OS RATÕES E OS GABIRUS

Ratão-do-banhado

Há uns bons tempos atrás, eu voltava à noite para minha casa num ônibus urbano. Numa poltrona próxima, duas senhoras com um forte sotaque nordestino falavam sobre os problemas de sua comunidade. Eu não tenho o hábito de ficar escutando as conversas alheias, mas, naquele caso, era bastante difícil não acompanhar o curso do diálogo. A uma certa altura, uma das mulheres começou a falar sobre o tamanho dos gabirus que circulavam pelas vielas do bairro – alguns chegavam a ter “dois palmos de comprimento”, segundo a descrição. Gabiru, para quem não conhece, é o nome dado aos ratos de esgoto em alguns lugares da Região Nordeste. 

Nos meios urbanos encontramos, normalmente, três espécies de ratos: o rato preto ou de telhado (Rattus rattus), que se alimenta de restos de comida que são jogados no lixo e também de alimentos e rações servidas aos animais domésticos como cães e gatos; o rato cinza (Rattus norvegicus)também conhecido como ratazana e gabiru, que vive em esgotos e ao longo de córregos; e os camundongos (Mus domesticus), espécie de ratos pequenos, que vivem em residências e são oportunistas quanto a alimentação, atacando despensas, armários e latas de lixo. As três espécies são transmissoras de doenças e seres humanos tem, normalmente, aversão aos ratos. 

Os ratos cinzas ou gabirus são originários das estepes da Ásia Central e foram “domesticados” há milhares de anos pelos seres humanos. Os animais aprenderam a viver nas proximidades das vilas e fazendas, onde conseguiam encontrar restos de comidas e depósitos de grãos. As migrações humanas por todo o mundo antigo foram acompanhadas bem de perto pelos ratos, que passaram a viver nas valas de esgotos e canais de água das cidades.  Com o passar do tempo, outras espécies de ratos silvestres também passaram a viver nas cidades e encontraram seus respectivos nichos ecológicos. Com o início da era das grandes navegações, os ratos passaram a invadir os porões dos navios em busca de alimentos e assim foram espalhados por todo o mundo. 

Com a nossa precária infraestrutura de saneamento básico, onde grandes volumes de esgotos e lixo são lançados em rios e córregos, além de entulhos e resíduos sólidos de todo o tipo sendo descartados de forma irregular em terrenos baldios, nossas cidades acabaram sendo transformadas em verdadeiros paraísos para todas essas espécies de ratos e criaram fontes potenciais para a transmissão de inúmeras doenças. A leptospirose, citando um exemplo, é uma doença infecciosa transmitida pela bactéria do tipo Leptospira presente na urina de ratos, que encontra as condições ideais de propagação nos períodos de fortes chuvas, quando a população entra em contato com as águas de enxurradas e pontos de alagamentos. 

A bactéria Leptospira entra no corpo humano através da pele, pela boca e pelos olhos. Nos casos mais graves, a leptospirose provoca falência renal, meningite, falência hepática e deficiência respiratória, podendo até levar a morte. As enchentes também forçam os ratos a abandonar suas tocas, aumentando a possibilidade de aproximação com os seres humanos, o que pode resultar em ataques e mordidas. No passado, doenças transmitidas por ratos provocaram grandes epidemias e milhões de pessoas acabaram morrendo. Um grande exemplo foi a famosa Peste Negra, conhecida atualmente como peste bubônica, matou entre 75 e 200 milhões de pessoas (conforme a fonte consultada) na Ásia e Europa no século XIV. 

Na conversa que citei no início da postagem existe um detalhe importante, que muda um pouco o ritmo da “prosa” – uma das mulheres falou que em sua comunidade se avistavam “gabirus com dois palmos de comprimento”, um tamanho exagerado para um rato cinza, mas adequado para um ratão-do-banhado jovem. Essa é uma espécie de mamífero roedor da fauna brasileira, que era encontrada com abundância em rios de toda a Região Sul, além das regiões Sul e Leste do Estado de São Paulo. Os animais também são encontrados no Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai. 

O ratão-do-banhado (Myocastor coypus), também conhecido como caxingui, ratão-d’água e nútria, é um grande roedor da família dos miocastorídeos, que pode atingir até 1 metro de comprimento, onde se inclui a grande cauda. Possui uma grossa pelagem castanho-avermelhada, uma característica que tornou a espécie alvo de caçadores de peles, quase levando os ratões à extinção. São animais de hábitos noturnos e que se alimentam normalmente de capim, raízes e plantas aquáticas, não dispensando, conforme a oportunidade, carne, peixe e grãos. 

Os ratões-do-banhado são animais semiaquáticos, dotados de patas com membranas interdigitais, característica que torna a espécie uma grande nadadora. Em terra, os ratões-do-banhado caminham devagar e com bastante dificuldade. Os animais constroem suas tocas em matas nas beiras dos rios, onde se escondem e dormem durante a maior parte do dia. Esses animais possuem uma glândula no canto da boca que libera uma substância gordurosa, que é esfregada com as patas em todo o corpo – essa gordura deixa os pelos impermeáveis e permitem que o animal permaneça por longos períodos na água. Além dos seres humanos, os maiores predadores dos ratões na natureza são as onças e os jacarés. 

Uma característica marcante dos ratões-do-banhado é a cauda grossa e despida de pelagem, muito parecida com a cauda dos ratos cinza ou gabirus. Essa semelhança entre os ratões-do-banhado e os ratos de esgotos faz com que a espécie seja perseguida e morta por muita gente – filhotes desses ratões são confundidos com os ratos de esgotos e muitos acabam sendo mortos pelas populações ao andaram nas proximidades de núcleos habitacionais. Na cidade de São Paulo, citando um exemplo, ratões-do-banhado são encontrados vivendo nas margens dos poluídos rios Tietê e Pinheiros, e também ao longo das margens das represas Guarapiranga e Billings, áreas densamente povoadas da cidade e que colocam os animais frequentemente em contato com seres humanos e a riscos. 

A poluição das águas de rios e córregos e a destruição de habitats estão entre as principais causas da redução das populações, e até mesmo da extinção regional dos ratões em muitos lugares. Apesar de proibido, muitos ratões-do-banhado ainda são caçados por causa de sua vistosa pele e também para o consumo da carne, que muitos consideram uma iguaria. Décadas atrás, quando o uso de peles de animais pela indústria da moda estava em alta, ratões-do-banhado capturados vivos foram levados para países como Estados Unidos e Europa para tentativas de criação da espécie em cativeiro, como é feito com as chinchilas originárias dos Andes. Essa experiência acabou não sendo muito bem-sucedida e muitos ratões-do-banhado acabaram fugindo desses criatórios, invadindo florestas e rios desses países, e passando a competir com espécie locais como os castores norte-americanos e lontras europeias. 

Ao contrário do que pode sugerir o nome ou a semelhança com os ratos de esgoto, os ratões-do-banhado são animais bastante inofensivos, altamente sociáveis e conseguem conviver tranquilamente com os seres humanos e com animais domésticos, a exemplo de outros animais silvestres como as capivaras. Infelizmente, a vida desses animais, assim como de outras espécies aquáticas e semiaquáticas, não está sendo nada fácil. É preciso uma maior divulgação da espécie e de bons projetos de educação ambiental junto às populações. 

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