condições de clima e ecológicas para a produção das melhores folhas de fumo. Os mundialmente famosos “habanos puros” tem suas folhas produzidas exclusivamente nessa região. 

Como aconteceu na maioria das ilhas do Mar do Caribe, a Ilha de Cuba também seria transformada em uma grande produtora de açúcar. As primeiras mudas de cana de açúcar desembarcaram na ilha em 1511, mas Cuba só se tornaria uma grande produtora de açúcar apenas no século XVIII, dividindo espaços com as plantações de fumo. 

Apesar da história da chegada da cana e da produção do açúcar lembrar muito o que aconteceu na Ilha de São Domingo e na Jamaica, em Cuba a situação foi um pouco diferenciada. Nessas duas ilhas, onde os recursos naturais são mais limitados, os engenhos de processamento do açúcar utilizavam a queima do bagaço da cana como combustível para as caldeiras de refino do melaço. Relembrando o que já comentamos em uma postagem anterior, era necessária a queima de até 20 kg de lenha ou outro combustível para a produção de um único quilograma de açúcar

Em Cuba, a maior ilha do Mar do Caribe, a aparente disponibilidade inesgotável de recursos florestais deixou os engenhos locais muito parecidos com os engenhos da região Nordeste do Brasil – essas instalações utilizavam lenha colhida nas florestas para gerar a energia dos processos de produção do açúcar. Essa característica criou duas frentes de desmatamentos: a primeira, derrubando florestas a ferro e a fogo para a abertura de campos para o cultivo da cana, e outra derrubando matas para a obtenção de lenha. 

À semelhança dos grandes engenhos do Nordeste brasileiro, os produtores cubanos abandonavam as suas terras ao primeiro sinal de esgotamento dos solos e partiam para a derrubada de novos trechos de matas, liberando “terras virgens” para a criação de novos campos agrícolas. Essa prática, que foi responsável pela destruição do trecho nordestino da Mata Atlântica aqui no Brasil, também colaborou muito para a devastação das florestas cubanas. Segundo os últimos levantamentos divulgados pelo Governo local, restam apenas 28,6% das matas nativas originais de Cuba

O Arquipélago de Cuba é formado por mais de 1.500 pequenas ilhas e ilhotas, sendo que a Ilha principal tem uma área total aproximada de 105 mil km², pouca coisa maior que o Estado de Pernambuco. O território da Ilha de Cuba possui um formato alongado, com cerca de 1.200 km de comprimento e com uma largura média de 130 km. A população do país é de 11,2 milhões de habitantes. 

Como aconteceu em grande parte das ilhas do Mar do Caribe, Cuba passou a sofrer grande influência dos Estados Unidos, principalmente depois da independência da Espanha em 1898. Os cubanos se envolveram em três conflitos armados contra o domínio espanhol a partir de 1868, só logrando êxito na terceira tentativa, onde contaram com apoio dos Estados Unidos.  

O Tratado de Paris, assinado em 1898, encerrou a guerra de independência, mais conhecida como Guerra Hispano-Americana, quando a Espanha abriu mão de Cuba, Porto Rico e das Filipinas. Os norte-americanos permaneceriam formalmente em Cuba até 1902, mas o seu intervencionismo se estenderia até 1909, quando o país efetivamente deixou o país, não sem antes garantir a posse da polêmica base naval de Guantánamo no Sul da Ilha. Indiretamente, porém, o norte-americanos manteriam uma forte influência econômica sobre Cuba, o que só terminou no final da Revolução Cubana em 1959. 

O uso inconsequente dos solos e a destruição intensa da cobertura florestal na Ilha de Cuba desencadearam dois dos maiores problemas ambientais da ilha na atualidade – a erosão e a alta acidez dos solos. Processos erosivos afetam perto de 2,5 milhões de hectares da ilha, especialmente nas regiões onde a produção de cana é mais intensa.  

Outros 3,4 milhões de hectares de solos têm apresentado altos níveis de acidez, onde a principal causa é falta de rotação das culturas agrícolas, que se limitam a cana de açúcar e ao fumo. Completando o quadro, mais de 1 milhão de hectares de solos sofrem com a salinização. Juntos, esses problemas afetam mais de 60% do território de Cuba. 

Um outro problema grave, que já foi reconhecido até pelo Governo comunista da ilha, é a acelerada perda de biodiversidade. Entre as causas principais estão a destruição de áreas florestais e a perda de habitats. Existe, porém, outros problemas que são bem típicos de Cuba: a caça de animais silvestres e a pesca excessiva, atividades ilegais que surgiram como forma de compensar as deficiências do sistema de “cadernetas de racionamento” criado pelo regime socialista cubano. 

Eu estive em Cuba há alguns anos atrás e, numa das minhas andanças longe das vistas dos “agentes de turismo oficiais”, eu fui de moto até uma cidadezinha mais afastada. Num açougue dessa comunidade, verifiquei que só havia uma única bandeja com pescoços e cabeças de frango – todas as demais bandejas da gondola estavam vazias. Tentei conversar com alguns dos desconfiados moradores, que não sei por que cargas d’água achavam que eu era canadense, que sem querer confirmar, mas confirmando, disseram que aquilo era normal por lá. 

Pois bem – existe um poderoso mercado negro para venda de carnes em Cuba. Espécies silvestres como tartarugas cabeçudas, tartarugas verdes e tartarugas de pente, crocodilos e manatees (peixe-boi marinho), entre outras espécies ameaçadas de extinção, além de peixes e crustáceos marinhos, são caçados e/ou pescados clandestinamente, e tem suas carnes vendidas “por fora do sistema”.  

O quilo da carne de tartaruga ou de crocodilo, citando um exemplo, é vendido nesse mercado negro por valores entre US$ 5.00 e US$ 7.00, o que é muito caro para os padrões cubanos. Mesmo assim, as pessoas fazem um grande esforço econômico para comer uma proteína de qualidade de vez em quando. Numa visita a um restaurante fino de Havana, eu passei por uma situação curiosa que ilustra como funciona esse mercado negro. 

Ao parar nesse restaurante para almoçar, descobri que só serviam carne de frango. Como eu sou alérgico a essa carne, eu falei com o maitre e, pagando módicos US$ 15.00, consegui pedir um belo e suculento filé “bovino” (usei aspas por que só tenho certeza de se tratar de uma carne vermelha). Para infelicidade geral dos cubanos pobres, é assim que as coisas funcionam por lá. 

Outra fonte de problemas é a demanda reprimida por madeiras na ilha, onde há falta do material para a fabricação de móveis elementares como cadeiras, mesas e sofás, para a construção civil e até mesmo para a fabricação de caixões para se enterrar os mortos. Os remanescentes florestais de Cuba são sistematicamente invadidos por madeireiros clandestinos, que derrubam as melhores árvores e levam os troncos para serrarias ilegais por toda a ilha. 

Para se ter uma ideia do tamanho do problema: o Corpo de Guardas Florestais de Cuba aplicou quase 20 mil multas por derrubada ilegal de árvores em 2014, totalizando quase US$ 125 mil, além de apreender mais de 2,2 mil m³ de madeira. A exemplo do que ocorre aqui no Brasil, sabemos que isso é uma fração mínima dos ilícitos cometidos por lá. 

Enquanto os líderes políticos locais só se preocupam com os rumos da “Revolución”, se desenrola uma perda acelerada de espécies animais e vegetais, degradação e perda de solos agrícolas, destruição de fontes de água e de habitats (principalmente costeiros e marinhos) por toda a ilha. 

Esse é o “jeitinho” cubano de tocar a vida. Então, ¡Viva Cuba!   

JAMAICA: TERRA DO AÇÚCAR, DO RUM E DA ”GANJA”

Cannabis na Jamaica

A Jamaica é uma das mais famosas ilhas do Mar do Caribe. Nas últimas décadas ganhou uma enorme projeção mundial graças a um dos seus mais contagiantes ritmos – o reggae, e ao Movimento Rastafári. Entretanto, até um passado recente, o pequeno país era famoso por outro produto típico, “um pouco mais forte” que o ritmo musical – o rum. Destilado a partir do melaço fermentado da cana de açúcar, o rum é uma bebida de forte teor alcoólico, entre 40 e 55° GL. A bebida começou a ser produzida em todo o Caribe a partir do século XVII, época em que os jamaicanos e os haitianos concorriam em busca do título de melhor rum do Caribe. 

