O “DESCONHECIDO” RIO GUAPORÉ

Forte Principe da Beira

Com mais de 1.500 km de extensão, o rio Guaporé nasce na Serra dos Parecis, no Estado de Mato Grosso, e corre, no sentido Norte, definindo a fronteira entre o Brasil e a Bolívia até atingir sua foz no rio Mamoré. Apesar do porte majestoso e da sua importância regional, o rio Guaporé é um ilustre desconhecido no resto do Brasil. Uma exceção a esta regra são os praticantes da pesca, que consideram o rio Guaporé como um dos melhores destinos turísticos para estes esportistas. 

Localizado, literalmente, nos confins do Brasil, o rio Guaporé foi mapeado pela primeira vez pela expedição do bandeirante Antônio Raposo Tavares, que entre 1648 e 1651, percorreu cerca de 10 mil km, saindo primeiro de São Paulo em direção ao Mato Grosso, atingindo depois as faldas da Cordilheira dos Andes no então Vice Reino do Peru, depois descendo em jangadas diversos rios da bacia do rio Amazonas, incluindo-se na lista os rios Guaporé, Mamoré, Madeira e Amazonas, até chegar na cidade de Belém do Pará. Essa grande expedição, ao que tudo indica, atendeu aos interesses geopolíticos de Portugal: Raposo Tavares havia viajado para Lisboa em 1647, onde foi encarregado de organizar esta missão exploratória dentro dos limites do território da Espanha, definidos pelo tratado de Tordesillas. Essa expedição, que ficou conhecida como a Bandeira dos Limites, foi fundamental para a consolidação atual do território brasileiro. 

Devido ao isolamento geográfico, o rio Guaporé ficou por muito tempo esquecido pelas autoridades da Colônia, especialmente por estar localizado dentro do território espanhol. Conforme já comentamos em postagem anterior, em 1494 foi assinado um tratado entre os Reinos de Portugal e Espanha que dividiu as terras recém descobertas no continente americano. O Tratado de Tordesillas criou um meridiano que atravessava o território brasileiro de Norte a Sul, tendo como referências as cidades de Belém do Pará, ao Norte, e Florianópolis, ao Sul. Pelo Tratado, praticamente toda a região Centro-Oeste e Norte faziam parte do território espanhol. Tratados posteriores como o de Madrid, assinado em 1750, e de Santo Ildefonso, assinado em 1777, redefiniram os antigos limites e o território do Brasil chegou, praticamente, ao tamanho atual. 

A primeira iniciativa de ocupação feita pelo Governo Colonial para o povoamento da região do rio Guaporé se deu em 1776, quando foi ordenada a construção do Real Forte Príncipe da Beira (vide foto). E esse súbito interesse não foi à toa: foram descobertas reservas de ouro ao longo do rio Guaporé e os administradores da Colônia, que viviam o auge da mineração de ouro na Região das Geraes, preferiram não correr riscos. As descobertas de ouro nesta região, porém, não foram as mais promissoras. O interesse pelo Guaporé só viria a ser reavivado na segunda metade do século XIX, durante o chamado Ciclo da Borracha, quando toda a produção local de látex era transportada através deste rio até a Guajará-Mirim e depois até Porto Velho, e dali transportada até Manaus pelo rio Madeira. Essa logística de transportes foi facilitada com a conclusão das obras da Ferrovia Madeira-Mamoré em 1912, praticamente no final do Ciclo da Borracha. Com a decadência da exploração do látex, a região do Rio Guaporé voltaria a um relativo isolamento. Em meados do século XX, após inúmeros projetos de colonização e de desenvolvimento agrário no Mato Grosso e em Rondônia, o rio Guaporé foi redescoberto. 

