
Uma notícia que ganhou as manchetes das redes sociais e da mídia tradicional nos últimos dias:
No dia 17 de novembro de 2020, uma onda com altura descomunal atingiu uma bóia de ondas Coast Scout de 0,9 metro instalada e operada pela MarineLabs, uma startup canadense especializada em estudos oceânicos.
A bóia, que foi instalada em uma área com 45 metros de profundidade e a 7 km da costa de Ucluelet, na ilha de Vancouver – Costa Oeste do Canadá, registrou que a altura da onda atingiu a marca de 17,6 metros. Estudos posteriores, publicados na revista científica Scientific Reports, confirmaram que essa foi a maior onda de vento já documentada.
Apesar da altura muito acima do normal, a estrutura do relevo marinho permitiu a dissipação da maior parte da energia da onda e os estragos na orla da cidade de Ucluelet foram mínimos.
Essa não foi a maior onda a ser observada. Em 2022, uma onda com altura estimada em 26 metros foi observada na praia do Norte, em Nazaré – Portugal. Em 2025, uma onda com cerca de 20 metros de altura atingiu Coast Tree na Praia de Pebble – Califórnia.
Apesar das alturas impressionantes, essas duas regiões são famosas pela ocorrência de ondas gigantes em algumas épocas do ano. Nazaré, inclusive, é famosa por esses eventos e é um verdadeiro santuário para os surfistas mais radicais.
Esse não é o caso da onda gigante de Vancouver. De acordo com os cientistas, a ocorrência de uma onda com essas características naquela localidade é extremamente rara. Na verdade, a probabilidade é de apenas uma ocorrência a cada 1.300 anos.
Ondas gigantes são definidas pelos cientistas como aquelas que tem aproximadamente o dobro das maiores ondas que se formam numa região. A onda de Vancouver atingiu uma altura quase três vezes maior que a média das maiores ondas registradas na região.
De acordo com o físico Johannes Gemmrich, cientista da Universidade de Vitória e responsável pelo estudo das ondas gigantes de Vancouver, essa altura três vezes maior que o padrão do mar no momento do impacto é que foi o diferencial do evento.
E tem mais – o cientista também afirmou que as mudanças climáticas que estão ocorrendo em todo o planeta poderão resultar em aumento da frequência deste tipo de onda. Inclusive, já existem estudos que indicam que isto poderá acontecer ao longo das próximas décadas e em diversas regiões da Terra.
Medições de satélite de longo prazo de um estudo realizado por pesquisadores australianos e holandeses e que foi publicado em 2022, mostrou que mudanças no clima sobre os oceanos estão alterando os padrões das correntes de vento e, consequentemente, alterando o padrão das ondas.
Só como exemplo, podemos citar o caso do Oceano Índico, um dos mais afetados pelas mudanças climáticas. De acordo com medições da temperatura superficial das águas, medições essas que vem sendo feitas sistematicamente desde 1880, a temperatura média das águas aumentou quase um grau centígrado. Como resultado, as correntes oceânicas, os ventos e as ondas estão mudando.
Uma das consequências mais visíveis são mudanças no clima do Leste e do Sul da África, onde a frequência e a intensidade das secas aumentaram. No Subcontinente Indiano e em partes do Sudeste Asiático, as importantes Chuvas da Monção já não têm mais a previsibilidade de antes.
Uma das conclusões desse estudo mostra que 59% das costas oceânicas do nosso planeta apresentarão um aumento nas condições extremas de ondas até o ano de 2100. As regiões mais afetadas são as que estão localizadas nas latitudes mais altas nos Hemisférios Norte e Sul.
No Extremo Sul da América do Sul e no Oceano Antártico, o aumento da frequência das ondas altas foi estimado em 20%. Na costa Oeste da Nova Zelândia e na Tasmânia, esse aumento foi estimado entre 10 e 15%. No Norte do Oceano Pacífico e na Península de Kamchattka, os valores também se situam entre 10% e 15%.
Como fica bem fácil de perceber, a ocorrência da onda gigante em Vancouver não é um caso isolado – há uma forte possibilidade de ser parte de um problema bem maior, problema esse que poderá afetar populações costeiras, a pesca, a extração de petróleo nos oceanos e a navegação, entre outras áreas.
Mares turbulentos à vista!
