SE VOCÊ FOR UM AMBIENTALISTA, EVITE IR PARA HONDURAS

Berta Caceres 2015 Goldman Environmental Award Recipient

O intrigante título da postagem de hoje tem uma boa razão: de acordo com várias organizações ambientalistas internacionais, Honduras é o país mais perigoso do mundo para os ambientalistas. Somente entre os anos de 2010 e 2015, nada menos que 109 ativistas ambientais hondurenhos foram assassinados. No ano de 2015, inclusive, 6 dos mortos eram lideranças indígenas engajadas na luta ambiental

Em março de 2016, uma das vítimas foi Berta Cáceres (vide foto), a mais conhecida ambientalista do país. Berta era líder da comunidade indígena Lenca e também uma importante defensora dos direitos humanos. Em abril de 2015, a ambientalista foi agraciada com o Prêmio Goldman, um dos maiores reconhecimentos mundiais aos ativistas da área ambiental. De acordo com informações da polícia local, a ocorrência foi um “roubo seguido de morte”, o que demonstra que as autoridades publicas não estavam muito preocupadas com as mortes de ambientalistas. 

Berta Cáceres ganhou notoriedade internacional graças a organização do movimento dos índios Lenca na luta contra a construção da Usina Hidrelétrica de Água Zarca. Esse empreendimento conjunto entre a empresa hondurenha DESA – Desarrollos Energéticos S.A. e a chinesa Sinohydro foi aprovado pelo Congresso hondurenho em 2011 e seria construído no rio Gaulcarque. Esse rio é considerado sagrado pelos índios Lenca, que sequer foram consultados pelas autoridades. Outro ponto de atrito foi a falta de estudos de impacto ao meio ambiente. 

As comunidades indígenas passaram vários anos lutando contra o projeto e vivendo sob a ameaça de grupos armados. A Sinohydro acabou se retirando do projeto em 2013 por causa do conflito com os indígenas. O ambientalista Nelson García, que também estava envolvido na luta contra o projeto da hidrelétrica, foi assassinado cerca de duas semanas após a morte de Berta.  

As mortes de Berta Cáceres e de Nelson García repercutiram fortemente pelo mundo e diversas empresas internacionais fornecedoras de equipamentos e sistemas, principalmente da Europa, e também financiadoras se retiraram do projeto. Sem apoio internacional, o Governo de Honduras acabou cancelando o empreendimento, o que foi um dos raríssimos casos do mundo onde um grupo indígena conseguiu impedir a realização de um projeto de infraestrutura de um governo. Em dezembro de 2016, a ONU – Organização das Nações Unidas, concedeu postumamente o Prêmio Campeões da Terra a Berta Cáceres.

A situação ambiental de Honduras é uma das mais graves do mundo. De acordo com um estudo publicado em 2017 pela FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, onde foram usados dados do Banco Mundial, Honduras foi o país da América Central que teve a maior perda de área florestal em um período de 25 anos: o país perdeu 44% da sua cobertura vegetal original no período. Esse número explica a razão de tantos assassinatos de ambientalistas no país. No período analisado, a perda total de áreas florestais no mundo foi de 3% e a área total perdida foi de 130 milhões de hectares. 

Os campeões em perda de áreas florestais segundo o estudo da FAO foram os países africanos, onde se destacam Togo (-73%), Nigéria (-70%) e Uganda (-56%). Os países da América Central vêm na sequência – além da campeã Honduras, são destaques a Nicarágua (-31%) e El Salvador (-30%). Na contramão dessa devastação ambiental, o Uruguai apresentou um aumento de 131% de suas áreas cobertas por florestas no mesmo período. 

Honduras possui um território com pouco mais de 112 mil km², onde se alternam montanhas, planaltos e planícies férteis, onde encontramos uma das mais ricas biodiversidades do mundo. O pequeno país abriga mais de 8 mil espécies de plantas, 110 espécies de mamíferos, 250 espécies de répteis e anfíbios,  além de impressionantes 70 mil espécies de aves. A população humana é de pouco mais de 9 milhões de habitantes. 