O rum da Jamaica é considerado um dos mais fortes e encorpados. A bebida foi popularizada em países da Europa e nos Estados Unidos pelos marinheiros, piratas e corsários, que durante muito tempo fervilhavam no Mar do Caribe em busca dos galeões espanhóis carregados de ouro e prata. Conta-se que esses homens sempre tomavam alguns bons goles de rum antes de atacar algum navio desavisado. 

Com pouco mais de 10 mil km², a Jamaica é a terceira maior ilha das chamadas “Grandes Antilhas” e abriga uma população de aproximadamente 3 milhões de pessoas. A ilha fica localizada ao Sul da Ilha de Cuba e a cerca de 200 km a Oeste da Ilha de Santo Domingo, onde encontramos o Haiti e a República Dominicana. Apesar de muito próximas, cada uma dessas ilhas teve uma história diferente, o que criou problemas parecidos em alguns casos e muito diferentes em outros. 

A Jamaica foi “descoberta” em 1494 por uma expedição liderada por Cristóvão Colombo, já na sua segunda viagem às Américas. Os espanhóis encontraram uma grande população de indígenas tainos e aruaques vivendo em cerca de 200 aldeias por toda a ilha. Em 1509, foi construído o primeiro assentamento europeu na ilha – Sevilha, que acabou sendo abandonado em 1524. Em 1534 foi fundada acidade de San Jago de la Vega, (atual Saint Catherine), elevada à posição de capital da colônia.

Os espanhóis organizaram diversas expedições para exploração da ilha, mas nunca demonstraram um maior interesse na colonização. Nessa época, seus conquistadores estavam expropriando grandes tesouros em ouro e prata no México e no Peru, e todos os olhares estavam fixos na área continental. Em 1655, os britânicos tomaram à força o último forte ainda controlado pelos espanhóis na ilha e assumiram o controle da Jamaica. 

Como aconteceu com a maioria das ilhas do Mar do Caribe, os britânicos transformaram a Jamaica num imenso canavial, com direito a toda a devastação florestal requerida pela atividade. Ao longo de dois séculos, a ilha foi uma grande produtora de açúcar e também a colônia que mais dependia da mão de obra de escravos africanos do Novo Mundo. Na década de 1820, a colônia chegou a produzir anualmente mais de 77 mil toneladas de açúcar

A partir de 1807, quando o tráfico de escravos foi proibido, os ingleses passaram a “importar” chineses e indianos para complementar o quadro de trabalhadores da colônia. Com a abolição da escravidão na Jamaica em 1838, milhares de trabalhadores indianos, mão de obra considerada extremamente barata pelos britânicos, passaram a ser deslocados para a ilha a fim de substituir os antigos escravos nas plantações de cana e produção do açúcar.  

Esses indianos trouxeram as primeiras mudas da Cannabis (vide foto), a conhecida maconha, e popularizaram o hábito de fumar a erva entre os nativos. A “ganja”, nome local da maconha, passaria a fazer parte da vida e da cultura popular dos jamaicanos, participando inclusive de diversos rituais de religiões locais como o conhecido Movimento Rastafári

Ao longo de todo o século XX, a produção agrícola da Jamaica passou a ser diversificada, deixando de ser totalmente dependente da cana e do açúcar. O país passou a produzir e exportar bananas, café, cacau, frutas cítricas, cocos e especiarias. A partir do final da década de 1950, a Jamaica começou a ganhar cada vez mais autonomia em relação ao Reino Unido, conseguindo a sua independência em 1962. Mesmo independente, a ex-colônia mantém uma boa relação com sua antiga metrópole – mais de 85% do açúcar produzido na Jamaica é exportado para a Inglaterra. 

Nas últimas décadas, a produção agrícola vem diminuindo gradativamente a sua participação no PIB – Produto Interno Bruto, da Jamaica, respondendo atualmente por menos de 7%. O setor de serviços, ao contrário, cresceu muito e já responde por mais da metade da economia jamaicana. As áreas ligadas ao turismo são as grandes geradoras de receitas, recebendo mais de 1,3 milhões de turistas a cada ano. 

Outro setor que cresceu muito nos últimos anos foi a mineração, especialmente da bauxita, matéria prima para a produção do alumínio. A mineração, beneficiamento e produção desse metal representa um dos maiores problemas ambientais da Jamaica na atualidade, comprometendo solos, águas e também a qualidade do ar. Esse setor da economia jamaicana é dominado por empresas multinacionais da China.

Conforme já comentamos em uma série anterior de postagens, a mineração é uma das atividades que mais degradam o meio ambiente em todo o mundo. Os problemas começam com a abertura das áreas de cavas, onde florestas e remanescentes florestais são removidos. A escavação dos solos, o transporte e o estocagem temporária dos minérios causam inúmeros problemas nas fontes de água. Outro grave problema são os rejeitos minerais – para a produção de 1 tonelada de alumínio são geradas até 4 toneladas de rejeitos inservíveis

Os depósitos de rejeitos minerais são fontes inesgotáveis de problemas. Expostos às fortes temporadas de chuvas da região do Caribe, esses resíduos absorvem grandes quantidades de águas pluviais, água essa que lixivia (arrasta) partículas de metais pesados como chumbo, arsênico, ferro, estanho e cromo, entre muitos outros, carregando esses elementos para as fontes de água. Acidentes com depósitos de resíduos da mineração, como aconteceu em Mariana e em Brumadinho aqui no Brasil, também são um grande risco. 

Uma das mais problemáticas mineradoras em operação na Jamaica é a empresa estatal chinesa JISCO – Jiuquan Iron and Steel Company. Essa empresa recebeu no último ano, por parte do órgão ambiental da Jamaica, 16 multas judiciais por descumprimento das normas ambientais do país. As principais queixas estão relacionadas à poluição do ar gerada pela unidade de processamento de alumínio e por degradação de corpos d’água com resíduos minerais na área de entorno de um depósito com mais de 250 hectares

Quando a empresa iniciou a produção em sua unidade de processamento de alumínio em 2016, foram anunciados investimentos de mais de US$ 3 bilhões em toda a Jamaica, inclusive com a promessa de construção de uma segunda unidade industrial até 2019 (o que acabou não se concretizando). Esse tipo de anúncio em um país pequeno e pobre “soa como música” para os ouvidos dos políticos. Sedentos por eventuais “compensações financeiras” (entenda-se aqui pagamentos de propinas), esses políticos costumam fazer vista grossa a “eventuais pecados” ambientais que venham a ser cometidos. 

Como sempre costuma acontecer nessas situações, a empresa alega que “não poupa esforços para o monitoramento e controle ambiental de todos os seus processos industriais”. Outra desculpa repetida frequentemente é que a unidade industrial atual está sobrecarregada com a produção. Como parte de seus esforços de relações públicas, a JISCO desenvolve programas de educação para jovens e apoia financeiramente diversas escolas do país. 

Assim como aconteceu na Ilha de São Domingos, a indústria açucareira jamaicana foi responsável pela devastação da maior parte das florestas nativas do país – os maiores fragmentos florestais remanescentes se concentram nas áreas montanhosas da ilha. Os principais atrativos turísticos da Jamaica, assim como em outras ilhas caribenhas, ficam no litoral, o que ajuda a esconder dos turistas a maioria dos problemas ambientais do interior. 

Aos símbolos mais representativos da Jamaica – o reaggae, o açúcar, o rum e a “ganja“, podemos acrescentar os problemas ambientais causados pela mineração. Que coisa mais triste.

