ÍNDIA ENFRENTA UMA ONDA DE CALOR EXTREMO, OU FALANDO DO INCÊNDIO EM UM ATERRO SANITÁRIO EM NOVA DÉLHI 

Na série televisiva indiana Jogos Sagrados (Sacred Games), de 2018, uma disputa entre facções criminosas resulta num grande incêndio no aterro sanitário de Mumbai. Um dos grupos controlava esse aterro e faturava milhões de rupias, a moeda local, cobrando uma participação nos ganhos das milhares de pessoas que garimpavam resíduos recicláveis no local.  

Um grupo rival comandado por Ganesh Gaitonde, nome inspirado em um personagem real do submundo local, ateou fogo no aterro buscando reduzir o poder econômico do outro grupo. Segundo a narrativa da produção, o fabuloso incêndio iluminou as paisagens noturnas da cidade de Mumbai por quase uma semana. 

Parte da narrativa da ficção se tornou realidade nos últimos dias: um grande incêndio está devastando um dos aterros sanitários de Nova Délhi, a capital do país. Porém, ao que tudo indica, as chamas foram provocadas por uma forte onda de calor que se abateu sobre o Norte da Índia. Segundo informações dos meteorologistas, as temperaturas locais poderão atingir a marca de 46° C nesta quinta-feira, dia 28 de abril

A maior parte do território da Índia tem um clima Tropical de Monção, que é muito parecido com o da nossa Região Amazônica. São meses com tempo extremamente seco e quente, seguido por uma forte temperada de chuvas. Temperaturas acima dos 40° C não são nenhuma novidade no país. 

O que chama a atenção na notícia é que Nova Délhi fica na faixa Norte do país onde predomina um clima subtropical com estações bem definidas. Os invernos são rigorosos, inclusive com eventuais quedas de neve e muitas ondas de frio vindas da Cordilheira do Himalaia, e os verões são bem quentes, com fortes ondas de calor vindas das regiões desérticas e semiáridas do Rajastão. Nesse momento, a região vive a primavera e uma onda de calor tão intensa é absolutamente anormal. 

Nova Délhi é a segunda maior cidade da Índia, com uma população de cerca de 11 milhões de habitantes, praticamente a mesma da cidade de São Paulo. Porém, quando consideramos a região metropolitana expandida, essa população supera a casa dos 24 milhões de habitantes. E como toda grande metrópole, Nova Délhi é um caldeirão de problemas.  

Comecemos falando da poluição do ar – a cidade tem uma das piores atmosferas do mundo. Aliás, 14 das 15 cidades mais poluídas do mundo estão na Índia. A maior parte dessa poluição vem dos escapamentos da gigantesca frota de veículos da cidade, que vai das dezenas de milhares de riquixás, pequenos veículos de três rodas que funcionam como taxis, até grandes ônibus e caminhões com motores a diesel antigos e altamente poluentes. 

Outra grande fonte de poluição são as usinas termelétricas a carvão responsáveis por parte importante do abastecimento de energia da população. Nos meses de inverno, a cidade costuma ficar escondida sob uma nuvem tóxica de fumaça. De acordo com estudos realizados pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, um indiano médio que vive na região metropolitana de Nova Délhi, e também de outras grandes cidades do país, terá uma expectativa de vida 10,2 anos menor do que uma pessoa que vive em ambientes com uma atmosfera mais saudável. 

Na temporada da Monção, época de fortes chuvas que caem no Sul e Sudeste da Ásia no verão, os problemas são as enchentes e os alagamentos, nada muito diferente que os brasileiros que vivem em grandes e médias cidades conhecem. Nos últimos anos, devido as mudanças climáticas globais, essas chuvas ficaram mais irregulares, com volumes muito acima da média em alguns anos, e de chuvas mais fracas em outros. 

De acordo com estimativas de 2018, a região metropolitana de Nova Délhi produz cerca de 12 mil toneladas de resíduos a cada dia. Para efeito de comparação, a região metropolitana de São Paulo produz cerca de 27 mil toneladas a cada dia. Enquanto os resíduos dos paulistas apresentam uma grande quantidade de embalagens de produtos industrializados e restos de comida, os dos indianos é formado basicamente por resíduos de produtos e objetos absolutamente inservíveis, o que nos dá uma ideia da pobreza extrema no país. 

Apesar de gerar menos da metade dos resíduos que a maior região metropolitana brasileira produz, os serviços de coleta de resíduos de Nova Délhi são bem mais precários – simplesmente se recolhem os materiais descartados nas residências e os que são coletados nas ruas e os jogam em um grande lixão a céu aberto. Os moradores locais costumam chamar esses locais de “Montanhas da Morte”. Um dos maiores “lixões” da região é o de Ghazipur, onde as montanhas de resíduos superam a marca dos 65 metros. 

Uma cena comum nesses locais, e que nós brasileiros conhecemos muito bem, são as centenas de catadores de resíduos que se amontoam ao redor das pilhas de materiais despejadas pelos caminhões de transporte. São homens, mulheres e muitas crianças – famílias inteiras trabalham e, literalmente, moram nesses locais. Muitas chegam a trabalhar 15 horas por dia simplesmente para ganhar o suficiente para comprar alimentos. 

Cercados de materiais inflamáveis e se valendo do uso de pequenas fogueiras para preparar seus alimentos, não são incomuns os incêndios provocados por esses catadores. O problema é que, com uma temperatura ambiente tão alta, esses materiais estão muito secos, o que facilita a propagação das chamas. 

Dezenas de bombeiros estão lutando há três dias na tentativa de conter as chamas, porém sofrem com a dificuldade de acesso e falta de água. Segundo as informações das autoridades locais, esse é o terceiro incêndio em um depósito de resíduos apenas nesse último mês na região, o que mostra a gravidade do problema. 

Os problemas ambientais criados por esse descarte inadequado de resíduos sólidos são enormes. Eles incluem a proliferação de vetores como insetos e ratos, poluição de corpos de água, mal cheiro e liberação de gases tóxicos, entre muitos outros problemas. Com os incêndios, as populações que moram nas áreas circunvizinhas ficam expostas a grandes volumes de fumaça altamente tóxica. 

Há também um problema sócio econômico importante – milhares de pessoas extremamente pobres (e sempre que se fala em Índia trata-se de pobreza absolutamente extrema) perderam a sua única fonte de renda e de acesso a alimentação. Esses pobres pertencem majoritariamente a casta dos Dalits ou dos intocáveis e moram nas ruas da cidade. 

Apesar da Constituição da Índia proibir a divisão da população por castas, rígidos grupos hierárquicos baseados em seu karma (trabalho) e dharma (a palavra hindu para religião), essa prática ainda ocorre no país. Os Dalits formam a casta mais baixa entre os indianos e representam cerca de 15% da população do país. E sempre que uma tragédia como essa ocorre, são essas pessoas as que mais sofrem. 

Normalmente, problemas ambientais e sociais caminham lado a lado. E esse caso em Nova Délhi é um exemplo vivo disso. 

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