GROENLÂNDIA: UM FUTURO GRANDE CELEIRO AGRÍCOLA?

A Groenlândia possui um território com cerca de 2,1 milhões de km², sendo considerada a maior ilha do mundo. De uma forma geral, os mapas apresentam a ilha com um território imenso, maior inclusive que o Brasil. Essa é uma distorção provocada pela técnica usada na confecção desses mapas – a projeção de Mercator. Na realidade, a Groenlândia tem uma área equivalente à da Arábia Saudita. 

A ilha é um território autônomo do Reino da Dinamarca, país do qual depende financeiramente. Cerca de 80% do território da Groenlândia é recoberto por um manto de gelo. O nome da ilha é de origem nórdica e foi dados pelos antigos navegadores vikings que lá aportaram por volta do ano 900 da nossa era. Em dinamarquês, o nome da ilha é Grønland, o que significa, literalmente, “terra verde”. 

De acordo com os registros históricos testemunhais do período entre os anos 900 e 1300 d.C., o Sul da Groenlândia apresentava um clima bem mais ameno que os dias atuais. A região era coberta por árvores e plantas herbáceas, permitindo a agricultura e a criação de gado. Gradativamente as temperaturas começaram a se reduzir e, no século XVII a pequena população local teve de abandonar a Groenlândia por causa do frio extremo. Esse é um período conhecido como a Pequena Idade do Gelo, quando toda a Europa sofreu com as baixas temperaturas. 

Os primeiros registros de ocupação humana na Groenlândia são datados em aproximadamente 4.500 anos atrás. Eram povos nômades que viviam da caça e da pesca. Ao longo dos milênios, diferentes grupos nômades ocuparam a ilha, alguns com mais sucesso que os outros. Cerca de 90% dos habitantes atuais da Groenlândia são inuits, grupo indígena que vive nas regiões árticas da América do Norte e que nós costumamos chamar de esquimós. A população total da Groenlândia é de apenas 56 mil habitantes, espalhados por algumas pequenas cidades costeiras. 

A economia da Groenlândia é quase que totalmente dependente do mar – a pesca e o processamento de pescados e frutos do mar são as principais atividades econômicas da ilha. A maior parte dos grandes barcos de pesca e as fábricas são de propriedade de cidadãos dinamarqueses, restando aos groenlandeses apenas os trabalhos braçais, pesados e sujos. Essa é uma situação que provoca uma enorme revolta entre os locais, com muitos sonhando com uma eventual independência da Dinamarca. 

A grande riqueza natural da Groenlândia, entretanto, está escondida nos seu subsolo – são imensas reservas de gás natural e petróleo, além de grandes jazidas de minério de ferro, zinco, molibdênio e ouro, entre muitos outros minerais de grande valor comercial. A grande dificuldade está no acesso a esses recursos minerais – além do clima inóspito, grande parte do território da Groenlândia é coberto por uma grossa camada de gelo, que varia entre 1,5 e 3 km de espessura. 

Assim como vem acontecendo em países como a Rússia e o Canadá, onde os efeitos do aquecimento global são bem visíveis, a Groenlândia também está “derretendo”. Um exemplo do que está acontecendo na ilha pode ser visto em estudo publicado na prestigiada revista científica Nature no final de 2020, que mostra o rápido derretimento das três maiores geleiras do país: Jacobshavn Isbrae, KangerlussuqHelheim

De acordo com as estimativas dos pesquisadores, a Jacobshavn Isbrae perdeu 1,5 trilhão de toneladas de gelo entre 1888 e 2012. Nas geleiras Kangerlussuaq Helheim, essa perda de massa, entre os anos de 1900 e 2012, foi estimada em 1,3 trilhão e 3,1 bilhão de toneladas, respectivamente. Entretanto, nem é preciso ser um especialista no assunto para observar o que está acontecendo – existem enormes crateras cheias de água por toda a ilha, um sinal claro do derretimento do manto de gelo (vide foto). 

Uma outra evidência clara da diminuição do gelo na Groenlândia é a redução dramática da população de cachorros na ilha. Durante milhares de anos, os diferentes povos nativos locais utilizaram seus fortes e valorosos cachorros para puxar seus trenos pelos difíceis terrenos da Groenlândia. Os cães da principal raça local, um parente próximo dos nossos conhecidos huskies, eram considerados essenciais à vida.  