AINDA FALANDO DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS E SOCIAIS DO HAITI

Haiti

Nas últimas postagens falamos bastante da Ilha de São Domingos, onde se encontra de um lado a República Dominicana, país que possui a economia mais dinâmica do Caribe, e do outro o Haiti, o país mais pobre e desmatado das Américas. A ilha foi o berço da colonização das Américas, tendo assistido ao nascimento da primeira cidade com ocupação permanente – Santo Domingo, além da construção da primeira catedral católica e da fundação da primeira universidade do continente. 

Quando a expedição de Cristóvão Colombo desembarcou na ilha em 1492, encontrou um bioma único, coberto por densa floresta tropical e com farta disponibilidade de fontes de água. A ilha abrigava uma grande população indígena, estimada em até 250 mil indivíduos. Esses indígenas chamavam a ilha de Quiqueya. A colonização, espanhola de um lado e francesa do outro, exterminou a população indígena e devastou a cobertura vegetal da ilha: 70% das florestas da República Dominicana e 98% do Haiti desapareceram. Sucessivas ditaduras e governos militares completaram o quadro da tragédia, tendo sido muito mais devastador no lado haitiano

Para mostrar de uma forma mais detalhada e didática o que tudo isso significou para o Haiti, vamos analisar os problemas ligados à produção de alimentos, uma das necessidades mais fundamentais de qualquer país. 

Devido à incapacidade de produção, cerca de 80% dos alimentos consumidos pelos haitianos precisam ser importados, o que inclui produtos básicos como o arroz, a carne de frango e os ovos. No caso de derivados de leite, essa importação supera a marca de 65%. Dados de 1981 indicam que as importações de alimentos no país há 40 anos atrás eram da ordem de 19%, o que indica o elevado grau de deterioração da economia do Haiti após o terremoto de 2010. 

As importações de arroz são um exemplo do problema: o país precisa importar 400 mil toneladas de arroz a cada ano para atender o consumo da população, a um custo de US$ 240 milhões. Isso pode não parecer muita coisa para um país com o tamanho da economia do Brasil, mas esse valor sozinho corresponde a 1,5% do PIB – Produto Interno Bruto, do Haiti. 

É aqui que entramos no cerne do problema – as dificuldades para a prática da agricultura no país. A topografia local, por si só, já apresenta enormes dificuldades: 75% da superfície do Haiti é formada por terrenos montanhosos e com forte declividade, características que limitam grandemente a produção da maioria das culturas agrícolas, especialmente grãos como o arroz. Relembrando o que comentamos em postagem anterior, a palavra Haiti na antiga língua dos índios arahuacas significa “terra de montanhas”,  

O arroz, que é o cereal mais consumido pelos haitianos, depende de terrenos planos e com grande disponibilidade de água. No Extremo Oriente, onde também é o principal alimento, parte do arroz é produzido em regiões com topografia acidentada em países como a China, o Vietnã, o Japão e a Coreia. Porém, os agricultores de lá realizam complexas obras de engenharia para a formação de terraços em degraus, trabalhos que exigem grande organização social e apoio mútuo entre os agricultores, algo que não encontramos no Haiti. 

Outra dificuldade para os haitianos é a dramática redução dos solos férteis no país. Praticamente toda a cobertura florestal do país já foi destruída, expondo os solos a uma forte erosão pelas águas das chuvas e carreamento da camada fértil na direção dos corpos d’água. A forte declividade dos terrenos intensifica ainda mais os processos erosivos, reduzindo cada vez mais a disponibilidade de solos e, consequentemente, de fontes de água. 

Nas escassas áreas planas dos vales, onde se esperaria encontrar condições mais adequadas para a prática agrícola, existe um outro problema – os lotes das famílias são muito pequenos e cercados, o que impede o uso de máquinas agrícolas básicas como tratores puxando arados. Isso limita os trabalhos na terra ao uso de ferramentas manuais como enxadas, ancinhos e a arados com tração animal, o que exige grandes esforços físicos e resulta em uma baixíssima produtividade (vide foto). 

De acordo com informações do CNSA – Conselho Nacional de Segurança Alimentar, do Haiti, o tamanho médio dos lotes agrícolas se situa numa faixa entre 0,62 e 1,46 hectares (lembrando que 1 hectare equivale a uma área com 10 mil m²), quando o ideal seriam lotes mínimos com aproximadamente 3 hectares. Assim como acontece em outras regiões do mundo, a produção de alimentos dessas pequenas áreas vai atender apenas as necessidades de subsistência das próprias famílias, sem gerar excedentes para a venda. 

Sem conseguir produzir alimentos em quantidade suficiente para atender as suas necessidades e sem dinheiro para conseguir pagar os altos custos dos alimentos importados, cerca de 4,5 milhões de haitianos, o que chega bem próximo de metade da população do país, sofre com a “insegurança alimentar”, o que, em linguagem bem popular, significa que essas pessoas passam fome frequentemente. Segundo dados de 2009 da CNSA, 55% da população do Haiti vive em pobreza extrema

Os problemas ambientais, infelizmente, não param por aí. A derrubada maciça da cobertura vegetal do país destrói os solos e leva a um processo de degradação ambiental conhecido como desertificação. Conforme já comentamos em postagem anterior, o solo fértil é o resultado de milhares de anos de degradação de rochas e formação de sedimentos finos. Esses sedimentos se misturam a matéria orgânica resultante da decomposição de plantas e de restos de animais mortos, além de água e ar. 

Quando o solo fica sem a proteção da vegetação, as águas das chuvas arrastam essa camada de solo fértil milenar e expõe terrenos rochosos ou cobertos por sedimentos inertes onde as plantas não crescem. A radiação solar resseca esses terrenos desnudos, diminuindo a sua capacidade de absorver e reter água, formado um solo com características de deserto. A Península de San Nicolás no Norte do país e sobre a qual já falamos, está sofrendo fortemente com a desertificação. 

A incapacidade dos solos em absorver água leva a outro problema gravíssimo – as águas das chuvas não recarregam os lençóis freáticos e aquíferos subterrâneos, destruindo assim as nascentes das fontes de água. Nos períodos do verão, os rios e córregos apresentam grandes volumes – as águas pluviais escorrem rapidamente sobre os solos e correm diretamente para a calha dos rios. Esse grande volume de águas pluviais provoca enchentes em áreas baixas, destroi as margens dos rios, além de arrastar grandes quantidades de sedimentos para a calha dos rios, intensificando o assoreamento dos canais. Na época da seca, a maioria dos rios apresenta apenas um filete de água ou um leito completamente seco. 

Além de essencial à vida humana, a água é fundamental para a dessedentação dos rebanhos animais e irrigação de culturas agrícolas. O caos ambiental que tomou conta do Haiti há várias décadas está destruindo, literalmente, todos os processos ecológicos ligados à produção de alimentos. Sem água e sem comida, como se faz para sustentar mais de 11 milhões de pessoas? 

A tão propalada sustentabilidade é um tripé onde se equilibram o desenvolvimento econômico, a equidade social e a preservação ambiental. No Haiti, como é possível verificar através desse rápido resumo, se está muito longe de tudo isso. Resolver todos esses problemas é uma tarefa hercúlea, ainda mais em um país marcado pela instabilidade política, corrupção sistêmica e embates violentos entre as diferentes facções que lutam pelo controle do poder. 

Enquanto não se consegue achar um caminho para a recuperação do Haiti, milhões de pessoas vão continuar sofrendo com a falta de água, de alimentos e das mínimas condições de vida, dependendo cada vez mais da ajuda internacional. 

HAITI: O PAÍS MAIS POBRE E DESMATADO DAS AMÉRICAS

Terremoto do Haiti 2010

Começo contando uma das minhas histórias favoritas:

Uma das maiores criações dos povos caribenhos foi o rum, uma bebida forte destilada do melaço da cana fermentado. A bebida começou a ser produzida em todo o Caribe a partir do século XVII, quando era considerada um remédio “capaz de exorcizar todos os demônios do corpo”. O rum tem um teor alcoólico entre 40 e 55° GL e ganhou uma enorme popularidade entre os antigos marinheiros, que recebiam parte do seu soldo em garrafas da bebida. 

