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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

A CONTAMINAÇÃO DOS RIOS DA TERRA INDÍGENA IANOMÂMI PELO MERCÚRIO DOS GARIMPOS ILEGAIS

A Amazônia voltou a ser destaque na mídia internacional nesses últimos dias. Conforme apresentamos na postagem anterior, um jornalista inglês, Dom Phillips, e um indigenista brasileiro, Bruno Araújo, estão desaparecidos desde o último dia 5 – os dois foram vistos pela última vez num trecho do rio Javari, no Estado do Amazonas. 

O desaparecimento foi comunicado ao MPF – Ministério Público Federal no dia 6 de junho, pela UNIVAJA – União dos Povos do Vale do Javari e pelo OPI – Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato. Essa notícia está correndo o mundo. 

Outra notícia divulgada recentemente e que, com toda a certeza, também vai dar o que falar, diz respeito a contaminação de rios na Terra Indígena Ianomâmi, no Estado de Roraima. Segundo um laudo da Polícia Federal, quatro rios que cortam a região apresentam níveis de contaminação por mercúrio com valores 8.600% acima do máximo estipulado para o consumo humano das águas

No caso de águas que serão destinadas a irrigação de culturas arbóreas, cerealífera, forrageiras, pesca amadora e navegação, as amostras coletadas apresentaram um teor de mercúrio até 860% acima do máximo permitido pela legislação. Nos dois casos, essa contaminação é simplesmente assustadora. 

As amostras de água foram coletadas nos rios Couto de Magalhães, Catrimani, Parima e Uraricoera e fazem parte de uma investigação da Polícia Federal sobre a presença de garimpeiros ilegais dentro da Terra Indígena Ianomâmi. 

Segundo um estudo feito em 2016, pela Fundação Oswaldo Cruz em comunidades indígenas vizinhas do rio Uraricoera, os moradores já apresentavam altos níveis de mercúrio no organismo, com 92,3% de contaminação. 

Entre os anos de 2018 e 2021, a Polícia Federal já havia identificado um aumento das áreas afetadas por mercúrio na região. Na mesma área do rio Uraricoera, que é uma das mais impactadas pelo garimpo ilegal, houve um aumento de 505% no número de garimpos. A Terra Indígena Ianomâmi vive a maior onda de devastação dos últimos 30 anos – somente no último ano, houve um aumento de 46% na degradação florestal. 

Os Ianomâmis (ou Yanomâmis) são um dos povos indígenas mais antigos da América do Sul e se espalham por um extenso território entre o Extremo Norte do Brasil e o Sul da Venezuela. São cerca de 35 mil indígenas distribuídos em cerca de 350 comunidades nos dois países. No Brasil, esse povo conta com cerca de 15 mil indivíduos distribuídos numa faixa de terras entre o Noroeste de Roraima e Norte do Amazonas.  

No total, o território dos Ianomâmis tem uma área de 192 mil km2, uma área pouca coisa menor que o território do Estado brasileiro do Paraná ou de toda a Grã-Bretanha. Isso nos dá uma ideia da enorme dificuldade das autoridades para controlar a entrada e saída de pessoas nesse território, um problema que se complica devido ao caráter binacional da área. Garimpeiros e madeireiros se aproveitam dessa dificuldade de fiscalização e invadem constantemente a terra indígena. 

Em uma postagem publicada em julho de 2021, já alertávamos sobre a invasão das terras ianomâmis no lado da Venezuela por garimpeiros daquele país. Como é do conhecimento de todos, a Venezuela está vivendo uma gravíssima crise econômica e social já há vários anos. 

A Venezuela é dona das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e até poucos anos atrás era o país mais rico da América do Sul. Com a ascensão de Hugo Chaves ao poder em 1999, e com a implantação de sua Revolução Bolivariana, o país entrou num ciclo contínuo de decadência econômica e social. Estudos indicam que mais de 94% da população do país está vivendo abaixo do limite da pobreza, com uma renda inferior a US$ 3,20 ao dia. 

A base da economia da Venezuela era a exploração do petróleo, atividade que entrou em colapso – a produção caiu de 4 milhões de barris/dia no início da década de 1990 para os atuais pouco mais de 300 mil barris/dia. Em busca de alternativas econômicas, o Governo da Venezuela criou um grande programa de exploração mineral denominado Arco Mineiro do Orinoco

Estimativas indicam a existência de cerca de 200 mil pessoas trabalhando em mais de 2 mil pontos de “mineração legalizada” dentro do trecho venezuelano da Amazônia. Parte desses “mineradores” estão trabalhando dentro do território ianomâmi da Venezuela. 

Dentro do território brasileiro a situação não é tão crítica quanto na Venezuela, mas existem inúmeros grupos de garimpeiros e de madeireiros instalados dentro da área indígena. Esses invasores se valem do grande isolamento da região e das dificuldades para a fiscalização de uma área tão grande. 

O garimpo ilegal do ouro é uma das atividades mais devastadoras do meio ambiente. Além do uso de grandes quantidades de mercúrio, elemento que é usado para separar o ouro de outros minerais e sobre o qual já tratamos em postagens anteriores, o pacote inclui a devastação da cobertura florestal, instalação de dragas no leito e nas margens dos rios, prostituição de mulheres indígenas, transmissão de doenças, confrontos e mortes de indígenas, torturas e muita violência.  

A comercialização desse ouro explorado ilegalmente movimenta verdadeiras fortunas e se vale de uma enorme rede de intermediários onde se incluem, contrabandistas de toda ordem, madeireiros, traficantes de drogas, políticos e “muita gente graúda” dos dois lados da fronteira. Essas pessoas não estão nenhum pouco preocupadas com a contaminação das águas dos rios ou com a saúde de indígenas. 

Muito provavelmente, o desaparecimento do jornalista inglês e do indigenista brasileiro no vale do rio Javari está ligado a confrontos com pessoas desse mesmo naipe, o que demonstra como é difícil se falar na preservação da Amazônia e dos direitos das nações indígenas. 

O DESAPARECIMENTO DE UM JORNALISTA INGLÊS E DE UM INDIGENISTA BRASILEIRO NA AMAZÔNIA 

Uma notícia preocupante e que pode ter sérias repercussões internacionais: o jornalista inglês Dom Phillips (a esquerda na foto) e o indigenista brasileiro Bruno Araújo estão desaparecidos desde o último dia 5. Os dois foram vistos pela última vez no vale do rio Javari, no Estado do Amazonas. Essa região fica próxima da fronteira com o Peru. 

O desaparecimento foi comunicado ao MPF – Ministério Público Federal, na manhã dessa segunda-feira, dia 6 de junho, pela UNIVAJA – União dos Povos do Vale do Javari e pelo OPI – Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato. De acordo com as informações, Phillips e Araújo desapareceram no percurso entre a comunidade São Rafael e o município de Atalaia do Norte. 

