UMA CRISE ENERGÉTICA MUNDIAL

Quem tem acompanhado os noticiários dos últimos dias com alguma atenção deve ter percebido a grande quantidade de notícias que tratam dos grandes aumentos nos preços da gasolina e do óleo diesel. Mesmo quem não um veículo que use esses combustíveis sabe que esses aumentos serão repassados aos preços do transporte público, dos alimentos e de outras mercadorias transportadas por via rodoviária. 

Outro insumo essencial para grande parte das famílias é o gás de cozinha, produto que está com um preço demasiadamente alto para os padrões salariais de grande parte da população. Por trás dessa elevação dos preços desses produtos está uma forte alta no preço do petróleo nos mercados internacionais. Na última semana, o preço do barril do petróleo Brent, que é usado como uma referência no mercado internacional, superou a marca dos US$ 80.00. 

Como se não bastasse esse grande aumento nos custos dos derivados de petróleo, vivemos uma outra crise enérgica – a de geração de energia elétrica. Toda a região Central do Brasil está enfrentando uma forte seca, o que tem reflexos em grandes reservatórios de importantes centrais hidrelétricas que estão com baixíssimos níveis de água.  

Sem essa fonte de geração hidráulica, nosso país teve de acionar as centrais de geração termelétrica emergenciais movidas a carvão e a óleo diesel, insumos que estão com preços nas nuvens devido ao aumento dos custos do petróleo no mercado internacional. 

Aqui vale um lembrete – sempre que as centrais de geração termelétrica são acionadas, os valores das contas de energia elétrica dos consumidores são acrescidos de uma taxa extra, que no momento é chamada bandeira vermelha patamar 2. Segundo dados da ANEEL – Agencia Nacional de Energia Elétrica, o valor dessa taxa é de R$ 9,49 para cada 100 kW/hora consumido. Há estudos com o objetivo de aumentar o valor dessa taxa nesse momento de crise hídrica

Apesar do forte uso político desses aumentos nos preços dos combustíveis e da energia elétrica contra o atual Governo do país – lembrando que ano que vem teremos eleições presidenciais, essa é uma crise mundial que tem afetado países de forma diferente. A Europa e a China são as regiões onde a situação é mais grave. 

Vamos começar falando da China, a economia que mais cresceu nas últimas décadas e que, dentro da nossa área de interesse, é a que mais polui o planeta. Apesar da forte pressão internacional para a redução do carvão como uma das principais fontes de geração de energia elétrica no país, a economia chinesa ainda é fortemente dependente desse insumo.  

Num esforço para tentar tornar a economia da China “mais verde e ecologicamente correta”, o Governo local tem tomado medidas para reduzir a mineração e o consumo do carvão ao mesmo tempo em que vem estimulando o uso cada vez mais intensivo do gás natural, um combustível também de origem fóssil, mas muito menos poluente

Foi aqui que apareceu um enorme problema – depois de quase dois anos de forte retração por causa da pandemia da Covid-19, a economia mundial começou a retomar o crescimento num ritmo muito mais forte do que se esperava. Importantes combustíveis como o petróleo, o gás natural e o carvão passaram a sofrer fortes aumentos nos seus preços, o que está criando problemas no mundo inteiro. 

Vamos citar como exemplo o Brasil, onde apesar de todos os problemas que estamos vivendo, há uma perspectiva de crescimento da ordem de 5% este ano. Esse crescimento gera o aumento do consumo de energia – principalmente elétrica, de matérias primas, de mão de obra, de transportes e tudo mais. 

Transformada já há muitos anos na “fábrica do mundo”, a economia chinesa vem sendo cada vez mais pressionada a fornecer produtos e componentes para inúmeras empresas ao redor do mundo. Para atender essa demanda as fábricas chinesas precisaram aumentar o seu próprio consumo de energia e de matérias primas. Conclusão – está faltando gás natural para a geração de energia elétrica e também falta carvão para acionar todas as antigas unidades de geração de energia elétrica do país

O Governo chinês já está racionando o fornecimento de energia elétrica. Estão ocorrendo cortes de luz programados e até mesmo apagões em fábricas e residências por todo o país. A situação é particularmente grave em três províncias no Norte onde vivem 100 milhões de pessoas. Essa pressão chinesa pelo aumento do consumo de gás natural e de carvão está criando graves problema para a Europa. 

Sempre que a oferta de um determinado produto é reduzida, seu preço acaba subindo. Essa é a boa e velha “Lei da Oferta e da Procura” da economia, que países da Europa estão sentindo na própria pele. O custo do gás natural aumentou quase 300% em alguns países como a Alemanha e a Inglaterra. A razão é simples – a Rússia, país que fornece grande parte do gás natural consumido na Europa, aumentou suas vendas para a China e tem pouco produto extra para fornecer para os europeus. Também alegam dificuldades no transporte de maiores volumes de gás pelos gasodutos já existentes. 

A situação da Europa está ficando tão complicada que muitos Governos tem solicitado à Rússia aumentos nos volumes de carvão comprados do país. Com políticas ambientais extremamente vigorosas, os países europeus vinham reduzindo significativamente os volumes de energia elétrica produzidos através da queima do carvão em usinas termelétricas e migrando essa geração para centrais térmicas a gás. 

Com o inverno se aproximando, época do ano em que há um aumento expressivo do consumo de eletricidade por causa dos sistemas de aquecimento das casas, muitos países europeus pretendem “esquecer” temporariamente seus compromissos ambientais e gerar o máximo possível de energia elétrica com base no carvão. Entre ser ecologicamente correto e morrer de frio ou poluir a atmosfera com gases de efeito estufa em uma casa bem quentinha, melhor ficar com a última opção. 

Essa demanda dos países da Europa por mais carvão da Rússia esbarra num grande problema – a China também tem um clima temperado em grande parte do seu território e também precisa aumentar a sua geração de energia elétrica no período do inverno. Os russos alegam que já comprometeram toda a sua produção excedente com os chineses, inclusive a infraestrutura de transporte. 

Os norte-americanos, por enquanto, ainda estão numa posição confortável. O país atingiu um grau de auto suficiência na produção de petróleo e gás, além de produzir grandes volumes de energia elétrica em centrais nucleares, algo que muitos países da Europa sempre abominaram. O Brasil, inclusive, fechou um grande contrato para a compra de gás natural dos Estados Unidos – segundo alguns analistas, essa compra ajudou a desestabilizar ainda mais o mercado mundial do gás. 

Os próximos meses serão bastante complicados, tanto aqui no Brasil quanto em grande parte do mundo. Essa é aquela parte do mantra que ouvimos à exaustão nos últimos meses – “a economia a gente vê depois“. 

O tal do “depois” chegou… 

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