A CAPITAL DO AGRESTE E O RIO IPOJUCA

Enchente em Caruaru

A famosa cidade de Caruaru, conhecida pela sua Feira e chamada de Capital do Agreste, é a maior cidade do interior e quarta maior do estado de Pernambuco. De acordo com dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população da cidade em 2017 apresenta um total de 356.128 habitantes, número que confirma sua posição de cidade mais populosa do interior pernambucano e a coloca na terceira posição entre as cidades mais populosas do interior nordestino. No ano 2000, a população da cidade estava na casa dos 250 mil habitantes, o que nos dá uma ideia muito clara da taxa acelerada de crescimento da cidade.

A posição de destaque que a cidade de Caruaru ocupa no Agreste pernambucano têm raízes históricas – a cultura da cana e a indústria colonial do açúcar, nas Regiões do Litoral e da Zona da Mata nos primeiros séculos do povoamento, acabou por expulsar as boiadas para o interior do país. Esse movimento de gentes e bichos na direção do Agreste e da Caatinga, ao qual chamo de Diáspora Bovina, foi ao mesmo tempo fundamental para o processo de povoamento do interior do Brasil e também um marco inicial da eterna tragédia dos sertanejos em sua luta diária pela vida – o Agreste e a Caatinga Nordestina formam a área de semiárido mais habitada do mundo, com populações humanas e de animais domésticos em números muito superiores à capacidade de suporte do meio ambiente. Em uma série de postagens anteriores, onde falei do Rio São Francisco, tratei longamente sobre esta temática. Essa superpopulação de gentes e bichos entra em colapso a qualquer estiagem mais prolongada – e já foram dezenas de grandes secas vividas na região desde os tempos coloniais. A posição estratégica de Caruaru, no entroncamento de diversas estradas boiadeiras usadas para levar o gado dos sertões na direção dos centros consumidores no Litoral, transformou naturalmente a cidade num grande polo comercial e cultural do Agreste.

O forte crescimento de Caruaru e os problemas encontrados no trecho do rio Ipojuca, que atravessa a cidade, permite que façamos um recorte local para o entendimento dos problemas socioambientais de toda a bacia hidrográfica, que ocupa uma área equivalente a 3,5% da superfície total do Estado de Pernambuco, com uma área de 3,4 mil km². Esta bacia possui importantes polos regionais que, além de Caruaru, incluem Belo Jardim, Gravatá e Ipojuca.

Desde o início da industrialização, em meados do século XVIII, as antigas populações rurais vêm abandonando, sistematicamente, o trabalho nos campos e tem migrado para as cidades em busca de melhores condições de vida e de trabalho. Por seu atraso em relação às nações mais desenvolvidas, no Brasil este processo pode ser observado com maior clareza a partir da II Guerra Mundial. Em Pernambuco, a migração de trabalhadores rurais para as cidades tem ligação com as diversas crises enfrentadas pela indústria canavieira, onde encontramos problemas ligados à concentração da propriedade da terra, esgotamento dos solos por erosão e destruição das fontes de água, desemprego e subemprego, problemas climáticos como a seca que, muitas vezes, tornou a subsistência de muitas famílias insustentável. Fugindo desta vida rural ligada a terra, milhares de famílias migraram para as médias e grandes cidades de todo o Brasil.

Caruaru, um polo econômico extremamente dinâmico na Região do Agreste pernambucano, atraiu grandes contingentes de migrantes. Sem encontrar programas de habitação popular ou condições de acesso a moradias baratas, essas populações, como é de praxe nas médias e grandes cidades, sempre procuram as áreas mais desvalorizadas dos perímetros urbanos: morros, áreas de várzeas de rios e córregos urbanos e ainda vilas e cidades dormitórios nas cercanias de um centro urbano com economia dinâmica. Em Caruaru, as áreas ocupadas por essas populações foram, em grande parte, as margens e várzeas do rio Ipojuca. Na construção de suas moradias, essas populações realizaram aterros e nivelamentos de trechos das várzeas, construção de muros de arrimo, despejos de entulhos e restos de materiais na calha do rio, entre outras modificações no solo, que alteraram a dinâmica natural do curso das águas do rio Ipojuca. Somem-se a estes problemas tipicamente urbanos outros eventos periféricos como a retirada de areia e pedras de áreas de várzeas para uso na construção civil, a derrubada de matas ciliares para a expansão do cinturão verde da cidade e fornecimento de lenha e carvão, aumento do abate de animais em matadouros, com vistas ao abastecimento da população crescente, sem maiores cuidados com os efluentes despejados nos rios, entre outros problemas.

Este crescimento urbano, que não respeitou alguns dos mais básicos princípios do planejamento urbano e das leis que regulam as obras – por exemplo: respeitar um recuo mínimo em relação aos cursos d’água, foi agravado pela falta ou deficiência das infraestruturas de serviços da cidade: redes de água e esgotos, drenagem de águas pluviais, coleta de lixo, iluminação pública, calçamento de ruas e avenidas, presença de escolas e unidades de atendimento à saúde, entre outras. Sem oferecer esses serviços públicos e sem fiscalização, o rio Ipojuca virou “terra” de ninguém – o lançamento de esgotos in natura em suas águas aumentou; lixo e resíduos sólidos passaram a ser descartados diretamente em suas margens e águas, resultando em grande assoreamento e entulhamento da calha; os diversos dispositivos de drenagem de águas pluviais (sarjetas, bocas de lobo, canais e valetas, grelhas, etc) sofreram modificações devido à expansão desordenada da mancha urbana e passaram a ocorrer fortes alagamentos em diversas áreas da cidade em dias de chuva mais forte, entre outros problemas. Some-se a tudo isso o crescimento das atividades industriais, comerciais e de serviços na cidade, que aumentaram a geração de lixo e de resíduos sólidos, de esgotos e efluentes dos mais diferentes tipos (por exemplo, efluentes de lavanderias), aumento do consumo de energia elétrica e de água, entre outros impactos.

Esse crescimento desordenado e contínuo da cidade de Caruaru, que também pode ser observado em outras cidades da bacia hidrográfica do Ipojuca, trouxe uma série de problemas para o rio como o crescimento da poluição das águas e as enchentes – se você observar os dados relativos aos índices pluviométricos de todo o vale do rio Ipojuca, vai observar que não houve aumentos expressivos nos volumes de chuvas, porém a frequência e a intensidade das enchentes nas cidades atravessadas pelo rio (vide foto) não param de crescer.

Continuamos no próximo post.

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