Em nota publicada, o MPF informou que fará a intermediação das operações de busca com o objetivo de “solucionar o caso o mais rápido possível”. A Marinha do Brasil foi encarregada da investigação contando com a participação da Polícia Federal, Polícia Civil do Amazonas, Força Nacional, FUNAI – Fundação Nacional do Índio, e Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari. 

De acordo com o relato de membros da UNIVAJA e do OPI, os dois viajantes haviam recebido “ameaças em campo” durante uma visita. As entidades afirmaram também que vários técnicos de suas equipes já haviam sofrido ameaças nessa região, fatos que já haviam sido comunicados oficialmente à Polícia Federal, ao MPF, ao Conselho Nacional de Direitos Humanos e também à entidade Indigenous Peoples Rights International. 

O jornalista Dom Phillips mora em Salvador há quinze anos e trabalha como correspondente do jornal britânico The Guardian., Também faz reportagens para veículos como Washington Post, New York Times e Financial Times. Ele estava viajando pela Amazônia para coletar depoimentos para um livro sobre meio ambiente que está escrevendo. Segundo o relato várias organizações sociais, ele era frequentemente ameaçado por seu trabalho em defesa das populações. 

O indigenista Bruno Araújo é servidor da FUNAI e já havia trabalhado como coordenador regional do órgão em Atalaia do Norte, sendo um profundo conhecedor da região. Devido ao seu trabalho, o indigenista sofria constante ameaças de madeireiros, garimpeiros e pescadores ilegais que atuam no Vale do Javari. A FUNAI informou que o servidor estava em seu período de férias e que realiza a viagem sem qualquer caráter oficial.

Phillips e Pereira seguiram no dia 3 de junho, até um posto de vigilância indígena próximo da localidade conhecida como Lago do Jaburu, onde solicitaram autorização para visitar as comunidades e entrevistar os indígenas. Os dois deveriam regressar para Atalaia do Norte no dia 5, porém, consta que fizeram uma parada na comunidade ribeirinha São Rafael para visitar o líder comunitário conhecido como “Churrasco”. 

Segundo o que já foi apurado, os dois viajantes chegaram na comunidade as 6 horas, mas o líder comunitário não se encontrava no local. Após uma rápida conversa com a esposa do líder, os dois seguiram rumo a Atalaia do Norte, um percurso que dura aproximadamente 2 duas horas. Os dois desapareceram em algum lugar desse percurso. 

O desaparecimento desses dois homens ocorre num momento delicado para o Governo Brasileiro. O Presidente Jair Bolsonaro foi convidado a participar da Cúpula das Américas, nos Estados Unidos, onde certamente será cobrado por ações mais amplas para a preservação da Floresta Amazônica.  

O verão amazônico ou o período da seca está começando na região Norte do Brasil. Como acontece todos os anos, essa é uma época em que as queimadas na Amazônia ganham destaque em veículos de comunicação em todo o mundo. O desparecimento de um jornalista inglês que escreve sobre os nossos problemas ambientais e que que trabalha para órgãos de imprensa norte-americanos certamente vai ampliar a exposição dos problemas e, fatalmente, trará sérios constrangimentos para o mandatário brasileiro junto aos demais líderes políticos das Américas. 

Todos os órgãos públicos envolvidos na investigação desse desaparecimento receberam instruções para que se dediquem ao máximo para elucidar rapidamente essa complicada questão. 

O caso é difícil, mas vamos torcer por boas notícias. 

A AGROPECUÁRIA BRASILEIRA É MESMO UMA DESTRUIDORA DO MEIO AMBIENTE? 

O nosso mundo está vivendo duas grandes crises neste momento: uma energética e outra de alimentos. Você, caro leitor, pode até não se interessar por economia e relações internacionais, mas, com toda a certeza, já sentiu essa crise no seu bolso, seja colocando combustível no seu automóvel, seja indo fazer compras num supermercado. 

A crise energética tem parte de sua origem na pandemia da Covid-19. Com as inúmeras restrições à circulação de pessoas a partir de 2020, a economia da imensa maioria dos países entrou num ciclo de resfriamento, o que por sua vez levou a uma redução da produção de petróleo, gás e carvão mineral. 

Nos últimos meses, com a retomada de muitas das atividades econômicas, começou a faltar combustíveis de forma quase que generalizada, pressão que levou a um aumento dos preços. Essa crise foi agravada em fevereiro último, data do início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Só para lembrar, a Rússia é um dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás

O conflito entre russos e ucranianos também acertou em cheio a segurança alimentar de muita gente. Ambos os países são grandes produtores de alimentos – falando apenas do trigo, Rússia e Ucrânia respondem por 1/3 da produção mundial. Essa é uma crise que está apenas começando

E quais estão sendo os desdobramentos? 

Dias atrás, conforme publicamos em postagem aqui no blog, o Governo alemão autorizou a derrubada de uma floresta com cerca de 12 mil anos para permitir a exploração de lignite ou carvão marrom, um combustível fóssil essencial neste momento. A Alemanha possui uma extrema dependência do gás russo e está buscando fontes alternativas de energia. 

Outra notícia nessa mesma linha – o Partido Verde da Finlândia decidiu apoiar o uso da energia nuclear no país, geração que já responde por 35% da energia da Finlândia. Os “verdes” finlandeses sempre se opuseram ao uso desse tipo de energia. Uma pesquisa recente mostrou que 74% dos cidadãos apoiam o uso dessa energia, algo que, muito provavelmente, levou o partido a mudar de lado. 

Outra notícia que comentamos aqui no blog foi uma decisão do Governo norte-americano que passou a permitir o uso agrícola de áreas de proteção ambiental em fazendas. Essa é uma decisão provisória e tem como principal objetivo estimular o aumento da produção de alimentos no país. Vários países europeus também estão fazendo “vista grossa” a algumas restrições ambientais e liberando a produção agrícola com o mesmo objetivo. 

Aqui chegamos ao ponto do nosso interesse – o Brasil vem sendo acusado já há muito tempo de estimular a destruição de florestas a fim de aumentar as fronteiras agrícolas e a produção agropecuária. Um exemplo que demonstra claramente esse discurso é a resistência de muitos países europeus a assinar um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.  

Mas, até que ponto essa conversa é verdadeira? 

Segundo estudos realizados pela EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, através da unidade EMBRAPA Territorial, a área total destinada à preservação ambiental no Brasil equivale a 66,3% do território do Brasil. As áreas destinadas a agropecuária equivalem a 30,2% do território. Outros 3,5% são ocupados por infraestruturas como cidades, rodovias, etc. 

Um dado interessante desses estudos, e que ajuda a responder a nossa pergunta, indica que metade das áreas protegidas ficam dentro de propriedades rurais – ou seja, essas áreas são preservadas pelos produtores rurais brasileiros. São 2.471 áreas já decretadas em unidades de conservação e terras indígenas e que alcançam a impressionante marca de 2.584.808 km2, área pouco menor que o território da Argentina. 

