OS RISCOS PARA A NAVEGAÇÃO NO RIO SÃO FRANCISCO

Rio São Francisco em Piranhas

Francisco Adolfo de Varnhagen, o visconde de Porto Seguro (1816-1878) foi um militar, diplomata e, especialmente, um importante historiador brasileiro do século XIX. Em seu primeiro trabalho de história, Notícias do Brasil, escrito entre 1835 e 1838, Varnhagen nos informa que as margens do Rio São Francisco, nos primeiros tempos da colonização, eram habitadas por numerosas tribos indígenas, com destaque para os caetés, tupinambás, tapuias, amorpiras e ubirajaras – essas tribos, em sua língua comum, chamavam o Rio de “Pará”, mesma palavra usada para chamar o mar. Isso significa que, para esses índios, o Rio São Francisco era tão grandioso quanto o mar. Pinturas rupestres milenares, encontradas em diversos sítios arqueológicos da região, mostram representações de índios navegando nas águas do “Pará” em suas pirogas, o que demonstra o quão antiga é a ligação entre esses homens e o Velho Chico na arte da navegação.

Quando se realiza uma pesquisa sobre o Rio São Francisco, é comum se encontrar textos onde se lê a divisão tradicional da bacia geográfica em quatro partes: alto, médio, submédio e baixo Rio São Francisco. Você encontrará também informações que informam que existem dois trechos navegáveis: o primeiro, no médio São Francisco, entre as cidades de Pirapora, no Norte do Estado de Minas Gerais, e Juazeiro/Petrolina, na divisa dos Estados da Bahia e de Pernambuco, com 1.371 km de extensão; o segundo, entre a cidade de Piranhas, Estado de Alagoas, e a foz no Oceano Atlântico, com aproximadamente 208 km de extensão. As clássicas “gaiolas”, embarcações movidas a vapor, usadas por décadas no transporte de passageiros no médio São Francisco, se transfomaram em um dos ícones do Rio – o último destes vapores em operação, o Bernardo Guimarães, tem passado longos períodos ancorado em portos fluviais aguardando condições favoráveis para a navegação. É lamentável falar sobre isso, mas os bancos de areia, a baixa profundidade das águas e os trechos rochosos com pedras aparentes estão dificultando ou até mesmo inviabilizando a navegação em grande parte destes dois trechos, o que inclui transporte de passageiros, de cargas e também as balsas que realizam a travessia de veículos e passageiros em rodovias em diversos pontos do Rio São Francisco. Deixem-me apresentar alguns números para demonstrar o tamanho do problema;

Um estudo publicado no Journal of Climate, da Sociedade Meteorológica Americana, feito por pesquisadores do National Center for Atmospheric Research (NCAR), com sede no Estado americano do Colorado, concluiu que o Rio São Francisco foi o rio Latino Americano que mais perdeu volume de água: 35% de redução em meio século. Os autores do estudo analisaram os registros históricos das vazões dos 925 maiores rios do nosso planeta, entre os anos de 1948 e 2004, e concluíram que os rios das regiões mais populosas estão reduzindo as suas vazões. O estudo mostrou variações no fluxo de água de outros grandes rios brasileiros: o Rios Amazonas e Tocantins perderam, respectivamente, 3,1% e 1,2% do seu fluxo de água; já o Rio Paraná apresentou um aumento de 60% nos seus caudais. O estudo conclui que essas variações se devem principalmente a mudanças nos volumes de chuvas nas diferentes regiões das bacias hidrográficas – ações antrópicas como destruição de matas nativas, mineração e atividades agropecuários também dão suas importantes contribuições. É importante informar que este estudo foi publicado no ano de 2009 e, de lá para cá, a região do Semiárido nordestino vem passando por um período de seca intensa, o que prejudicou ainda mais o volume de água do Rio São Francisco.

No baixo Rio São Francisco, entre outros problemas que já comentamos, a redução no volume dos caudais tem provocado um aumento na área das ilhas – 14,23% de aumento nos últimos 10 anos, e alterações na geometria dos canais, o que tem criado todo o tipo de problemas para a navegação. A ligação de balsa entre Penedo, no Estado de Alagoas, e Neópolis em Sergipe é um exemplo: os comandantes das balsas são obrigados a realizar inúmeros zigue-zagues durante as travessias para fugir dos bancos de areia e trechos com águas de baixíssima profundidade. Na cidade de Piranhas em Alagoas, localizada próxima da barragem de Xingó, a largura do Rio São Francisco já chegou a medir 300 metros – hoje, possui alguns trechos com pouco mais de 50 metros de largura e o antigo canal navegável se apresenta repleto de grandes pedras, o que transformou a navegação num grande risco.

Em resumo – o Rio São Francisco não está nem para os peixes nem para os barcos, para desespero dos homens…

3 Comments

  1. […] Considerando que a légua portuguesa na época correspondia a aproximadamente 5 km (dependendo da fonte consultada, esse valor vai variar), essa antiga navegação subia pelas águas do rio São Francisco até 100 km da foz. As cidades de Penedo, em Alagoas, e Neópolis, citadas na postagem anterior, foram importantes portos fluviais neste período colonial. Até algumas décadas atrás, embarcações menores, que tem pouco calado, conseguiam atingir o munícipio de Piranhas, no Estado de Alagoas, nas proximidades da barragem da Usina Hidrelétrica de Xingó e a cerca de 208 km da foz do rio. Com a contínua redução dos caudais do rio, assunto que trataremos em outra postagem, e a consequente redução da profundidade, a navegação por este trecho do rio São Francisco se tornou bastante perigosa.  […]

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