A CONTAMINAÇÃO DOS RIOS DA TERRA INDÍGENA IANOMÂMI PELO MERCÚRIO DOS GARIMPOS ILEGAIS

A Amazônia voltou a ser destaque na mídia internacional nesses últimos dias. Conforme apresentamos na postagem anterior, um jornalista inglês, Dom Phillips, e um indigenista brasileiro, Bruno Araújo, estão desaparecidos desde o último dia 5 – os dois foram vistos pela última vez num trecho do rio Javari, no Estado do Amazonas. 

O desaparecimento foi comunicado ao MPF – Ministério Público Federal no dia 6 de junho, pela UNIVAJA – União dos Povos do Vale do Javari e pelo OPI – Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato. Essa notícia está correndo o mundo. 

Outra notícia divulgada recentemente e que, com toda a certeza, também vai dar o que falar, diz respeito a contaminação de rios na Terra Indígena Ianomâmi, no Estado de Roraima. Segundo um laudo da Polícia Federal, quatro rios que cortam a região apresentam níveis de contaminação por mercúrio com valores 8.600% acima do máximo estipulado para o consumo humano das águas

No caso de águas que serão destinadas a irrigação de culturas arbóreas, cerealífera, forrageiras, pesca amadora e navegação, as amostras coletadas apresentaram um teor de mercúrio até 860% acima do máximo permitido pela legislação. Nos dois casos, essa contaminação é simplesmente assustadora. 

As amostras de água foram coletadas nos rios Couto de Magalhães, Catrimani, Parima e Uraricoera e fazem parte de uma investigação da Polícia Federal sobre a presença de garimpeiros ilegais dentro da Terra Indígena Ianomâmi. 

Segundo um estudo feito em 2016, pela Fundação Oswaldo Cruz em comunidades indígenas vizinhas do rio Uraricoera, os moradores já apresentavam altos níveis de mercúrio no organismo, com 92,3% de contaminação. 

Entre os anos de 2018 e 2021, a Polícia Federal já havia identificado um aumento das áreas afetadas por mercúrio na região. Na mesma área do rio Uraricoera, que é uma das mais impactadas pelo garimpo ilegal, houve um aumento de 505% no número de garimpos. A Terra Indígena Ianomâmi vive a maior onda de devastação dos últimos 30 anos – somente no último ano, houve um aumento de 46% na degradação florestal. 

Os Ianomâmis (ou Yanomâmis) são um dos povos indígenas mais antigos da América do Sul e se espalham por um extenso território entre o Extremo Norte do Brasil e o Sul da Venezuela. São cerca de 35 mil indígenas distribuídos em cerca de 350 comunidades nos dois países. No Brasil, esse povo conta com cerca de 15 mil indivíduos distribuídos numa faixa de terras entre o Noroeste de Roraima e Norte do Amazonas.  

No total, o território dos Ianomâmis tem uma área de 192 mil km2, uma área pouca coisa menor que o território do Estado brasileiro do Paraná ou de toda a Grã-Bretanha. Isso nos dá uma ideia da enorme dificuldade das autoridades para controlar a entrada e saída de pessoas nesse território, um problema que se complica devido ao caráter binacional da área. Garimpeiros e madeireiros se aproveitam dessa dificuldade de fiscalização e invadem constantemente a terra indígena. 

Em uma postagem publicada em julho de 2021, já alertávamos sobre a invasão das terras ianomâmis no lado da Venezuela por garimpeiros daquele país. Como é do conhecimento de todos, a Venezuela está vivendo uma gravíssima crise econômica e social já há vários anos. 

A Venezuela é dona das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e até poucos anos atrás era o país mais rico da América do Sul. Com a ascensão de Hugo Chaves ao poder em 1999, e com a implantação de sua Revolução Bolivariana, o país entrou num ciclo contínuo de decadência econômica e social. Estudos indicam que mais de 94% da população do país está vivendo abaixo do limite da pobreza, com uma renda inferior a US$ 3,20 ao dia. 

A base da economia da Venezuela era a exploração do petróleo, atividade que entrou em colapso – a produção caiu de 4 milhões de barris/dia no início da década de 1990 para os atuais pouco mais de 300 mil barris/dia. Em busca de alternativas econômicas, o Governo da Venezuela criou um grande programa de exploração mineral denominado Arco Mineiro do Orinoco

Estimativas indicam a existência de cerca de 200 mil pessoas trabalhando em mais de 2 mil pontos de “mineração legalizada” dentro do trecho venezuelano da Amazônia. Parte desses “mineradores” estão trabalhando dentro do território ianomâmi da Venezuela. 

Dentro do território brasileiro a situação não é tão crítica quanto na Venezuela, mas existem inúmeros grupos de garimpeiros e de madeireiros instalados dentro da área indígena. Esses invasores se valem do grande isolamento da região e das dificuldades para a fiscalização de uma área tão grande. 

O garimpo ilegal do ouro é uma das atividades mais devastadoras do meio ambiente. Além do uso de grandes quantidades de mercúrio, elemento que é usado para separar o ouro de outros minerais e sobre o qual já tratamos em postagens anteriores, o pacote inclui a devastação da cobertura florestal, instalação de dragas no leito e nas margens dos rios, prostituição de mulheres indígenas, transmissão de doenças, confrontos e mortes de indígenas, torturas e muita violência.  

A comercialização desse ouro explorado ilegalmente movimenta verdadeiras fortunas e se vale de uma enorme rede de intermediários onde se incluem, contrabandistas de toda ordem, madeireiros, traficantes de drogas, políticos e “muita gente graúda” dos dois lados da fronteira. Essas pessoas não estão nenhum pouco preocupadas com a contaminação das águas dos rios ou com a saúde de indígenas. 

Muito provavelmente, o desaparecimento do jornalista inglês e do indigenista brasileiro no vale do rio Javari está ligado a confrontos com pessoas desse mesmo naipe, o que demonstra como é difícil se falar na preservação da Amazônia e dos direitos das nações indígenas. 

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