Para efeito de comparação, os Estados Unidos destinam 74,3% do seu território para usos agropecuários e apenas 19,9% como áreas de conservação ambiental. Os dez maiores países do mundo destinam, em média, 11% do seu território para fins de proteção ambiental. Ou seja, as áreas protegidas aqui no Brasil correspondem a três vezes a média dos grandes países do mundo. 

Os pesquisadores da EMBRAPA usaram como base para os estudos o CAR – Cadastro Ambiental Rural, base de dados onde são encontrados os mapas de áreas preservadas de 5.992.323 imóveis rurais de todo o Brasil. 

Além da proteção física das áreas naturais, a agropecuária brasileira também possui uma série de programas voltados à redução das emissões de carbono. Destacam-se os programas Carne Carbono Neutro, Soja Baixo Carbono e Leite “Net Zero”, todos com a participação da EMBRAPA. Esses programas visam o uso de tecnologias que permitam uma redução significativa das emissões de gases de efeito estufa. 

Outro exemplo de uma sustentabilidade ambiental cada vez maior da agropecuária brasileira é a busca por insumos que permitam a redução da necessidade do uso de fertilizantes nos campos. Um exemplo é o do bioinsumo Biomaphos, um inoculante para uso na cultura do milho que permite substituir ou reduzir em até 50% a aplicação de fertilizantes fosfatados. 

Dentro do campo da energia, a agricultura brasileira também dá uma grande contribuição ao meio ambiente – o setor produz cerca de 1,6 bilhão de litros de etanol a cada ano, um combustível renovável e de baixa emissão de poluentes. Existem mais de 30 milhões de veículos com motor flex rodando pelas ruas e estradas do país que podem usar esse combustível. 

Só para completar o quadro, mais de 80% da matriz energética brasileira vem de fontes renováveis como a energia hidrelétrica (que responde sozinha por 70% da geração do país), além dos sistemas eólicos e fotovoltaicos que estão em franco crescimento no país. 

Juntando todos esses dados, podemos afirmar que nossa agropecuária é uma das mais sustentáveis do mundo, talvez até a mais sustentável do planeta. Isto apesar dos discursos contrários de muitos líderes mundiais, artistas e celebridades. 

UM RESUMO DOS ESTRAGOS CAUSADOS PELAS CHUVAS EM 2022 

As fortes chuvas que caem em toda a faixa Leste dos Estados nordestinos causaram grandes estragos em Pernambuco ao longo dessa semana. De acordo com as informações oficias, ontem foi localizado o corpo da última vítima conhecida da tragédia – no total, foram contabilizados 128 mortos na Região Metropolitana do Recife, a maioria vítima de deslizamentos de encostas de morros. 

No total, as fortes chuvas colocaram 34 cidades de Pernambuco em situação de emergência (vide foto), deixando 9.032 desabrigados. Na longa história local de problemas com chuvas e enchentes, esse último evento já está sendo considerado o segundo maior desastre natural da história de Pernambuco. 

Essa tragédia em Pernambuco vem se juntar a uma série de outras ocorridas ao longo desse ano em todo o Brasil. De acordo com reportagem publicada hoje, onde foi feita uma contabilidade geral de casos semelhantes em todo o Brasil até o final do mês de maio de 2022, as chuvas desabrigaram ao menos 37.938 pessoas em 22 Estados brasileiros neste ano

No total, 1.530.494 pessoas foram prejudicadas diretamente pelas chuvas em 502 municípios do país. Desse total, 138 municípios tiveram seus decretos de emergência ou de calamidade pública reconhecidos pelo Governo Federal. Os dados são oficiais e foram retirados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastre do Ministério do Desenvolvimento Regional. 

Os números poderiam ser até piores caso as vítimas das fortes enchentes registradas na Bahia nos primeiros dias de 2022, tivessem sido incluídas nas estatísticas. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional, essas vítimas foram incluídas nos dados de 2021, uma vez que as chuvas atingiram o Estado em dezembro do ano passado. 

O Estados mais afetados pelas chuvas ficam nas Regiões Norte e Nordeste, onde se destacam Pará, Amazonas e Maranhão. Na Região, Minas Gerais ocupa a primeira posição entre os mais atingidos.  

O número total de mortos associados diretamente às chuvas está subnotificado nessa base de dados, onde aparecem apenas 36 mortes. De acordo com um levantamento feito pela CNM – Confederação Nacional dos Municípios, já ocorreram pelo menos 457 mortes em 2022. Esse número equivale a ¼ do número total de mortes associadas as chuvas nos últimos 10 anos

Os dados indicam que, em todas as regiões afetadas pelas fortes chuvas, o perfil das vítimas é sempre o mesmo – pessoas pobres que moravam em áreas de risco. Além das vítimas recentes em Pernambuco, podemos citar os exemplos de cidades da Região Metropolitana de São Paulo e de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. 

No início do último mês de fevereiro, a Região Metropolitana de São Paulo foi atingida por fortes chuvas. Ao menos 18 pessoas morreram por causa do desmoronamento de encostas de morros nas cidades de Franco da Rocha e Francisco Morato. Em Petrópolis, tragédia semelhante fez ao menos outras 128 vítimas fatais em meados de fevereiro. 

A falta crônica de programas de construção de moradias populares em todo o Brasil empurra um número cada vez maior de famílias pobres para as áreas periféricas das cidades. Nessas regiões é possível encontrar terrenos baratos em áreas próximas das margens de rios e córregos e também nas encostas acidentadas de morros. Em muitos casos, esses terrenos acabam sendo invadidos. 

Falando a grosso modo, essas regiões deveriam ser consideradas como áreas de proteção ambiental pelas Prefeituras e protegidas de qualquer tipo de ocupação a qualquer custo. Áreas de várzeas são fundamentais para o controle das enchentes nos períodos das chuvas e encostas de morros precisam manter sua cobertura vegetal original para evitar desmoronamentos. 

Infelizmente, não é o que ocorre na prática. Basta uma volta rápida por qualquer cidade média ou grande do país para se constatar a forte ocupação dessas regiões por famílias de baixa renda. Quando chegam as inevitáveis chuvas de verão, as mesmas tragédias se repetem nessas cidades. 

De acordo com um levantamento feito em fevereiro de 2022, pelo CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, existem cerca de 9,5 milhões de pessoas morando em área de risco em todo o Brasil, número que mostra claramente o potencial para a ocorrência de grandes tragédias em nosso país. 

Como sempre repetimos em nossas postagens, fortes chuvas na temporada de verão em um país com climas predominantemente equatorial e tropical como é o caso do Brasil ocorrerão naturalmente ano após ano. Logo, não pode haver desculpas das autoridades de todos os níveis de Governo para a implementação de políticas habitacionais que evitem a ocupação de áreas de risco. 

