O USO DE ÁGUA CONTAMINADA COM ESGOTOS NA IRRIGAÇÃO DE VERDURAS E VEGETAIS

Irrigação de hortas

Nos meus tempos de infância, meu bairro ficava exatamente no limite entre a área urbana e a zona rural da cidade de São Paulo – minha rua, inclusive, era chamada na época de rua da Divisa. Perto de casa existiam diversas chácaras que produziam verduras e legumes, que eram vendidos diretamente para os moradores e em algumas feiras da região. Diversos córregos do bairro, àquela altura já altamente contaminados pelos esgotos das casas, tinham suas águas utilizadas para a irrigação dessas plantações. O tempo passou, a cidade cresceu incontrolavelmente e já não existem mais hortelões aqui nas redondezas – porém, no chamado Cinturão Verde da Região Metropolitana de São Paulo, existem milhares de pequenos produtores rurais, muitos deles usando água de origem suspeita na irrigação de suas plantações. Isso ocorre em todo o Brasil e em grande parte do mundo.

Um estudo publicado em julho de 2017 pela respeitada revista Environmental Research Letters confirmou as minhas impressões: em todo o mundo, uma área equivalente à da Alemanha (aproximadamente 30 milhões de hectares) é irrigada com água contaminada pelos esgotos das cidades. De acordo com modelos matemáticos elaborados pelos autores desse estudo, cerca de 885 milhões de pessoas consomem verduras e vegetais produzidos sob essas condições, ficando expostas a uma infinidade de patógenos, como parasitas e bactérias, com significativos riscos à saúde.

A Environmental Research Letters é uma revista científica trimestral em língua inglesa, publicada exclusivamente no formato eletrônico e com acesso aberto, especializada na divulgação de pesquisas em todos os aspectos da ciência ambiental. A revista é publicada desde 2006, tendo como editor-chefe Daniel Kammen, da conceituada Universidade da Califórnia, em Berkeley. Os dados dessa pesquisa vão de encontro a estudos da OMS – Organização Mundial da Saúde, que demonstram que mais de 10% da população mundial, ou 700 milhões de pessoas, consome regularmente alimentos produzidos a partir da irrigação com águas residuais. Com o crescimento da urbanização em todo o mundo, a tendência é de um aumento cada vez maior do uso dessas águas nas lavouras.

Cinturões verdes são uma espécie de subproduto da urbanização – desde a antiguidade, se observa que sempre que uma aglomeração humana era organizada, surgia um pequeno cinturão verde ou área agrícola nas vizinhanças, com o papel de fornecer frutas e vegetais frescos para a população, além de aves, ovos, leite e outros produtos de origem animal. Outro produto dessas aglomerações é o esgoto, tradicionalmente lançado nas águas para o transporte e dispersão. Logo, a combinação de águas poluídas e irrigação é uma prática muito antiga, que só fez aumentar ao longo do tempo.

Não custa lembrar que, diariamente, 5,5 mil toneladas de esgotos não tratados são lançadas em rios e córregos de todo o Brasil – quase metade dos esgotos gerados em nossas cidades não recebe qualquer tipo de tratamento. A situação não é muito melhor em países como China, Índia, Paquistão, México, Irã, Argentina, África do Sul, entre outros países mundo afora, que despejam bilhões de litros de esgotos em suas águas todos os dias. E são, justamente, as águas usadas pelos pequenos agricultores na irrigação de suas hortas e culturas.

O problema é mais complexo do que parece ser: essas mesmas águas poluídas são usadas para o abastecimento de populações e se os sistemas de tratamento não forem eficientes, a água servida à população poderá chegar já contaminada com todo o tipo de patógenos. Ou seja, a população poderá sofrer contaminações tanto através da água que consome, quanto pelas verduras e legumes que come.

Para que você não ache que eu estou exagerando em minhas afirmações, a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, vive hoje um surto de toxoplasmose, uma doença que é provocada por um protozoário. Até o dia 21 de junho de 2018, foram confirmados 569 casos da doença na cidade, sendo que 50 eram mulheres gestantes e 7 bebês que contraíram a doença ainda no útero das mães. E a principal suspeita pela transmissão da doença é a água fornecida para a população.

Além de todos esses problemas, ainda é preciso lembrar dos milhões de trabalhadores rurais, que ficam em contato diário com essas águas contaminadas e expostos a todos os tipos de patógenos e outros poluentes presentes nos esgotos de uma cidade, com destaque para os metais pesados como mercúrio, zinco, cádmio e níquel. 

Um recado final: na dúvida sobre a origem das verduras e legumes que você consome, use sempre uma solução com hipoclorito de sódio para a higienização antes do consumo desses alimentos.

 

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