Outro exemplo da decadência canina na Groenlândia: até 1994, a cidade de Ilulissat tinha cerca de 4,6 mil habitantes e mais de 8 mil cachorros – de lá para cá, a população canina despencou e atualmente não passa de 2 mil animais. Os locais dizem que os cachorros são cada vez menos necessários, uma vez que há cada vez menos neve e gelo na região, sendo cada vez mais fácil circular com automóveis. 

A contínua perda de gelo na Groenlândia tem revelado com uma clareza cada vez maior uma antiga fauna e flora diversificada que ocupava toda a ilha há menos de 1 milhão de anos atrás, o que em termos geológicos é bem pouco tempo. Desde a década de 1960, pesquisadores já vinham encontrando vestígios desse antigo meio ambiente groenlandês. A grossa camada de gelo que se formou ao longo de várias eras glaciais preservou restos de árvores, plantas e insetos como mariposas, aranhas e pulgas, datados entre 450 mil e 800 mil anos atrás. 

As evidências indicam que, durante esse período, a Groenlândia era coberta por florestas boreais parecidas com a taiga e as temperaturas se situavam entre os 10° C nos meses de verão e os 17° C negativos durante o inverno, níveis muito mais confortáveis do que aqueles encontrados atualmente em muitas regiões da Escandinávia e da Rússia. Estudos anteriores indicavam que essas condições climáticas eram anteriores a 2,4 milhões de anos atrás. Com as mudanças no clima do mundo que estamos assistindo, não será nada difícil que uma fauna e uma flora, bem similares a antiga, voltem a ocupar os solos da Groenlândia. 

E mais: não será nada impossível que nossos filhos e netos visitem grandes plantações de grãos na Groenlândia num futuro não muito distante. Conforme já comentamos em postagem anterior, pesquisadores russos estão desenvolvendo sementes de soja adaptadas para as duras condições climáticas de regiões do Norte do país, onde os solos de permafrost estão derretendo e as temperaturas estão subindo. Se está dando certo na Sibéria, por que não daria numa Groenlândia “derretida”? 

Acontecendo isso, a Groenlândia fará jus de verdade ao seu nome – uma “terra verde”, e a vida no resto do planeta será bem mais complicada que nos dias de hoje.

Ver também: CÃES DE TRENÓ ESTÃO PERDENDO SEUS “EMPREGOS” NA GROENLÂNDIA

A AGRICULTURA DA ÍNDIA EM TEMPOS DE COVID-19

No último dia 28 de fevereiro, um foguete indiano lançado a partir do Shar – Satish Dhawan Space Centre, em Sriharikota na Índia, colocou em órbita o Amazônia 1, primeiro satélite de observação da Terra totalmente projetado, construído, integrado, testado e operado no Brasil. O lançamento perfeito mostrou toda a capacidade tecnológica da Índia, uma país que até poucas décadas atrás era sinônimo de pobreza e fome. 

Com uma área total correspondente a apenas 30% do território brasileiro, a Índia abriga a segunda maior população do nosso planeta – são 1,3 bilhão de habitantes espalhados em pouco mais de 3,28 milhões de km². As projeções indicam que, em 2050, o país terá 1,69 bilhão de habitantes e será, disparado, o mais populoso do mundo

Sustentar tanta gente não é tarefa das mais fáceis e, já há várias décadas, sucessivos Governos indianos tem feito importantes investimentos para a segurança alimentar do seu povo. A Índia é o maior produtor mundial de pulses, grãos secos de leguminosas, onde se incluem grão-de-bico, ervilhas, lentilhas, feijão vermelho, feijão Urd, entre outros. A produção anual supera a marca das 19 milhões de toneladas, um pouco abaixo do consumo, que se encontra na casa das 22 milhões de toneladas. 

O país é o segundo maior produtor mundial de arroz, um dos alimentos mais importantes na dieta da sua população. Também é um grande produtor de cana-de-açúcar, amendoim, algodão, soja, legumes e frutas. Em 1950, a produção de grãos era de cerca de 50 milhões de toneladas – em 2020, a produção superou a marca das 295 milhões de toneladas. Para efeito de comparação, a produção brasileira em 2020 ficou próxima das 260 milhões de toneladas. 