Sem uma forte pressão popular sobre Prefeitos e Governadores, além de autoridades do Governo Federal, essas tragédias vão continuar nos anos vindouros. Aliás, com o avanço das mudanças climáticas em todo o planeta existe a possibilidade das chuvas e das tragédias aumentarem ainda mais ao longo dos próximos anos.  

Ou resolvemos esses problemas de uma vez por todas agora ou teremos de nos conformar com números de vítimas cada vez maiores nos próximos anos. As soluções podem até não vir, mas as fortes chuvas, com toda a certeza, virão! 

EXPERIMENTO MOSTRA QUE É POSSÍVEL PRODUZIR HIDROGÊNIO USANDO A ENERGIA DA LUZ 

Nas velhas aulas de química no ensino fundamental todos nós aprendemos que a molécula da água é formada por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio, o que resulta na fórmula H2O. Um dos experimentos mais legais que lembro de ter feito naqueles tempos foi separar esses dois elementos por meio da eletrolise. Pesquise sobre isso – é muito legal! 

Nesse experimento, os gases resultantes da eletrólise ficavam presos em tubos de ensaio. No tubo onde se encontrava o oxigênio, o professor colocava um fósforo aceso – a chama aumentava nitidamente (o fogo é uma reação química que depende do oxigênio). No tubo com hidrogênio, o professor fazia uma pequena manobra e víamos uma pequena nuvem queimando na boca do tubo de ensaio. 

A combustão do hidrogênio é bastante conhecida e tem inúmeras aplicações em nosso dia a dia. É muito comum, por exemplo, encontrarmos cilindros de hidrogênio em oficinas mecânicas – o cilindro é acoplado a um maçarico através de uma mangueira e a chama criada é usada na soldagem de peças metálicas. 

Em anos mais recentes, o uso do hidrogênio como um combustível verde vem atraindo a atenção de empresas e de pesquisadores. O hidrogênio poder ser queimado diretamente em um motor ou pode ser usado em uma célula de combustível para gerar eletricidade. A foto que ilustra esta postagem mostra um veículo experimental que utiliza célula de hidrogênio.

Apesar de ser um combustível ecologicamente correto, a produção do hidrogênio é cara e “suja” do ponto de vista ambiental. A maior parte do hidrogênio usado no mundo atualmente é produzido a partir da reforma do gás natural, um processo que libera resíduos. 

Acaba de surgir uma “luz” no fim do túnel, que poderá revolucionar a produção e o uso desse combustível: cientistas da Universidade de Tecnologia de Viena, na Áustria, desenvolveram uma tecnologia que permite a separação fotocatalítica do hidrogênio da água. Ou seja – será possível produzir hidrogênio a partir da luz do sol ou de qualquer outra fonte artificial. 

A solução encontrada pelos cientistas foi a criação de catalisadores de baixo que conseguem quebrar as moléculas da água usando a luz como fonte de energia, separando o hidrogênio e o oxigênio. Além da quebra da molécula, o processo também requer a transformação dos átomos de oxigênio em gás – o O2, e os íons de hidrogênio restantes no gás – H2

Esses catalisadores foram feitos usando nanopartículas inorgânicas, formadas por apenas alguns átomos, ancoradas em uma superfície de suporte contendo materiais absorvedores de luz, como o óxido de titânio. As nanopartículas que realizam a oxidação do oxigênio são compostas de cobalto, tungstênio e oxigênio. No caso do hidrogênio, as nanopartículas utilizam enxofre e molibdênio. 

De acordo com Alexey Cherevan, um dos cientistas responsáveis pelo experimento, “o óxido de titânio é sensível à luz, isso já era bem conhecido. A energia da luz absorvida leva à criação de elétrons livres e cargas positivas livres no óxido de titânio. Essas cargas então permitem que os aglomerados de átomos assentados nesta superfície facilitem a divisão da água em oxigênio e hidrogênio.”  

O experimento demonstrou que o uso desses elementos fotossensíveis é funcional para a quebra das moléculas da água. O próximo passo da pesquisa será ajustar ainda mais a estrutura desses elementos para obter eficiências ainda maiores. Os cientistas garantem que, apesar de ainda estar na fase laboratorial, os fundamentos do estudo permitirão alcançar rapidamente uma escala de produção a nível industrial. 

Conforme comentamos frequentemente aqui nas postagens do blog, o mundo está vivendo uma profunda e complicada crise energética. O capítulo mais recente foi criado pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Um dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás, a Rússia passou a sofrer uma série de embargos internacionais e impedida de exportar sua produção. 

E os desdobramentos dessa crise já estão impactando o meio ambiente. Dias atrás falamos do caso da destruição de uma floresta de 12 mil anos na Alemanha para a exploração de lignite ou carvão marrom, um combustível fóssil que voltou a ser essencial para o país, um dos mais prejudicados pelo boicote internacional aos combustíveis russos. 

O gás natural passou a representar um verdadeiro trunfo ambiental na Europa ao longo das últimas décadas. Apesar de ser um combustível fóssil, o gás muito menos poluente que o carvão mineral que era queimado em usinas termelétricas. Novas unidades geradoras de energia elétrica a gás natural passaram a ser construídas em todo o mundo, especialmente na Europa

Na Alemanha, que é o caso mais dramático da dependência do gás russo, cerca de 55% do combustível é importado, sendo que 50% vem atualmente da Rússia. Como alternativa emergencial, a Alemanha tem aumentado a participação das antigas centrais termelétricas a carvão ainda em atividade, além de estar revendo seu programa de desmantelamento das centrais nucleares. 

A perspectiva de se produzir grandes volumes de hidrogênio a baixo custo usando a luz, especialmente a solar, e usar como fonte de energia abre possibilidade ilimitadas para a economia mundial. Também é importante se destacar que falamos de um dos combustíveis mais limpos que se conhece. 

Que continuem os trabalhos desses cientistas… 

GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS LIBERA O PLANTIO EM ÁREAS DE PROTEÇÃO AMBIENTAL

A Justiça da Alemanha liberou há poucos dias atrás a supressão da vegetação de uma floresta com de 5,5 mil hectares na região de Lützerath, no Estado da Renânia do Norte-Vestfália, o coração industrial da Alemanha. Conforme apresentamos em uma postagem anterior, essa floresta se formou há aproximadamente 12 mil anos. 

Os solos dessa região são ricos em lignite ou o carvão marrom, um combustível fóssil altamente poluente, porém, essencial num momento em que o país vive uma crise energética sem precedentes. Com o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, a Alemanha poderá perder mais de 55% do seu fornecimento de gás – então, vale tudo para manter a economia da “locomotiva da Europa” em movimento. 

Além das questões energéticas, o conflito entre os dois países eslavos representa uma dupla ameaça para a produção e o fornecimento de alimentos no mundo. Em primeiro lugar pela grande produção de fertilizantes na Rússia e na Bielorrússia, seu Estado aliado. O Brasil, citando um exemplo, é um dos grandes produtores de alimentos do mundo e um grande dependente dessas importações. 

