AS TORRENCIAIS CHUVAS DA MONÇÃO NO PAQUISTÃO 

Monção são ventos sazonais, geralmente associados a alternâncias entre as estações das chuvas e da seca, que ocorrem em regiões costeiras tropicais e subtropicais de todo o mundo. No Oceano Índico o fenômeno é bastante intenso e está ligado diretamente a um período de fortes chuvas conhecido como Chuvas da Monção. 

Essas correntes de ventos sazonais empurram grandes massas de nuvens de chuva formadas no Oceano Índico na direção do Sul e Sudeste da Ásia, criando assim um período chuvas que marca o ritmo da vida em diversos países. Essas chuvas sempre foram fundamentais para a produção agrícola dessas regiões. 

No Paquistão e na Índia em particular, essas nuvens de chuvas são bloqueadas pelas montanhas da Cordilheira do Himalaia, onde ocorrem grandes precipitações e se formam grandes fluxos de águas montanhas abaixo. Grandes rios da região como o Indo, o Ganges e o Brahmaputra recebem essas águas e sofrem grandes cheias. Os sedimentos carreados pelas águas fertilizam os solos de grandes extensões das várzeas desses rios e vão garantir fartas colheitas agrícolas assim que as águas baixarem. 

Esse período de verão e das chuvas é conhecido como kharifas no Paquistão. A partir da região das terras altas da Caxemira as chuvas da Monção costumam provocar fortes inundações em todo o vale do rio Indo (ou Indus), região que concentra a maior parte das terras agrícolas do país. Dos 22 milhões de hectares de terras agrícolas do Paquistão, 16 milhões ficam no vale do rio Indo.  

O Paquistão ocupa uma área total de 796 mil km², entre o Noroeste da Índia, o Afeganistão e a China. É um país de economia essencialmente agrícola, onde perto de 43% da população economicamente ativa trabalha em atividades agropecuárias. 

Mudanças climáticas no Oceano Índico estão provocando importantes mudanças nos padrões das Chuvas da Monção, o que tem afetado a vida de centenas de milhões de pessoas. As chuvas que sempre foram regulares estão se tornando muito irregulares e com intensidades variáveis. 

Nesta temporada, o Paquistão está sofrendo com chuvas torrenciais e muito acima da média. De acordo com a Autoridade Nacional de Gestão de Desastres do Paquistão, mais de mil pessoas já morreram em função das chuvas e das inundações desde o mês de julho. 

A província de Sindh, no Sul do Paquistão, é uma das mais afetadas. O nível do rio Indo não para de subir e, nas palavras do Primeiro Ministro Shehbaz Sharif, “alguns vilarejos foram aniquilados e milhões de casas destruídas. Há uma destruição enorme“. 

Nas proximidades da cidade de Sukkur, citando um exemplo da situação caótica, as autoridades foram obrigadas a abrir as comportas de uma grande represa do rio Indo para aliviar um fluxo de água de mais de 600 mil metros cúbicos por segundo. Dezenas de milhares de moradores dessa região estão sendo obrigados a buscar refúgio em terrenos mais altos, onde o Governo está montando acampamentos provisórios. 

De acordo com dados oficiais, mais de 33 milhões de paquistaneses estão sendo afetados pelas chuvas, ou seja, um em cada sete habitantes do país. Os mesmos dados indicam que quase um milhão de casas foram destruídas ou muito danificadas pelas chuvas. Isso significa que, passada essa situação emergencial, serão necessários vários anos para recuperar todas as perdas em infraestrutura. 

Apesar de possuir armas nucleares, um poderoso conjunto de forças armadas e a quinta maior população do mundo, o Paquistão é um país subdesenvolvido e cheio de problemas. Um exemplo: o país possui uma das menores rendas per capitas do mundo. Também possui uma economia com forte dependência da agricultura e da pecuária, atividades que estão sendo muito afetadas pelas chuvas e enchentes. 

E, desgraçadamente, os problemas não param por aí. 

De acordo com estudos de ambientalistas, o Paquistão ocupa a oitava posição entre os países mais ameaçados por mudanças climáticas. O rio Indo, o maior e mais importante corpo d`água do país ocupa aqui uma posição de destaque – as nascentes do rio, que se formam a partir do degelo de glaciares nas Montanhas Himalaias, estão ameaçadas. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, as Montanhas Himalaias concentram as nascentes de alguns dos maiores e mais importantes rios da Ásia. Além dos já citados rios Indo, Ganges e Brahmaputra, entram nessa lista os rios Mekong, Yangtzé, Huang He ou Huang Ho, Amu Daria e Syr Daria, entre muitos outros. Todos esses rios tem uma característica em comum – nascentes que se formam a partir do degelo de glaciares nas Himalaias. 

O aumento das temperaturas globais está derretendo glaciares em montanhas de todo o mundo, especialmente em grandes cordilheiras como os Andes, os Alpes e as Himalaias. Centenas de milhões de pessoas em todo o mundo estão ameaçadas de perder seus principais mananciais de fornecimento de água potável. 

Além dos riscos climáticos, os paquistaneses ainda precisam enfrentar uma outra questão importante – as nascentes do rio Indo ficam na Caxemira, uma região que vem sendo disputada com a Índia desde a independência da Inglaterra em 1947. A disputa pela região levou os dois países a entrar em guerra em três ocasiões – 1947, 1965 e 1971. A questão ainda não foi resolvida e tropas dos dois países vivem se “estranhando” nas fronteiras da região. 

É provável que muitos dos leitores nunca tenham ouvido falar do rio Indo até hoje. Para mais de 220 milhões de paquistaneses, entretanto, esse rio é a principal fonte de vida e de trabalho no país. Grande parte dessa população está sofrendo hoje com as fortes cheias do rio Indo e correndo o risco de, num futuro não muito distante, de padecer com o gradual desaparecimento de suas águas. 

A situação do Paquistão é das mais complicadas nesses tempos de mudanças climáticas. 

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