Uma das melhores marcas de rum há época da colonização do Caribe era produzida na então próspera colônia francesa do Haiti – Aux Cayes (No Cais). Naqueles memoráveis tempos, o Haiti era conhecido como “a pérola do Caribe”. Entre os maiores apreciadores da bebida haitiana se encontravam os marinheiros ingleses, que com o seu sotaque a chamavam “Oh Key”. Segundo alguns linguistas, essa é considerada uma das possíveis origens da palavra inglesa OK, uma das expressões mais usadas em todo o mundo. Esses bons e prósperos tempos do Haiti, infelizmente, são coisas de um passado já bem distante. 

Ocupando uma área com pouco mais de 27 mil km² e com uma população próxima aos 11 milhões de habitantes, o Haiti ou Repiblik Ayiti, em créole haitiano, é o país mais pobre das Américas e também o mais desmatado: mais de 98% das matas nativas locais já foram derrubadas. Além da destruição histórica das matas para a abertura de campos agricultáveis para o plantio da cana, grande parte desse desflorestamento se deveu ao uso de lenha como combustível e de madeira para a construção civil. 

Conforme já comentamos em postagem anterior, o nascimento oficial da Colônia Francesa do Haiti teve início em 1697, quando diversas nações assinaram o Tratado de Ryswick, pondo fim a uma série de disputas territoriais na Europa e em outras partes do mundo. Como parte do acordo, a Espanha cedeu a faixa Oeste da Ilha Hispaniola para a França, que desde 1695 já enviava seus cidadãos como imigrantes para a região. 

Ao longo do século  XVIII, o Haiti se consolidou como a mais próspera colônia da França nas Américas. Junto com o famoso rum, outro importante produto da colônia era o açúcar, uma mercadoria de luxo e extremamente valorizada há época. Além de possuir um grande mercado cativo na França, os engenhos do Haiti eram bastante eficientes e as correntes marítimas e o regime de ventos do Oceano Atlântico Norte favoreciam as viagens das embarcações entre a Europa e o Caribe, e vice-versa.  

A soma de todos esses fatores tornava o produto haitiano bem mais competitivo que o açúcar português produzido no Brasil. Outras colônias da Espanha, da Inglaterra e da Holanda no Caribe também conseguiam produzir grandes volumes de açúcar em condições competitivas, uma situação que produziu uma imensa crise na indústria açucareira do Brasil há época.  

Essa situação só não foi mais crítica devido a uma coincidência histórica – a partir da descoberta das minas de ouro na região das Geraes nos últimos anos do século XVII (1693), a atenção dos portugueses gradativamente foi se voltando para a mineração, com a produção do açúcar sendo abandonada. O auge da mineração do ouro no Brasil se deu ao longo do século XVIII. 

Os rumos do Haiti começaram a mudar nos últimos anos do século XVIII, quando uma revolta dos escravos levou a abolição da escravidão do país em 1794. Depois de dez anos de lutas, os haitianos conseguiram a independência da França em 1804. Essa “aparente” vitória do povo do Haiti acabaria se transformando no começo da decadência da próspera ex-colônia – a França e os Estados Unidos, países até então fortemente escravagistas, criaram um forte bloqueio comercial ao país. 

Foi somente em 1825, já durante a presidência de Jean Pierre Boyer, que o Haiti conseguiu assinar um acordo com a França, pondo fim ao bloqueio comercial. Pelos termos do acordo, o Haiti deveria pagar uma indenização de 150 milhões de francos à antiga Metrópole, valor que acabou sendo reduzido a 90 milhões de francos. Esse acordo não foi espontâneo – o país estava cercado por uma poderosa frota naval da França e não teve outra alternativa. O pagamento dessa indenização exauriu a já combalida economia do país

A decadência econômica foi seguida pelo caos político – ao longo da segunda metade do século XIX, o Haiti teve um total de 20 governantes, sendo que 16 deles acabaram depostos ou assassinados. Essa instabilidade política continuou nos primeiros anos do século XX. Em 1915, sob o velho pretexto de proteger seus interesses no país, os Estados Unidos ocuparam o Haiti, onde permaneceriam até 1934

Mesmo após a saída dos norte-americanos do país, as forças políticas do Haiti não conseguiram atingir a tão esperada estabilidade. Foi então que, em 1957, o médico François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc, foi eleito Presidente com apoio dos Estados Unidos. Aproveitando-se do clima conturbado da Guerra Fria vivida entre norte-americanos e russos, Papa Doc impantou uma ditadura sanguinária, que se estenderia até 1986, quando o país já era governado por seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc

Os Duvaliers exploravam todo o misticismo do vudu, uma religião de origem africana popular no Haiti, para subjugar a população. A parte mais visível dessa face do terror eram os tontons macoutes, ou os bichos-papões em creóle, os policiais da guarda pessoal do Presidente. Esses “policiais” eliminavam opositores, prendiam e torturavam jornalistas, padres, professores e quem mais ousasse se opor ao regime. Essa longa ditadura ajudou a consolidar o Haiti na posição de país mais pobre e miserável das Américas. 

O reestabelecimento da democracia após a queda da ditadura dos Duvaliers não foi suficiente para colocar o Haiti dentro das mínimas condições de governabilidade e de desenvolvimento econômico. O exemplo mais dramático da incapacidade do Governo foi demonstrado após o forte terremoto que assolou o país em 2010. Epicentro do cismo, a capital do país, Porto Príncipe, teve cerca de 80% de suas construções destruídas ou seriamente danificadas. As estimativas falam de um total entre 220 mil e 300 mil mortos, 300 mil feridos e perto 1,5 milhão de desabrigados. Mesmo contando com ajuda internacional, o país até hoje não superou a tragédia (vide foto). 

Entre 2004 e 2017, tropas do Exército do Brasil participaram de uma missão de paz internacional da ONU – Organização das Nações Unidas, para restaurar a ordem e ajudar a estabilizar a situação política do Haiti. Além de conter a violência entre os diferentes grupos políticos, os efetivos militares dessa missão de paz foram fundamentais para o socorro e atendimento da população após o terremoto de 2010.

Com um histórico dos mais complicados dos pontos de vista social e econômico, a situação do meio ambiente no Haiti é simplesmente caótica. Restam menos de 2% da cobertura vegetal original do país, o que comprometeu a maioria dos rios e corpos d’água e tem afetado profundamente o abastecimento das populações. Solos perderam a fertilidade e o país precisa importar a maior parte dos laimentos consumidos pela população. A imensa maioria dos haitianos depende da coleta de lenha para cozinhar, o que vem impedindo qualquer recuperação da vegetação – as novas árvores mal atingem um metro de altura e já são cortadas para uso como lenha. 

Nas áreas urbanas, os problemas se multiplicam – à carência de água potável se somam esgotos correndo a céu aberto, falta de coleta de lixo, habitações precárias e falta dos mais elementares serviços públicos como saúde, educação e segurança pública. A situação da população só não é mais crítica devido à criação de postos de trabalho temporários na vizinha República Dominicana há época do corte da cana de açúcar.  

Centenas de milhares de haitianos migram nesse período para o país vizinho, onde se submetem a longas e pesadas jornadas de trabalho no corte e transporte da cana de açúcar, recebendo em troca salários miseráveis. Ao final da colheita da cana, esses trabalhadores voltam para o Haiti (os dominicanos discriminam fortemente os haitianos), onde conseguirão se manter precariamente até a chegada da próxima safra de cana. 

Um resumo da situação ambiental do Haiti pode ser visto na Península de San Nicolás, no Norte do país. A destruição da cobertura vegetal criou o maior “deserto” de todas as ilhas do Caribe, que não para de crescer. Se nada for feito para frear ou reverter essa situação, o Haiti, palavra que na antiga língua dos índios arahuacas significa “terra de montanhas”, em breve poderá ser chamado de terra dos desertos

REPÚBLICA DOMINICANA: A ECONOMIA MAIS DINÂMICA DO CARIBE E SEUS MUITOS PROBLEMAS AMBIENTAIS

Punta Cana

A República Dominicana ocupa a maior parte da Ilha de São Domingo (ou Santo Domingo), com uma área total de 48,4 mil km² e com uma população de 10 milhões de habitantes. Aproximadamente 1 milhão de habitantes vivem na capital do país, Santo Domingo. Conforme comentamos na postagem anterior, a Ilha de São Domingo ou Hispaniola foi o berço da colonização das Américas. 

