A CONSTRUÇÃO DO CANAL DO PANAMÁ E SEUS INÚMEROS IMPACTOS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Canal do Panamá

A construção do Canal do Panamá foi uma das maiores obras da engenharia do século XX e, literalmente, mudou os rumos do mundo. Com cerca de 80 km de extensão, o Canal do Panamá criou um “atalho” para a navegação entre o Oceano Pacífico e o Mar do Caribe/Oceano Atlântico, reduzindo as rotas de navegação entre muitos portos em dezenas de milhares de quilômetros.

Nas postagens anteriores apresentamos um rápido resumo da história geológica e política da região onde encontramos o Canal do Panamá. Ela começou como uma colônia da Espanha no século XVI e terminou como uma zona sob controle dos Estados Unidos, país que bancou a finalização das obras iniciadas por empresas francesas nos anos de 1880. Os norte-americanos mantiveram o controle total sobre o Canal do Panamá até 1977 – após essa data, norte-americanos e panamenhos compartilharam a gestão até 1999, quando o Canal passou para o controle do Governo panamenho.

A descoberta de um caminho de ligação entre o Mar do Caribe e o “Mar de Sur”, nome que os espanhóis davam ao Oceano Pacífico, coube a Vasco Nuñez de Balboa, que fez o primeiro avistamento no final do ano de 1513. Essa ligação terrestre entre esses dois oceanos foi fundamental para o avanço das conquistas da Espanha nas Américas.

Francisco Pizarro, o grande conquistador do Peru e das riquezas do império Inca usou esse caminho para chegar ao Oceano Pacífico e depois voltou a usar essa ligação para despachar os tesouros pilhados para a Espanha. A primeira ideia para a construção de um canal transoceânico na região foi do Rei Carlos I da Espanha em 1534, um empreendimento que foi considerado impossível de se realizar na época.

Apesar dos norte-americanos sonharem com a construção de um canal no Panamá desde a década de 1820, foram os franceses que conseguiram a concessão do empreendimento junto à Colômbia (o Panamá pertencia ao país nessa época), iniciando a construção em 1881. A direção do empreendimento foi confiada ao diplomado Ferdinand de Lesseps, que também trabalhou na construção do Canal de Suez, no Egito, obra concluída em 1869.

Para levar a cabo esse novo empreendimento, foi criada uma empresa de capital aberto, que recebeu a adesão de 800 mil investidores. O sucesso obtido na construção e operação do Canal de Suez funcionou como um grande apelo comercial para a atração de tantos investidores. Porém, ao contrário das condições dos terrenos áridos e semiáridos do Egito, onde o maior problema são as bruscas variações de temperatura entre o dia e a noite, o Panamá era coberto por uma densa e complexa floresta tropical, com rios alternando grandes períodos de seca e violentes enchentes.

Para complicar ainda mais, essas florestas estavam infestadas de mosquitos transmissores de perigosas doenças tropicais como a malária e a febre amarela. Não demorou muito para a ousada obra começar a cobrar o seu preço – todos os meses, morriam cerca de 200 trabalhadores, vítimas de doenças, ataques de serpentes e acidentes de trabalho. Até 1889, ano em que os franceses desistiram do empreendimento, cerca de 22 mil trabalhadores já haviam morrido e as despesas com as obras haviam superado a impressionante marca de US$ 287 milhões, em valores da época.

Os Estados Unidos, que há muito tempo tinham interesses estratégicos no Panamá, se aproveitaram do fracasso e da falência dos franceses e assumiram o controle das obras. O Presidente Theodore Roosevelt negociou a compra dos interesses franceses no Canal do Panamá pela “bagatela” de US$ 40 milhões, valor insuficiente para reembolsar os milhares de investidores. Depois, usando de muita “malandragem”, os norte-americanos apoiaram grupos rebeldes que lutavam contra a Colômbia pela independência do Panamá.

Após a independência e formação do novo país, o Governo do Presidente Roosevelt pagou US$ 10 milhões pela concessão de uma faixa com cerca de 80 km de extensão e 9 km de largura no Istmo do Panamá, local onde foi construído o Canal. Essa faixa passou a ser conhecida com a Zona do Canal do Panamá e o prazo de sua concessão foi negociado inicialmente em 100 anos.

