GUATEMALA: DE “REPÚBLICA DE BANANAS” A CENTRO PRODUTOR DE ÓLEO DE PALMA

República de bananas

A banana é uma das frutas mais populares do mundo. São ricas em vitaminas A e C, além de fibras e potássio. A planta é originária do Sudeste Asiático e estudos arqueológicos indicam que a fruta é cultivada há quase 8 mil anos. Seguindo um caminho muito parecido com aquele feito pela cana de açúcar, as bananeiras foram sendo espalhadas por toda a Ásia, Oriente Médio, África e Américas, sendo cultivadas atualmente em mais de 130 países. 

As populares, saborosas e saudáveis bananas, entretanto, ganharam uma conotação negativa no linguajar popular – chamar alguém de “banana” é um insulto que indica que a pessoa é mole e/ou fraca, ou ainda que se trata de uma pessoa sem energia e sem ânimo. Há também o gestual de “dar uma banana”, muito comum em países latinos, que é considerado ofensivo e obsceno

Grande parte dessa conotação “negativa” das bananas pode estar associada à imagem das Repúblicas de Bananas, expressão que surgiu no início do século XX como referência aos pequenos países da América Central, onde empresas norte-americanas possuíam grandes extensões de terras dedicadas à produção de frutas. A expressão foi cunhada pelo escritor norte-americano Willian Sydney Porter, mais conhecido pelo pseudônimo de O. Henry, no livro Cabbages and Kings de 1904. A trama se passa num país fictício chamado “Anchuria”, que é descrito pelo autor como “uma pequena república de bananas”. 

O autor morou muito tempo em Honduras, na América Central, e acompanhou de perto a “invasão” de empresas norte-americanas do ramo de frutas na região no final do século XIX. Entre essas empresas há um destaque especial para a United Fruit Company. Essa empresa sempre se valeu de boas relações de amizades com os governantes e/ou ditadores locais, conseguindo assim grandes concessões de terras para a formação de grandes plantações comerciais de bananas e outras frutas.  

As relações de trabalho da empresa com as populações locais chegavam muito próximas da semi-escravidão e os abusos contra as florestas nativas eram imensos – grandes faixas de matas foram derrubadas e transformadas em áreas agrícolas. Famílias que moravam nessas áreas eram expulsas sem qualquer tipo de explicação ou indenização. Já os Governantes, esses fingiam que tudo corria às “mil maravilhas” – a exportação das frutas gerava importantes divisas em moeda forte para os seus países. É essa realidade cruel que O. Henry mostrou no seu livro. 

A América Central sempre teve uma história complicada e repleta de revoltas e conflitos por todos os lados. A primeira expedição europeia a desembarcar no país foi liderada pelo espanhol Pedro de Alvarado em 1523. Há época, a Guatemala fazia parte do decadente Império Maia e houve grande resistência das cidades-estados contra os invasores. Entre 1542 e 1821, a maior parte da América Central formava a Capitania-geral da Guatemala, um território subordinado ao Vice-Reino da Nova Espanha. Com a consolidação da independência, a região se fragmentou em diversos países e teve início um ciclo quase interminável de revoltas e conflitos políticos. 

A história da United Fruit começou em 1871, quando o empreendedor norte-americano Henry Meiggs assinou um contrato para a construção de uma ferrovia na Costa Rica. Quando concluiu as obras em 1882, Meiggs descobriu que o Governo costarriquenho não tinha dinheiro para o pagamento dos serviços e recebeu, como compensação, uma área de terras com cerca de 3.200 km². Foi então que ele iniciou o negócio de produção e exportação de bananas.  

Em 1899 ele comprou uma empresa rival e, a partir da fusão das duas empresas, surgiu a United Fruit Company. Contando com apoio direto do Governo dos Estados Unidos, a empresa passou a apoiar diferentes ditaduras e grupos revolucionários da América Central e Ilhas do Caribe em troca da “liberdade” de produzir frutas em suas grandes extensões de terras. Em 1969, a empresa foi vendida e passou a se chamar Chiquita Brands. A nova empresa mudou um poucos seus métodos de trabalho, “pero no mucho“. 