Santo Domingo foi a primeira cidade com ocupação permanente a ser fundada no Continente Americano em 1496. Entre as décadas de 1520 e 1530, a cidade assistiu à construção da Catedral de Santa Maria la Menor, a primeira das Américas, e também a inauguração da primeira universidade americana – Santo Tomás de Aquino, em 1538. Ao longo de todo o século XVI, Santo Domingo e a Ilha Hispaniola gozaram de grande prestígio econômico e político.  

Porém, já no início do século XVII, a Ilha acabou eclipsada pelas grandes conquistas espanholas no continente, perdendo grande parte da sua população e sendo relegada a um segundo plano. Em 1697, como extensão do Tratado de Ryswick e que envolvia diversas potências da época, as Coroas da Espanha e da França chegaram a um acordo para a cessão de toda a faixa Oeste da Ilha Hispaniola para os franceses. A França criou na região o Haiti, uma das mais importantes colônias do Caribe ao longo do século XVIII. 

A República Dominicana só voltou a ganhar relevância em 1804, quando o Haiti se tornou independente. Diferentes grupos políticos locais passaram a lutar pelo poder, com alguns querendo uma união com o Haiti e outros querendo simplesmente a independência da Espanha. O país conquistou a independência em 1844, porém, a Espanha voltou a dominar o país em 1861 e foi somente em 1865 que a República Dominicana consolidou em definitivo a sua autonomia política. 

A história econômica do país pós-independência não mudou muito em relação aos tempos de colônia: o país continuou essencialmente agrícola, com a cana e o açúcar sendo os produtos mais importantes, acompanhados de perto pela produção e processamento de café e tabaco. Politicamente, o país passou a assistir a uma sucessão de ditaduras e de intervenções militares apoiadas pelos Estados Unidos. Entre 1916 e 1924,  inclusive, os Estados Unidos ocuparam e interviram diretamente no país.

Uma das mais longevas ditaduras da República Dominicana foi a de Rafael Leónidas Trujilo, que dirigiu o país com mão de ferro entre 1930 e 1961. Como todo bom ditador latino americano, Trujilo perseguiu e assassinou opositores, prendeu jornalistas, impediu a formação de partidos de oposição, entre outras “maldades”. Ao longo de seu governo, Trujilo se apossou de perto de 70% das terras cultiváveis do país e dominava 90% das indústrias.  

Rafael Trujilo foi assassinado em 1961 e muitos historiadores locais afirmam que a CIA – Central de Inteligência Americana, foi a responsável. Uma junta militar, apoiada pelos Estados Unidos é claro, assumiu o Governo do país até 1966, quando Joaquim Balaguer assumiu a presidência, com um governo autoritário que se extendeu até 1978. Foi somente nas últimas décadas que a República Dominicana conheceu a democracia e a estabilidade econômica.

O país deixou de depender da exportação do açúcar e de outros produtos agrícolas bem recentemente, passando a assistir uma importante diversificação econômica. O setor de serviços, especialmente o turismo, passou a responder por mais de 60% do PIB – Produto Interno Bruto, e por mais de 62% da ocupação de mão de obra na República Dominicana

Entre 2010 e 2018, a República Dominicana foi o principal destino dos investimentos no Caribe, recebendo perto de metade de todos os investimentos estrangeiros diretos da região. Desse total, cerca de 18% dos investimentos se deram em setores ligados ao turismo. O país recebe atualmente perto de 20 milhões de turistas a cada ano, principalmente norte-americanos, canadenses e latino-americanos. Punta Cana (vide foto), no extremo Leste da Ilha de Santo Domingo, é o principal destino turístico dominicano.

O Governo dominicano também criou, há cerca de vinte anos, uma zona franca, que reúne mais de 75 grupos industriais internacionais. Essas indústrias geram cerca de 170 mil empregos diretos e mais de 200 mil indiretos, respondendo atualmente por mais de 30% do PIB dominicano e pela segunda posição de maior empregador de mão de obra do país. O principal destino da produção local é o mercado norte-americano.

Apesar dos recentes bons ventos na economia dominicana, os cinco séculos de monocultura da cana de açúcar deixaram profundas marcas na sociedade e no meio ambiente do país. De acordo com o jornalista e ecologista dominicano Nelson Reyes Estrella, a destruição das florestas está na raiz dos problemas ambientais da República Dominicana. As estimativas mais recentes afirmam que perto de 70% da cobertura vegetal original do país sucumbiu diante do avanço da agric. Essa destruição das matas se reflete em graves problemas de escassez de água e de erosão de solos por toda a ilha (no lado haitiano, esses problemas são ainda mais graves)

Nas últimas décadas, o país passou a fazer grandes esforços para a preservação dos remanescentes florestais – foram criados 74 parques e reservas florestais, com área total equivalente a aproximadamente 30% da superfície do país. Todo esse esforço tardio visa proteger o que restou dos combalidos recursos hídricos do país: 108 rios, cerca de 100 lagoas e um grande lago. Todos esses corpos d’água sofrem com a redução dos caudais, destruição e desmoronamento de margens e com intenso assoreamento

Outro grave problema ambiental apontado por Reyes Estrella é a falta de uma legislação de ordenamento territorial na República Dominicana. Sem um zoneamento ecológico econômico adequado e sem uma fiscalização rígida, é impossível impedir os avanços pontuais de desmatamentos, que ainda ocorrem por todo o país. Além das tradicionais atividades ligadas a agricultura e pecuária, as atividades mineradoras, especialmente de níquel, de ferro e de ouro, crescem sem qualquer controle. 

Por fim, e não menos importante, temos o crescimento desordenado de cidades por toda a ilha. A mudança no perfil econômico do país se refletiu em uma intensa migração de populações das áreas rurais para os centros urbanos. Cerca de 2/3 dos dominicanos vivem atualmente em cidades e convivem com toda uma série de problemas ambientais que conhecemos bem: falta de acesso a redes de abastecimento de água e esgotos, geração de resíduos sólidos e grandes dificuldades para a sua coleta e disposição final, transportes deficientes, entre muitos outros.  

O desemprego é outro gravíssimo problema social que acaba se voltando contra o meio ambiente. Estima-se que 14% da população economicamente ativa do país (números anteriores à pandemia da Covid-19) esteja desempregada. Sem dinheiro para pagar aluguel, essas populações costumam ocupar áreas de encostas de morros, margens de rios e córregos, manguezais e matas ao redor das cidades, nada muito diferente do vemos em grandes cidades brasileiras. Essa massa também se volta contra os remanescentes florestais em busca de madeira e outros materiais para a construção de suas casas, além de depender de lenha para cozinhar.

A maioria dos turistas que visitam a República Dominicana são levados do aeroporto diretamente para os grandes complexos hoteleiros na costa, que funcionam como uma espécie de “ilha da fantasia”. Esses hotéis e resorts foram projetados para mostrar o que há de melhor no Caribe – as maravilhosas praias de águas transparentes, e ficam muito distantes da realidade da população e dos gravíssimos problemas ambientais do país. 

E como diz um velho ditado, o que os olhos não veem, o coração não sente.

ILHA HISPANIOLA: O BERÇO DA COLONIZAÇÃO DO NOVO MUNDO

Fronteira Haiti-República Dominicana

Na última postagem falamos sobre a chegada da cana de açúcar nas ilhas do Mar do Caribe, uma cultura agrícola que modelou os países e os povos da região nos últimos cinco séculos. Um personagem importante dessa saga foi o polêmico navegador Cristóvão Colombo – ele comandou a expedição espanhola que chegou ao Novo Mundo em 1492, ao mesmo tempo em que foi um grande incentivador do plantio da cana e da produção do açúcar, cultura responsável pela devastação ambiental das ilhas.