O país tem uma posição de destaque na produção de carnes, sendo um dos maiores exportadores mundiais de carne bovina – isso apesar de bois e vacas serem considerados animais sagrados para grande parte da população da Índia. Internamente, as carnes de aves são as mais consumidas, 46% do total, seguido por carnes de búfalos (23%), cabras (13%), suínos (5,5%) e gado bovinos (5%). 

Apesar dos enormes avanços da produção agrícola nas últimas décadas, o número de pessoas subnutridas no país ainda é alarmante. De acordo com dados do Business Monitor International, publicadas em 2017, o número de subnutridos no país era de 213 milhões de pessoas no período 2010-2012, aproximadamente o tamanho da população do Brasil. No período 1993-1995, a situação era ainda pior – existiam 262 milhões de subnutridos na Índia, ou cerca de 1/5 da população. Os números mais recentes informam que o total de subnutridos está na casa dos 194 milhões de indianos

A segurança alimentar e a produção de alimentos estão entre as prioridades do Governo indiano, qualquer que seja o partido que esteja no poder. Nos últimos anos, o Governo do Primeiro Ministro Narendra Damodardas Modi vem se esforçando para modernizar a pequena agricultura e a produção familiar. Cerca de metade da população do país trabalha em atividades agrícolas, grande parte justamente nesses dois segmentos. A agropecuária responde por cerca de 14% do PIB da Índia. 

Essas atividades são fundamentais para um país onde perto de 68% da sua grande população vive em áreas rurais. Ao longo dos anos foram criadas inúmeras linhas de créditos e subsídios para as atividades rurais, incluindo preços reduzidos para a compra de sementes, fertilizantes e outros insumos, contas de água e luz com valores reduzidos, compra da produção garantida a valores de mercado, entre muitas outras “benesses” populistas. 

Entre outros problemas, essa política de fortes subsídios estagnou a produção de diversas culturas, como por exemplo a produção de pulses, que não apresenta qualquer crescimento há quase 10 anos. De acordo com os estudos feitos pelo Governo, essas políticas de subsídios provocam uma acomodação nos pequenos produtores – como eles sabem antecipadamente o quanto vão ganhar com a próxima safra, não fazem qualquer esforço para aumentar a produtividade ou para diversificar as suas culturas

A agenda do Governo inclui a eliminação de diversos subsídios, uma perspectiva que está incomodando importantes grupos e associações de produtores. Diversas manifestações desses opositores vêm ocorrendo por toda a Índia, muitas delas inclusive, terminando em violentos confrontos com as forças policiais. No final de janeiro, uma grande manifestação de agricultores em Nova Déli bloqueou principais ruas da capital com tratores (vide foto) e terminou com um manifestante morto e cerca de 80 policiais feridos. 

Além do clima tenso entre produtores agrícolas e Governo, as atividades rurais da Índia também vêm sofrendo os impactos da pandemia da Covid-19. Em 25 de março de 2020, o Governo decretou um grande isolamento social com vistas a conter o crescimento da doença. Com uma população tão grande e com uma grande parte dos seus cidadãos vivendo em condições sanitárias das mais precárias, o Governo da Índia temia uma grande mortalidade por causa da doença.  

Os números mais recentes indicam que 11,3 milhões de indianos tiveram a doença e cerca de 160 mil pessoas morreram. Apesar de trágicos, esses números são, em termos relativos, muito menos graves do que o de países com populações bem menores como os Estados Unidos e o Brasil, onde a Covid-19 já fez mais de 535 mil e 290 mil vítimas, respectivamente. 

A pressão popular, principalmente das populações mais pobres, acabou forçando o Governo a liberar algumas atividades, em especial nas áreas da agropecuária. Segundo a OIT – Organização Internacional do Trabalho, mais de 92% dos trabalhadores da Índia são informais e dependem dos ganhos do dia a dia para comprar os alimentos que consomem. Muitos desses trabalhadores precisam fazer longas caminhadas até os locais de trabalho – há relatos de pessoas que percorrem até 100 km a pé todos os dias

Apesar da liberação dos trabalhos no campo, os serviços de transporte, distribuição e venda dos alimentos pelos país continuaram parcialmente paralisados, criando toda uma série de problemas de escassez de muitos produtos. Alimentos como a carne de frango tiveram uma forte alta nos pontos de venda nas cidades devido à baixa oferta – muitos produtores, sem condições de escoar a sua produção, tiveram de reduzir os seus preços de venda, em alguns casos em até 6 vezes, para conseguir vender alguma coisa. 

