A PRESENÇA DE MICROCRUSTÁCEOS NA ÁGUA SERVIDA À POPULAÇÃO DE PONTA GROSSA NO PARANÁ 

Imagine a seguinte situação: a água que é fornecida pela empresa de saneamento básico de sua cidade chega até as suas torneiras com centenas de pequenos camarões brancos com pouco mais de 1 mm de comprimento. Você reclama da qualidade da água e recebe a seguinte resposta da concessionária: pode beber essa água tranquilamente pois ela é potável! 

Por mais absurdo que isso possa lhe parecer é exatamente o que está acontecendo hoje na cidade de Ponta Grossa. Vamos entender a situação: 

Ponta Grossa fica a cerca de 100 km de Curitiba, a Capital do Paraná, e conta com uma população de mais de 350 mil habitantes. Observem que se trata de uma cidade média, a quarta em tamanho de população no Estado e a nona da Região Sul do país. 

Nos últimos dias muitos moradores passaram a observar pequenos pontos brancos em suspensão na água de suas casas. Um exame mais minucioso mostrou que eram pequenos camarões. Rapidamente, os canais de atendimento da Sanepar – Companhia de Saneamento do Paraná, ficaram congestionados com reclamações dos consumidores. O problema também foi comunicado ao Ministério Público do Paraná, que abriu um inquérito para investigar o caso. 

De acordo com a Sanepar, esses microcrustáceos são nativos dos rios da região e, devido ao aumento da poluição das águas por lançamentos irregulares de esgotos e por carreamento de resíduos de fertilizantes de plantações, a espécie passou a apresentar uma reprodução descontrolada. As estações de tratamento de água da empresa não estando dando conta de filtrar a grande quantidade de animais encontrados na água. 

De acordo com os laudos técnicos feitos por especialistas da concessionária, a presença desses pequenos animais na água não traz qualquer risco para os consumidores. Basta filtrar ou coar a água, que assim pode ser consumida sem maiores riscos. Só que a maioria dos consumidores não acredita nisso. 

Assim como acontece nas águas salgadas dos oceanos, as águas doces ou frescas de rios, lagos e represas são povoadas por criaturas microscópicas – animais e vegetais, que formam a base da cadeia alimentar desses ecossistemas. Entre essas criaturas destacam-se micro algas e pequenos crustáceos. 

Normalmente, as micro algas ficam em suspensão na água a pequenas profundidades, o que lhes permite captar a luz solar. Já os pequenos animais dessa fauna costumam viver nos sedimentos do fundo dos lagos e dos rios, agrupamentos que costumam ser chamados de bentos ou comunidades bentônicas. 

Para que todos tenham uma ideia da ordem de grandeza dessas criaturas – existem casos em que a densidade dessas criaturas é de até cinco indivíduos por grão de areia. Essas plantas e pequenos animais tem uma enorme importância ambiental para as espécies maiores, que predam e se alimentam dessas criaturas. 

A presença de resíduos de esgotos e de fertilizantes nas águas aumenta a proliferação e o crescimento das micro algas, que por sua vez alimentam as pequenas espécies animais. Se existe abundancia de alimentos, os pequenos animais também vão procriar em quantidades cada vez maiores, exatamente o que parece estar acontecendo em rios e represas de Ponta Grossa. 

Segundo a Sanepar, o problema está concentrado nas represas de Alagados e de Pitangui, que são os mananciais onde a empresa capta a água bruta que será tratada e distribuída para a população da cidade. Como é usual aqui no Brasil, essas áreas de mananciais não receberam a atenção adequada e suas águas passaram a sofrer com o despejo de esgotos de bairros e vilas periféricas, além de receber resíduos de agrotóxicos e de fertilizantes usados em plantações nas vizinhanças. 

Coletar e tratar esgotos sanitários nunca foi uma prioridade aqui em nosso país. Obras desse tipo são consideradas “invisíveis” pelos governantes de plantão, que preferem investir os parcos recursos públicos disponíveis em pontes, viadutos, grandes edifícios ou outras iniciativas de grande visibilidade. 

Estações de Tratamento de Água, as ETAs, são preparadas para transformar a água bruta em água potável. Numa etapa conhecida como tratamento primário, essas unidades removem toda a sujeira mais grosseira presente na água – lixo, restos de galhos, pedras e areia. 

Na etapa seguinte, conhecida como tratamento secundário, a água recebe diversos produtos químicos que facilitam a separação dos resíduos, que decantam e/ou se agregam em pequenos flocos. A seguir, a água passa por diversos sistemas de filtragem, onde os resíduos ficam retidos. Na etapa final, antes da água ser encaminhada para os consumidores, é aplicado cloro, um poderoso bactericida, e flúor, um elemento químico que atua na prevenção das cáries dentárias. 

De uma forma extremamente resumida, esse é o processo de tratamento da água. No caso de Ponta Grossa, fica muito claro que está havendo algum problema muito sério na etapa de filtração da água. Esse sistema é formado por várias camadas de sedimentos, onde se incluem cascalho, areia e antracito, um carvão em pó muito fino. Em condições normais, esse sistema de filtragem consegue reter sedimentos microscópicos – se um camarão com cerca de 1 mm está conseguindo passar pela filtragem, algo está muito errado nas estações de tratamento da cidade. 

Além da grande redução nos volumes disponíveis, os mananciais de água que atendem os grandes centros urbanos sofrem cada vez mais com a poluição, principalmente por causa do lançamento irregular de esgotos sanitários e carreamento de resíduos sólidos. Um caso que já tratamos em diversas postagens aqui no blog é o da ETA Guandu, o maior centro de produção de água potável da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

O grande manancial da região é o rio Guandu, cuja maior parte do seu volume de água tem origem no sistema de transposição das águas do rio Paraíba do Sul. Esse sistema foi construído com a missão de garantir o fornecimento de água para movimentar as turbinas de usinas de geração de energia elétrica. Após o uso, a água é lançada na bacia hidrográfica do rio Guandu e usada para o abastecimento de grande parte da população da cidade do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense. 

De solução para o problema crônico de água na capital fluminense e região de entorno, o rio Guandu se transformou numa enorme fonte de problemas por causa da poluição de suas águas. Frequentemente, os consumidores recebem água de péssima qualidade – os sistemas de tratamento não estão conseguindo dar conta de tanta poluição.  

Esse parece ser o caso de Ponta Grossa. Os pequenos camarões que estão chegando junto com as águas nas torneiras é o menor de todos os problemas. 

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