Em tempos do “politicamente correto” e do revisionismo histórico, a imagem de descobrir da América e fundador do Novo Mundo está sendo cada vez mais relacionada ao holocausto de milhões de indígenas e também como um incentivador da escravidão de negros africanos, que foram trazidos aos milhares para trabalhar nos canaviais das ilhas caribenhas. Polêmicas à parte, vamos entender a história da Ilha Hispaniola.

A Ilha de São Domingos, que no passado foi chamada de Hispaniola, é a segunda maior ilha do Mar do Caribe com uma superfície total de 76 mil km². A ilha abriga dois países – a República Dominicana, que ocupa uma superfície de mais de 48 mil km² das áreas Central e Leste da Ilha. O Haiti, considerado o país mais pobre das Américas, ocupa a faixa Oeste da Ilha, com uma área total de pouco menos de 28 mil km². A população atual da Ilha de São Domingos é de aproximadamente 20 milhões de habitantes, divididos igualmente entre a República Dominicana e o Haiti.

O primeiro assentamento de europeus nas Américas foi o Forte La Navidad, ou Natal, construído em 1492 pela expedição de Cristovão Colombo no Norte do atual Haiti. Meses depois, quando Colombo retornou à Espanha, ele deixou uma pequena guarnição de soldados ocupando esses forte. Em 1493, quando retornou na sua Segunda Expedição, Colombo encontrou o forte completamente destruído após um ataque de indígenas e com todos os seus homens mortos.

Buscando uma localidade mais segura, os espanhóis se dirigiram ao outro lado da ilha, que até então era chamada de Quiqueya pelos indígenas, onde foi fundada a vila La Isabela, que acabou destruída por um furacão em 1496.  A cidade foi reconstruída do outro lado do rio Ozama e recebeu o nome de Nova Isabela, embrião da cidade de Santo Domingo. Os espanhóis batizaram a ilha com o nome de Hispaniola ou Espanhola em português.

Quando os primeiros espanhóis desembarcaram no Novo Mundo, estima-se que haviam perto de 250 mil indígenas, principalmente da tribo dos tainos, vivendo na Ilha Hispaniola. Em 1517, devido a intensa mortandade de nativos devido a epidemias e doenças trazidas pelos europeus e sobre as quais os indígenas não possuíam nenhuma imunidade, esse número estava reduzido a cerca de 14 mil indivíduos. Para suprir a falta de mão de obra para a mineração e para os trabalhos na agricultura, os espanhóis passaram a “importar” escravos africanos a partir de 1501.

A mineração do ouro foi a primeira grande atividade econômica desenvolvida pelos espanhóis na ilha. A produção de açúcar, um produto que era bastante valioso há época e que começou com o desembarque das primeiras mudas de cana de açúcar em 1493, era considera uma espécie de “atividade econômica acessória”. As sucessivas notícias de conquistas de reinos e captura de grandes tesouros metálicos na forma de ouro e prata, especialmente no Império Asteca, no México, e no Império Inca, no Vice-reino do Peru, desestimulavam cada vez mais a economia da Ilha Hispaniola.

A produção de açúcar na Ilha, que no início do século XVI chegou a abrigar cerca de 40 engenhos e teve alguma relevância, ao final desse mesmo século estava praticamente abandonada. Parte considerável dos colonos de origem europeia abandonou Hispaniola e foi tentar a sorte nas Capitanias e Vice-reinos do Continente. A situação de abandono na Ilha Hispaniola chegou a tal ponto que, em 1606, chegou uma ordem do Rei da Espanha para que se evacuasse todos os habitantes da ilha para a cidade de Santo Domingo.

As partes Oeste e Norte da Ilha Hispaniola passaram a ser frequentadas e ocupadas por franceses, ingleses e holandeses, onde foram criadas verdadeiras bases para piratas. Conforme comentamos em postagem anterior, as correntes marítimas e os ventos do Mar do Caribe proporcionavam viagens mais rápidas e fáceis para a Europa, o que levou a Cora da Espanha a concentrar o tráfego de galeões transportadores de ouro e prata expropriados dos indígenas nessas águas. Essa intensa movimentação de riquezas soava como “música” para os ouvidos dos piratas e corsários (que nada mais eram que piratas a serviço de algum reino).

Buscando colocar alguma ordem na situação caótica em que se encontrava a Ilha Hispaniola, a Espanha fez um acordo com a França em 1697 para a cessão da parte Oeste da Ilha. Esse acordo fazia parte do Tratado de Rijswijk, um acordo que envolvia diversas nações e buscava resolver diversos problemas territoriais na Europa e em outras partes do mundo. Esse acordo também oficializava a imigração francesa para a Ilha Hispaniola que vinha ocorrendo sistematicamente desde 1695. Os franceses passaram a chamar a região Oeste da Ilha de Saint-Domingue, nome que depois foi mudado para Haiti.

Ao longo de todo o século XVIII, o Haiti se transformou na mais próspera colônia francesa das Américas e num importante centro produtor de açúcar e de rum. O lado espanhol da Ilha Hispaniola, onde encontramos a atual República Dominicana, ficou praticamente abandonado até o início do século XIX. Após a independência do Haiti em 1804, a República Dominicana passou por um longo período de lutas políticas entre diferentes grupos, ora com alguns tentando uma unificação com o Haiti, ora com grupos lutando pela independência da Espanha, o que só foi conseguido em 1865. Detalharemos a história e os problemas ambientais dos dois países em outras postagens.

Atualmente, a República Dominicana apresenta a maior economia entre todos os países do Mar do Caribe, apesar de ser um país cheio de problemas. A economia dominicana é, aproximadamente, 800% maior que a do Haiti, país que ocupa a última posição entre os países das três Américas. Após cinco séculos da monocultura da cana de açúcar, a Ilha de São Domingos perdeu perto de 70% de sua cobertura vegetal original.

A situação é particularmente caótica no Haiti, onde restam menos de 2% da vegetação nativa. Na República Dominicana, os remanescentes florestais correspondem a cerca de 30% da cobertura nativa original. A foto que ilustra essa postagem mostra a surreal fronteira entre os dois países: do lado esquerdo, o devastado Haiti – na direita, a República Dominicana.

Uma das maiores causas recentes da devastação das florestas na Ilha é a retirada de lenha para uso como fonte de energia, especialmente para as populações cozinharem. O Governo da República Dominicana tem feito grandes esforços para a importação e popularização do uso de GLP – Gás Liquefeito de Petróleo, o que vem contribuindo para uma gradativa redução da pressão sobre as áreas florestais. No Haiti, país que foi devastado por um fortíssimo terremoto em 2010, a situação segue se qualquer controle.

A degradação das áreas florestais está na raiz dos principais problemas ambientais das duas nações que ocupam a Ilha de São Domingos. O principal deles é a destruição de fontes de água e o assoreamento dos corpos d’água, o que tem resultado em escassez de água em muitas regiões e erosão de solos. Um exemplo extremo da situação ambiental na Ilha é Península de San Nicolás, no Haiti, onde a destruição da cobertura florestal e a degradação dos solos criou o maior “deserto” de todas as ilhas do Caribe.

Continuaremos na próxima postagem.

A CHEGADA DA CANA DE AÇÚCAR NAS ILHAS E TERRAS DO MAR DO CARIBE

Colheita de cana em Cuba

A cana e o açúcar são velhos conhecidos aqui das páginas do blog. A cana de açúcar (saccharum officinarum) é originária da Índia e resulta da hibridização de diversas espécies nativas do Sudeste asiático, incluindo espécies da própria Índia, da China, Nova Guiné, Filipinas, Malásia entre outras. Foram os indianos que desenvolveram o processo de produção e refino do açúcar, um produto que ganhou o mundo através de inúmeras gerações de mercadores. Ao longo dos séculos a planta foi disseminada pela Ásia Central, Oriente Médio e Norte da África.

A cana de açúcar chegou na Europa pelas mãos dos árabes, que formaram as primeiras plantações no Sul da Espanha no ano de 711 e depois na Sicília em 827. Em terras portuguesas, os registros falam da existência de canaviais na região do Algarve no século XII. A partir do aperfeiçoamento da navegação marítima, a cana de açúcar passou a ser plantada nas ilhas oceânicas recém descobertas por portugueses e espanhóis no Oceano Atlântico.