Parte significativa da população de Honduras é formada por indígenas e são diversos os grupos que lutam pela demarcação de suas terras. Um grande exemplo dessas lutas são os misquitos ou mosquitos, um grupo indígena que vive ao longo da costa do país, conhecida como Mosquitia ou Costa dos Mosquitos. Depois de intensas manifestações e protestos da etnia entre os anos de 1987 e 2012, o Governo de Honduras acabou por reconhecer seus direitos pelas terras e concedeu mais de 11 títulos de posse aos indígenas de 39 comunidades, totalizando mais de 14 mil km².  

Se fizermos um rápido exercício de matemática, vamos constatar que os índios misquitos passaram, de uma hora para outra, a ser donos de mais de 10% do território de Honduras. Grandes latifundiários, grileiros e demais hondurenhos “sem terra”, é claro, não costumam aceitar esse tipo de decisão da justiça. Na opinião dessas pessoas “é muita terra para poucos índios”, algo que costumamos ouvir com muita frequência aqui no Brasil. As terras dos misquitos e de diversas outras etnias indígenas continuam sendo invadidas e devastadas por grileiros, garimpeiros e madeireiros, e os conflitos agrários prosseguem. 

Outro foco permanente de tensão em Honduras são as áreas protegidas do país, onde se incluem as reservas naturais da biodiversidade e também os importantes sítios arqueológicos e históricos, onde se encontram as ruínas de civilizações pré-colombianas como os maias. De acordo com dados de 2008, essas áreas representavam cerca de 16% da superfície total de Honduras, o que corresponde a aproximadamente 19 mil km²

Cerca de 60% da população de Honduras vive abaixo da linha da pobreza, trabalhando especialmente na agricultura, atividade que emprega cerca de 40% da população e responde por 13% do PIB – Produto Interno Bruto, do país. Os principais produtos da pauta de exportações de Honduras são o café, o açúcar e as onipresentes bananas. Em menor escala estão os pescados, principalmente os camarões, charutos e produtos de madeira, além de roupas e tecidos bordados. Cerca de dois terços das exportações do país têm como destino os Estados Unidos. 

Além de enfrentar toda uma gama de problemas ambientais internos, Honduras também sofre com problemas “exportados” pela Guatemala. Falo aqui do rio Motagua, que atravessa grande parte do território da Guatemala e tem sua foz no litoral de Honduras. Dezenas de toneladas de resíduos sólidos, principalmente restos de materiais plásticos, lançados pelas populações de 95 municípios guatemaltecos atravessados pelo rio, chegam diariamente até as praias de uma extensa região de Honduras, prejudicando a pesca e o turismo. A origem do problema é a falta de serviços de coleta e destinação de resíduos sólidos na Guatemala e os dois países não conseguem chegar a um acordo para solucionar o problema. 

Ilha de plástico no Mar do Caribe

Completando o quadro caótico, Honduras vem enfrentando graves problemas de instabilidade política desde 2009, quando o então Presidente do país, Manuel Zelaya, foi deposto por um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos. Eleito por uma coalizão de partidos conservadores de direita, o Governo do Presidente Zelaya deu uma brusca guinada para a esquerda durante o seu mandato e começou a se aproximar do Presidente Hugo Chaves da Venezuela e de outros governantes bolivarianos, o que desagradou os militares do país. Logo após sofrer o golpe, o Presidente Zelaya buscou refúgio na embaixada brasileira em Tegucigalpa, onde ficou por quatro meses até conseguir um salvo conduto para viajar para a República Dominicana. 

Apesar do então Vice-Presidente ter assumido o Governo do país e de um novo Presidente ter sido eleito democraticamente, Honduras passou a conviver com sucessivas passeatas e greves de professores, caminhoneiros, grupos indígenas, trabalhadores ligados a sindicatos, entre outras forças políticas consideradas de esquerda. Esse clima de permanente “convulsão social” não tem ajudado em nada na busca de soluções para os graves problemas ambientais que assolam o país. 

Em meio ao caos instalado, os desmatadores e agressores ambientais de plantão agradecem e avançam violentamente contra os remanescentes florestais e também contra as áreas indígenas do país. 

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