A PREOCUPANTE SITUAÇÃO DOS JACARÉS DA BARRA DA TIJUCA NO RIO DE JANEIRO

Jacarés da Barra da Tijuca

Na última postagem, contamos a história de Teimoso, o lendário jacaré que apareceu nadando nas poluídas águas do rio Tietê em São Paulo no início da década de 1990. A saga do animal mobilizou a opinião pública de toda a cidade e levou à criação de diversos programas de despoluição e de melhorias no rio. Foram mais de dois meses de buscas e tentativas para capturar o jacaré – ao final, foram capturados sete animais, que provavelmente foram soltos no rio por um criador clandestino. Os jacarés foram levados para o Parque Ecológico do Tietê. 

A história com final feliz de Teimoso e seus “irmãos” está muito longe do drama vivido por seus parentes que vivem na região do Complexo Lagunar de Jacarepaguá, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Com cerca de 280 km², o complexo é formado pelas Lagoas da Tijuca, Camorim, Jacarepaguá, e Marapendi. Essa região tem apresentado um forte crescimento imoobiliário nos últimos anos e possui uma população de mais de 400 mil habitantes. Centenas de condomínios e prédios residenciais foram construídos na região, confinando os grandes bandos de jacarés que habitavam as lagoas a espaços cada vez mais restritos. Especialistas calculam que, apenas no Complexo Lagunar de Jacarepaguá, vivam perto de 4 mil animais. Uma curiosidade – a palavra Jacarepaguá vem do tupi-guarani e significa, literalmente, “enseada ou lugar dos jacarés”.

Além dessa verdadeira invasão das antigas áreas alagadas por assentamentos humanos, os jacarés passaram a enfrentar sérios problemas com a poluição das águas. Como é usual nas cidades brasileiras, essa intensa urbanização não foi seguida pela criação de uma infraestrutura adequada de saneamento básico, especialmente do quesito coleta e tratamento de esgotos. Muitos condomínios até construíram estações próprias para o tratamento dos seus esgotos, mas faltam redes públicas para o transporte final dos efluentes; parte dos condomínios e edifícios, simplesmente lançam suas águas servidas diretamente nas lagoas. Com a alta concentração de matéria orgânica, as lagoas apresentam uma grande quantidade de microalgas e plantas aquáticas, além de uma baixa concentração de oxigênio dissolvido na água. Isso que reduz a disponibilidade de peixes e outros alimentos para os jacarés. O mal cheiro nas águas também é considerado insuportável pelos moradores dos imóveis localizados mais próximos dos corpos d’água. 

Outro problema ligado à falta de infraestrutura urbana na região são os alagamentos localizados provocados pela precária drenagem das águas pluviais. Com a formação de “pequenas” lagoas em ruas e canteiros das avenidas, não é incomum que jacarés ocupem temporariamente essas águas, assustando muitos moradores que passem distraídos pelo local. No último verão, um grande jacaré foi avistado numa imensa poça de água que se formou no canteiro central da Avenida Ayrton Senna, um dos principais acessos à Barra da Tijuca. Segundo os relatos de alguns motoristas, vários veículos passaram muito perto do jacaré. O Corpo de Bombeiros teve de ser chamado para resgatar esse animal. 

Os canteiros de obras de construções também acabam criando ambientes propícios ao acúmulo da água das chuvas e atração de jacarés. Foi o que aconteceu nos fundos de um grande shopping center na Barra da Tijuca no ano passado. No local começou a ser feito um aterro para a ampliação do estacionamento – porém, com a chegada do período das chuvas, a área ficou completamente alagada e foi invadida por um grupo de jacarés. A administração do shopping center foi obrigada a construir uma cerca de contenção, de forma a evitar que os animais invadissem os corredores do estabelecimento. Especialistas do Instituto Jacaré, uma ONG – Organização Não Governamental, que desenvolve estudos acadêmicos para a conservação e monitoramento de animais silvestres como o jacaré-do-papo-amarelo, foram chamados para capturar e transferir os animais para seu ambiente natural. Essa ONG já capturou e cadastrou mais de 400 jacarés na região. 