A cana chegou na Ilha da Madeira em 1426, no Arquipélago dos Açores em 1460, nas Ilhas Canárias em 1490 e em São Tomé e Príncipe em 1493. Essas ilhas se transformaram em importantes centros produtores de açúcar e, depois, em distribuidores de mudas de cana para as colônias do Novo Mundo.

Uma dos mais importantes comercializadoras de açúcar na Europa no século XV era a poderosa família Centurione de Gênova, na Itália. Em 1478, um dos navios dessa família foi enviado para a Ilha da Madeira com a missão de buscar um grande carregamento de açúcar. No comando do navio estava um jovem capitão italiano, que poucos anos mais tarde mudaria os destinos da humanidade – seu nome era Cristóvão Colombo. O jovem capitão acabou indo morar na Ilha da Madeira e trabalhou por vários anos em navios de transporte de açúcar.

Em 1492, Colombo comandaria uma pequena esquadra de naus espanholas numa perigosa viagem em busca de um caminho alternativo para a Índia e acabaria por descobrir a América. Em sua segunda expedição ao Caribe em 1493, Colombo trouxe as primeiras mudas de cana de açúcar, uma cultura que ele já conhecia bem desde os tempos em que viveu na Ilha da Madeira.

Critovão Colombo enviou uma carta em 1494 a Dom Fernando de Aragão e Dona Isabel de Castela, os Reis Católicos da Espanha, informando que havia plantado a cana de açúcar na Ilha Hispaniola e solicitava aos soberanos o envio de mais mudas desde a Ilha da Madeira. Segundo documentos del Archivo de Indias, as canas “medraram tão bem, que, poucos anos depois, já havoravam ali 40 engenhos”.

Em 1511, as primeiras mudas de cana de açúcar foram levadas para a Ilha de Cuba e em 1526 chegaram ao México recém conquistado pelos conquistadores espanhóis. Em poucos anos, praticamente todas as ilhas do Mar do Caribe e feitorias espanholas na América Central continental já possuíam suas plantações de cana de açúcar e engenhos.

Há um detalhe importante aqui – os nobres espanhóis que vinham para o Novo Mundo não estavam preocupados em se dedicar ao trabalho em fazendas. Um exemplo que gosto de citar é Hernan Cortés, o grande conquistador do Império Asteca de Montezuma. Certa feita, Cortés afirmou: “eu vim ao Novo Mundo para juntar dinheiro, não para lavrar a terra como um camponês!”.

Durante muito tempo, os espanhóis ficaram completamente obstinados com as notícias de riquezas na forma de metais preciosos como o ouro e a prata, não se esforçando quase nada para gerar riquezas com a produção de açúcar. Por todos os lados se organizavam expedições que partiriam em busca desses tesouros no continente – um dos principais objetivos era se encontrar a lendária El Dorado, uma cidade feita inteiramente de ouro. Quem efetivamente iniciou a produção de cana e de açúcar em larga escala no Caribe foram os ingleses, franceses e holandeses em suas colônias.

Quando os primeiros espanhóis chegaram ao Novo Mundo, encontraram as Ilhas do Mar do Caribe já povoadas por inúmeras tribos indígenas. Esses nativos foram denominados erroneamente de “índios” por Cristóvão Colombo, que àquela altura imaginava ter conseguido dar a volta ao mundo e chegado na Índia. As principais tribos locais eram os tainosgalibsigneris e os guanahatabeys, além dos temidos karibs, guerreiros navegadores e canibais que assolavam as principais ilhas e que deram seu nome ao Mar do Caribe. O povoamento das ilhas por essas tribos começou por volta do ano 5 mil a.C.

Segundo historiadores, a exploração dos nativos começou já a partir da segunda expedição de Colombo para o Novo Mundo. Indicado Governador, Colombo passou a cobrar tributos dos indígenas da Ilha Hispaniola – todo taino com idade acima de 14 anos era obrigado a entregar uma porção de ouro a cada 3 meses às autoridades espanholas. Caso não tivesse ouro, o tributo poderia ser pago com 25 kg de algodão.

De acordo relatos do Frei Bartolomé de las Casas, um frade dominicano que se notabilizou como um grande defensor dos indígenas, “quem não pagasse o tributo tinha as mãos cortadas e era deixado a sangrar até morrer”. De las Casas era famoso por exagerar em suas observações e crônicas, o que deixa margens de dúvidas sobre a existência de tais atos.

Como aconteceu em outras partes das Américas, o contato dos europeus com tribos indígenas que estavam vivendo isoladas há milhares de anos nas Ilhas do Caribe resultou em diversos surtos de doenças epidêmicas como a varíola, a gripe, o sarampo e o tifo. Uma outra doença infectocontagiosa que merece destaque é a sífilis. Uma antiga máxima, que não consegui encontrar o autor, afirmava que “a civilização das Américas trouxe a sifilização dos índios”. Estudos médicos recentes colocam em dúvida o sentido da contaminação da sífilis e afirmam que a doença pode ter sido trazida das Américas para a Europa.

Esse conjunto de enfermidades atingiu em cheio as populações locais – em apenas 30 anos, entre oitenta e noventa por cento dos indígenas tainos da Ilha Hispaniola morreram vítimas dessas doenças e epidemias. Esse índice de mortalidade se repetiu entre todas as populações indígenas das ilhas caribenhas e do trecho continental da América Central. A solução encontrada por todas as nações colonialistas da região foi a importação de escravos africanos para suprir as carências de mão de obra nas plantações de cana de açúcar.

Um dos principais centros produtores de açúcar do Mar do Caribe foi o Haiti, uma colônia da França que surgiu a partir de um acordo de cessão da parte ocidental da Ilha Hispaniola pela Coroa da Espanha em 1697. Ao longo de todo o século XVIII, o Haiti foi a colônia francesa mais próspera das Américas. Além do açúcar, o Haiti ganhou fama mundial com a produção do rum, uma bebida típica do Caribe destilada do melaço da cana de açúcar.

Uma das marcas de rum haitiano mais famosas entre os marinheiros há época – Aux Cayes (No Cais), soava com o som “Oh Key” para os ouvidos dos marinheiros ingleses e  esses palavras passaram a representar uma coisa “muito boa ou perfeita”. Alguns linguistas afirmam que essa pode ser a origem de OK, considerada uma das palavras mais usadas em todo o mundo.

Dois outros importantes centros produtores de açúcar e de rum no Mar do Caribe foram a Jamaica e Cuba. Até 1655, a Jamaica pertencia à Espanha e era chamada de Ilha Santiago, quando então passou ao domínio dos britânicos e passou a ser conhecida como Jamaica. A Ilha de Cuba, que por um curto período chegou a ser dominada pelos ingleses, voltou para o controle dos espanhóis em 1761 e também se consolidou como um importante centro produtor de açúcar.

O avanço da produção do açúcar nas Ilhas do Mar do Caribe, associada à facilidade e menores custos de transporte para a Europa, pouco a pouco foram criando uma pesada concorrência com outros centros produtores como o Brasil, a grande colônia portuguesa, que por muito tempo dominou esse mercado e que já em meados do século XVIII perdeu completamente a competitividade.

A produção do açúcar e do rum, a cultura e os ritmos trazidos pelos escravos africanos e, principalmente, a enorme desigualdade social, se transformariam em marcas registradas dos povos e países do Caribe, males que se perpetuam até os nossos dias.

AS ILHAS, OS VENTOS E AS CORRENTES MARÍTIMAS DO MAR DAS CARAÍBAS

Galeões espanhóis

A América Central é composta por duas áreas distintas – uma massa continental que forma uma espécie de “ponte de terra” entre as Américas do Norte e do Sul, onde encontramos sete países: Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala e Belize. Essa região compreende territórios com uma área total de pouco mais de 522 mil km². 

