A QUASE EXTINÇÃO DO JACARÉ-DO-PANTANAL

Jacaré-do-Pantanal

Revi estes dias alguns desenhos animados antigos do hilário Wally Gator, personagem que representa uma espécie de jacaré norte americana – o Alligator mississipiensis. Essa espécie vive nas áreas pantanosas da bacia hidrográfica do rio Mississipi, no Sul do país. Wally vivia fugindo do jardim zoológico onde morava e, de vez em quando, acabava sendo perseguido por caçadores, que cobiçavam o seu valioso couro. Explico: entre as décadas de 1940 e final da década de 1980 (essa animação é do início da década de 1960), o couro de jacarés e de crocodilos era muito valorizado no mercado da moda – as peças e acessórios feitos com esse material eram artigos de alto luxo. Milhões de animais dessas espécies foram impiedosamente caçados em todo o mundo para abastecer esse mercado com seu exótico couro enrugado. 

O Brasil não passou incólume por esse período de caça aos jacarés, que até 1967 era considerada legal e depois passou a ser clandestina, quase levando a extinção de algumas espécies brasileiras como o jacaré-do-pantanal, nativo da região do Pantanal Mato-grossense, e do jacaré-açu e o jacaretinga, espécies que já foram muito comuns nos rios da Amazônia. Entre 1904 e 1967, quando a caça foi proibida no Brasil, cerca de 23 milhões de peles e couros de animais silvestres foram exportados oficialmente pelo país Além dos jacarés, a lista das espécies incluía onças-pintadas, gatos-maracajás, veados, lontras, ariranhas, peixes-boi, capivaras, antas, sucuris, jiboias, entre outras espécies com couros e pelagens consideradas exóticas e altamente valorizadas no mercado internacional. Mesmo após a proibição oficial, a caça desses animais continuou clandestinamente. 

O Pantanal Mato-grossense é uma das maiores planícies alagáveis do mundo – em anos de cheias excepcionais, a área alagada se aproxima dos 250 mil km², o que equivale a 3% do território brasileiro ou a uma área equivalente ao Estado de São Paulo. Esse imenso “território das águas” se estende pelo Sudoeste do Estado de Mato Grosso e Oeste do Mato Grosso do Sul, englobando também áreas no Paraguai e na Bolívia. Pela sua importância ecológica, a região foi elevada a Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. Esse é o habitat do jacaré-do-pantanal, uma espécie que foi impiedosamente caçada por coureiros brasileiros, bolivianos e paraguaios entre as décadas de 1970 e 1980, quase levando a espécie para o caminho da extinção. Calcula-se que 5 milhões de jacarés foram mortos ilegalmente ao longo de uma década

O jacaré-do-pantanal (Caiman yacare), também conhecido como jacaré-do-paraguai e yacaré-negro em castelhano, é uma espécie que habita a região central da América do Sul, em especial na bacia hidrográfica do rio Paraguai e num grande bioma conhecido como Gran Chaco, que engloba áreas do Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina. Esse bioma apresenta paisagens das mais variadas – áreas alagadas, florestas, pampas e vegetação de semiárido. O jacaré-do-pantanal atinge até 3 metros de comprimento e tem sua dieta constituída basicamente por peixes, moluscos e crustáceos. Aves, ovos e pequenos mamíferos, sempre que surge a oportunidade, acabam entrando na dieta desses animais. A coloração do jacaré-do-pantanal é bastante variada, com o dorso em tons escuros e faixas transversais amarelas nas laterais, especialmente na região da cauda. 

O território do Pantanal tem altitudes médias da ordem de 100 metros, com uma baixíssima declividade, uma alta pluviosidade e centenas de rios e lagos. Todo esse grande volume de águas corre muito lentamente em direção ao Sul, onde existe um verdadeiro afunilamento, conhecido como Fecho dos Morros do Sul. Esta característica física da região resulta em uma grande concentração de animais, um fator que facilitava a vida dos coureiros e quase foi fatal para os jacarés-do-pantanal. Navegando silenciosamente durante as noites e usando o facho de uma lanterna, um grupo de coureiros conseguia capturar uma grande quantidade de animais em um pequeno trecho de um rio.  