A abertura de toda uma rede de ruas e avenidas de acesso aos condomínios e edifícios também fragmentou os diferentes habitats, expondo os jacarés à riscos de atropelamento durante os seus deslocamentos. A visão de jacarés na beira das vias é frequente, momento em que muitos acabam agredidos por pedradas e pauladas por parte de alguns moradores da região – muitas dessas agressões partem de pessoas temerosas da presença dos animais nas proximidades de suas casas; grande parte das agressões, porém, é motivada por puro vandalismo. 

Essa alta concentração de jacarés em uma região relativamente pequena, tem criado cenas e situações incomuns. Num desses casos, um jacaré com cerca de 1,5 metro de comprimento foi encontrado nadando na piscina de um tradicional colégio da Barra da Tijuca. Uma funcionária do colégio se deparou com o animal enquanto trabalhava e precisou pedir ajuda para o Corpo de Bombeiros. O jacaré foi devolvido à natureza depois da captura. 

O jacaré-do-papo-amarelo (Caiman latirostris) é amplamente distribuído pelas bacias hidrográficas dos rios Paraná, Paraguai, Uruguai e São Francisco, além de ser encontrado em ecossistemas costeiros como os manguezais, estuários de rios e regiões lagunares, como é o caso da Barra da Tijuca. Em média, os jacarés dessa espécie têm cerca de 2,5 metros de comprimento, mas já foram encontrados espécimes com até 3,5 metros. Os animais adultos apresentam uma cor verde-oliva, que passa a uma cor quase negra conforme os animais ficam mais velhos; os filhotes apresentam uma cor em tons de marrom, com listas e pontos negros pelo corpo. Durante a fase de acasalamento, os animais costumam ficar com a região do papo amarelada, o que deu origem ao nome popular da espécie. De acordo com dados da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, os jacarés dessa espécie pesam entre 45 e 80 kg. 

A espécie é carnívora e se caracteriza por ter uma mordida extremamente forte, que pode partir o casco de uma tartaruga. Normalmente, os jacarés-do-papo-amarelo não costumam atacar seres humanos, exceto em situações onde o animal se sinta ameaçado. Muitos moradores da região tem insistido em fazer “selfies” próximas dos jacarés, casos que são preocupantes. Como são animais de sangue frio, os jacarés precisam ficar por longos períodos expostos ao sol. Nesses momentos, os animais costumam ficar imóveis, uma característica que acaba estimulando os mais corajosos a se aproximarem muito, o que pode assustar o jacaré e resultar em um ataque

Além dos jacarés, as águas do Complexo Lagunar de Jacarepaguá também são o habitat de capivaras, lontras, cágados, entre outras espécies nativas, que também sofrem os efeitos do avanço da mancha urbana e da poluição. Toda essa rica fauna, em conjunto, sofre de um outro mal, que está ficando cada vez mais frequente: a caça ilegal para o consumo de carnes “exóticas”, um hábito bastante arraigado em muitas comunidades dos subúrbios do Rio de Janeiro, que, infelizmente, tem avançado para alguns açougues e “boutiques” de carnes de algumas áreas nobres. Os caçadores costumam atacar à noite, período em que o metabolismo dos jacarés se reduz drasticamente, deixando os animais altamente vulneráveis. Além dos evidentes crimes ambientais que são a caça de animais silvestres e a comercialização de suas carnes, os eventuais consumidores poderão estar se expondo a toda uma série de doenças e contaminantes tóxicos presentes nas águas de todo o Complexo Lagunar. 

Apesar da aparente abundância de jacarés na região, a situação que se apresenta é insustentável no longo prazo, podendo levar a extinção da espécie dentro de algumas décadas. A se manter o crescimento desordenado da cidade do Rio de Janeiro na direção da região da Barra da Tijuca e prossigam os despejos de quantidades cada vez maiores de esgotos nas águas das lagoas, não tardará para toda a região se transformar em um simples depósito de águas sujas e sem vida, uma paisagem muito conhecida em várias das grandes cidades do Brasil. 

One Comment

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s