Também é preciso lembrar que tanto a Rússia quanto a Ucrânia são grandes produtores de grãos e outros produtos de origem vegetal como é o caso do óleo de semente de girassol. Para se ter uma ideia do tamanho do problema – os dois países respondem juntos por 30% da produção mundial de trigo. A commodity subiu muito nos últimos meses e há sérios riscos de desabastecimento no mercado mundial. 

Governos de todo o mundo tem buscado outras alternativas e os países produtores de grãos como o Brasil vem sendo estimulados a aumentar suas respectivas produções. Recentemente, a diretora-geral da OMC – Organização Mundial do Comércio, a nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, esteve aqui no nosso país e fez questão de destacar a importância do Brasil como produtor mundial de alimentos. 

A segurança alimentar do mundo virou uma prioridade política em vários países e tema frequente do discurso de muitos políticos. Infelizmente, como vem sendo observado no setor energético, a exemplo da derrubada da floresta milenar na Alemanha, o aumento da produção de alimentos tem se voltado contra a preservação ambiental. 

Um exemplo preocupante vem dos Estados Unidos – depois de muita pressão por parte dos produtores rurais, o USDA – Departamento de Agricultura norte-americano, vai permitir o uso de áreas ambientalmente sensíveis para o plantio de alimentos. Entre as justificativas estão a necessidade de se aumentar a produção e garantir a segurança alimentar do mundo. 

O USDA possui um programa de estímulo à criação de áreas de conservação (CRP – Conservation Reserve Program), onde os produtores participantes recebem um valor em dinheiro do Governo Federal. Essa “autorização” permitirá que os produtores que estejam no seu último ano de contrato utilizem essas áreas de conservação. 

Os contratos duram entre 10 e 15 anos e visam principalmente áreas sensíveis como encostas de morros, matas ciliares e áreas no entorno de nascentes. A adesão é voluntária e o produtor se compromete a proteger essas áreas. Os valores pagos pelo Governo são proporcionais ao tamanho da área preservada. 

Em tempos de forte demanda por grãos e alimentos, onde os preços dos produtos estão com forte alta, deixa de ser interessante aos produtores receber os valores contratados com o USDA. Aliás, foram as associações de produtores rurais norte-americanos as maiores lobistas a favor dessa mudança nas “regras do jogo”. 

Na mesma balada, o USDA também anunciou a flexibilização de programas de incentivo à qualidade ambiental e também no manejo e conservação. Segundo as autoridades do país, essas flexibilizações nas regras ambientais são provisórias e deverão durar enquanto reinar o clima de insegurança alimentar no mundo. 

Fazendo uma analogia com a agricultura brasileira, essas mudanças nas regras seria o equivalente a liberar o uso das áreas de preservação permanente nas propriedades rurais brasileiras conforme determina o Código Florestal Brasileiro. Só para lembrar – em áreas do Cerrado, por exemplo, a área a ser preservada equivale a 50% do tamanho da propriedade rural; na Amazônia, essa área corresponde a 80% da área total da propriedade. 

Imaginem qual seria a reação de países como a França, um grande produtor agrícola, a uma decisão nessa linha pelas autoridades aqui do Brasil. Em 2020, durante as famosas queimadas na região Amazônica naquele ano, o Presidente da França – Emmanuel Macron, chegou a ameaçar o Brasil com ataques de armas nucleares caso a destruição da floresta não cessasse. 

Será que Macron e outros líderes internacionais que falaram grosso com o Brasil vão ameaçar o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, por esse afrouxamento nas regras ambientais? 

Fica a pergunta no ar… 

AS TRÁGICAS CHUVAS NA REGIÃO METROPOLITANA DO RECIFE, OU FALANDO DO DISTÚRBIO ONDULATÓRIO DO LESTE

As fortes chuvas que estão caindo na Região Metropolitana do Recife já causaram, ao menos, 91 mortes e 26 pessoas estão desparecidas. Cerca de 5 mil pessoas estão desabrigadas e seguem alojadas em escolas, creches e centros sociais. Esses são dados ainda preliminares divulgados pelo Governo do Estado. Desmoronamentos de encostas de morros provocaram a maioria dessas mortes. 

Conforme comentamos em postagem publicada na última semana, toda a faixa Leste do Litoral Nordestino, especialmente entre o Rio Grande do Norte e Sergipe, está sofrendo com chuvas provocadas pelo Distúrbio Ondulatório de Leste. Esse fenômeno provoca uma perturbação nos ventos e na pressão que atuam na faixa tropical do globo terrestre que fica entre a África e o litoral do Brasil. Essa perturbação interfere no regime dos ventos alísios. 

Os ventos alísios sopram no sentido Leste-Oeste, formando nuvens de chuvas, que atravessam o Oceano Atlântico e chegam ao litoral Leste do Brasil. O distúrbio está provocando chuvas nos Estados de Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. As chuvas se concentram na faixa Leste destes Estados. 

Como toda grande metrópole brasileira, a cidade do Recife não suporta chuva fortes. Assim como acontece em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, basta uma chuva mais forte para rios e córregos transbordarem, trechos de ruas e avenidas alagarem e áreas de risco entrarem em estado de alerta.

A situação é sempre agravada por causa da intensa ocupação de encostas de morros, um sintoma da falta de políticas para a construção de moradias populares. Esses morros tiveram a cobertura florestal suprimida e ainda sofreram grandes cortes no talude para a construção de moradias. Qualquer chuva mais intensa pode desestabilizar essas encostas e resultar provocar grande tragédia, justamente o que aconteceu nos últimos dias. 

Grandes enchentes fazem parte das paisagens pernambucanas há muito tempo. O primeiro registro histórico de uma enchente no Capibaribe data do ano de 1632, pouco tempo depois da invasão holandesa e a consolidação da Suickerland, a terra do açúcar. Registros da época informam que as chuvas foram muito fortes, “causando perdas de muitas casas e vivandeiros estabelecidos às margens do Rio Capibaribe”.  

Anos mais tarde, em 1638, o Conde Maurício de Nassau autoriza a construção da primeira barragem do Rio Capibaribe – o Dique dos Afogados, com o objetivo de proteger a cidade do Recife das constantes enchentes. Há registros históricos de uma infinidade de enchentes na cidade: 1824, 1842, 1854, 1862, 1869, 1914, 1920, 1960, 1966, 1970, 1977, 2004 e 2005 – a lista é muito maior e estou apenas citando alguns casos. 

Entre os dias 17 e 18 de julho de 1975, a cidade do Recife viveu a maior catástrofe natural da sua história: o transbordamento do rio Capibaribe atingiu 31 bairros e alagou 80% da superfície da cidade (vide foto) – 350 mil pessoas foram desalojadas de suas casas e, tragicamente, 104 pessoas morreram. As fortes enchentes também atingiram outros 25 municípios da bacia hidrográfica do rio Capibaribe.  