Empresas norte-americanas começaram a trabalhar nas obras do Canal do Panamá já em 1904, onde realizaram várias mudanças no projeto original feito pelos franceses. A principal mudança foi na concepção do canal – os franceses imaginaram a construção de um canal ao “nível do mar”, um tipo de obra que exigia a construção de canais muito profundos. Os norte-americanos optaram por um projeto que respeitava a topografia dos terrenos e onde seriam utilizadas barragens com eclusas para elevar e rebaixar os navios. Apesar de deixar a obra tecnicamente mais complexa, esse novo projeto eliminou a necessidade de maiores escavações e transporte de rochas.

Os norte-americanos também foram mais eficientes em ações de cunho sanitário, especialmente no controle das populações de mosquitos e no combate aos focos de suas larvas. Os militares e construtores dos Estados Unidos já haviam levado a cabo uma série de obras nas regiões pantanosas do Sul do país, onde os mosquitos causavam problemas semelhantes, principalmente a transmissão da malária. Entre outras medidas, foram eliminados os criadouros de mosquitos em águas paradas, uso de telas em portas e janelas, uso de inseticidas e de fumacê, entre outras ações.

Além dessas importantes medidas, os norte-americanos se valiam de normas de segurança no trabalho mais rígidas e de técnicas de construção mais modernas. Durante essa segunda fase de obras, que se estenderam por 10 anos, cerca de 5.600 trabalhadores morreram, um número ainda bastante elevado, mas equivalente a apenas um quarto das mortes contabilizadas nos tempos em que os franceses estavam no comando. O Canal do Panamá foi inaugurado em 15 de agosto de 1914 – o cargueiro norte-americano SS Ancon foi a primeira embarcação a realizar a travessia entre os dois oceanos.

Do ponto de vista sócio ambiental, a construção do Canal do Panamá foi um verdadeiro desastre. Ao longo da faixa da Zona do Canal existiam 29 vilas e pequenas cidades, que tiveram de ser evacuadas, em muitos casos, a força – cerca de 50 mil pessoas foram obrigadas a mudar sem maiores explicações. Conforme as obras avançavam, extensas áreas de florestas foram sendo derrubadas, liberando os solos para a escavação. Cerca de 7,6 milhões de metros cúbicos de rochas e sedimentos foram removidos durante a construção do Canal, cerca de 4 vezes mais do que havia sido projetado.

As estimativas atuais indicam que o Panamá possui cerca de 1.200 espécies de árvores e cerca de 10 mil espécies de plantas de todos os tipos, sendo que aproximadamente 1.250 espécies são endêmicas do país. Como não foram realizados estudos mais detalhados da flora e da fauna da região antes da abertura do Canal do Panamá, nunca saberemos com certeza quantas foram as espécies que desapareceram para sempre.

O maior dos impactos ambientais provocados pela abertura do Canal, entretanto, foi a divisão da densa floresta tropical em duas áreas distintas, uma ao Norte e outra ao Sul. Essa divisão passou o bloquear o livre fluxo de espécies animais terrestres e, consequentemente, o fluxo de espécies vegetais entre os dois lados. Animais comem frutas e frutos, carregando em seus estômagos e intestinos sementes, que serão expelidas em outras regiões, favorecendo assim a propagação de plantas e árvores. Existem também inúmeras sementes que aderem ao pelo dos animais e assim são carregadas a longas distâncias.

O isolamento de populações de animais também se reflete no enfraquecimento genético das espécies. O cruzamento de animais com proximidade familiar pode levar ao nascimento de descendentes com inúmeras deficiências genéticas e com menores chances de sobrevivência. A situação das espécies se torna ainda mais delicada devido aos grandes desmatamentos feitos para a ampliação de campos agrícolas e para a ampliação das cidades no país.

Atualmente, perto de 15 mil embarcações atravessam o Canal do Panamá a cada ano. Cada uma dessas embarcações chega a desembolsar até US$ 200 mil em taxas, o que mostra a importância econômica e estratégica dessa via navegável. O Panamá realizou recentemente grandes obras para ampliação do canal, ao custo de mais de US$ 5 bilhões e que permitem o tráfego de embarcações com até 14 mil conteineres. Essas obras já resultaram na destruição de aproximadamente 500 hectares de remanescentes florestais e muitos mais ainda serão destruídos.

Como sempre acontece, os interesses econômicos sempre estão à frente dos interesses sociais e ambientais. Foi isso que aconteceu e que ainda acontece no Panamá.

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