A exemplo de outros países, o Governo da Índia criou uma série de ajudas econômicas para as populações mais pobres do país, que vão da distribuição de cestas básicas ao pagamento de auxílios emergenciais. O grande problema é que essas populações vivem em pequenos vilarejos isolados e a imensa maioria dessas pessoas não possui uma conta bancária – aliás, são poucos os que já entraram em uma agência bancária na vida. 

Em curtos espaços de tempo, essas populações mais pobres conseguem se manter contando com a solidariedade de parentes e vizinhos. O problema é que, com o passar do tempo, todos vão ficando sem recursos para se manterem e as tensões sociais, que já são enormes na Índia, podem se agravar muito. 

Todos esperamos pela chegada de tempos melhores. 

EM TEMPOS DE COVID-19, O CANADÁ BUSCA DESESPERADAMENTE POR MÃO DE OBRA PARA A SUA AGRICULTURA

Com uma área total próxima dos 10 milhões de km², o Canadá é o segundo maior país do mundo em extensão territorial, só ficando atrás da gigantesca Rússia. Grande parte do país se encontra dentro do Círculo Polar Ártico, onde o clima inóspito e os solos congelados (permafrost) sempre representaram um enorme desafio para a colonização. 

Uma extensa faixa de terras ao Sul – especialmente no Centro-Oeste do país, apresenta um clima temperado e excelentes solos, onde se pratica uma agricultura moderna e de altíssima produtividade. Em 2018, saíram dessa região mais de 20 milhões de toneladas de colza, uma semente rica em óleo; 32 milhões de toneladas de milho; 7 milhões de toneladas de soja; 14 milhões de toneladas de milho; 8,3 milhões de toneladas de cevada; 5,7 milhões de toneladas e batata, entre inúmeras outras culturas. A região também é uma grande produtora de carnes, principalmente de bovinos. 

Além de já contar com todo esse potencial, o Canadá é um dos países do mundo que mais poderá se beneficiar com o aquecimento global. Extensas áreas da tundra canadense vêm apresentando um aumento gradual das temperaturas e os solos de permafrost estão derretendo. Essa grande tragédia ambiental, que assusta o mundo todo, poderá se reverter em novas áreas para a produção agrícola e pecuária no Canadá. 

Os números grandiosos da agricultura escondem um enorme problema do país – apesar do extenso território e do enorme potencial de suas terras, faltam braços e pernas para movimentar a produção. A população total do Canadá é menor do que a do Estado de São Paulo – são apenas 38 milhões de habitantes. Além de pequena, grande parte dessa população – como aliás acontece em todos os países ricos, se recusa a fazer trabalhos manuais e pesados. A grande fonte de mão de obra para a agricultura do Canadá são os imigrantes, principalmente os temporários. 

Até o complicado ano de 2020, quando o mundo foi completamente tomado pela pandemia da Covid-19, dezenas de milhares de trabalhadores temporários, vindos principalmente da América Central e das ilhas do Mar do Caribe, se dirigiam ao Canadá todos os anos para trabalhar na agricultura e na pecuária. Ao longo dos meses mais quentes do ano, esses trabalhadores realizavam a preparação dos solos, o plantio, a colheita e a distribuição de uma infinidade de produtos agrícolas. Quando o rigoroso inverno canadense começava a mostrar suas “garras”, esses trabalhadores voltavam para seus quentes e acolhedores países de origem. 

De acordo com informações da agência de notícias Bloomberg, em maio de 2020 já estavam faltando mais de 60 mil trabalhadores estrangeiros na agricultura do Canadá. Assustados com as notícias sobre os índices de mortalidade da Covid-19, muitos dos habituais trabalhadores temporários optaram por ficar em seus países de origem junto com as suas famílias. De lá para cá, com as notícias de novas ondas de contaminação da doença, as coisas só pioraram. 