Grande parte da culpa por essa sucessão de enchentes se deve a escolha do local onde foi fundada a cidade do Recife. O litoral brasileiro, apesar de muito extenso, não dispõe de muitos locais abrigados e adequados para a construção de grandes portos. Há época do início da nossa colonização, quando ainda não existiam dragas para o rebaixamento do leito marinho, a situação era ainda mais complicada. 

No litoral de Pernambuco, os antigos cartógrafos a serviço da Coroa de Portugal identificaram uma região que combinava duas características excepcionais para a fundação de uma grande cidade – uma área abrigada na foz de um grande rio e com grande capacidade para receber embarcações de alta tonelagem. Exatamente ao lado, um terreno elevado, que possibilitava o monitoramento de uma grande extensão de terras e mares.  

No alto das ladeiras desse terreno elevado Duarte Coelho, o Donatário da Capitânia de Pernambuco, fundou a cidade de Olinda em 1535. Na carta dos direitos feudais – o foral, concedido por Duarte Coelho em 1537, havia uma referência a um certo “Arrecife dos Navios”, uma pequena vila de marinheiros e pescadores localizada na foz do rio Capibaribe junto ao porto, que se transformou no embrião da futura Cidade do Recife.   

As margens do rio Capibaribe e seus afluentes eram planas e cercadas de extensos manguezais. Engenhos e grandes plantações de cana-de-açúcar foram ocupando os espaços vazios criados com a derrubada e queima da densa Mata Atlântica. Lembro aqui que o trecho pernambucano da floresta avançava até 80 km continente a dentro. 

Como acontece em qualquer sistema natural, a Mata Atlântica se adaptou ao longo dos milênios aos ciclos periódicos de chuva. Canaletas naturais para o escoamento da chuva foram escavadas no solo e os diferentes tipos de vegetação se adaptaram para armazenar parte da água da chuva, com raízes adaptadas para forte fixação no solo e para evitar o arrastro com a enxurrada. Leitos de córregos e rios foram dotados de áreas de várzeas dimensionadas para absorver o excedente da água nos momentos de cheia. 

Com a derrubada da floresta para o plantio da cana-de-açúcar, todos esses mecanismos naturais de controle de cheias foram perdidos e as calhas dos rios passaram a receber, de forma abrupta, a maior parte da água das chuvas. A cidade do Recife nasceu justamente no trecho final da bacia hidrográfica do rio Capibaribe e virou uma espécie de ”terra das enchentes”. 

A cidade do Recife foi crescendo e avançando sobre os manguezais. que foram sendo aterrados e urbanizados. O resultado dessa urbanização foi uma cidade com grande parte de seus bairros com pouca declividade em suas ruas e sujeitas a alagamentos em dias de chuva mais forte. Em décadas mais recentes, a cidade começou a avançar e ocupar terrenos mais altos, onde se destacam as encostas de morros. 

A situação, que já era crítica, foi piorando ao longo do tempo devido ao forte assoreamento dos canais dos rios. Sem a proteção da vegetação, grandes volumes de sedimentos passaram a ser carreados para o leito dos rios, que foram ficando cada vez mais rasos e sem espaço para absorver as águas excedentes dos períodos de chuva. 

Somando-se a destruição da floresta, o assoreamento da calha dos rios, a ocupação desordenada de encostas de morros e o aterramento sistemático de manguezais, chegamos à fórmula perfeita para a ocorrência de grandes enchentes com todas as suas catástrofes associadas. 

Essa, infelizmente, é a sina do Recife e seus arredores. 

A POLÊMICA DERRUBADA DE UMA FLORESTA PARA EXPLORAÇÃO DE CARVÃO NA ALEMANHA 

Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço

Esse é um sábio conselho que todos nós ouvimos desde a infância. Entretanto, parece que as autoridades da Alemanha, famosas por acusar o Brasil de desmatar a Amazônia, não conhecem o dito popular. 

Está havendo uma enorme repercussão nas mídias sociais e nos canais de informação a notícia da derrubada de uma floresta de carvalhos com idade de aproximadamente 12 mil anos e demolição de uma série de vilarejos no seu entorno. Essa área de mata nativa com cerca de 5,5 mil hectares ficava em Lützerath, no Estado da Renânia do Norte-Vestfália, o coração industrial da Alemanha. 

O pedido para a supressão da vegetação foi feito pela mineradora Rhenish-Westphalian Power Plant (RWE) AG, segunda maior empresa do setor de energia na Alemanha e uma das maiores concessionárias da Europa. A empresa opera uma mina de carvão nos arredores e a área desmatada permitirá a expansão das suas atividades. A mina conhecida como Garzweiler produz a lignite ou o carvão marrom, um combustível fóssil altamente poluente. 

De acordo com as alegações da RWE, existem diversas outras minas de carvão em operação na região que estão com suas reservas próximas do esgotamento. A nova mina, que está em estágio inicial de trabalhos, estará apta a suprir a produção de carvão já a partir de 2024. Os veios de carvão ficam a cerca de 400 metros de profundidade, por isso a necessidade da supressão da vegetação. 

A Alemanha, conforme já tratamos em postagens anteriores, é um dos países da Europa Ocidental que mais dependem do gás natural da Rússia. As políticas para uma economia cada vez mais verde adotadas nas últimas décadas levaram a uma forte redução do uso do carvão mineral, tanto em indústrias quanto em usinas de geração termelétricas, e a estímulos ao uso de fontes alternativas como o gás, além de energia eólica e solar. 

Especialistas afirmam que 55% do gás natural usado no país é importado, sendo que 50% vem diretamente da Rússia. Essa dependência começou ainda em meados da década de 1950, quando a então Alemanha Oriental passou a receber gás da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Após a recente invasão da Ucrânia por tropas russas, os países europeus passaram a impor boicotes ao gás e ao petróleo da Rússia. 

A Alemanha foi pega no contrapé e agora corre contra o tempo buscando fontes alternativas de energia – as antigas minas de carvão do país acabaram sendo “redescobertas”. Uma outra fonte energética do país que está em franco processo de desativação – a geração de energia elétrica em usinas nucleares, também voltou a ser reconsiderada. 

A grande ironia desse processo é que o Governo da Alemanha vem sendo um dos maiores críticos da “destruição” da Floresta Amazônica por parte dos brasileiros. É sempre importante lembrar que a maior floresta equatorial do mundo ocupa áreas em outros oito países (Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guina Francesa), onde também existem enormes agressões ambientais, porém, nunca são lembrados por governos estrangeiros, artistas e celebridades. 

Na mesma época em que essa floresta se formou na Alemanha há cerca de 12 mil anos, a Amazônia passava por uma série de mudanças climáticas. Até então, a região onde fica a Floresta Amazônica tinha grande parte dos seus domínios ocupados por campos como o atual Cerrado Brasileiro, quando então a floresta começou a avançar até chegar na atual conformação vegetal. 