Classificados como animais de sangue frio (a temperatura corporal de um jacaré-do-pantanal oscila entre 25 e 30° C), esses répteis precisam se aquecer ao sol durante o dia para acelerar e regularizar o metabolismo. Durante o período da noite, quando a temperatura do ambiente cai, esses animais ficam altamente vulneráveis, uma fraqueza que sempre foi muito explorada pelos caçadores. Sob o facho das lanternas, os olhos dos jacarés refletem fortemente a luz, indicando a localização dos animais, que eram facilmente abatidos a bala e arrastados para as margens, onde o couro era rapidamente arrancado. Quando o dia amanhecia, era comum se encontrar centenas de carcaças de jacarés abandonadas nas margens dos rios ou boiando aleatoriamente nas águas. Curtumes clandestinos, especialmente do Paraguai e da Bolívia, compravam todo esse couro, que era processado e exportado para países da Europa, América do Norte e Ásia. 

A ação dos coureiros era muito facilitada pelo isolamento da região em relação ao restante do país e, particularmente, pela facilidade de se atravessar facilmente as fronteiras entre os países. Diferente de muitas fronteiras internacionais onde existem cercas e há um forte policiamento (a exemplo da fronteira entre os Estados Unidos e o México, e também as fronteiras do Estado de Israel), as fronteiras do Brasil são, literalmente, “portas abertas” – pessoas e produtos circulam praticamente sem qualquer controle, o que sempre facilitou todos os tipos de contrabandos, de entorpecentes a produtos eletrônicos, de armas de fogo a couros de jacarés. Para completar o quadro caótico, o número de policiais florestais trabalhando no Pantanal Mato-grossense sempre foi muito pequeno – enquanto houve uma forte demanda no mercado internacional pelo couro dos jacarés, coureiros de plantão vasculhavam todos os rios e recantos do bioma caçando os animais. 

Para a sorte de jacarés e crocodilos de todo o mundo, esse tipo de couro saiu de moda no final da década de 1980, o que reduziu imensamente a demanda e, consequentemente, a caça ilegal. Movimentos ambientalistas e de proteção à vida animal começaram a ganhar força em todo, impondo forte pressão na indústria da moda e lutando bravamente contra o uso de peles de animais no vestuário, o que também ajudou a salvar inúmeras outras espécies que vinham sendo caçadas por causa dos seus couros e peles. Os couros de espécies criadas comercialmente, como bovinos, caprinos e ovinos, passaram a receber estampas e texturas que imitavam os padrões de animais silvestres, sendo adotadas com “alegria” por indústrias engajadas com as novas tendências de um “mundo ambientalmente engajado”. 

Uma outra tendência que passou a ganhar espaço no mercado mundial foi a criação de espécies silvestres em cativeiro para o aproveitamento da carne e peles/couro. No Brasil, o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, vem autorizando a criação em cativeiro de algumas espécies silvestres desde a década de 1990. Um desses casos de grande sucesso é a criação de jacarés-do-pantanal em cativeiro. Existem hoje diversas “fazendas” e frigoríficos autorizados pelo Ibama para fazer o manejo e o abate da espécie, onde as empresas são obrigadas a seguir um rigoroso conjunto de normas ambientais. 

O processo começa com a coleta de ovos em ninhos dentro das propriedades, um procedimento que é controlado por softwares de georreferenciamento. Antes de se fazer essa coleta, são feitos estudos para se determinar a população local de jacarés – a coleta de ovos pode ocorrer no máximo em 5% dos ninhos dessa região, onde apenas 40% dos ovos podem ser coletados. Uma parte dos filhotes que nasce nas fazendas é devolvida ao meio ambiente. Graças à redução da caça e ao manejo dos animais nesses criadouros, a população de jacarés-do-pantanal voltou a crescer e está estimada atualmente em 10 milhões de animais. Além de couro processado, o Brasil também exporta legalmente carne de jacaré para vários países. 

Graças a grandes esforços internacionais, podemos afirmar que o jacaré-do-pantanal está, temporariamente, salvo da extinção. Porém todo o cuidado é pouco – sabe-se lá o que o futuro e a moda nos reservam. 

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