A falta de mão de obra vem sendo sentida principalmente em regiões produtoras de frutas e hortaliças da Colúmbia Britânica e nas vinícolas de Niágara, onde os trabalhos de colheitas são feitos manualmente e demandam muita gente. Nos setores de produção de grãos, onde a colheita é mecanizada, os problemas são bem menores, porém, existem enormes dificuldades nas áreas de estocagem e transporte dos grãos. 

A questão é tão séria para a economia do Canadá que até o Primeiro Ministro Justin Trudeau precisou se envolver e anunciou uma série de medidas para estimular a vinda de trabalhadores temporários para o país. Entre as medidas anunciadas foram incluídas facilidades para a entrada no país, renovação automática para os vistos de trabalho e também a liberação de dezenas de milhões de dólares canadenses para cobrir os custos com a quarentena obrigatória dos imigrantes. E, mesmo assim, continuou faltando gente disposta a ir trabalhar no Canadá. 

Conforme comentamos em postagens anteriores, a pandemia da Covid-19 teve impactos importantes na produção agropecuária de países em todo o mundo, especialmente nos países onde os trabalhos mais pesados são feitos por imigrantes. As sucessivas campanhas do tipo “fique em casa” e os números de mortes pela doença divulgados diariamente assustaram os trabalhadores. Na Europa, por exemplo, milhares de trabalhadores voltaram para seus países de origem, principalmente no Leste do continente, e se refugiaram junto com seus familiares. 

A situação se tornou tão complexa que a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, está temendo a chegada de uma grande onda de fome em muitos países do mundo. Segundo a FAO, 130 milhões de pessoas poderão ser levadas para a pobreza e se somarão aos mais de 690 milhões que já não tem o que comer regularmente. A esse grupo se somam outros 3 bilhões de pessoas em todo o mundo que não ganham o suficiente para manter uma alimentação adequada. Serão consequências muito mais graves que as da epidemia da Covid-19. 

O Brasil, que nas últimas décadas vem se transformando num dos grandes produtores de alimentos do mundo, tem se beneficiado muito dessa redução da produção agrícola mundial. A produção de muitos grãos segue em alta e as exportações não param de crescer. Entretanto, se essa situação persistir por muito tempo, esses bons ventos vão parar de soprar e vai começar a faltar dinheiro no mundo para pagar pelas importações desses alimentos. 

O gigantesco mercado consumidor da China, que tem mais de 1,4 bilhão de bocas para alimentar e muito dinheiro em caixa, ainda está pressionando o mercado internacional, comprando volumes cada vez maiores de grãos e carnes. A grande questão é – até quando essa situação vai se sustentar. 

Tradicionalmente, o mês de maio marca o início do plantio em países de clima temperado do Hemisfério Norte como o Canadá. Com a chegada da primavera e o degelo, os solos estão com bons níveis de umidade e prontos para serem trabalhados e semeados. As árvores já recuperaram suas folhagens e estão cobertas de flores – em breve, toda uma infinidade de frutos vai estar crescendo por todos os lados.  

A dúvida que fica – esse ano vai haver mão de obra suficiente para trabalhar nos campos do Canadá ou culturas inteiras vão se perder ou terras deixarão de serem semeadas por falta de mãos para os trabalhos no campo? E nos outros países do mundo? Até quando vão durar os estoques de grãos? 

Depois de milhares de anos de muita fome e de grandes dificuldades para a produção agrícola, a humanidade imaginava ter superado tudo isso ao ter atingido um alto grau de mecanização e de alta tecnologia para a produção agrícola. Apesar de ainda persistir em muitas regiões, a fome vinha sendo reduzida gradativamente em todo o mundo. De repente, um vírus aparece e consegue abalar todas as cadeias produtivas nos campos do mundo. 

Isso é um sinal claro que ainda temos muito a aprender com a natureza. 

AFINAL DE CONTAS – O QUE É ESSE TAL DE PERMAFROST?

Na última postagem falamos do surpreendente crescimento da produção agrícola na Rússia, que em poucos anos deixou de ser um grande importador de alimentos e vem conseguindo a façanha de aumentar as suas exportações de alguns grãos. O país, inclusive, está desenvolvendo variedades de soja adaptadas ao clima frio das altas latitudes da Rússia. 

