JACARÉ-AÇÚ: O GIGANTE AMEAÇADO DOS RIOS DA AMAZÔNIA

Jacaré-açú

No ano de 2010, eu acompanhei uma história assustadora que aconteceu na cidade de Guajará-Mirim, no interior do Estado de Rondônia: um imenso jacaré-açú atacou uma menina de 11 anos na beira de um igarapé e, em seguida, mergulhou e desapareceu com a vítima. O local, uma área de banho, estava lotado e diversas testemunhas acompanharam o ataque do jacaré. Eu morava em Porto Velho na época e acompanhei apreensivo pelos telejornais locais, que apresentavam reportagens ao vivo a cada meia hora. 

Grupos de moradores da cidade, pescadores, ribeirinhos e bombeiros iniciaram buscas nas margens dos rios da região, que fica na fronteira do Brasil com a Bolívia e marca o ponto de encontro entre os rios Mamoré, Guaporé e Beni, formadores do rio Madeira. Depois de um dia de buscas, as equipes localizaram o corpo da menina – esses animais arrastam o corpo de suas vítimas para um esconderijo, onde poderão comê-las aos poucos, ao longo de vários dias. O jacaré foi localizado e abatido logo depois – o animal tinha 4,2 metros de comprimento e um peso calculado em 350 kg.  

O jacaré-açú (Melanosuchus niger), também conhecido como jacaré-negro, caimão-preto, jacaré-aruana e jacaré-gigante, é uma espécie exclusiva da América do Sul e que já foi muito abundante nos rios da Bacia Amazônica. É o maior membro da família dos jacarés, podendo atingir um comprimento de 4,5 metros e um peso da ordem de 300 kg. Existem relatos bastante consistentes de exploradores e cientistas de tempos passados que falavam de exemplares capturados que tinham mais de 6 metros de comprimento e peso da ordem de 500 kg. O jacaré-açu é um predador de topo de cadeia alimentar, atacando praticamente tudo o que encontrar em seu caminho, o que inclui peixes, anfíbios, aves, répteis (inclusive jiboias e sucuris), mamíferos de grande porte como onças, capivaras e antas, e, é claro, seres humanos. 

Um animal silvestre desse porte não fugiria do folclore das populações ribeirinhas e é personagem em uma infinidade de histórias fantásticas, que vão de barcas despedaçadas por golpes da cauda de um jacaré-açú à pescadores engolidos com canoa e tudo por espécimes exageradamente grandes. Um exemplo dos exageros dessas “histórias verídicas verdadeiras” é uma fake news que circulou nas redes sociais meses atrás, mostrando a suposta carcaça de um jacaré-açú, com cerca de 14 metros de comprimento, que foi encontrado morto na Ilha de Marajó, no Pará. A notícia afirmava que o animal tinha perto de 170 anos de idade e estaria envolvido no naufrágio de uma grande barca da região há cerca de 40 anos atrás. Um detalhe interessante da suposta “notícia” é que o animal que aparecia na foto, que tinha proporções bem avantajadas, era na verdade um crocodilo africano, um primo distante do jacaré-açú. 

Histórias e causos a parte, o tamanho dos jacarés-açú foi um dos principais responsáveis pelo desaparecimento da espécie em grande parte dos rios da Amazônia. Conforme comentamos na postagem anterior, a intensa caça de animais silvestres em todo o Brasil até poucas décadas atrás para obtenção de peles e couros para a exportação, levou diversas espécies à beira da extinção. Essa triste lista inclui felinos como onças-pintadas, jaguatiricas e gatos maracajás; veados, capivaras e antas, além de espécies aquáticas e semiaquáticas como peixes-boi, ariranhas, lontras, jiboias, sucuris e jacarés de diversas espécies. O couro escuro do jacaré-açu, que podia cobrir uma área com até 10 m² de superfície, estava entre as mais valorizadas do mercado mundial

De acordo com um detalhado estudo publicado por cientistas brasileiros na renomada revista Science Advances em 2016, entre 1904 e 1969, foram abatidos mais de 4,4 milhões de jacarés-açú em toda a Amazônia brasileira para aproveitamento do couro. Aqui, é importante lembrar que, até 1967, a caça de animais silvestres era legal no Brasil e os números apresentados se referem às quantidades de couro de jacaré exportados legalmente pelo país. Considerando-se os famosos descaminhos e jeitinhos, tão comuns em nosso dia a dia, é possível que os números reais sejam ainda maiores e mais dramáticos. 