A segunda área da América Central é insular, onde se encontram 12 países e 22 territórios ilhéus no Mar do Caribe, também chamado de Mar das Caraíbas (em português de Portugal) e Mar das Antilhas. Esse mar ocupa uma área total com mais de 2,75 milhões de km². O mar do Caribe surgiu entre 160 e 180 milhões de anos atrás como consequência da fragmentação dos antigos continentes da Laurasia e Gondwana, quando surgiram as grandes massas de terra que formariam as Américas do Norte e do Sul. 

A região onde se encontra o Mar do Caribe é o ponto de encontro de diversas placas tectônicas. A Placa do Caribe, a principal da região e que conta com cerca de 3,2 milhões de km² de área, é cercada pelas Placas Sul-americana, Norte-americana, Norte dos Andes, do Panamá e dos Cocos, além de um pequeno trecho da Placa de Nasca. Esse encontro de diversas placas tectônicas resultou em uma intensa atividade vulcânica ao longo das áreas e teve como consequência a formação de inúmeras ilhas. 

Essa característica geológica também torna a região sujeita a frequentes abalos sísmicos. Em 2010, citando um exemplo, um catrastófico terremoto atingiu o Haiti, deixando entre 100 e 316 mil mortos,  360 mil feridos e mais de 1,5 milhão de desabrigados. Hoje, por infeliz coincidência, um terremoto com intensidade de 7,4 graus na escala Richter atingiu o Sul do México, no Estados de Oaxaca.

Como normalmente acontece com as ilhas de origem vulcânica, seus solos eram originalmente completamente rochosos. Com o passar do tempo, forças erosivas de chuvas e ventos, além do sol, resultaram em processos de degradação dessas rochas e início a formação dos solos férteis. Sementes de árvores e de plantas de todos os tipos começaram a chegar a essas ilhas carregadas pelos ventos. Esses ventos também carregaram diversas espécies de insetos, principalmente os voadores. Inúmeras espécies de aves das áreas continentais do entorno também acabaram por se estabelecer nas ilhas. 

Correntes marinhas combinadas com a força dos ventos arrastaram troncos de árvores, frutas, sementes e vegetação flutuante para as ilhas, permitindo assim uma lenta colonização dos novos territórios por essas espécies. Essas verdadeiras “jangadas flutuantes” também transportaram como passageiros clandestinos répteis, anfíbios, insetos, vermes e mamíferos, entre outros seres, que, pouco a pouco, passaram a colonizar essas ilhas. 

As diversas oscilações do nível do mar também deram a sua colaboração para a colonização das Ilhas do Caribe com as mais diferentes formas de vida animal e vegetal. Nos períodos de recuo dos oceanos (na última Era do Gelo, o nível dos oceanos sofreu uma baixa de 160 metros), surgiram diversas “pontes” de terra interligando algumas dessas ilhas, o que permitiu a migração de espécies entre os diferentes territórios. Com a subida do nível dos oceanos, essas ilhas voltaram a ficar isoladas e muitas espécies começaram a evoluir de forma independente, criando todo um mosaico de espécies endêmicas. 

A flora atual das Ilhas do Caribe tem cerca de 13 mil espécies de plantas, sendo que mais de 6,5 mil são endêmicas das ilhas. As ilhas abrigam cerca de 500 espécies de répteis, sendo que 94% dessas espécies são endêmicas. Também são encontradas cerca de 170 espécies de anfíbios e cerca de 90 espécies de mamíferos, grande parte delas endêmicas das diferentes ilhas. Influenciadas por diferentes correntes marinhas, as águas do Mar do Caribe abrigam 450 espécies de peixes, sendo 42% delas endêmicas

Além dos inúmeros aspectos ecológicos individuais de cada uma das ilhas, a colonização  humana e a história dos territórios insulares do Mar do Caribe foram influenciadas por características muitos particulares das correntes oceânicas, como a famosa Corrente do Golfo do México, e também das correntes de ventos. A combinação dessas características tornava a navegação a vela entre a América Central e a Europa mais fácil e bem mais rápida do que a mesma navegação entre a América do Sul, em particular o Brasil, e a Europa. 

Os ventos dominantes no Oceano Atlântico são divididos em dois grandes sistemas: o Sistema  Anticiclônico do Atlântico Norte, mais conhecido como Anticiclone dos Açores, e o Sistema Anticiclônico do Atlântico Sul, também conhecido como Anticiclone de Santa Helena. Todos os oceanos são caracterizados por sistemas semelhantes, onde a partir de um centro de alta pressão formam-se movimentos circulares de ventos e de correntes marítimas.  Sem entrar em maiores detalhes, essas diferentes correntes marinhas e de ventos facilitava a navegação a vela entre a Europa e as ilhas do Mar do Caribe e apresentava muito menos dificuldades do que a navegação para a América do Sul.

Exemplificando as diferenças de navegação entre as duas regiões: um galeão espanhol carregado com as riquezas expropriadas do Império Inca e que foram transportadas desde o Peru até o Panamá por via marítima e terrestre, gastava de dois a três meses para navegar até o Porto de Cádiz, no Sul da Espanha. Um mesmo modelo de galeão que saísse de Buenos Aires, na Província de La Plata – atual Argentina, carregado com a prata das Minas de Potosi, gastaria de oito meses a um ano, conforme as condições climáticas, para chegar ao mesmo porto na Espanha.  

Há relatos de galeões que foram danificados em tempestades no Atlântico Sul e que precisaram fazer escalas na costa da África para reparos, tendo levado perto de um ano e meio para completar essa viagem. Devido a essa dificuldade logística, a Coroa de Espanha passou a priorizar o transporte da prata de Potosi usando tropas de mulas através da Cordilheira dos Andes desde a Bolívia até o Vice-Reino do Peru, depois embarcando em navios no Oceano Pacífico até o Panamá, fazendo a travessia por terra até a costa do Mar do Caribe.

Frotas de galões fortemente protegidas por navios de escolta seguiam então do Panamá para a Espanha (vide imagem). Por razões de segurança, os espanhóis costumavam realizar apenas duas viagens dessas frotas a cada ano. Essa grande concentração de embarcações espanholas carregadas com ouro e prata transformou as águas do Mar do Caribe num verdadeiro “paraíso” para os piratas.

Essa facilidade logística nas navegações nessa região logo chamou a atenção de outras potências da Europa, especialmente a Inglaterra, a França e a Holanda, que não pouparam recursos e esforços para tomar parte das ilhas do Caribe dos espanhóis. Como a Coroa da Espanha estava mais preocupada com o saque de tesouros dos Astecas e dos Maias naqueles tempos, ela acabou não gastando recursos para reaver esses territórios perdidos para a “concorrência”. 

Esses territórios conquistados, e depois vários outros pertencentes à Espanha, foram transformados em centros produtores de açúcar, um produto altamente valorizado na Europa naqueles tempos. A história do açúcar nas ilhas do Mar do Caribe será contada na nossa próxima postagem. Como faziam os portugueses em seu extenso território na América do Sul, esses outros reinos europeus também passaram a se valer do tráfico de escravos africanos para suprir seus territórios insulares com a mão de obra necessária para o plantio da cana e a produção do açúcar. 

Os desmatamentos para a abertura de campos para a produção de cana de açúcar estão na raiz dos problemas ambientais das ilhas e também na base da formação das sociedades de praticamente todas as nações e territórios das Caraíbas. Em muitos casos, as ilhas tiveram praticamente toda a sua cobertura vegetal substituída por plantações, o que levou dezenas de espécies animais a extinção. Populações indígenas, como os temidos karibs ou caraíbas e os tainos, foram literalmente varridas do mapa.  

Em Cuba, citando um único exemplo, praticamente não restou nenhum vestígio dos antigos indígenas, a não ser na miscigenação de parte da população. Eu estive na ilha há alguns anos atrás e um dos únicos sinais da existência desses antigos nativos que encontrei foi a marca de uma cerveja local – Hatuey, nome de um antigo cacique dos índios tainos. Já as referências africanas, essas estão por todos os lados da ilha. 

Nas próximas postagens vamos explorar alguns dos graves problemas ambientais desse verdadeiro mosaico de povos e países insulares.