O “PÃO NOSSO DE CADA DIA”, OU FALANDO DA PRODUÇÃO DE TRIGO NO BRASIL 

O pão é um dos alimentos mais característicos de nossa espécie. Existem evidencias arqueológicas da produção desse alimento pelo Homo sapiens há cerca de 30 mil anos. Nossos antepassados moíam raízes de plantas até obter um extrato de amido que era assado sobre uma pedra plana. Uma espécie de padaria com cerca de 14,5 mil anos foi encontrada na Jordânia e há 10 mil anos usamos grãos de cereais para produzir pão. Qualquer povo de respeito tem sua própria receita e sua técnica para a produção de pão. 

Em grande parte do Brasil o chamado “pão francês” (vide foto), é quase uma unanimidade. Apesar do nome, esse tipo de pão vem de uma receita 100% carioca. Antes da vinda da Família Real Portuguesa, a farinha de trigo consumida aqui no Brasil era escura e de péssima qualidade. Após a chegada da nobreza ao Rio de Janeiro, passou a ser utilizada a farinha de trigo francesa, de melhor qualidade e branca.  

As padarias da Corte começaram a fazer pães macios e crocantes com essa farinha e a população batizou a iguaria de “pão francês”. Apesar da receita ser praticamente a mesma em todo o país, o nome do pão muda conforme a região. No Maranhão é chamado de pão massa grossa; no Paraná é pão careca; na Paraíba é pão aguado e no Ceará pão carioquinha. Já no Rio Grande do Sul e na Bahia é mais conhecido como cacetinho. 

Comecei fazendo esse brevíssimo histórico por que o conflito entre a Rússia e a Ucrânia é uma ameaça ao “pão nosso de cada dia” e outros alimentos feitos à base de trigo. Os dois países respondem juntos por cerca de 30% da produção e exportação do mundo. O conflito armado já está prejudicando a produção do trigo na Ucrânia e a Rússia está sofrendo uma enormidade de bloqueios comerciais aos seus produtos. O preço da commodity já subiu e há riscos de desabastecimento. 

Felizmente, nós brasileiros temos uma EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, para chamar de nossa. Em nossa última postagem falamos das pesquisas da empresa para a produção de fertilizantes organominerais à base de biocarvão, produtos que poderão substituir para dos insumos que hoje precisam ser importados.

Outro marco histórico da EMBRAPA para o Brasil foi o desenvolvimento de variedades de soja especialmente adaptadas para as condições e clima do Cerrado Brasileiro. De origem chinesa, a soja era melhor adaptada para regiões de clima temperado e a solos de boa qualidade. Os pesquisadores brasileiros conseguiram adaptar o grão ao clima quente e aos solos ácidos e pobres do nosso Cerrado. Essa conquista começou no final da década de 1970 e o Brasil é hoje um dos maiores produtores de soja do mundo.

Desde 2012, pesquisadores da EMBRAPA vem trabalhando na tropicalização do trigo, cultura que se adaptou muito bem ao clima subtropical do Sul do Brasil. Cerca de 90% da produção brasileira de trigo, estimada em 7,7 milhões de toneladas, está concentrada em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. O consumo brasileiro é de 12,7 milhões de toneladas, o que obrigada a importação de mais de 5 milhões de toneladas a cada ano. 

Os esforços dos pesquisadores levaram à criação das variedades de trigo BRS 264, BRS 394 e BRS 404, todas adaptadas para o cultivo no Cerrado. Plantios experimentais dessas variedades começaram a ser feitos em Goiás, no Distrito Federal e em Minas Gerais, onde se obteve uma produtividade acima da média brasileira. Em 2021, um produtor de Cristalina, em Goiás, obteve uma produtividade de 9,6 toneladas por hectare, mais de três vezes a média obtida no Sul do Brasil. 

No final de 2020, a EMBRAPA conseguiu outro feito impressionante – em parceria com a iniciativa privada foi realizada a primeira colheita de trigo no quente e seco Ceará. A produtividade ficou em 5,5 toneladas por hectare, menos que a obtida na região do Cerrado, porém, mais alta do que a dos Estados do Sul do país. Experimentos também estão sendo feitos no Piauí e no Maranhão. 

A mais nova frente de pesquisas são os Campos Amazônicos de Roraima, que são muito parecidos com os do Cerrado. O plantio experimental foi feito no final de 2021 e os resultados da primeira colheita foram promissores. As variedades utilizadas foram as mesmas desenvolvidas para o Cerrado. 

A produtividade obtida mais uma vez foi superior à do Sul do Brasil, com um período de desenvolvimento das plantas na faixa de 75 dias, enquanto na Região Sul esse período pode chegar aos 180 dias. As perspectivas para a cultura nessa região da Amazônia são extremamente promissoras. 

Segundo os pesquisadores da EMBRAPA, essas novas variedades vão garantir que o Brasil saia da condição de importador de trigo para a situação de grande exportador. Em tempos de riscos ao abastecimento mundial, essa é uma notícia animadora. 

Um outro lado extremamente positivo do trabalho da EMBRAPA é a possibilidade de estender a produção de trigo a outros países amazônicos como a Venezuela e a Guiana. Nesses países existem biomas muito parecidos com os Campos Amazônicos de Roraima e onde predomina o mesmo clima quente. 

O Bioma Amazônico não é formado apenas por grandes árvores em uma mata densa como muita gente imagina. Ele é formado por uma verdadeira colcha de retalhos de diferentes sistemas florestais, onde coexistem florestas densas, várzeas e florestas alagáveis, campos, florestas de altitude, restingas, manguezais, entre muitos outros. Cerca de 14% do Bioma Amazônico é formada por áreas de vegetação aberta como cerrados e campos naturais

Perto de 20% do território de Roraima é coberto por campos naturais, ou seja, é possível transformar o Estado em um grande produtor de trigo sem que para isso seja necessário derrubar ou queimar as árvores da Floresta Amazônica. Lembro que 46% do território de Roraima é Área Indígena e, de acordo com a legislação atual, essas terras não podem ser usadas para culturas agrícolas comerciais.  

Também é importante citar que existe no Brasil cerca de 90 milhões de hectares com pastagens degradadas e áreas que já foram desmatadas e que não estão sendo utilizadas para produção agrícola e/ou pecuária. Essas áreas estão localizadas majoritariamente nas Regiões Nordeste e Sudeste e poderiam ser usadas para a produção agropecuária – em especial para a produção de trigo. 

Isso mostra quanto espaço ainda existe em nosso país para o crescimento da produção agrícola. E com os pesquisadores da EMBRAPA trabalhando no desenvolvimento de novas variedades de cultivares, poderemos produzir cada vez mais alimentos sem a necessidade de derrubar florestas.  

Nada mal para um país que ganhou fama de “queimador de florestas” pelo mundo afora…

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