Em 1901, a United Fruit recebeu o convite para iniciar suas operações na Guatemala, onde passou a contar com uma imensa “simpatia e apoio” do Governo local. Sucessivos governos ditatoriais e “fantoches” que se sucederam no comando do país tiveram apoio explícito da empresa. Em troca, a empresa recebeu dos Governos “ampla liberdade empresarial”. 

Em 1954, quando o então Presidente Jacobo Arbenz Guzmán tentou implementar uma reforma agrária que prejudicaria os interesses da United Fruit na Guatemala, a CIA – Central de Inteligência dos Estados Unidos, financiou grupos paramilitares para derrubar o Governo e apoiou a instalação de sucessivas ditaduras militares no país. Entre 1964 e 1996, o país enfrentou uma longa e sangrenta guerra civil entre o Governo e militantes de esquerda, deixando entre 160 mil e 250 mil mortos e/ou desaparecidos. 

Além das onipresentes bananas, os campos da Guatemala também eram ocupados pelas tradicionais culturas de milho, feijão e abóbora, alimentos básicos da população, e por plantações de cana de açúcar, tema que trataremos em futura postagem. Nos últimos anos, entretanto, esses campos passaram a ser ocupados de forma devastadora por imensas plantações de palma da Guiné, espécie de palmeira de origem africana que produz o dendê, um fruto rico em óleo.  Considerado um biocombustível renovável, o óleo de palma passou a ser adicionado ao óleo diesel em diversos países da Europa e da Ásia.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística da Guatemala, existiam 49 fazendas/empresas dedicadas à produção do dendê no país até o ano de 2003, ocupando cerca de 31 mil hectares de terras. Em 2007, o novo censo agropecuário mostrou um grande salto no número de fazendas/estabelecimentos dedicados a essa atividade – já eram 1.049 unidades, ocupando mais de 65 mil hectares de terras. Em 2008, a área ocupada pelos dendezeiros saltou para 83 mil hectares.

Dentro da melhor tradição guatemalteca, esse avanço descontrolado das plantações de dendezeiros no país foi capitaneado por grandes grupos empresariais apoiados por políticas governamentais. Como justificava, essas empresas exaltavam a geração de emprego e renda para os trabalhadores e dos ganhos do país com as exportações de óleo de palma. Aqui vale lembrar que o óleo de palma (ou azeite de dendê como é chamado aqui no Brasil), também tem inúmeras aplicações na fabricação produtos de limpeza, cosméticos e alimentos. 

A Guatemala é um país pequeno, com pouco mais de 108 mil km², e com uma população de cerca de 18 milhões de habitantes. Um avanço tão forte e rápido da cultura da palma no país passou a causar inúmeros impactos sociais e ambientais. O primeiro deles foi a substituição da produção de alimentos por plantações de palma em grande parte das terras férteis do país. Pequenas propriedades rurais, que tradicionalmente se dedicavam à produção de alimentos, foram desapropriadas em massa para a concessão de áreas para os grandes grupos empresariais, expulsando populações de suas terras ancestrais.

Um segundo problema é ambiental – os poucos remanescentes florestais que restaram no país após séculos de desmatamentos agora estavam sendo derrubados em grande quantidade para a criação de grandes plantações de palma, repetindo a saga das plantações de bananas. Sem as matas nativas, nascentes e cursos d’água desaparecem, comprometendo o abastecimento de cidades e a irrigação das próprias plantações. Criou-se aqui uma lógica bastante difícil de entender: a destruição de florestas tropicais em todo o mundo para produzir o biocombustível usado pelos ecologistas da Europa que lutam pela preservação de florestas tropicais como a Amazônia

Felizmente, a CEE – Comunidade Econômica Europeia, conseguiu perceber os males que a produção e o consumo em larga escala do óleo de palma estavam provocando em extensas regiões da África, do Sudeste Asiático e da América Central, entre outras, e desde de 2018 passou a rever suas políticas de incentivo ao uso desse aditivo no óleo diesel. Isso já provocou uma redução na demanda e já houve uma queda de mais de 30% no preço do óleo de palma.  

Esperemos todos que essas mudanças consigam se refletir na salvação do pouco que restou das florestas tropicais da Guatemala e de outras “Repúblicas de Bananas” da região. 

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