A primeira iniciativa para navegação no rio Guaporé coube à Guaporé Rubber Company, uma empresa de capital norte americano, criada para explorar o látex na Amazônia. A empresa recebeu autorização do Governo Federal para instalação na região em 1912. Foi somente em 1917, após a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que a empresa iniciou suas operações. A região Amazônica teve seus dias de glória entre 1850 e 1912, período em que foi a maior produtora e exportadora de látex do mundo. Esse apogeu ruiu no início do século XX com o início da produção de látex no Sudeste asiático. Sementes de seringueira foram contrabandeadas pelos ingleses em fins do século XIX e levadas para a Malásia, onde foram criadas grandes plantações e o látex passou a ser produzido em escala industrial, concorrendo com grande vantagem com a produção da Amazônia. Com o início da Grande Guerra, as autoridades americanas temiam a tomada das áreas produtoras na Malásia por alemães ou algum dos seus aliados e, por causa disto, tornaram a voltar suas atenções para o látex da região da Amazônia. 

A fim de escoar a sua produção, a Guaporé Rubber Company se associou com empresários locais e criou uma empresa de navegação, que cobria toda a área do rio Guaporé até a cidade de Guajará-Mirim, onde as cargas eram transferidas para a Ferrovia Madeira-Mamoré e transportadas até Porto Velho, de onde seguiam em barcas para Manaus. A empresa estendeu os serviços de navegação para o transporte de passageiros, atendendo populações das áreas ribeirinhas e ilhas do rio Guaporé. Em 1943, todos os serviços de navegação foram transferidos para o Governo Federal, sendo criada a Guaporé Serviços de Navegação. Com a criação do Estado de Rondônia em 1982, a empresa foi transferida para o Governo local e passou a ser chamada de Empresa de Navegação de Rondônia. Poucos anos depois, a empresa acabou falindo. 

O rio Guaporé é navegável desde Vila Bela da Santíssima Trindade, no Estado de Mato Grosso, até Guajará-Mirim, em Rondônia, num trecho total de 1.175 km. O rio Mamoré, onde o Guaporé faz sua foz, é navegável por um trecho de cerca de 400 km, o que permite a criação de uma hidrovia com mais de 1.500 km de águas navegáveis – a Hidrovia Guaporé-Mamoré. A partir da cidade de Guajará-Mirim, o rio Madeira, formado pela junção das águas dos rios Beni, Mamoré e Guaporé, tem um longo trecho com afloramentos rochosos, cachoeiras e corredeiras, o que impede a navegação. É justamente aqui que a antiga Ferrovia Madeira-Mamoré começa a fazer falta. 

Conforme apresentamos na postagem anterior, a Ferrovia Madeira-Mamoré fazia a ligação por terra entre as cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim, uma vez que a navegação no trecho inicial do rio Madeira não era possível. Inaugurada em 1912, a ferrovia funcionou até os primeiros anos da década de 1980, quando teve as atividades encerradas. Diferente de outras ferrovias brasileiras, que conseguiram manter seu patrimônio mesmo após o encerramento das atividades, os trilhos e praticamente todo o patrimônio da Ferrovia Madeira-Mamoré foi dilapidado e depredado pela população – o pouco que sobrou, está enferrujando no meio da mata. Para operar novamente, os cerca de 370 km de trilhos da antiga Ferrovia e todas as suas instalações precisariam ser reconstruídos, além de ser necessária a compra de novas locomotivas e vagões. 

Com a transformação do Brasil numa das grandes potências agrícolas do mundo e tendo o Estado de Mato Grosso na primeira posição na produção de grãos, todas as alternativas possíveis para o escoamento dessa produção devem ser buscadas – transportes rodoviários, ferroviários e hidroviários. O rio Guaporé, com águas navegáveis correndo ao lado de grandes áreas produtoras de grãos em Mato Grosso e em Rondônia, proporciona um potencial de navegação para o transporte de cargas nada desprezível, potencial este que pode ser estendido para áreas produtoras na Bolívia. 

Talvez, pensar em se reconstruir a Ferrovia Madeira-Mamoré para integrar os transportes entre as Hidrovias dos rios Guaporé-Mamoré e Madeira, não seja uma má ideia e sim um bom negócio.

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