O DESAPARECIMENTO DAS ENGUIAS DE RIOS EUROPEUS, ASIÁTICOS E AFRICANOS

Anguilla_anguilla

Ao longo de uma sequência de postagens publicadas no último mês, falamos dos impactos da poluição e da degradação dos recursos hídricos na vida de espécies aquáticas e semiaquáticas em todos os cantos do Brasil. Esse, porém, não é um mal que afeta apenas as águas de rios brasileiros – esse problema se repete em rios de todo o mundo e inúmeras espécies estão ameaçadas de extinção. Um dos exemplos mais intrigantes é o das enguias-europeias, uma espécie de peixe que já foi muito comum em rios do continente, mas que está ficando cada vez mais rara. 

A enguia-europeia (Anguilla anguilla) é uma espécie de peixe eurialino, isto é, que suporta variações acentuadas na salinidade da água. A espécie nasce nas águas salgadas do Mar dos Sargaços, uma extensa região do Atlântico Norte entre a Europa e a América do Norte, migrando depois para as águas frescas dos rios da Europa, Norte da África e também para rios que desaguam no Mar Negro, na Ásia. Existem cerca de 15 espécies descritas pela ciência (muitas espécies tem sua classificação contestada por alguns especialistas), vivendo em águas tropicais e temperadas de rios e oceanos de todo o mundo. 

As enguias possuem um corpo cilíndrico e longo, muito parecido com as serpentes marinhas. Os animais possuem nadadeiras peitorais bem desenvolvidas e uma única nadadeira na parte traseira do corpo. A espécie apresenta um grande disformismo sexual, com fêmeas que podem atingir até 1,5 metro de comprimento e machos com apenas 60 cm. O ciclo de vida completo das enguias-europeias sempre foi um grande mistério – durante séculos não se soube ao certo como e onde se dava a reprodução da espécie. Filhotes recém-nascidos e enguias jovens nunca haviam sido vistas por ninguém.

O grande mistério sobre o local de nascimento das enguias-europeias só começou a ser desvendado em 1920, quando o biólogo dinamarquês Johannes Schmidt descobriu que esses animais se reproduziam na região do Mar dos Sargaços. Depois de viver toda a sua vida adulta nas águas de rios continentais, as enguias primeiro descem os rios até atingirem as águas dos oceanos e dali nadam em direção ao Mar dos Sargaços, numa jornada que pode durar até seis meses. O Mar dos Sargaços é uma região alongada do Atlântico Norte, circundada por diversas correntes oceânicas: do Golfo, do Atlântico Norte, das Ilhas Canárias e Equatorial do Atlântico Norte. 

Após realizar essa grande jornada migratória, onde os animais nadam sem parar e sem se alimentar, as exaustas enguias buscam parceiros sexuais para o acasalamento, morrendo logo em seguida. Os ovos fecundados a uma profundidade de cerca de 400 metros passam a flutuar e eclodem próximo da superfície. As larvas, chamadas leptocéfalos, possuem um corpo achatado e serão arrastadas pelas correntes marinhas na direção das costas da Europa por um período entre dois e três anos. Ao longo dessa jornada em sua fase inicial da vida, cerca de 80% das larvas morrerão ou serão predadas por outras espécies marinhas.

Após ter atingido as águas litorâneas, os animais crescerão até atingir um estágio do seu ciclo de vida onde são chamadas de enguias-de-vidro ou meixão. Contando com um tamanho da ordem de 8 cm, os animais passarão por alterações em sua fisiologia e se tornarão tolerantes à uma vida em águas salobras. Isso lhes permitrá passar a viver em regiões estuarinas e de lagunas costeiras ao largo das costas da Europa, Norte da África e regiões circunvizinhas ao Mar Negro. 

Nesses novos ambientes, os animais mais aptos e que conseguirem sobreviver, passarão por um processo de metamorfose: após atingir um tamanho da ordem de 15 cm, os animais passam a apresentar uma cor verde-acastanhada no dorso e amarelada no ventre, característica que faz com que os animais passem a ser conhecido como enguias-amarelas. É nessa fase que as enguias passam por um período de forte crescimento, se alimentando de pequenos caranguejos, camarões, peixes e vermes durante o período do verão. Com a chegada do inverno, as enguias-amarelas se enterram na areia e ficam meses sem se alimentar. 

