O DESAPARECIMENTO DE ESPÉCIES DE ANFÍBIOS EM TODO O MUNDO

Sapo

Vamos começar a postagem de hoje com um pouco de poesia: 

Enfunando os papos,  
Saem da penumbra,  
Aos pulos, os sapos.  
A luz os deslumbra.  
 
Em ronco que aterra,  
Berra o sapo-boi:  
– “Meu pai foi à guerra!”  
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”. 

Esses são os versos iniciais da antológica poesia Os Sapos, uma das obras primas do pernambucano Manoel Bandeira, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. A poesia foi escrita em 1919 e foi lida num das sessões da Semana de Arte Moderna de 1922. Manoel Bandeira foi convidado a participar do evento, mas não pode comparecer devido a problemas de saúde. Com uma linguagem bem popular e muita ironia, o modernista Bandeira se opôs ao rigor gramatical e ao preciosismo linguístico dos poetas tradicionalistas – os parnasianos. Vale a pena ler a poesia completa. 

Começamos com essa alegre poesia como uma introdução a um tema árido – anfíbios de todo o mundo, como nenhuma outra classe animal, são os que mais estão sofrendo com os efeitos do aquecimento global e da degradação da qualidade das águas. A classe dos Anfíbios inclui animais vertebrados como sapos (vide foto), rãs, pererecas, salamandras e cobras-cegas, que vivem entre o meio aquático e o ambiente terrestre. Geralmente, esses animais nascem e passam sua fase inicial da vida dentro da água, passando depois a viver em ambientes terrestres próximos aos corpos d’água. Esses animais normalmente têm uma pele sensível, que precisa ser mantida constantemente úmida. Os sapos costumam ter uma pele mais resistente e seca, o que lhes dá uma maior autonomia em ambientes terrestres. 

Os anfíbios foram os primeiros animais terrestres, tendo evoluído a partir de peixes pulmonados há cerca de 350 milhões de anos atrás. Como herança dessa história evolutiva, os anfíbios tem o seu ciclo de vida dividido em duas fases – uma fase inicial aquática e uma fase terrestre quando adultos. Uma das formas mais comuns de reprodução dos anfíbios (existem cerca de 6 mil espécies de anfíbios com 39 formas diferentes de reprodução), as fêmeas depositam os seus ovos em ambientes aquáticos lênticos (de águas paradas em rios e lagoas), sobre plantas e pedras. Esses ovos são protegidos por uma camada de material gelatinoso. A fecundação dos ovos é feita por jatos de esperma lançados pelos machos. Após o período de incubação, os filhotes eclodem na forma de girinos, formas de vida completamente adaptadas para uma vida aquática, dotadas de guelras e nadadeiras. 

Conforme esses animais vão crescendo, seus corpos passam por um processo de metamorfose, onde surgem as mudanças físicas que determinarão os ambientes onde viverão em sua fase adulta. Sapos e rãs, que pertencem à ordem Anura (sem cauda), desenvolverão patas e pulmões; já as salamandras (ordem Urodela), desenvolverão um corpo com cauda semelhante ao dos lagartos. Os anfíbios da ordem Gymnophiora não possuem patas, como é o caso das chamadas cobras-cegas. Os anfíbios estão presentes nos mais diferentes tipos de ambientes terrestres, inclusive com algumas espécies adaptadas para a vida em regiões desérticas como o sapo do rio Colorado (Bufo Alvarius), uma espécie que vive no Deserto de Sonora, entre os Estados Unidos e o México. A maioria dos anfíbios, entretanto, prefere ambientes chuvosos e úmidos como as florestas. 

Os anfíbios são extremamente sensíveis às mudanças ambientais e são considerados importantes bioindicadores das condições físicas de um ecossistema. Com a destruição de áreas florestais e/ou a partir da elevação da temperatura de uma região, os anfíbios são o primeiro grupo de animais a ser impactados, apresentando redução ou extinção de populações. Com a intensa derrubada de florestas em todo o mundo e com os efeitos do aquecimento global, centenas de espécies de anfíbios correm sérios riscos de extinção. A situação desses animais fica ainda mais crítica devido a intensa poluição e degradação de rios, lagos e represas. 

Os anfíbios desempenham um importante papel dentro da cadeia alimentar de um ecossistema. Esses animais tem nos insetos uma importante fonte de alimentação, ajudando a controlar suas populações. Um destaque importante aqui se dá no controle das populações de mosquitos, insetos transmissores de uma série de doenças aos seres humanos – destacamos aqui o mosquito Aedes Aegypt, transmissor de doenças como a Dengue, a Zica e a Chikungunya. A predação aqui começa com os anfíbios na fase aquática, quando as pupas dos mosquitos são uma ótima fonte de proteína para os jovens.  

Na sua fase adulta, sapos, rãs e pererecas usam a sua língua pegajosa para capturar os mosquitos em voo. Os anfíbios também fazem o papel de presas para uma infinidade de répteis, mamíferos e aves. O súbito desaparecimento ou a redução da população de uma espécie de anfíbios provoca um efeito cascata nas populações de presas como os insetos, que podem aumentar exponencialmente, e também no grupo dos predadores, que perdem uma importante fonte de alimentos. 

Muitas das espécies de anfíbios produzem substâncias venenosas, usadas pelos animais na sua defesa contra predadores. Os seres humanos descobriram a importância de muitas dessas substâncias desde a antiguidade – esses venenos eram usados em pontas de flechas e de lanças, atiradas contra presas e inimigos. Muitas tribos indígenas de todo o mundo ainda se valem dessas substâncias. Em nossos tempos, muitas dessas substâncias têm demonstrado uma grande importância na indústria química-farmacêutica, que tem desenvolvido uma enorme gama de medicamentos derivados dessas substâncias naturais. A extinção em massa de anfíbios em todo o mundo poderá representar uma enorme perda nesses esforços de busca por novos medicamentos e cura de muitas doenças que assolam a humanidade. 

Muitos dos leitores talvez tenham lembranças de tempos antigos, onde era fácil encontrar córregos e pequenos cursos d’água nas cidades, cheios de girinos e pequenos peixes. Na minha infância aqui na cidade de São Paulo, caçar esses pequenos animais era uma das diversões das crianças do meu bairro – existiam dezenas de “minas” e córregos com águas limpas por todos os lados. Com o crescimento da cidade, com a sistemática canalização de cursos d’água e com o aumento da poluição das águas, esses animais simplesmente desapareceram da mancha urbana. A última vez que vi um sapo perdido andando nas ruas da vizinhança foi há mais de 30 anos – em fragmentos de mata que sobraram em algumas regiões e em parques da cidade ainda é possível encontrar alguns remanescentes dessas antigas populações de anfíbios paulistanos. 

Além de todo o empobrecimento ambiental direto, a redução ou desaparecimento dos anfíbios também empobrece a vida de todos nós – a sinfonia noturna feita por esses animais nos rios e lagoas sempre foi um elemento importante na vida das populações humanas de todo o mundo, com forte prença na cultura e no folclore. Manuel Bandeira e seus Sapos que o digam…

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