Essa verdadeira hipocrisia dos governantes alemães não é nova. Citando um exemplo: em 2020, o Tribunal Administrativo Superior de Berlim-Brandenburg decidiu a favor da Tesla, a fabricante de automóveis elétricos do “bom moço” Elon Musk, a fim de continuar derrubando as árvores de uma floresta nos arredores para a construção de uma mega fábrica da empresa. 

A área em questão tem 92 hectares e fica dentro dos limites da área de proteção ambiental Grüne Liga Brandenburg. Segundo as alegações dos advogados da Tesla, tese que foi aceita pela Justiça alemã, a área em questão é usada para o plantio de árvores para uso na fabricação de papel e não uma floresta natural. 

A Tesla está instalando no local uma grande fábrica de automóveis elétricos e de baterias, que vem se juntar a outras duas unidades nos Estados Unidos e uma na China. Essa unidade produzirá inicialmente 150 mil veículos por ano, podendo atingir a cifra de 500 mil em pouco tempo. Serão gerados até 12 mil postos de trabalho, algo que interessa muito ao Governo da Alemanha

Essa nova decisão da Justiça alemã tem poucos dias e, até o momento, as vozes de grandes defensores do meio ambiente como Emmanuel Macron, presidente recém reeleito da França, de Greta Thunberg e de Leonardo di Caprio, entre muitos outros, não ressoaram em defesa das florestas milenares da Alemanha. 

Falando hipoteticamente, imaginem que essa fábrica da Tesla viesse a ser instalada no meio da Floresta Amazônica no Pará, a meio caminho das minas de ferro de Carajás e da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Fico imaginando o tamanho dos pulos de Greta e de Leonardo, além dos discursos incendiários de Macron. Porém, como estamos falando de empregos na super desenvolvida Alemanha e de carros elétricos que vão proteger o meio ambiente na Europa, aí tudo bem… 

Em um mundo que já está vivendo mudanças climáticas importantes, é fundamental que todos se preocupem com uma defesa real e apaixonada dos poucos sistemas naturais ainda preservados, onde um dos grandes destaques é a Floresta Amazônica. 

Entretanto, conforme sempre destacamos em nossas postagens aqui no blog, é fundamental que essa defesa seja honesta e isenta de “lacrações ideológicas”. Esse exemplo recente na Alemanha mostra o tamanho da hipocrisia dos “defensores da Amazônia” – se é para gerar empregos e desenvolvimento econômico para os locais, tudo bem derrubar uma floresta milenar. 

Agora, se os beneficiários fossem populações de pobres miseráveis na nossa Região Norte, onde vivem mais de 22 milhões de brasileiros, aí não pode. 

A BIENAL DO LIXO EM SÃO PAULO, OU FALANDO DO PROBLEMA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS

A imagem que ilustra esta postagem reproduz de maneira bem humorada uma das fotos mais famosas do século XX. Ela foi tirada no dia 14 de março de 1951, dia do aniversário de Albert Einstein. O mundialmente famoso físico estava saindo de uma festa com ex-alunos, professores e pesquisadores da Universidade de Princeton

Depois de ser fotografado por dezenas de jornalistas e paparazzi que aguardavam na porta do clube onde aconteceu a festa, o físico finalmente conseguiu entrar num automóvel que o levaria para a casa. Foi então que um fotógrafo da agencia UPI – United Press Internacional, insistiu para Einstein desse um sorriso. E o que ele fez foi mostrar a língua – se foi como gozação ou simplesmente por malcriação não se sabe. 

O artista plástico Jota Azevedo reproduziu a icônica fotografia de Albert Einstein usando apenas material de descarte, o que costumamos chamar de lixo em nosso dia a dia. Essa obra e muitas outras fazem parte da Bienal do Lixo, evento que foi aberto ao público no último dia 26 e que ficará até o dia 5 de julho no Parque Vila Lobos, na Zona Oeste da cidade de São Paulo. 

Além de obras de arte, o evento terá intervenções artísticas, oficinas, mostras de cinema, palestras e painéis ligados à temática dos resíduos sólidos com acesso gratuito. Entre as temáticas são destaque a logística reversa, economia circular, consumo consciente, educação ambiental, o uso de energias renováveis e a gestão dos resíduos. No comando dos diferentes eventos estão profissionais da área, artistas, agentes culturais, autoridades, cientistas e jornalistas. 

Entre os principais objetivos desse evento destacamos a conscientização da importância de uma boa gestão dos diferentes resíduos produzidos por nossa cidade. Conforme tratamos frequentemente em nossas postagens, ambientes inteiros estão sendo tomados por restos de plásticos, pneus, embalagens metálicas entre outros descartes de peças e produtos de grandes dimensões. Citando como exemplos temos as ilhas de resíduos plásticos do Oceano Pacífico e do Mar do Caribe

Resíduos são, essencialmente, sobras resultantes de processos de produção e de consumo: embalagens de produtos, cascas e sobras de alimentos, papel usado, equipamentos eletrônicos antigos, ferragens, madeiras e móveis, entulho da construção civil, aparas diversas entre outros tipos de resíduos. Além dos resíduos propriamente sólidos, que formam a maioria dos materiais, existem aqueles que são líquidos: sobras de tintas, solventes, combustíveis, óleos lubrificantes usados entre outros. 

Esses resíduos costumam ser classificados em categorias diferentes de acordo com as fontes geradoras: 

Resíduos Domiciliares: é o nosso famoso lixo doméstico formado por restos e cascas de alimentos, embalagens plásticas e metálicas, vidros, papéis diversos, papel higiênico etc; 

Resíduos Comerciais: caixas de papelão, isopor, pallets de madeira, plásticos, embalagens, sacarias em geral etc; 

Resíduos Industriais: aparas de chapas plásticas, de madeira e metálicas, limalhas e outros resíduos do corte de materiais, tintas, solventes, resíduos químicos diversos etc; 

Resíduos Agrícolas: embalagens de adubos e defensivos químicos, peças metálicas, pneus, restos de madeira, pedras etc; 

Resíduos Hospitalares: seringas, gases, instrumentos cirúrgicos, embalagens e restos de remédios e drogas hospitalares, e demais materiais diversos contaminados por patógenos; 

Resíduos da Construção Civil: entulho, madeiras, telhas, pedregulho, tintas, tijolos, tubulações, embalagens etc; 

Resíduos de Portos, Aeroportos, Terminais Ferroviários e Rodoviários: embalagens, restos de alimentos, papéis, papel higiênico etc; 

Resíduos de Mineração: rejeitos e sobras de materiais minerais não utilizáveis (só para lembrar: o acidente ambiental que, literalmente, matou o Rio Doce em 2015, foi provocado pelo rompimento de uma barragem de resíduos da mineração); 

Resíduos Radioativos: combustível de usinas nucleares e resíduos de medicamentos e materiais de clínicas radiológicas e de hospitais. 

