REPRESA DE TRÊS MARIAS: ONDE AS TRAGÉDIAS AMBIENTAIS CRIADAS PELA SOJA E PELOS ACIDENTES DA MINERAÇÃO SE ENCONTRAM

Rio Paraopeba

Nesses últimos dias, vem sendo grande a expectativa de milhares de famílias mineiras de Barão de Cocais e de cidades próximas quanto ao iminente rompimento de um talude rochoso da Mina Gongo Seco. O grande temor da população são as prováveis consequências desse desabamento – a onda de choque poderá desestabilizar uma barragem de rejeitos e liberar milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos minerais nas águas de quatro córregos da região, atingindo depois os rios Santa Bárbara e Piracicaba. Por uma terrível coincidência, o rio Piracicaba é um afluente do rio Doce, corpo d’água que foi, literalmente, destruído em 2015 pelo rompimento da Barragem de Fundão, na cidade de Mariana. 

Em um outro desastre ambiental bem recente, o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração na cidade de Brumadinho, também em Minas Gerais, liberou um grande volume de lama e rejeitos, calculado em cerca de 3 milhões de metros cúbicos, que atingiram primeiro o Ribeirão Ferro-Carvão e depois o rio Paraopeba. Já foram confirmadas mais de 240 mortes e 27 vítimas seguem desaparecidas. Na tragédia de Mariana, o número de vítimas fatais foi de 19. 

O rio Paraopeba (vide foto), impactado pelos rejeitos de mineração e lama da Mina do Córrego do Feijão, tem sua foz na Represa de Três Marias, colocando as águas do rio São Francisco como mais uma vítima desse desastre ambiental. O volume de rejeitos que está chegando até a represa, felizmente, ainda é pequeno – a barragem da Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, no baixo curso do rio Paraopeba, está retendo o grosso da poluição. 

E o que a soja tem a ver com tudo isso? 

O rio São Francisco tem suas nascentes na Serra da Canastra, uma região fincada dentro dos domínios do Bioma Cerrado. Ao longo do seu curso de mais de 2.800 km, o rio São Francisco recebe contribuições de 168 afluentes, a maioria com nascentes em áreas do Cerrado. No total, as águas da bacia hidrográfica do Rio São Francisco servem 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Após a conclusão de todas as obras do Sistema de Transposição, as águas do Rio São Francisco que já estão chegando ao Estado da Paraíba, chegarão também aos sofridos sertões do Ceará e do Rio Grande do Norte.Cerca de 15 milhões de pessoas vivem na área da bacia hidrográfica do rio São Francisco

Ocupando uma área equivalente a um quarto do território brasileiro, o Cerrado possui um clima com uma marcante estação de chuvas, além de solos altamente porosos e adequados para o armazenamento de grandes volumes de águas em seus aquíferos. A combinação de todas estas características resulta nas fecundas nascentes de águas de importantes rios que formam 8 grandes bacias hidrográficas brasileiras: Paraguai, Paraná, Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste, Atlântico Nordeste Ocidental e Amazônica. Alguns dos mais importantes aquíferos brasileiros, entre eles o Guarani, o Urucuia e Bambuí, estão localizados total ou parcialmente (no caso do Aquífero Guarani) dentro dos limites do Cerrado. 

Os solos do Cerrado, extremamente ácidos, sempre foram considerados pobres e inadequados para a prática de agricultura em larga escala. Durante vários séculos, a região abrigou pequenos roçados de subsistência e pastagens para reduzidos rebanhos. A partir da década de 1950, foram desenvolvidas várias técnicas de correção de solos e, já na década de 1970, foram criadas variedades de sementes de cultivares adaptadas para solos ácidos. Com grandes incentivos do Governo Federal, um grande número de agricultores, especialmente da região Sul, foi deslocado para regiões de Cerrado em todo o Brasil. O Cerrado foi transformado na nova fronteira agrícola do país. Vastas áreas do Bioma foram substituídas por gigantescas plantações de milho e, especialmente, de soja, um grão altamente valorizado no mercado internacional. 

O Cerrado era considerado plano e com farta disponibilidade de recursos hídricos para a irrigação. Com a mudança da capital brasileira para a nova cidade de Brasília em 1960, foram feitos grandes investimentos na construção de rodovias em direção ao Planalto Central e para toda a Região Centro-Oeste, o que favorecia tanto o escoamento da produção de grãos quanto o fluxo de imigrantes de outras regiões na direção da nova fronteira agrícola. Os campos agrícolas se expandiram rapidamente na direção de Mato Grosso, que acabou dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Rondônia e Acre, de um lado, e Norte de Goiás, que acabou se transformando no Estado de Tocantins, Oeste da Bahia e, mais recentemente, na direção do Sul do Estado do Piauí e do Maranhão. Regiões do Cerrado nos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, que já estavam ocupadas por cidades e plantações experimentaram saltos na produtividade. 

A vegetação nativa do Cerrado passou por um longo e intenso processo evolutivo, se adaptando ao clima e as condições de solo da região. Essa vegetação possui sistemas de raízes gigantes, próprios para captar água em grandes profundidades nos períodos de seca. São justamente essas raízes que permitem a infiltração da água das chuvas nos aquíferos profundos. Com a derrubada da vegetação nativa para a formação dos campos agricultáveis, essa permeabilidade do solo fica altamente prejudicada e a recarga dos aquíferos e lençóis subterrâneos de água diminuiu consideravelmente.  

Atualmente, os antigos domínios do Cerrado concentram 36% de todo o rebanho bovino – 30% do Cerrado foi transformado em pastagens para boiadas, e 63% da produção de grãos. No Cerrado, a soja representa 90% (15,6 milhões de hectares) da agricultura do bioma. Para se ter uma dimensão dos impactos, mais da metade (52%) da soja cultivada no Brasil nas últimas safras estava concentrada em áreas do Cerrado.  

Nos últimos dez anos, o Cerrado foi o bioma brasileiro que sofreu a maior perda de área nativa – 50 mil km², área maior do que o território do Estado do Rio de Janeiro. A região conhecida como Matopiba, que incorpora áreas dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é a maior fronteira agrícola atual de expansão da cultura da soja e apresenta as maiores perdas de vegetação e de espécies animais nativas do Cerrado. Toda essa expansão de campos agrícolas e de pastagens em áreas de Cerrado teve um alto custo ambiental, que se traduz na redução dos caudais das bacias hidrográficas com nascentes no bioma – o Rio São Francisco vem sendo uma das maiores vítimas dessa redução dos caudais.  

A Represa de Três Marias pode ser usada como uma espécie de medidor dessa redução dos caudais do rio São Francisco. Na forte seca que atingiu grandes áreas do Brasil Central há cerca de sete anos atrás, o volume da Represa de Três Marias chegou a cair ao nível de 2,57%. Lembrando que essa represa foi idealizada originalmente para regular os caudais do rio São Francisco e, de quebra, gerar energia elétrica, com esse baixíssimo volume de águas ela perdeu completamente a sua utilidade. Mesmo com fim da seca e com a volta das chuvas, a represa está se recuperando lentamente e no início desse ano atingiu 70% do seu nível, o que comprova como a situação do rio está crítica. 

A chegada dos rejeitos de mineração e da lama do desastre de Brumadinho na Represa de Três Marias agrega novos problemas a já sofrida calha do rio São Francisco e comprova que a estupidez humana não tem limites. 

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