CURAÇAO: PIONEIRA NO USO DE ÁGUA DESSALINIZADA DESDE 1928

curaçao

Curaçao é uma pequena ilha com aproximadamente 450 km² localizada no Sul do Mar do Caribe, a cerca de 50 km da costa da Venezuela. A ilha foi descoberta em 1499 por navegadores espanhóis que a batizaram como Ilha dos Gigantes – consta que os antigos nativos da ilha, os arawak, eram bem altos. Alguns anos mais tarde, uma nau portuguesa aportou na ilha – os tripulantes estavam sofrendo com o escorbuto, uma doença que frequentemente assolava os marinheiros e estava associada à falta de ingestão de alimentos ricos em vitamina C como as frutas cítricas. Depois de algumas semanas ingerindo laranjas e outras frutas e legumes frescos, os marinheiros já estavam curados e passaram a se referir ao local como “ilha da curação” (ou da cura). Esse nome foi modificado pelos colonizadores holandeses para Kòrsou, passando a ser pronunciado depois como Curaçao. 

Os holandeses assumiram o controle da ilha em 1634 e construíram a sua versão tropical de Amsterdam em Curaçao. Valendo-se da posição estratégica da ilha, traficantes de escravos holandeses dominaram esse mercado no Caribe por mais de um século. Com os sucessivos processos de abolição da escravidão em todos os países das Américas, o negócio acabou e a economia da Ilha entrou em franco declínio: Curaçao ficou longe dos holofotes do mundo por muito tempo. Foi somente em décadas bem recentes que “la isla bonita“, um dos muitos nomes dados a Curaçao, despontou como uma das jóias do Caribe.

A ilha é cercada por mares de águas calmas e cristalinas, com cores que vão do azul turquesa ao verde esmeralda, contrastando com suas praias de areias muito brancas. A capital da ilha, Willemstad, conserva um importante conjunto arquitetônico colonial holandês, que foi elevado à categoria de Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. O centro histórico da cidade data de meados do século XVII e lembra muito as paisagens pintadas por grandes artistas flamengos como Rembrandt. A cultura local mescla as origens holandesas com influências espanholas, portuguesas e inglesas. Essa miscigenação se reflete na comida, na língua falada pelo povo – o papiamento (o holandês é falado por uma minoria), na cultura e no próprio povo. Em resumo, Curaçao é um dos melhores destinos turísticos do mundo. 

Esse paraíso caribenho, infelizmente, tem um gravíssimo problema: não existem rios nem lagos na Ilha de Curaçao. As únicas fontes de água potável que existiam na ilha eram depressões no solo e formações rochosas naturais que acumulavam as águas das chuvas. Com o início da colonização, a população começou a cavar cisternas e a construir pequenos açudes para aumentar esse armazenamento de água. Esgotada essa água, a população passava a depender de carregamentos trazidos em navios desde o continente sul-americano. A superação dessa carência absoluta de recursos hídricos se tornou uma obsessão para a população de Curaçao. 

Em 1928, a Ilha de Curaçao se tornou a pioneira no uso de água marinha dessalinizada com a construção da primeira usina desse tipo no mundo. A planta original sofreu várias atualizações, passando inclusive a gerar eletricidade a partir de turbinas a vapor. Recentemente, foi inaugurada uma nova e mais moderna usina de dessalinização; a antiga planta, que funcionou ininterruptamente por oito décadas, está sendo desmontada. Os novos equipamentos utilizam a tecnologia de osmose reversa e podem produzir água potável a partir da água do mar e, em caso de necessidade, a partir de  qualquer “fonte” de água doce residuária ou poluída. 

O custo dessa água dessalinizada, com o perdão do trocadilho, é bastante “salgado” para a maior parte da população da ilha: são aproximadamente US$ 1.20 para cada metro cúbico (1.000 litros). Independente da Holanda desde a década de 1950, Curaçao tem poucos recursos naturais em seu território e sobrevive basicamente do turismo. A maior parte da população trabalha em serviços ligados a essa atividade e sobrevive com salários módicos. Nos últimos anos, Curaçao foi transformada em mais um dos paraísos fiscais do Caribe, com a chegada de diversos bancos internacionais e inúmeras empresas offshore. Entretanto, os ganhos milionários dessas operações beneficiam apenas uma pequena parcela da população. 

Esse alto custo da água dessalinizada em Curaçao deve-se em grande parte ao uso de derivados de petróleo para a geração de energia elétrica na ilha, combustíveis que também fornecem a energia primaria das plantas de dessalinização. Em 1914, após as descobertas de grandes reservas de petróleo na Venezuela, a Shell, uma multinacional holandesa do ramo petrolífero, instalou uma refinaria em Curaçao. Naquela época, essa facilidade de acesso à derivados de petróleo baratos impulsionou seu uso nas usinas termelétricas da Ilha ao lado do tradicional carvão mineral. Ao longo das últimas décadas, após sucessivos choques no preço do petróleo, esses custos de geração de energia foram se tornando excessivamente caros.

A população da ilha sente no bolso os custos da água dessalinizada e faz todos os esforços possíveis para reduzir, ao máximo, o uso desse “precioso líquido” em suas casas, algo que lembra muito a rotina das populações brasileiras de regiões do semiárido no convívio com as secas periódicas. São banhos rápidos, otimização no uso de água na lavagem de louças e panelas, reaproveitamento da água do enxague de roupas para a limpeza das casas e dos quintais, entre outras medidas. O armazenamento e uso da água das chuvas, uma prática muito comum nas ilhas do Caribe, continua sendo uma das alternativas ao uso da água dessalinizada e uma forma da população de Curaçao economizar nas despesas. 

O uso da água dessalinizada para o abastecimento da população de Curaçao é um case de sucesso internacional há mais de 80 anos e sempre é usado como uma referência por países e cidades com dificuldades de acesso à recursos hídricos. Porém, como não foi difícil de demonstrar, os altos custos do abastecimento com água dessalinizada pesam no orçamento das faixas de população de menor renda, que são obrigadas a reduzir ao máximo o consumo de água. 

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