Existem também materiais muito específicos dentro dos resíduos hospitalares como os materiais perfuro-cortantes e materiais contaminados por patógenos, que não podem ser descartados junto com os resíduos comuns e devem ser encaminhados para incineração em unidades de destinação especiais.  

Outro caso importante é do lodo sanitário resultante do tratamento de esgotos nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos, que ainda não possuem uma destinação definitiva. Junto a tudo isso, falaremos ainda da coleta seletiva e das políticas para a redução e a reutilização dos materiais.  

Na área dos recursos hídricos, um dos temas favoritos aqui do blog, os resíduos descartados de forma incorreta, muitas vezes irresponsável, estão na raiz de grandes enchentes e alagamentos que ocorrem nas cidades brasileiras nos meses de chuvas. E não falamos aqui só de embalagens plásticas e outros resíduos pequenos – falo de sofás, móveis, geladeiras e outros produtos velhos que são jogados nas ruas e nas calhas de rios e córregos. 

Também não se pode esquecer da poluição da água de córregos, rios, lagos e represas, águas que frequentemente são as mesmas usadas para o abastecimento de cidades. Um exemplo que vejo diariamente aqui da minha janela é a Represa Guarapiranga, responsável pelo abastecimento de, pelo menos, 20% da população da cidade de São Paulo. 

Além de receber milhares de litros de esgotos domésticos in natura, carreados por dezenas de córregos e pequenos rios, a Guarapiranga também é o destino final de enormes quantidades de resíduos sólidos de todos os tipos, inclusive grandes volumes de entulhos da construção civil. 

A Bienal do Lixo de São Paulo vai colocar todas essas nuances do problema em discussão nos mais diferentes formados, buscando levar a população a pensar sobre os diferentes problemas e a agir de forma construtiva na busca por soluções. 

Quem por acaso estiver em Sampa nos próximos dias já tem uma boa opção de programa. 

FORTES CHUVAS EM ALAGOAS COLOCAM MAIS DE 30 CIDADES EM SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA 

O Governador de Alagoas, Paulo Dantas, assinou um decreto na tarde dessa quinta-feira, dia 26 de maio, colocando 33 municípios do Estado em Situação de emergência por causa das fortes chuvas. Esse decreto permite uma agilização na liberação de verbas para o atendimento das vítimas, contratação de serviços e compra de materiais. 

O Estado de Alagoas vem enfrentando fortes chuvas desde a última terça-feira, dia 24. Em algumas regiões o volume acumulado de chuvas nesse período já ultrapassou 250 milímetros, um valor bem acima da média histórica para essa época do ano. 

Chuva demais e em pouco tempo numa região que já sofreu um forte desmatamento ao longo da história e com cidades sem uma infraestrutura de drenagem de águas pluviais minimamente adequada é um sinal de tragédia anunciada. Riachos, rios e lagoas transbordaram e mais de 3 mil pessoas tiveram de abandonar suas casas. 

O excesso de chuvas também provocou deslizamentos de encostas de morros e o desabamento de casas. Os incidentes foram registrados em Maceió, a capital do Estado, e em cidades do interior. Entre as cidades afetadas estão Barra de São Miguel, Coruripe, Maragogi, Marechal Deodoro, Paripueira, Penedo e Teotônio Vilela. 

De acordo com informações do CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais, as chuvas devem continuar com intensidade moderada em toda a faixa Leste do Estado. O órgão alerta que há riscos de alagamentos e deslizamentos de terra por causa dos grandes volumes de chuva acumulados nas últimas horas. 

Segundo o INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, essas fortes chuvas estão sendo provocados pelo Distúrbio Ondulatório de Leste em associação com resquícios da frente fria que derrubou as temperaturas em grande parte do país há poucos dias atrás. 

O Distúrbio Ondulatório de Leste, também conhecido como Ondas de Leste, é uma perturbação dos ventos e da pressão que atuam na faixa tropical do globo terrestre que fica entre a África e o litoral do Brasil. Essa perturbação interfere no regime dos ventos alísios. 

Os ventos alísios sopram no sentido Leste-Oeste, formando nuvens de chuvas que atravessam o Oceano Atlântico e chegam ao litoral Leste do Brasil. O distúrbio está provocando chuvas em 5 Estados do Nordeste: Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. As chuvas se concentram na faixa Leste destes Estados. 

Os meses de junho, julho e agosto marcam o pico das chuvas na faixa Leste da Região Nordeste e já foi emitido um alerta pelo INMET sobre chuvas acima da média neste ano. Ou seja, tragédias como esta que está assolando dezenas de cidades em Alagoas no momento vão se repetir em outros Estados da Região nos próximos meses. 

Países como o Brasil, onde são predominantes os climas Equatorial e Tropical, estão sujeitos a fortes períodos de chuvas todos os anos. Isso pressupõe que cidades e Estados deveriam concentrar esforços para construir as infraestruturas para o controle e escoamento dessas águas pluviais, na remoção de famílias que vivem em áreas de risco e em encostas de morros, entre outras providencias. 

Infelizmente, como é do conhecimento de todos, nossos governantes fazem planos mirabolantes, porém, executam muito pouco do que foi planejado. Reportagens sobre desvios de verbas e superfaturamento de obras são constantes em todo o país. Chegam as chuvas e, no seu encalço, as enchentes e os desmoronamentos de encostas. Desgraçadamente, centenas de pessoas morrem todos os anos nessas tragédias. 

Um detalhe que sempre costumo lembras nas postagens são os decretos de situação de emergência. Em qualquer órgão público, a compra de materiais e a contratação de serviços só podem ser feitas mediante concorrência pública. Em situações de emergência, espertamente, essa exigência deixa de valer e as compras e contratações de serviços podem ser feitas livremente. 

Isto é uma espécie de “liberou geral” para prefeituras e Governos, onde autoridades e funcionários públicos sempre conseguem dar um jeitinho para ganhar “uns trocos” por fora dos fornecedores de materiais ou contrataram empresas de amigos para a realização de obras, onde certamente serão comtemplados com generosas gratificações. 

Um caso vergonhoso é a Região Serrana do Rio de Janeiro onde, frequentemente, as cidades são assoladas por fortes tempestades e decretos de situação de emergência são decretados. Entra ano e sai ano sem que os problemas mais elementares sejam resolvidos. A ALERJ – Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, inclusive, já criou uma CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito. Essa comissão investigou muito e não puniu ninguém. 

É lamentável saber que tem muita gente se aproveitando dessas situações de catástrofe para ganhar dinheiro, mas isso acontece com muita frequência. Alagoas é um desses casos, onde hora falta água, hora se tem excesso de chuva. Muito triste, mas isso é uma realidade por lá.