OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO

Seca no rio São Francisco

A água é um elemento fundamental para a nossa vida que, desgraçadamente, está se tornando cada vez mais rara e cara nesse nosso mundo. De múltiplos usos, a água sacia a nossa sede, torna possível a agricultura e a produção de alimentos, é essencial nas mais diversas aplicações industriais, é sinônimo de lazer e fundamental para os transportes, entre inúmeras outras aplicações e usos. Nesta atual série de postagens, estamos mostrando a relação entre a água e seus usos para a geração de energia hidrelétrica – já falamos de diversos rios brasileiros e das histórias de inúmeras usinas que foram sendo construídas ao longo dos últimos 130 anos. 

Existe aqui um paradigma – é essencial que esses rios continuem tendo água correndo em suas calhas para que as turbinas das usinas hidrelétricas continuem gerando energia elétrica. Por mais absurda que essa afirmação possa lhe parecer à primeira vista, é exatamente esse o principal problema do rio São Francisco – seus caudais diminuem ano após ano e a geração de energia elétrica em suas inúmeras usinas corre sérios riscos de entrar em colapso. Vamos entender essa questão: 

Conforme apresentamos na postagem anterior, o Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, uma região onde predomina o bioma Cerrado. Aliás, os principais tributários do São Francisco, que são os afluentes que contribuem com a água que forma os seus caudais, tem nascentes em áreas do Cerrado, principalmente dentro das fronteiras de Minas Gerais. Apesar de ter apenas 37% da sua bacia hidrográfica em terras mineiras, o Velho Chico recebe 75% de todas as suas águas de rios tributários do Estado de Minas Gerais. E o grande problema que estamos assistindo nos últimos 50 anos é a destruição das matas nativas do Cerrado para a expansão das fronteiras agrícolas. 

Em Minas Gerais, a cobertura vegetal vem sofrendo um intenso processo de destruição ao longo da história, o que se traduz em impactos importantes nos rios, riachos e demais corpos d’água, especialmente na forma de assoreamento. O avanço da fronteira agrícola nas últimas décadas, onde destacamos as culturas da soja e do milho, acelerou enormemente esse processo e os seus reflexos no rio São Francisco são evidentes. Dos três biomas originais do Estado de Minas Gerais, o Cerrado é o que mais perdeu vegetação, restando apenas 40% da cobertura original. Da Mata Atlântica e da Caatinga restam, respectivamente, 23% (algumas fontes citam valores menores) e 57%. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco em Minas Gerais está localizada, predominantemente, em áreas do Cerrado e as acentuadas perdas de área dessa vegetação é o fator que mais produz reflexos negativos no rio, notadamente a redução dos volumes de água em nascentes desse bioma.  

A destruição das matas em Minas Gerais tem suas origens na descoberta das primeiras jazidas de ouro nos últimos anos do século XVII, um evento que mudou os rumos da história do Brasil. Para dar uma dimensão dos impactos dessa descoberta, bastaram apenas 50 anos para que perto de 60% da população brasileira de então, abandonasse as terras do litoral e os trabalhos nas lavouras de cana e nas unidades de produção de açúcar, para se aventurar nos sertões das Geraes na busca do ouro. Essa busca começava nos rios, onde podia se encontrar o chamado ouro de aluvião, e depois se estendia para os barrancos das margens, onde a vegetação era suprimida e os solos passavam a ser revirados. 

As reservas auríferas das Geraes foram efêmeras e em menos de um século sua mineração entrou numa irremediável decadência, levando inúmeras cidades à ruína total. Os solos locais, entretanto, eram ricos em outros metais como ferro, cobre, estanho, níquel e zinco, o que permitiu uma gradativa reorganização econômica da mineração e o surgimento de uma próspera base siderúrgica e de indústrias dos segmentos da metalmecânica. Há aqui um grande problema – o processamento de minérios e a produção de metais requer grandes volumes de energia térmica, tradicionalmente fornecida pela queima do carvão mineral, um insumo que não é encontrado dentro dos limites de Minas Gerais. Aliás, o Brasil só possui reservas de carvão, e de baixa qualidade, nos Estados da região Sul. 

Na falta do carvão mineral, as matas mineiras começaram a ser derrubadas e transformadas em carvão vegetal, um insumo genérico que alimentou por décadas um sem número de altos-fornos em diversas regiões de Minas Gerais. Essa derrubada de matas não poupou nenhum dos biomas locais: Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e até mesmo as Veredas dos contos de Guimarães Rosa. A expansão recente das fronteiras agrícolas veio consolidar uma devastação ambiental que se iniciou no século XVIII. 

A cobertura vegetal, especialmente nos domínios do bioma Cerrado, é essencial para permitir que as águas das chuvas infiltrem nos solos e realizem a recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos, fonte da água que jorra nas nascentes dos rios. Uma das principais características da vegetação do Cerrado é a presença de raízes muito longas, adaptadas para capturar águas profundas nos meses de seca, que são fundamentais nesse processo de recarga das reservas subterrâneas. Com a supressão das matas, seja para agricultura, mineração ou produção de carvão mineral, esse processo de recarga fica enormemente prejudicado e os rios perdem caudais. É justamente esse o mal do rio São Francisco – seus inúmeros tributários têm cada vez menos água a oferecer. 

A redução do volume de água que corre na calha do rio São Francisco é desesperadora – até 20 ou 30 anos atrás, o volume de água que o rio lançava na sua foz no Oceano Atlântico chegava bem próximo de 3 mil m³ por segundo. Nos últimos 3 anos, existiram momentos em que a CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco, foi obrigada a reduzir a vazão de suas hidrelétricas para apenas 500 m³ por segundo, como uma forma de evitar o colapso de suas barragens. No final de 2017, em função de uma grave seca, o nível do reservatório de Sobradinho atingiu o nível de 2,8% de sua capacidade, o menor da sua história, num colapso que ameaçava o abastecimento de várias cidades, a irrigação de lavouras e também a manutenção das operações de várias usinas hidrelétricas no médio rio São Francisco 

Um rio não é apenas um rasgo ou depressão no solo, através da qual as águas drenadas de toda uma região escorrem rumo ao oceano. Rios alimentam e sustentam comunidades inteiras de seres vivos – plantas, animais e pessoas; são fontes de trabalho, renda, transporte e de muitas histórias e lendas. Eles são, simplesmente, as veias que irrigam e mantém a vida em todos os recantos de sua bacia hidrográfica. O rio São Francisco, um dos mais importantes do Brasil, lamentavelmente apresenta volumes menores de água em sua calha a cada dia. 

E sem água, simplesmente não há rio, vida e, muito menos, a possibilidade de se gerar energia elétrica. 

One Comment

  1. […] Nos últimos dez anos, o Cerrado foi o bioma brasileiro que sofreu a maior perda de área nativa – 50 mil km², área maior do que o território do Estado do Rio de Janeiro. A região conhecida como Matopiba, que incorpora áreas dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é a maior fronteira agrícola atual de expansão da cultura da soja e apresenta as maiores perdas de vegetação e de espécies animais nativas do Cerrado. Toda essa expansão de campos agrícolas e de pastagens em áreas de Cerrado teve um alto custo ambiental, que se traduz na redução dos caudais das bacias hidrográficas com nascentes no bioma – o Rio São Francisco vem sendo uma das maiores vítimas dessa redução dos caudais.   […]

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