Além do competente trabalho na área de biotecnologia, os russos estão se valendo do aumento das temperaturas no Ártico, um efeito direto do aquecimento global. Em uma postagem bem recente eu citei o caso da cidade de Verkhoyansk, na Sibéria, onde a temperatura atingiu a marca de 38° C no dia 20 de junho de 2020. Para nós brasileiros isso parece corriqueiro, mas, nas frias planícies da Rússia a temperatura no verão raramente ultrapassavam os 15° C. 

Esse aumento das temperaturas ao longo do Círculo Polar Ártico está provocando o derretimento gradual do permafrost, uma grossa camada de solos com água congelada. A palavra permafrost é um neologismo formado a partir das palavras em inglês “permanent frost”, ou permanentemente congelado. 

O termo foi proposto pela primeira vez pelo geólogo e paleontólogo norte-americano Siemon William Muller em 1943. Muller nasceu na Rússia em 1900. Seu pai era dinamarquês e, nos últimos anos do século XIX, foi trabalhar na construção da linha telegráfica Transiberiana. Com a deflagração da Revolução Russa em 1917, a família Muller mudou-se para Xangai, na China. Em 1921, Siemon Muller mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou geologia na Universidade do Oregon, fez carreira e acabou se naturalizando norte-americano. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Muller trabalhou para a Unidade de Geologia Militar do Serviço Geológico dos Estados Unidos, quando fez importantes estudos sobre os solos congelados do Alasca. Como ele era fluente em russo, pode consultar com extrema facilidade a literatura científica já existente – aqui é importante lembrar que o Alasca era território do Império Russo até 1867, quando foi comprado pelos Estados Unidos por US$ 7,2 milhões, em valores há época. 

Os solos do tipo permafrost ocorrem nas regiões Polares e em áreas próximas, além de terrenos elevados em áreas montanhosas. São formados por sedimentos, rochas e detritos minerais permeados por água congelada. Cerca de ¼ dos solos do nosso planeta se enquadram nessa categoria, o que nos dá uma ideia dos impactos ambientais que poderão ser desencadeados pelo aquecimento global. 

No Hemisfério Norte, os solos do tipo permafrost são encontrados em quase todo o Alasca, em grande parte do Canadá e na Groenlândia. Na Europa são encontrados no Norte dos países escandinavos – Noruega, Suécia e Finlândia, no Norte da Rússia europeia e em altitudes elevadas dos Alpes. Na Ásia, esses solos ocorrem em uma extensa faixa do Norte da Rússia e também são encontrados no Nordeste da China. No Hemisfério Sul, o permafrost só é encontrado em trechos de grande altitude da Cordilheira dos Andes e na Antártida. 

O fenômeno do derretimento do permafrost começou a ganhar notoriedade há alguns anos atrás, quando construções no Alasca e no Norte do Canadá primeiro começaram a se inclinar e, depois, ruíram. Foi então que os moradores dessas regiões começaram a observar que os solos duros do passado, que eram extremamente difíceis de serem escavados para a construção das fundações dos imóveis, haviam se transformado solos lamacentos e instáveis. 

Outra observação do fenômeno passou a ser vista em regiões cobertas pela taiga, a grande floresta de coníferas que se estende por uma grande faixa do Norte do globo terrestre. As raízes dessa vegetação, formada principalmente por pinheiros, piceas, bétulas e lariços, evoluíram e se adaptaram aos solos duros do permafrost. Essas raízes são pequenas quando comparadas com a de outras espécies de árvores do mesmo porte em outros climas, porém, eram suficientemente fortes para garantir a sustentação dessas conífera nesses solos duros. 

Com o derretimento do permafrost em várias regiões, os cientistas e especialistas em botânica passaram a observar um aumento da quantidade de árvores caídas sobre os solos. Muito pior: no auge do verão, quando são comuns os incêndios florestais na taiga (a grande maioria tem origem natural), esses troncos caídos aumentam a intensidade das chamas e danificam seriamente as árvores que estão vivas e em pé. 

