A EUROPA E A DEPENDÊNCIA DO GÁS DA RÚSSIA 

Ao longo das últimas horas estamos assistindo o avanço das tropas da Rússia dentro do território da Ucrânia. As últimas informações dão conta da entrada dos primeiros tanques e tropas em Kiev, a capital do país. Apesar dos muitos protestos e sanções econômicas impostas por grandes países pelo mundo afora, os russos seguem com sua guerra minuciosamente planejada. 

Existem inúmeras questões geopolíticas envolvidas nessa questão que fogem da minha área de especialização. Parte do discurso repetido por Moscou faz referência a questões de segurança – a Ucrânia, já há muito tempo, vem se aproximando das nações Ocidentais, inclusive tentando entrar para a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma força que foi criada logo após a Segunda Guerra Mundial justamente para se contrapor à antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

Na visão dos russos, essa é uma questão crítica de segurança e que remonta ainda aos tempos da invasão do país pelas tropas de Napoleão Bonaparte no início do século XIX. Após a derrota dos franceses, o Império Russo passou a criar políticas para a formação de uma forte zona de influência política, econômica e militar ao redor de suas fronteiras. Essa seria uma espécie de escudo que, após a Revolução Russa de 1917, passaria a ser chamada de “Cortina de Ferro”. 

As preocupações com a segurança do país foram multiplicadas durante a Segunda Guerra Mundial após a invasão da Rússia por tropas alemãs. Para o Terceiro Reich de Adolf Hitler, a conquista do imenso território da URSS era essencial para seu conceito de Lebensraum – o “espaço vital”. O território alemão era pobre em recursos naturais como minérios e petróleo, sendo fundamental a conquista de regiões que pudessem fornecer esses insumos para o Reich nazista.

Ao longo das últimas décadas, especialmente após a queda do Muro de Berlim em 1989 e com o fim da URSS em 1991, os russos arrefeceram um pouco as suas desconfianças com a Europa e passaram a desenvolver um importante relacionamento comercial. Um dos grandes trunfos da Rússia nessa nova fase foram as suas grandes reservas de petróleo e, especialmente, de gás. 

Gigantescos sistemas de gasodutos foram construídos desde os campos produtores na distante Sibéria e chegando até importantes centros consumidores na Europa Ocidental. Um dos países que mais se beneficiaram do gás russo foi justamente a sua antiga arqui-inimiga, a Alemanha. Metade do gás consumido na Alemanha atualmente vem da Rússia. 

O sucesso do gás russo na Europa está ligado diretamente a razões de ordem ambiental. Com a intensificação das preocupações ecológicas ao longo das últimas décadas, o gás passou a ser visto como uma alternativa “mais sustentável” do que o carvão mineral, especialmente para a geração de energia elétrica. 

Apesar de também ser um combustível de origem fóssil, a queima do gás gera 90% menos gases de efeito estufa. Uma grande quantidade de usinas de geração termelétrica a gás foi construída por todos os cantos. Inúmeras indústrias passaram a utilizar o combustível em seus processos industriais. Outra área onde o gás russo passou a ser fundamental é na calefação ou aquecimento de residências no forte inverno europeu. 

A forte dependência de muitos países europeus pelo gás russo passou a mostrar seu lado sombrio com a recente crise decorrente da epidemia da Covid-19. Com a implantação das políticas de restrição da circulação de pessoas por causa da doença, houve um brusco resfriamento econômico nos países, o que resultou numa queda substancial no consumo de combustíveis, inclusive do gás. 

Nos últimos meses, com a retomada gradual das atividades econômicas ao redor do mundo, houve um brusco aumento da necessidade de energia pelos países. Atividades ligadas a produção de petróleo e gás, além da mineração do carvão, que andavam a passos lentos repentinamente passaram a ser retomadas devido ao aumento rápido do consumo. Com a falta dos produtos no mercado e com o repentino aumento no consumo, aconteceu o óbvio – os preços explodiram. 

Em alguns países, como foi o caso da Alemanha, o preço do gás simplesmente triplicou e rapidamente gerou fortes impactos nas economias dos países. Um desses impactos mais dramáticos pode ser visto no brutal aumento das taxas de inflação. Não são poucos os especialistas que creditam essa crise à brusca mudança dos padrões energéticos por causa da pressão de grupos ambientais. 

A situação da Rússia é bastante confortável – se os países europeus começarem a falar muito em sanções comerciais e outros tipos de retaliações por causa da invasão da Ucrânia, eles simplesmente podem fechar as válvulas dos seus gasodutos. No outro extremo do seu grande território, a China está desesperada para aumentar as suas compras de gás da Rússia. 

É aqui que a “porca torce o rabo” como falam os caipiras aqui de São Paulo. Muitos países europeus caíram numa verdadeira armadilha por causa dos discursos de proteção ao meio ambiente e fizeram uma migração muito brusca para uma matriz energética mais limpa. Se os russos cessarem o fornecimento de gás para esses países, a coisa vai se complicar de vez. 

Se os leitores prestarem atenção nas entrelinhas das reportagens que estão falando sobre a invasão da Ucrânia, vão perceber claramente que muitos países estão condenando a invasão, “pero no mucho“. Eles sabem que se tomarem algumas atitudes mais duras contra a Rússia seus estoques de gás estarão ameaçados. 

O abastecimento de gás via Rússia se transformou ao longo dos últimos anos numa excelente alternativa ao gás fornecido pelo Oriente Médio. A conturbada região, com seus inúmeros conflitos regionais e desconfiança generalizada entre os países é rica em petróleo e gás, porém apresenta uma série de incertezas sobre a capacidade de fornecimento contínuo do produto. 

Os russos perceberam essa dificuldade e enxergaram uma grande oportunidade para conquistar o mercado europeu. O que ninguém esperava era uma atitude de tamanha agressividade contra a Ucrânia. A questão agora é saber até onde vai o pragmatismo dos europeus. 

Vão ficar em cima do muro, garantindo assim o gás nosso de cada dia ou vão passar a falar grosso com os russos, arriscando assim a perder o seu fornecimento de gás? 

Só o tempo nos responderá… 

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