COSTA RICA: UM VERDADEIRO PARAÍSO CENTRO-AMERICANO PARA OS ECOTURISTAS

Parque Nacional Tortuguero

Até meados do século XX, a Costa Rica era uma das muitas Repúblicas de Bananas da América Central. Controlados política e economicamente por empresas norte-americanas produtoras de frutas tropicais, como era o caso da United Fruits Company, esses países normalmente eram dirigidos por chefes oligárquicos ou por militares “de confiança dos Estados Unidos”. Uma das imagens mais arquetípicas dos presidentes centro-americanos que encontramos nos livros de história mostra um militar fardado com dezenas de medalhas penduradas no peito e até na barriga. 

Até 1821, praticamente toda a América Central estava reunida em um único território – a Capitania-geral da Guatemala, uma possessão da Coroa da Espanha. A partir da proclamação da independência, os diversos grupos políticos regionais entraram em conflito, o que resultou na fragmentação do antigo território e na formação dos diferentes países que compõem o mapa da América Central que conhecemos hoje. Como consequência da instabilidade política da região, todos os países centro-americanos sempre destinaram partes substanciais de seus orçamentos para a manutenção e equipamento de grandes contingentes de forças militares. 

Em 1948, graças a uma decisão do então Presidente José Figueres – mais conhecido entre os costarriquenhos como “Don Pepe” Figueres, a Costa Rica se tornou um dos primeiros países do mundo a abolir as suas forças armadas. No ano seguinte, a decisão foi incluída na Constituição do país, se tornando uma das “cláusulas pétreas” da legislação local e mudando os rumos do desenvolvimento econômico, social e ambiental do país. 

Estudos recentes indicam que, a partir da desmilitarização do país, a Costa Rica aumentou seus investimentos em educação de 15% para 35% do PIB – Produto Interno Bruto. Os recursos destinados à saúde foram elevados para 29% do PIB e os recursos destinados à seguridade social foram triplicados. Os estudos também demonstraram que as taxas de crescimento médio da economia do país também aumentaram.  

Até 1949, a taxa anual média de crescimento da Costa Rica era da ordem de 1,33% – a partir de 1950, esse crescimento passou a uma taxa de 2,44% ao ano. Depois de décadas de pesados investimentos em saúde e educação, a atual expectativa de vida dos costarriquenhos é de 78 anos e a taxa de alfabetização é de 96,3%, valores de dar inveja a qualquer país latino-americano e similares a de países nórdicos

Essa “reinvenção” da Costa Rica também se refletiu em mudanças na estrutura econômica. A agricultura sempre esteve na base da produção econômica do país onde, além de frutas tropicais como as bananas, o café era um dos grandes destaques. Até o início da década de 1980, depois de séculos de desmatamentos, os remanescentes florestais da Costa Rica cobriam apenas 1/4 da área territorial do país. 

Data dessa época o início de um processo de valorização do patrimônio natural e de mudanças na estrutura produtiva, onde o Governo passou a coibir o avanço dos desmatamentos. Em 1996, o Governo da Costa Rica criou uma política de pagamento por serviços ambientais – agricultores que preservassem as matas nativas em suas propriedades e que realizassem a recomposição de áreas florestais degradadas passariam a receber compensações financeiras.  

Em menos de 20 anos, essa política resultou na duplicação da cobertura florestal, saltando de 26% para 52,4% da superfície do país. A Costa Rica se transformou numa referência mundial em preservação e recuperação ambiental. O país também se transformou numa espécie de “Meca” do ecoturismo na América Central, atraindo cada vez mais multidões de amantes da natureza. 

De acordo com dados da DGME – Direção Geral de Migração e Estrangeiros da Costa Rica, o pequeno país de 51 mil km² recebeu nada menos que 3,1 milhões de turistas em 2019, o significou um crescimento de mais de 4% em relação aos números de 2018, sendo o dobro da taxa de crescimento do turismo nas Américas. Esse impressionante número de visitantes é praticamente a metade do número de turistas que desembarcaram no Brasil no mesmo período. Aqui não custa lembrar que o território brasileiro tem mais de 8,5 milhões de km². 

E o que é que a Costa Rica tem de tão especial para atrair tantos visitantes? 

A resposta é simples: muita natureza bem preservada. O país conta atualmente com mais de 100 áreas de preservação ambiental, 35 parques nacionais e 8 reservas biológicas. Além de possuir duas fachadas oceânicas, uma no Oceano Pacífico a Oeste e outra no Mar do Caribe a Leste, a Costa Rica possui nada menos que 112 vulcões e guarda em suas matas cerca de 6% da biodiversidade mundial

Entre os vulcões do país, destacam-se o Arenal, o mais famoso de todos, e o Poás. Entre os parques, um dos grandes destaques é o Parque Nacional Tortuguero, que fica na costa do Mar do Caribe e onde uma das principais atrações turísticas é a desova das tartarugas marinhas, que acontece sempre entre os meses de junho e julho. Esse evento atrai milhares de turistas todos os anos (vide foto). 

Os pacotes turísticos oferecidos aos visitantes, normalmente, incluem um roteiro de “costa a costa”, onde são visitados os principais parques nacionais e atrações turísticas da Costa Rica. Além dos ambientes naturais, esses roteiros turísticos costumam incorporar atividades de esporte de aventura, uma modalidade que faz muito sucesso entre os visitantes mais jovens. Destacam-se aqui o arvorismo; bungee jump, rapel e tirolesa; canoagem, stand up paddle e rafting; balonismo, surf e mergulho, entre muitas outras atividades. 

A partir de 1995, o turismo passou a representar a principal fonte de receitas em moeda estrangeira da Costa Rica. Em 1999, essas receitas superaram a soma das exportações de café, abacaxis e bananas, os tradicionais e principais produtos da pauta de exportações do país.  

De acordo com dados disponíveis de 2008, as atividades ligadas ao turismo respondiam na época a 7,2% do PIB do país e geravam 13,3% dos empregos diretos e indiretos – esses números, muito provavelmente, melhoraram ainda mais nos últimos anos. Apesar de todas essas boas notícias, cerca de 20% da população ainda vive no limite da pobreza, o que mostra que ainda há para se melhorar na Costa Rica. 

Dentro de uma abordagem geopolítica clássica, um país pequeno e pobre como a Costa Rica, sem contar com um grande aparato de forças militares para proteger o seu território, teria sido facilmente conquistado por nações mais poderosas da vizinhança e teria a sua população oprimida e explorada por forças estrangeiras.  

Contrariando todas essas probabilidades, aconteceu justamente o contrário – o país passou a contar com mais recursos financeiros para investimentos em saúde, educação e desenvolvimento sustentável. Comparado aos demais países da América Central continental e das ilhas do Mar do Caribe, a Costa Rica é hoje uma verdadeira “Suíça centro-americana”. 

Para você pensar na cama: um país tão grande como o nosso, com mais de 7 mil km de praias e biomas tão diversificados como a Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pantanal, não poderia também passar a incentivar a preservação ambiental e faturar alto e a longo prazo com o ecoturismo? 

Ou será que nós ganharemos mais destruindo nossos biomas para plantar a soja e o milho, que exportamos para países estrangeiros usarem na produção de ração para engorda de porcos e galinhas?

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