A POLÊMICA DERRUBADA DE UMA FLORESTA PARA EXPLORAÇÃO DE CARVÃO NA ALEMANHA 

Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço

Esse é um sábio conselho que todos nós ouvimos desde a infância. Entretanto, parece que as autoridades da Alemanha, famosas por acusar o Brasil de desmatar a Amazônia, não conhecem o dito popular. 

Está havendo uma enorme repercussão nas mídias sociais e nos canais de informação a notícia da derrubada de uma floresta de carvalhos com idade de aproximadamente 12 mil anos e demolição de uma série de vilarejos no seu entorno. Essa área de mata nativa com cerca de 5,5 mil hectares ficava em Lützerath, no Estado da Renânia do Norte-Vestfália, o coração industrial da Alemanha. 

O pedido para a supressão da vegetação foi feito pela mineradora Rhenish-Westphalian Power Plant (RWE) AG, segunda maior empresa do setor de energia na Alemanha e uma das maiores concessionárias da Europa. A empresa opera uma mina de carvão nos arredores e a área desmatada permitirá a expansão das suas atividades. A mina conhecida como Garzweiler produz a lignite ou o carvão marrom, um combustível fóssil altamente poluente. 

De acordo com as alegações da RWE, existem diversas outras minas de carvão em operação na região que estão com suas reservas próximas do esgotamento. A nova mina, que está em estágio inicial de trabalhos, estará apta a suprir a produção de carvão já a partir de 2024. Os veios de carvão ficam a cerca de 400 metros de profundidade, por isso a necessidade da supressão da vegetação. 

A Alemanha, conforme já tratamos em postagens anteriores, é um dos países da Europa Ocidental que mais dependem do gás natural da Rússia. As políticas para uma economia cada vez mais verde adotadas nas últimas décadas levaram a uma forte redução do uso do carvão mineral, tanto em indústrias quanto em usinas de geração termelétricas, e a estímulos ao uso de fontes alternativas como o gás, além de energia eólica e solar. 

Especialistas afirmam que 55% do gás natural usado no país é importado, sendo que 50% vem diretamente da Rússia. Essa dependência começou ainda em meados da década de 1950, quando a então Alemanha Oriental passou a receber gás da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Após a recente invasão da Ucrânia por tropas russas, os países europeus passaram a impor boicotes ao gás e ao petróleo da Rússia. 

A Alemanha foi pega no contrapé e agora corre contra o tempo buscando fontes alternativas de energia – as antigas minas de carvão do país acabaram sendo “redescobertas”. Uma outra fonte energética do país que está em franco processo de desativação – a geração de energia elétrica em usinas nucleares, também voltou a ser reconsiderada. 

A grande ironia desse processo é que o Governo da Alemanha vem sendo um dos maiores críticos da “destruição” da Floresta Amazônica por parte dos brasileiros. É sempre importante lembrar que a maior floresta equatorial do mundo ocupa áreas em outros oito países (Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guina Francesa), onde também existem enormes agressões ambientais, porém, nunca são lembrados por governos estrangeiros, artistas e celebridades. 

Na mesma época em que essa floresta se formou na Alemanha há cerca de 12 mil anos, a Amazônia passava por uma série de mudanças climáticas. Até então, a região onde fica a Floresta Amazônica tinha grande parte dos seus domínios ocupados por campos como o atual Cerrado Brasileiro, quando então a floresta começou a avançar até chegar na atual conformação vegetal. 

Essa verdadeira hipocrisia dos governantes alemães não é nova. Citando um exemplo: em 2020, o Tribunal Administrativo Superior de Berlim-Brandenburg decidiu a favor da Tesla, a fabricante de automóveis elétricos do “bom moço” Elon Musk, a fim de continuar derrubando as árvores de uma floresta nos arredores para a construção de uma mega fábrica da empresa. 

A área em questão tem 92 hectares e fica dentro dos limites da área de proteção ambiental Grüne Liga Brandenburg. Segundo as alegações dos advogados da Tesla, tese que foi aceita pela Justiça alemã, a área em questão é usada para o plantio de árvores para uso na fabricação de papel e não uma floresta natural. 

A Tesla está instalando no local uma grande fábrica de automóveis elétricos e de baterias, que vem se juntar a outras duas unidades nos Estados Unidos e uma na China. Essa unidade produzirá inicialmente 150 mil veículos por ano, podendo atingir a cifra de 500 mil em pouco tempo. Serão gerados até 12 mil postos de trabalho, algo que interessa muito ao Governo da Alemanha

Essa nova decisão da Justiça alemã tem poucos dias e, até o momento, as vozes de grandes defensores do meio ambiente como Emmanuel Macron, presidente recém reeleito da França, de Greta Thunberg e de Leonardo di Caprio, entre muitos outros, não ressoaram em defesa das florestas milenares da Alemanha. 

Falando hipoteticamente, imaginem que essa fábrica da Tesla viesse a ser instalada no meio da Floresta Amazônica no Pará, a meio caminho das minas de ferro de Carajás e da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Fico imaginando o tamanho dos pulos de Greta e de Leonardo, além dos discursos incendiários de Macron. Porém, como estamos falando de empregos na super desenvolvida Alemanha e de carros elétricos que vão proteger o meio ambiente na Europa, aí tudo bem… 

Em um mundo que já está vivendo mudanças climáticas importantes, é fundamental que todos se preocupem com uma defesa real e apaixonada dos poucos sistemas naturais ainda preservados, onde um dos grandes destaques é a Floresta Amazônica. 

Entretanto, conforme sempre destacamos em nossas postagens aqui no blog, é fundamental que essa defesa seja honesta e isenta de “lacrações ideológicas”. Esse exemplo recente na Alemanha mostra o tamanho da hipocrisia dos “defensores da Amazônia” – se é para gerar empregos e desenvolvimento econômico para os locais, tudo bem derrubar uma floresta milenar. 

Agora, se os beneficiários fossem populações de pobres miseráveis na nossa Região Norte, onde vivem mais de 22 milhões de brasileiros, aí não pode. 

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