JUQUITIBA E BARÃO DE COCAIS: DUAS PEQUENAS CIDADES E OS DRAMAS CRIADOS PELOS RISCOS DE ROMPIMENTO DE BARRAGENS

Barão de Cocais

Nas últimas semanas temos falando sobre as relações, nem sempre cordiais, entre os recursos hídricos e a geração de energia elétrica. Vamos fazer uma pequena pausa nessa temática para falar de um problema que tem tirado o sono de muita gente nesses últimos dias – o risco de rompimento de barragens em duas pequenas cidades do interior. 

Juquitiba é uma cidade com pouco mais de 30 mil habitantes, localizada a cerca de 70 km do centro da cidade de São Paulo. O município fica localizado nas bordas da Serra do Mar e é coberto por Mata Atlântica, oferendo ótimas atrações para o turismo de lazer e para o ecoturismo, além de abrigar inúmeras chácaras de fim de semana de famílias paulistanas. Quando adolescente, eu era membro de um clube de escoteiros e acampei diversas vezes em sítios em Juquitiba. O nome do município, aliás, é um topônimo de origem tupi guarani, que significa “terra de muitas águas”, numa alusão ao grande número de nascentes e rios da região. 

Nesse último fim de semana, o risco de rompimento da barragem de uma represa de um “pesque e pague” no município, deixou muita gente apavorada. Localizada em um dos muitos vales de Juquitiba, a barragem sob risco era a mais alta de uma série de quatro represas – caso essa barragem se rompesse, o fluxo de água poderia provocar o rompimento das demais barragens em “cascata”. A situação poderia se tornar catastrófica pois, sabe-se lá porquê, uma escola pública foi construída as margens da represa mais baixa e seria atingida em cheio pelas águas. Para completar o quadro, a eventual onda de entulhos que seria gerada pelo acidente chegaria até as pistas da Rodovia Régis Bittencourt, que liga a cidade de São Paulo a Curitiba, no Paraná, e é uma das estradas mais movimentadas do país. 

Por razões óbvias de segurança, as aulas da escola foram suspensas. Técnicos do DAEE – Departamento de Águas e Energia Elétrica, uma autarquia do Governo Estadual responsável pelo gerenciamento e fiscalização de reservatórios de água, passaram a fazer vistorias na barragem e perceberam, rapidamente, que a altura do barramento estava bem acima do que havia sido autorizado. A causa do problema só foi identificada dois dias depois – por falta de manutenção, a tubulação do “ladrão” estava entupida e a água excedente do reservatório estava escorrendo por uma fresta na barragem, fresta essa que começou a crescer e abriu uma grande cratera no aterro. Felizmente, uma tragédia maior pode ser evitada, pelo menos por enquanto. 

Já em Barão de Cocais, uma cidade com uma população de pouco mais de 32 mil habitantes e localizada a cerca de 90 km de Belo Horizonte, o rompimento iminente de uma barragem de rejeitos da Mina de Gongo Seco está deixando muita gente a “beira de um ataque de nervos”. Um grande bloco rochoso do talude da antiga área de mineração está se movimentando entre 6 e 10 centímetros por dia, e corre o risco de cair a qualquer momento na área da cava da mina, que tem aproximadamente 100 metros de profundidade. A onda de choque criada pelo desabamento poderá provocar o rompimento de uma barragem de rejeitos localizada a cerca de 1 km, criando assim uma onda de lama e de minerais que seguirá na direção da cidade. Desde o dia 22 de março, toda a cidade está em estado de alerta para o risco de rompimento da barragem. 

De acordo com informações da ANM – Agência Nacional de Mineração, o monitoramento desse talude vinha indicando a ocorrência de um deslocamento de cerca de 10 cm por ano desde 2012. A partir do último mês de abril, a velocidade da movimentação do talude aumentou substancialmente e os riscos de rompimento da barragem passaram a ser significativos. De acordo com laudos técnicos em posse do Ministério Público de Minas Gerais, o rompimento e a queda do talude rochoso deverão acontecer até o próximo sábado, dia 25 de maio. As chances da barragem de rejeitos se romper são calculadas entre 10 e 15%

As projeções indicam que, em caso de rompimento da barragem, a onda de lama e rejeitos deverá atingir o centro de Barão de Cocais em pouco mais de uma hora, atingindo diretamente cerca de 9 mil moradores. Diversos exercícios simulados para evacuação da população já foram feitos, placas de sinalização indicando as rotas de fuga já foram instaladas (vide foto) e até pinturas já foram feitas no meio fio e nas calçadas, indicando os locais que poderão ser atingidos pelos detritos. Cerca de 400 moradores de áreas críticas já foram remanejadas para acomodações em hotéis nos pontos mais altos de Barão de Cocais. A iminência da tragédia e a lembrança dos acidentes com as barragens de rejeitos em Mariana e em Brumadinho, tem tirado o sono de muita gente e não há preparativos ou treinamentos que façam as pessoas relaxarem. 

Segundo informações dos serviços médicos da cidade, a ansiedade e o medo criado pela eventual tragédia estão afetando a saúde da população – houve um aumento substancial nas consultas com psicólogos e psiquiatras. Mas os problemas não param aqui – de acordo com a Defesa Civil do Estado de Minas Gerais, os acessos à única unidade de saúde da cidade, o Hospital Municipal Waldemar das Dores, poderão ficar bloqueados pela lama e os acesso só poderá ser feito de helicóptero.

A proprietária da Mina de Gongo Seco, a Vale do Rio Doce, que coincidentemente também é a responsável pelas barragens de Mariana e de Brumadinho, afirma estar tomando medidas para a contenção da onda de lama e de rejeitos minerais no caso do rompimento da barragem. A empresa está construindo uma barreira de concreto a 6 km da barragem. Telas metálicas e blocos de granito também estão sendo instalados, com o objetivo de reduzir a velocidade da eventual onda de rejeitos.  Diferente das outras tragédias, que segundo a empresa ocorreram de forma “inesperada e acidental”, a de Barão de Cocais tem, praticamente, data e hora para acontecer.

Esperemos todos que, a exemplo da barragem da represa de Juquitiba, a tragédia anunciada de Barão de Cocais não aconteça e que a vida possa voltar ao normal. Torçamos também para que as autoridades “competentes” desse país finalmente comecem a fiscalizar e a punir exemplarmente as empresas de mineração pelos feitos e mal-feitos em suas atividades.

Não dá para as coisas ontinuarem do jeito que estão.

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