A FALTA DE NEVE NA CORDILHEIRA DOS ANDES MERIDIONAL

O aquecimento global está desencadeando profundas mudanças nas regiões polares do nosso planeta. Grandes volumes do manto de gelo dessas regiões estão derretendo no Ártico e na Antártida, e lançando grandes volumes de água doce diretamente nos oceanos. Um exemplo das consequências dessas mudanças é o que parece estar acontecendo no Oceano Antártico: cientistas suspeitam que as populações de krill, um pequeno crustáceo marinho que forma a base da cadeia alimentar de inúmeras espécies animais com as baleias-jubarte e os pinguins, estão diminuindo. 

As mudanças climáticas nas regiões polares também têm seus reflexos nas correntes marítimas e ventos dos oceanos, mudanças essas que alteram os padrões de chuva em extensas regiões do planeta. Um caso bem documentado é o do Oceano Índico, onde aumentos sistemáticos na temperatura das águas têm provocado mudanças importantes nos padrões de chuva da África Austral e do Sul e Sudeste da Ásia

Aqui na América do Sul também estamos assistindo a uma série de mudanças nos padrões climáticos que podem estar associadas – direta ou indiretamente, ao aquecimento global. Cientistas são extremamente cautelosos ao divulgar suas conclusões e existem inúmeros estudos em andamento. Na fala popular, porém, dizemos que se “tem bigode de gato, rabo de gato e mia como gato, então é gato”. 

Uma provável evidencia dessas mudanças climáticas é forte seca que está se abatendo sobre uma extensa área do Brasil Central, especialmente na bacia hidrográfica do alto rio Paraná. Reservatórios de importantes usinas hidrelétricas estão com níveis muito baixos, uma situação que poderá comprometer parte importante da geração de energia elétrica do país. Agricultores e populações de cidades também estão preocupados com essa ameaça ao abastecimento de água. 

No médio e baixo curso do rio Paraná em território da Argentina a situação está ficando caótica. A hidrovia que opera nesses trechos do rio é fundamental para o transporte de cargas – especialmente dos grãos produzidos pela agricultura local, e o baixo nível das águas praticamente inviabilizou a navegação.  

Milhares de pescadores não podem trabalhar, produtores agrícolas não estão conseguindo captar água para alimentar os sistemas de irrigação e muitas cidades estão com dificuldades cada vez maiores para abastecer suas populações com água potável. 

Os problemas ambientais na região, infelizmente, são bem maiores. Quando se faz uma análise em maior escala, se observa que não são só as chuvas que estão escassas na região – a precipitação de neve na Cordilheira dos Andes Meridional também vem diminuindo ano após ano. De acordo com dados do Copernicus – Programa de Observação da Terra da União Europeia, a precipitação de neve em algumas regiões do trecho argentino da Cordilheira foi 50% menor que em anos anteriores (vide imagem). 

Em toda a Cordilheira dos Andes, cadeia de montanhas que se estende por mais de 8 mil km desde a Patagônia no Extremo Sul até a Venezuela no Extremo Norte da América do Sul, a redução média na precipitação de neve foi de 12% nos últimos 10 anos. Nos Andes Meridionais, entretanto, essa redução chegou aos 40%.  

Todos os anos, um volume de vapor calculado em 383 mil km³ é retirado das águas dos oceanos pelo calor do sol. Esse vapor é espalhado pelos ventos por toda a superfície do planeta e uma parte considerável, cerca de 30%, é precipitada sobre os solos dos continentes e ilhas na forma de chuva, neve e granizo, entre formas de precipitação. Todas as reservas de água potável do mundo surgem daí.

Ao longo de toda a Cordilheira dos Andes, o derretimento da neve das montanhas forma as nascentes de importantes rios usados na irrigação de culturas agrícolas, na dessedentação animal, nas indústrias e também para o abastecimento de água em cidades e vilas. Em muitas regiões, como é o caso do Chile, esse degelo é praticamente a única fonte de água disponível para a população. Se a precipitação de neve no inverno é pequena, a disponibilidade de água ao longo dos meses de primavera e verão também será reduzida. 

Um exemplo dos problemas decorrentes dos reduzidos volumes de neve pode ser visto no Vale do Aconcágua, no Chile, principal região de produção de frutas do país. O volume de água disponível atualmente equivale a apenas 17% daquele que existia há 10 anos atrás. Existe um temor generalizado entre os produtores dessa oferta de água diminuir ainda mais nos próximos anos. 

Na Argentina, onde o problema é mais grave, as províncias mais afetadas são Catamarca, La Rioja, Mendoza, San Juan e o Norte de Neuquén. Em San Juan e Mendoza, onde a situação está mais crítica, os Governos provinciais já decretaram emergência hídrica, implantando inúmeras medidas para forçar a redução do consumo de água. 

Nos Andes Tropicais, trecho da Cordilheira que vai do Sul da Bolívia até Colômbia e Venezuela ao Norte, vem se desenrolando um problema semelhante – é notável a redução dos glaciares ou geleiras de montanha. Para dar uma ideia do tamanho dos problemas – das 10 geleiras que existiam nas montanhas dos Andes na Venezuela até 1952, só restaram 5. No mesmo período, 8 geleiras da Colômbia desapareceram e só restam 6.   

Mais ao Sul, os problemas são ainda mais evidentes – no Equador, as geleiras dos vulcões Antizana, Cotopaxi e Chimborazo já perderam já perderam entre 42 e 60% de suas massas. As 722 geleiras existentes na Codillera Blanca no Peru sofreram uma redução de 22,4% desde 1970 e na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas, entre outros derretimentos confirmados. 

A ecologia dessa extensa região, entretanto, apresenta uma diferença importante em relação aos Andes Meridionais – os páramos. Páramos são ecossistemas com vegetação arbustiva que ocorrem a partir de altitudes acima de 3.000 metros até a linha de neve no alto das montanhas. Graças a esta vegetação, os solos dos páramos funcionam como verdadeiras esponjas, retendo grandes quantidades de água – áreas de banhados dos Pampas do Sul do Brasil têm características bem similares.  

Os páramos são encontrados em várias regiões montanhosas do mundo – a Cordilheira dos Andes abriga 30 mil km² de páramos na Venezuela, Colômbia, Peru e Equador. Em muitas grandes cidades da região como Bogotá, na Colômbia, e Quito, no Equador, estão sendo desenvolvidos projetos para o aproveitamento da água dos páramos para o abastecimento das populações em substituição a água do degelo dos glaciares. 

Nas extensões mais ao Sul da Cordilheira dos Andes entre a Argentina e o Chile, desgraçadamente, não existe esse tipo de vegetação e as fontes de água dependem exclusivamente das chuvas e do derretimento das neves das montanhas. Com as mudanças climáticas em andamento na região e com a visível redução na precipitação de neve, o abastecimento de água de milhões de pessoas está seriamente ameaçado. 

A velocidade das mudanças ambientais é muito grande e está sendo difícil nos adaptarmos ao novo mundo que está surgindo. A única certeza que existe é que essas mudanças vieram para ficar. 

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