AINDA FALANDO DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS E SOCIAIS DO HAITI

Haiti

Nas últimas postagens falamos bastante da Ilha de São Domingos, onde se encontra de um lado a República Dominicana, país que possui a economia mais dinâmica do Caribe, e do outro o Haiti, o país mais pobre e desmatado das Américas. A ilha foi o berço da colonização das Américas, tendo assistido ao nascimento da primeira cidade com ocupação permanente – Santo Domingo, além da construção da primeira catedral católica e da fundação da primeira universidade do continente. 

Quando a expedição de Cristóvão Colombo desembarcou na ilha em 1492, encontrou um bioma único, coberto por densa floresta tropical e com farta disponibilidade de fontes de água. A ilha abrigava uma grande população indígena, estimada em até 250 mil indivíduos. Esses indígenas chamavam a ilha de Quiqueya. A colonização, espanhola de um lado e francesa do outro, exterminou a população indígena e devastou a cobertura vegetal da ilha: 70% das florestas da República Dominicana e 98% do Haiti desapareceram. Sucessivas ditaduras e governos militares completaram o quadro da tragédia, tendo sido muito mais devastador no lado haitiano

Para mostrar de uma forma mais detalhada e didática o que tudo isso significou para o Haiti, vamos analisar os problemas ligados à produção de alimentos, uma das necessidades mais fundamentais de qualquer país. 

Devido à incapacidade de produção, cerca de 80% dos alimentos consumidos pelos haitianos precisam ser importados, o que inclui produtos básicos como o arroz, a carne de frango e os ovos. No caso de derivados de leite, essa importação supera a marca de 65%. Dados de 1981 indicam que as importações de alimentos no país há 40 anos atrás eram da ordem de 19%, o que indica o elevado grau de deterioração da economia do Haiti após o terremoto de 2010. 

As importações de arroz são um exemplo do problema: o país precisa importar 400 mil toneladas de arroz a cada ano para atender o consumo da população, a um custo de US$ 240 milhões. Isso pode não parecer muita coisa para um país com o tamanho da economia do Brasil, mas esse valor sozinho corresponde a 1,5% do PIB – Produto Interno Bruto, do Haiti. 

É aqui que entramos no cerne do problema – as dificuldades para a prática da agricultura no país. A topografia local, por si só, já apresenta enormes dificuldades: 75% da superfície do Haiti é formada por terrenos montanhosos e com forte declividade, características que limitam grandemente a produção da maioria das culturas agrícolas, especialmente grãos como o arroz. Relembrando o que comentamos em postagem anterior, a palavra Haiti na antiga língua dos índios arahuacas significa “terra de montanhas”,  

O arroz, que é o cereal mais consumido pelos haitianos, depende de terrenos planos e com grande disponibilidade de água. No Extremo Oriente, onde também é o principal alimento, parte do arroz é produzido em regiões com topografia acidentada em países como a China, o Vietnã, o Japão e a Coreia. Porém, os agricultores de lá realizam complexas obras de engenharia para a formação de terraços em degraus, trabalhos que exigem grande organização social e apoio mútuo entre os agricultores, algo que não encontramos no Haiti. 

Outra dificuldade para os haitianos é a dramática redução dos solos férteis no país. Praticamente toda a cobertura florestal do país já foi destruída, expondo os solos a uma forte erosão pelas águas das chuvas e carreamento da camada fértil na direção dos corpos d’água. A forte declividade dos terrenos intensifica ainda mais os processos erosivos, reduzindo cada vez mais a disponibilidade de solos e, consequentemente, de fontes de água. 

Nas escassas áreas planas dos vales, onde se esperaria encontrar condições mais adequadas para a prática agrícola, existe um outro problema – os lotes das famílias são muito pequenos e cercados, o que impede o uso de máquinas agrícolas básicas como tratores puxando arados. Isso limita os trabalhos na terra ao uso de ferramentas manuais como enxadas, ancinhos e a arados com tração animal, o que exige grandes esforços físicos e resulta em uma baixíssima produtividade (vide foto). 

De acordo com informações do CNSA – Conselho Nacional de Segurança Alimentar, do Haiti, o tamanho médio dos lotes agrícolas se situa numa faixa entre 0,62 e 1,46 hectares (lembrando que 1 hectare equivale a uma área com 10 mil m²), quando o ideal seriam lotes mínimos com aproximadamente 3 hectares. Assim como acontece em outras regiões do mundo, a produção de alimentos dessas pequenas áreas vai atender apenas as necessidades de subsistência das próprias famílias, sem gerar excedentes para a venda. 

Sem conseguir produzir alimentos em quantidade suficiente para atender as suas necessidades e sem dinheiro para conseguir pagar os altos custos dos alimentos importados, cerca de 4,5 milhões de haitianos, o que chega bem próximo de metade da população do país, sofre com a “insegurança alimentar”, o que, em linguagem bem popular, significa que essas pessoas passam fome frequentemente. Segundo dados de 2009 da CNSA, 55% da população do Haiti vive em pobreza extrema

Os problemas ambientais, infelizmente, não param por aí. A derrubada maciça da cobertura vegetal do país destrói os solos e leva a um processo de degradação ambiental conhecido como desertificação. Conforme já comentamos em postagem anterior, o solo fértil é o resultado de milhares de anos de degradação de rochas e formação de sedimentos finos. Esses sedimentos se misturam a matéria orgânica resultante da decomposição de plantas e de restos de animais mortos, além de água e ar. 

Quando o solo fica sem a proteção da vegetação, as águas das chuvas arrastam essa camada de solo fértil milenar e expõe terrenos rochosos ou cobertos por sedimentos inertes onde as plantas não crescem. A radiação solar resseca esses terrenos desnudos, diminuindo a sua capacidade de absorver e reter água, formado um solo com características de deserto. A Península de San Nicolás no Norte do país e sobre a qual já falamos, está sofrendo fortemente com a desertificação. 

A incapacidade dos solos em absorver água leva a outro problema gravíssimo – as águas das chuvas não recarregam os lençóis freáticos e aquíferos subterrâneos, destruindo assim as nascentes das fontes de água. Nos períodos do verão, os rios e córregos apresentam grandes volumes – as águas pluviais escorrem rapidamente sobre os solos e correm diretamente para a calha dos rios. Esse grande volume de águas pluviais provoca enchentes em áreas baixas, destroi as margens dos rios, além de arrastar grandes quantidades de sedimentos para a calha dos rios, intensificando o assoreamento dos canais. Na época da seca, a maioria dos rios apresenta apenas um filete de água ou um leito completamente seco. 

Além de essencial à vida humana, a água é fundamental para a dessedentação dos rebanhos animais e irrigação de culturas agrícolas. O caos ambiental que tomou conta do Haiti há várias décadas está destruindo, literalmente, todos os processos ecológicos ligados à produção de alimentos. Sem água e sem comida, como se faz para sustentar mais de 11 milhões de pessoas? 

A tão propalada sustentabilidade é um tripé onde se equilibram o desenvolvimento econômico, a equidade social e a preservação ambiental. No Haiti, como é possível verificar através desse rápido resumo, se está muito longe de tudo isso. Resolver todos esses problemas é uma tarefa hercúlea, ainda mais em um país marcado pela instabilidade política, corrupção sistêmica e embates violentos entre as diferentes facções que lutam pelo controle do poder. 

Enquanto não se consegue achar um caminho para a recuperação do Haiti, milhões de pessoas vão continuar sofrendo com a falta de água, de alimentos e das mínimas condições de vida, dependendo cada vez mais da ajuda internacional. 

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