Na última metamorfose de suas vidas, as enguias passam para a fase adulta, quando o corpo assume uma cor negra no dorso e prateada no ventre, passando a ser chamadas genericamente de enguias-prateadas. É a partir dessa fase que os animais passam a tolerar uma vida em ambientes de água fresca. Essa passagem ocorre quando os machos apresentam um tamanho de aproximadamente 50 cm e as fêmeas cerca de 60 cm. Essa fase também é marcada pela migração dos animais para as calhas dos rios, onde viverão até atingir o ápice de sua maturidade sexual, quando vão iniciar a sua última grande jornada para a procriação no Mar dos Sargaços. 

As enguias-europeias possuem uma carne considerada saborosa e rica em teores de gordura saturadas, que podem representar até 60% do peso do animal. Essa importante fonte nutricional e calórica sempre foi muito explorada pelas populações, o que sempre levou à pesca dos animais em todas as fases de sua vida. As enguias-de-vidro ou meixões, por exemplo, são muito apreciadas nas culinárias de Portugal e da Espanha, o que resulta numa superexploração dos animais nessa fase da vida. Outras fontes de problemas para a espécie são a construção de represas, o que impede a migração rumo às cabeceiras dos rios, e a poluição. A somatória de todos esses problemas vem tendo como consequência uma redução drástica das populações de enguias-europeias

Um exemplo da rarefação das enguias pode ser comprovado no rio Tâmisa, o principal curso d’agua da Inglaterra. Poluído desde o final do século XVIII, quando teve início a chamada Revolução Industrial, o rio Tâmisa passou por um profundo processo de despoluição a partir de meados do século XX e que durou cerca de 50 anos. O auge desse processo se deu com o retorno dos salmões ao rio Tâmisa, além de outras 125 espécies de peixes que haviam desaparecido das suas águas desde a década de 1950. As populações de enguias-europeias, que também haviam retornado ao rio e estavam em crescimento, declinaram abruptamente e hoje representam apenas 5% dos valores encontrados em 2009. O consumo da carne do peixe, que é popular entre a população de Londres desde o século XVIII, agora depende da importação de enguias da Irlanda

O complexo e delicado ciclo de vida das enguias-europeias agora tem enfrentado um problema surreal – resíduos de cocaína presentes nas águas residuárias dos esgotos tratados das cidades tem atingido o curso dos rios e vem causando uma série de problemas físicos nos peixes. Esses resíduos se juntam a outros originados no lixo, em fertilizantes e herbicidas, além de traços de anticoncepcionais e antibióticos. Quando expostas a esse verdadeiro coquetel de produtos químicos, as enguias passam a apresentar uma forte degeneração muscular, o que fatalmente irá impedi-las de realizar as suas derradeiras migrações para procriação. 

Estudo feito no trecho londrino do rio Tâmisa encontrou concentrações de benzoillecgonina (um resquício metabólico que sai na urina de usuários de cocaína) da ordem de 17 bilionésimos de grama por litro de água. Em testes realizados em laboratório, enguias foram expostas a essa concentração de resíduos e passaram a apresentar degeneração muscular em poucos dias.  Mesmo após serem retiradas dessa água contaminada e colocadas em água limpa, essas enguias não conseguiram se recuperar. Sem suas perfeitas condições musculares para enfrentar uma jornada de milhares de quilômetros em rios e mares até chegar na região do Mar dos Sargaços para procriar, a sobrevivência das enguias-europeias no longo prazo é incerta.

Para encerrar – um estudo recente feito no rio Pó (o nome é esse mesmo – não é trocadilho), o principal do Norte da Itália, mostra o tamanho do problema – as medições encontraram um volume diário equivalente a 4 kg de cocaína nas águas do rio. As enguias que vivem nessas águas têm tudo para ficar “muito doidonas” e doentes. 

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