1 MILHÃO DE ESPÉCIES ANIMAIS E VEGETAIS ESTÃO AMEAÇADAS DE EXTINÇÃO, SEGUNDO RELATÓRIO DA ONU

Underwater rare encounter with Critically Endangered Hawksbill Sea Turtle (Eretmochelys imbricata)

Um amplo estudo elaborado pela IPBES – Plataforma Intergovernamental Político-Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, na sigla em inglês, entidade ligada a ONU – Organização das Nações Unidas, foi divulgado nesse mês de maio, dimensionando as consequências da devastação ambiental em todo o planeta. O relatório dá um destaque especial aos fatos ocorridos nos últimos 50 anos e mostra que a situação atual é dramática. 

Esse estudo foi elaborado ao longo de três anos por 145 especialistas de 50 países, com a colaboração de outros 310 especialistas. No total, o relatório contém 1.500 páginas com dados e registros de mudanças ocorridas nas últimas cinco décadas. A publicação integral será divulgada a partir do meio do ano. De acordo com comentário de Audrey Azoulay, diretora geral da UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, “ninguém poderá dizer que não sabemos que estamos dilapidando nosso patrimônio mundial comum”. 

Segundo o Relatório, as principais causas dessa tragédia ambiental são: as alterações no uso dos solos e dos oceanos, que enfrentam problemas como a poluição; a exploração intensa dos recursos naturais, que tem como uma de suas consequências o desmatamento; inserção de espécies exóticas e de alto valor comercial em habitats, criando todos os tipos de impactos e desequilíbrios; e as mudanças climáticas globais, que já provocaram um aumento de 1° C na temperatura do mundo desde a Revolução Industrial

Alguns dados alarmantes do Relatório: 

  • 75% do território da Terra foi severamente alterado por atividades humanas; 
  • 66% das áreas marinhas foram afetadas;
  • US$ 60 bilhões em recursos naturais são extraídos do meio ambiente a cada ano; 
  • 30% dos habitas foram reduzidos; 
  • 47% dos mamíferos terrestres foram impactados direta e indiretamente; 
  • 40% dos anfíbios podem desaparecer; 
  • 33% dos corais, tubarões e mamíferos marinhos estão ameaçados; 
  • 9% das espécies terrestres correm o risco de desaparecer nas próximas décadas se não forem restaurados os seus habitats; 

No Brasil, mais de 3 mil espécies estão ameaçadas. Entre elas o peixe-boi da Amazônia, o boto-cor-de-rosa e a onça pintada. A derruba de matas nativas em biomas como o Cerrado e a Floresta Amazônica para o avanço das frentes agrícolas e pecuárias lideram as agressões ambientais no Brasil.

Um exemplo das consequências da perda de espécies é o desaparecimento acentuado de populações de abelhas, fenômeno observado hoje em todo o mundo.  A importância das abelhas vai muito além da produção do mel e da cera, produtos largamente utilizados pela humanidade. Esses insetos são responsáveis pela polinização de mais de 70% das plantas do mundo, especialmente as diversas espécies de frutas e grãos usados como alimentos pela humanidade. Estudos recentes indicam que os sistemas de telefonia celular estão entre os principais vilões desse desaparecimento das abelhas – as ondas eletromagnéticas geradas pelos equipamentos desnorteiam os insetos e causam alterações em seu comportamento. O uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras também faz sua cota de estragos nas comunidades de abelhas

Josef Settele, um dos principais autores do estudo, afirmou que “tanto os ecossistemas, as espécies, as populações selvagens, as variedades locais e as espécies de plantas e animais domésticos estão se reduzindo, deteriorando ou desaparecendo”. Ele acredita que esta perda está relacionada diretamente com a atividade humana, o que num futuro próximo poderá afetar o bem-estar em todas as regiões do planeta. 

Apesar da situação caótica, ainda é possível se encontrar soluções. O estudo ressalta que para conseguir os objetivos sugeridos para 2030, é necessário transformar a economia, a sociedade, a política e a tecnologia. Os especialistas defendem a importância de mudar todo o modo de desenvolvimento. O administrador do Programa de Desenvolvimento da ONU, Achim Steiner, afirmou que “nosso saber local, indígena e científico está demonstrando que temos soluções, assim que basta de desculpas, temos que viver de maneira diferente na Terra”, afirmou. 

OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento, também comentou o estudo, e adverte que esta extinção massiva pode ser um dos grandes riscos para este século. A OCDE lembra os países que para garantir a segurança alimentar, a redução de pobreza e o desenvolvimento equitativo é necessário atuar a favor da biodiversidade. 

Na contramão de tudo isso, estamos observando uma série de movimentos do Governo Federal no sentido de flexibilizar as regras da Política Ambiental. Um decreto assinado pelo Presidente Jair Bolsonaro na noite da última terça-feira, dia 28 de maio, reduziu a composição do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, de 100 para apenas 23 membros. De acordo com assessores do Governo Federal, a medida “busca tornas as decisões do CONAMA mais céleres”. 

Relembrando, o CONAMA foi criado em 1981, com o objetivo de ser uma das pedras angulares da Política Nacional do Meio Ambiente, que foi criada em 1986. Entre suas principais responsabilidades estão a criação de normas para o licenciamento ambiental e para a realização de estudos de estudos de impacto ao meio ambiente em projetos públicos e privados, a avaliação da execução da Política Nacional do Meio Ambiente, entre outras atribuições. 

Outro movimento preocupante, também capitaneado pelo Governo Federal, é um projeto que propõe a transformação da Costa Verde, um dos mais belos e bem preservados trechos do litoral brasileiro entre o Norte do Estado de São Paulo e a Ilha Grande, no Rio de Janeiro, numa espécie de Cancún brasileira. A justificativa é a ampliação do número de turistas e, consequentemente, de recursos estrangeiros que entram no país (especialmente no combalido Estado do Rio de Janeiro), a exemplo do famoso balneário mexicano que, segundo os governistas, “recebe perto de 7 milhões de visitantes ao ano”. 

Um dos “pequenos obstáculos” existentes para a implementação desse projeto é a existência da Estação Ecológica de Tamoios, formada por 29 ilhas, lajes e rochedos da Baía da Ilha Grande. O entorno marinho num raio de 1 km ao redor dessas formações oceânicas é de acesso proibido, com o objetivo de proteger as espécies marinhas (vide foto). O Governo Federal fala abertamente em revogar o Decreto que criou a Estação Ecológica de Tamoios. 

Diante do cenário apocalíptico apresentado pelo Relatório ambiental da ONU, parece que as autoridades políticas de nosso país estão vivendo em uma espécie de universo paralelo. Infelizmente, nossos políticos não aparecem na lista das espécies ameaçadas…

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