A TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO E OS NÚMEROS

Donald Duck

Eu devia ter uns 6 ou 7 anos quando assisti pela primeira vez a animação O Pato Donald no País da Matemágica (Donald in Mathmagic Land, em inglês). O filme mostra as confusões do atrapalhado personagem numa aventura através do mundo dos números – se você ainda não viu, recomendo. Lembrando do filme, passei a usar de uns anos para cá o termo “matemágica” para designar “equações, fórmulas e projetos públicos mirabolantes onde os cálculos não fecham” – e os números da Transposição do Rio São Francisco me enchem de desconfiança.

Sem entrar no mérito da necessidade inadiável do abastecimento de água a milhões de pessoas nas regiões do Semiárido nordestino, a forma como o Projeto da Transposição do Rio São Francisco foi vendida para o país e como vem sendo implantado, tem revelado algumas “imprecisões” nos números, o que preocupa muita gente. Vejam:

A vazão média anual do Rio São Francisco que você vai encontrar na literatura especializada é de 2.846 metros cúbicos por segundo, variando entre 1.077 m³/s nos períodos de seca e 5.290 m³/s na estação das chuvas (dados da ANA – Agência Nacional de Águas). Quando a primeira expedição exploratória portuguesa liderada por Américo Vespúcio descobriu a foz do Rio em 1501, verificou-se que os poderosos caudais de água doce avançavam até 4 quilômetros mar a dentro – o Velho Chico era, na época, um rio de respeito.

Entretanto, conforme demonstramos aqui ao longo de dezenas de postagens, as águas preciosas do Rio São Francisco já não correm tão fartas e fáceis como no passado – em meados de maio último, a CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, reduziu as vazões das barragens de Sobradinho e de Xingó para míseros 650 m³/s, com o objetivo de preservar ao máximo a lâmina d’água – o nível de Sobradinho é o menor em seus 38 anos de história e está abaixo dos 15%. Faz muito tempo que a vazão real do Velho Chico não chega nem perto da vazão histórica mostrada nestes manuais.

Pesquisando os dados que foram usados na proposição do Sistema, encontrei um interessante vídeo publicado pela EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária: Caminho das Águas. O vídeo mostra que, para efeito de cálculo, usou-se um valor médio de vazão para o Rio São Francisco de 1.850 m³/s; também se informa que o desvio de água da bacia hidrográfica para a transposição seria de “apenas” 1,4%. Feitos os devidos cálculos usando estes valores, conclui-se que o desvio de água para fins da transposição corresponde a uma vazão de 25,9 m³/s, um número que está muito próximo dos valores divulgados como vazão média projetada para o Sistema: 16,4 m³/s no Eixo Norte e 10 m³/s no Eixo Leste.

Em termos absolutos, estamos falando de aproximadamente 37,3 bilhões de litros de água por dia – para abastecer uma população de 12 milhões de pessoas, conforme divulgado pela propaganda oficial, será necessário reservar 1,2 bilhão de litros deste total (considerando-se o consumo mínimo per capita de 100 litros/dia, recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde). Observe que, a grosso modo, os números fazem sentido.

Porém, existem perdas de água que não estão sendo consideradas nos cálculos:

Perdas de água por evaporação: O Projeto de Transposição do Rio São Francisco é o que se chama “sistema aberto” – são canais e reservatórios onde a água fica exposta ao sol intenso e ventos do Semiárido, e parte da água evapora e se perde;

Perdas de água por vazamentos nos canais, túneis e aquedutos: Considerando que os Eixos Norte e Leste tem aproximadamente 620 km de comprimento, é improvável que não existam trincas e fendas nos revestimentos de concreto, por onde se perderão volumes consideráveis de água;

Perdas de água por infiltração no solo: De acordo com as informações oficiais, o Projeto de Transposição contará com, pelo menos, 27 reservatórios onde há grandes chances de perdas de água por infiltração no solo.

Observem que não estou considerando a água absorvida pela vegetação, os desvios clandestinos e o “roubo” de água ao longo dos canais. Sem querer ser muito rigoroso, eu consideraria pelo menos uns 30% de perda de água neste Sistema (a perda média em sistemas de abastecimento de água no Brasil é estimada em 37%). Para compensar essa perda será necessário retirar, pelo menos, mais 30% de água ou 7,7 m³/s de água da bacia hidrográfica do Rio São Francisco – portanto, nós não estamos falando mais de 25,9 m³/s e sim de 33,67 m³/s de água para fins de transposição.

Há uma outra sutileza na apresentação do Sistema: apesar dos números médios de vazão informados serem relativamente baixos, os Eixos Norte e Leste foram projetados para transportar volumes de água bem maiores: respectivamente, 99 m³/s e 28 m³/s. Cedo ou tarde, com a implantação de projetos de agricultura irrigada ao longo dos canais e reservatórios, haverá uma pressão imensa dos produtores por volumes cada vez maiores de água. Só para lembrar: as atividades agropecuárias são grandes consumidoras de água, absorvendo até 70% das reservas disponíveis em uma região.

Na “equação” deste Sistema, a vazão do Rio São Francisco está superdimensionada, o volume de água retirado para transposição está minimizado e não estão sendo consideradas as possíveis perdas de água no sistema. E, para pensar na cama, a construção do Sistema de Transposição do Rio São Francisco já custou, até este momento, o dobro do que havia sido orçado – haja “matemágica” para tanta imprecisão nos cálculos.

É por isto que tem tanta gente preocupada com os rumos deste Projeto…

One Comment

  1. […] “Matemágicas” à parte, o mapeamento e o conhecimento da rede de rios “invisíveis” é o melhor caminho para a solução dos problemas de drenagem pluvial e de lançamento de esgotos de forma difusa e clandestina em uma cidade como Curitiba. Melhor ainda: seguindo uma nova tendência mundial – a reabertura ou, como costumo chamar, a “descanalização” de rios e córregos urbanos, é uma das melhores formas de expor os problemas das águas subterrâneas para a população e permitir que se realize a recuperação integral dos problemas ambientais que foram varridos para o subsolo das cidades. […]

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