Os rios e igarapés da Amazônia sempre foram os principais caminhos para o transporte de pessoas e cargas por toda a floresta e, por essa razão, os animais aquáticos e semiaquáticos sempre foram os mais perseguidos pelos caçadores. Aos números dramáticos de jacarés-açu abatidos nesse período, podemos acrescentar 100 mil peixes-boi, 386 mil ariranhas e 400 mil capivaras. Da fauna terrestre, foram 5,4 milhões de catetos, uma espécie de porco selvagem, 4 milhões de veados-mateiros, entre outras vítimas. Os números totais oficiais contabilizam 23 milhões de mamíferos e répteis silvestres abatidos entre 1904 e 1969, cujas peles e couros foram exportados

A origem dessa verdadeira carnificina animal foi o Ciclo da Borracha, que teve início em meados do século XIX e se estendeu até o início do século XX. O látex é uma seiva natural produzida pela seringueira ou árvore-da-borracha (Hevea brasiliensis), uma espécie típica da Floresta Amazônica, sendo um produto conhecido e utilizado pelos índios da região há milhares de anos. Em 1839, o inventor americano Charles Goodyear desenvolveu o processo conhecido como vulcanização, onde calor e pressão são aplicados em um composto a base de látex natural, que se transforma na borracha, um produto com inúmeras aplicações industriais. Essa invenção criou um gigantesco mercado para o látex – como detentor da maior reserva natural de seringueiras do mundo, o Brasil rapidamente passou a monopolizar a produção e exportação do produto, fazendo a fortuna de muita gente. 

Ao longo de várias décadas, dezenas de milhares de trabalhadores de todas as regiões do Brasil, especialmente de Estados da Região Nordeste, foram recrutados para trabalhar na exploração do látex na Floresta Amazônica. Os contratos de trabalho falavam de altos ganhos financeiros e inúmeros “benefícios”, que nunca chegaram nem perto de serem cumpridos – tratamos dessa trágica página de nossa história em uma série de postagens anteriores. A partir de 1912, o látex produzido em plantações de seringueiras do Sudeste Asiático passou a ser vendido no mercado mundial, derrubando o preço do produto Amazônico. Essas plantações foram formadas por empresários ingleses em territórios do antigo Império Britânico, onde foram usadas sementes de seringueira contrabandeadas da Floresta Amazônica. 

Com a decadência da indústria do látex, centenas de milhares de seringueiros passaram a ser aliciados por comerciantes de couros e peles, sendo rapidamente transformados em mortais caçadores. O conhecimento adquirido ao longo de vários anos em caminhadas pelo meio da floresta em busca das seringueiras foi fundamental na busca e abate dos animais em seus habitats naturais. As mesmas redes de navegação que eram usadas para o escoamento das pélas de borracha, passaram a ser usadas para a venda dos couros e peles, assim como para o transporte dos produtos para as grandes cidades da Amazônia, onde se encontravam os depósitos dos grandes comerciantes internacionais.

Cálculos atualizados afirmam que esse comércio internacional de couros e peles de animais silvestres da Amazônia movimentou aproximadamente US$ 500 milhões entre 1904 e 1969. É claro que a imensa maioria dessa fabulosa massa de recursos ficou na mão dos grandes comerciantes e intermediários – os caçadores, que faziam o trabalho sujo e insano nos confins da Floresta, ficaram com as migalhas. Passadas várias décadas dessa fase negra de nossa história, muitas das populações animais ainda não recuperaram suas antigas populações, especialmente as espécies aquáticas e semiaquáticas. 

Para sorte dos animais, o couro de jacaré saiu de moda no mercado internacional, o que desestimulou a caça. Grupos ambientalistas passaram a lutar nas últimas décadas contra o uso de peles de animais, o que está garantindo a sobrevivência de várias outras espécies caçadas. 

Os jacarés-açu, felizmente, já saíram da lista de espécies ameaçadas e, ao menos por enquanto, sobrevivem em recantos isolados da Floresta Amazônica. 

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