UMA PODEROSA ONDA DE CALOR ESTÁ VINDO DA ARGENTINA EM DIREÇÃO AO SUL DO BRASIL, OU “PATAGÔNIA 40 GRAUS” 

Partes das Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste estão enfrentando um volume de chuvas bem acima da média nessas últimas semanas. Essas fortes chuvas castigaram inicialmente o Sul da Bahia e o Norte de Minas Gerais já no início do mês de dezembro, deixando um enorme rastro de destruição, milhares de desabrigados e, desgraçadamente, muitas vítimas fatais.  

Nos últimos dias, as pancadas de chuva se espalharam por outras regiões de Minas Gerais, além de atingir partes dos Estados de Tocantins, Piauí, Rio de Janeiro e a faixa Leste de São Paulo, entre muitas outras regiões. Minas Gerais está sendo o mais fortemente atingido – nas últimas 24 horas cerca de 10 mil pessoas foram desalojadas de suas casas pelas enchentes e 5 pessoas morreram. 

Um sintoma do grande volume de águas nos rios do Estado veio com a notícia divulgada ontem, informando que a CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, iria abrir as comportas da represa de Três Marias, na região central de Minas Gerais, com o objetivo de reduzir o volume acumulado de água, que está crescendo com enorme velocidade.  

Essa ação poderia provocar maiores inundações no médio e baixo rio São Francisco, que já está sofrendo com o alto nível das águas. A CEMIG, muito provavelmente devido a intensas pressões de autoridades dos vários níveis de Governos, voltou atrás e soltou um comunicado informando que estava adiando temporariamente essa ação. 

Enquanto as atenções de todos no país estão voltadas para a questão das chuvas e de todos os dramas associados, um outro evento climático potencialmente problemático já está causando enormes problemas na Argentina e dentro de poucas horas atingirá também o Uruguai, o Paraguai e a Região Sul do Brasil. Falo aqui de uma fortíssima massa de ar quente e seco que poderá criar temperaturas próximas dos 50° C em várias regiões. 

Na última segunda-feira, dia 10 de janeiro, a cidade de San Antonio Oeste, na Patagônia argentina registrou a temperatura recorde de 42,8º C, uma amostra do tamanho dos estragos que ainda virão. Quem prestou atenção ao título da postagem, deve ter notado que fiz um trocadilho com a música de Fernanda Abreu – “Rio 40 Graus”, e que é uma alusão a um filme brasileiro homônimo de 1955. Tempos atrás usei esse mesmo trocadilho para falar de temperaturas extremamente altas na Sibéria russa

Desde terça-feira, dia 11 de janeiro, a cidade de Buenos Aires vem enfrentando temperaturas próximas aos 40° C, as maiores já registradas na cidade desde 1995. De acordo com informações do SMN – Serviço Meteorológico Nacional, a cidade enfrentou um dos quatro dias mais quentes desde 1906, ano em que esses registros começaram a ser feitos. 

Essa excepcional onda de calor provocou um grande aumento no consumo de energia elétrica devido ao uso intensivo de ventiladores e de equipamentos de ar condicionado, o que acabou provocando um blackout ou apagão em grande parte da cidade. Cerca de 11 bairros e 700 mil porteños ficaram às escuras por várias horas. 

De acordo com as projeções dos meteorologistas, a tendência é que essa onda de calor cresça nos próximos dias. Segundo a NOAA – Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, as regiões mais quentes da Argentina poderão registrar temperaturas entre 45° e 47° C. Felizmente, a NOAA é famosa por exagerar em suas projeções. 

No Uruguai, país que já está sentindo os efeitos dessa massa de ar quente e seco, as temperaturas devem ficar entre 41º e 43º C. Aqui as maiores preocupações são as queimadas, que já consumiram cerca de 37 mil hectares nas regiões de Paysandú e Rio Negro nos últimos meses e que poderão se alastrar por outras regiões do país. 

A onda de calor também atingirá o Paraguai e o Sul do Brasil, onde o Rio Grande do Sul deverá ser o Estado mais fortemente atingido. De acordo com projeções do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, a região Oeste do Estado deverá apresentar temperaturas máximas entre 10º e 15º C mais altas que a média para essa época do ano. O INMET já emitiu um aviso de perigo de calor extremo para 216 municípios gaúchos. 

Os modelos matemáticos criados pelo INMET indicam que a cidade de Uruguaiana, por exemplo, poderá enfrentar temperaturas entre 41º e 42º C nos próximos dias. Na Serra Gaúcha, uma das regiões mais frias do Estado, as temperaturas poderão atingir a marca de 37º C em Caxias do Sul e próximas de 40º C em Bento Gonçalves, a mesma temperatura projetada para Porto Alegre. 

Essa forte onda de calor poderá agravar, e muito, os problemas de estiagem que toda essa grande região já vem enfrentando há vários meses. No Sul da Argentina, citando um exemplo, o volume de chuvas acumuladas durante todo o ano de 2021 não atingiu a marca dos 200 mm. Outra região que está sofrendo muito com a seca é Santa Fé, no Centro do país. Rosário, a capital dessa Província, concentra 80% das operações portuárias da Argentina, operações estão sendo muito prejudicadas pelos baixos níveis do rio Paraná. 

No Rio Grande do Sul a prolongada estiagem já colocou 159 municípios em situação de emergência desde novembro. O Estado é um grande e tradicional produtor de grãos, frutas, leite e de produtos hortigranjeiros. Os produtores locais já estão sofrendo fortes prejuízos. 

A presença dessa grande massa de ar quente e seco na Região Sul do Brasil e em países vizinhos deverá criar um bloqueio de alta pressão atmosférica, impedindo que as fortes chuvas que estão caindo em partes das Regiões Sudeste, Centro-oeste e Nordeste se desloquem na direção da Região Sul. Ou seja, além de todos os problemas de altas temperaturas, essa massa de ar quente ainda poderá estender a duração das fortes e problemáticas chuvas que estão caindo em Minas Gerais e outras regiões. 

A provável responsável por todos esses problemas climáticos aqui em nosso Continente é La Niña, um fenômeno meteorológico que provoca uma redução da temperatura entre 2° e 3° C nas águas superficiais de uma extensa faixa do Oceano Pacífico. 

Nos anos de ocorrência de La Niña (a menina em espanhol) costuma se observar um aumento das chuvas na região Nordeste e temperaturas abaixo do normal na região Sudeste entre os meses de dezembro e fevereiro. O fenômeno também provoca um aumento do frio na costa Oeste dos Estados Unidos e no Japão, além de aumento das chuvas na costa Oeste da Ásia. Essa forte onda de calor no Sul da América do Sul é um evento inédito e inesperado.

Isso é o que chamamos de menina traquina aqui no meu bairro…  

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