Essa verdadeira catástrofe ambiental dos nossos dias, que ainda está apenas em seus estágios iniciais, vem se juntar a outras também decorrentes do aumento das temperaturas do planeta. Falo aqui do derretimento de grandes massas de gelo nas regiões polares e no alto de grandes cadeias de montanhas, do aumento do nível dos oceanos, de mudanças nos padrões nas correntes marinhas e nos ventos, entre outros gravíssimos problemas

Para muita gente, entretanto, o derretimento do permafrost representa uma grande oportunidade de aumento das áreas adequadas para a agricultura. A Rússia é um desses países “privilegiados”. Apesar de possuir um gigantesco território com mais de 14 milhões de km², grande parte dele é formado por esses solos congelados, onde só prospera a vegetação de tundra do Círculo Polar Ártico. Essa regiões são muito pouco aproveitadas pelo povo russo. 

Mesmo em latitudes abaixo das áreas de domínio da vegetação de tundra, que é formada por diversas espécies de musgos, líquens e pequenos arbustos, a agricultura nunca foi das mais fáceis. Culturas populares como o trigo não toleram regiões secas e muito frias como essas. Foram necessários muitos séculos até que culturas como o centeio e a cevada, plantas que pertencem à mesma família do trigo e que se desenvolvem bem sob essas condições, fossem desenvolvidas e permitissem o povoamento dessas regiões “mais ao Norte”. 

Quando avaliamos o histórico da Rússia nesses últimos cem anos, percebemos que seus sucessivos Governos, especialmente nos tempos do regime comunista, nunca se preocuparam muito com alguns “pequenos” problemas ambientais. Para muitos, especialmente os russos mais velhos, o derretimento do permafrost é apenas mais desses problemas, como muitos outros já vividos pelo país.  

Um exemplo da falta de preocupação dos russos com o meio ambiente e que cito muito aqui no blog é o caso do Mar de Aral, localizado entre duas das antigas Repúblicas Soviéticas – o Cazaquistão e o Turcomenistão. 

Os planejadores do antigo Governo Central da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, estabeleceram que as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central seriam responsáveis pela produção de algodão do bloco. Grandes canais de irrigação foram construídos a fim de transformar terrenos semiáridos e desérticos em campos agrícolas. Esses canais passaram a drenar a maior parte da água dos rios Amu Daria e Syr Daria, os dois formadores do Mar de Aral, que praticamente secou. 

Outro exemplo da falta de compromisso dos russos com o seu meio ambiente: em 30 de outubro de 1961, as Forças Armadas da URSS lançaram uma poderosa bomba nuclear sobre a principal ilha do arquipélago de Nova Zembla, no Oceano Ártico russo. A explosão nuclear que se seguiu é considerada a maior da história. Nas palavras de um dos observadores do teste: 

“Um gigantesco clarão sobre o horizonte, e após um longo período de tempo ouvi um sopro distante e pesado, como se a terra tivesse sido morta.” 

O arquipélago de Nova Zembla tem 90 mil km² e, graças ao clima inóspito, é praticamente desabitado – existem algumas poucas bases no extremo Sul que são usadas por pescadores no verão. Com o aquecimento global e com o aumento das temperaturas do Ártico é possível que as temperaturas locais atinjam níveis confortáveis para se viver. Porém, a intensa radiação deixada em grande parte das suas terras por esse irracional teste nuclear, impedirá o assentamento de populações por lá ainda por muitos séculos. 

Vocês acham que país cujo Governo já fez isso com um pedaço do seu território vai se preocupar com um descongelamento a toa dos solos?

O SURPREENDENTE CRESCIMENTO DA PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA NA RÚSSIA

O aquecimento global é um dos grandes pesadelos da humanidade nesse século XXI. Depois de séculos de emissões de grandes volumes de gases de efeito estufa, os sinais do aumento da temperatura do planeta são preocupantes – grandes geleiras nos Polos e no alto de grandes montanhas estão perdendo rapidamente suas massas de gelo.  

Em muitas regiões, como no caso no Oceano Índico, já são visíveis alterações nas correntes marinhas, o que tem se refletido em mudanças nos padrões de chuvas nas áreas continentais próximas. Mudanças alarmantes nas precipitação e no clima começam a ser observados em vários lugares do mundo, desalojando milhões de pessoas

Apesar de todos os riscos e preocupações que envolvem esse tema, tem gente que está se dando muito bem, obrigado, com as mudanças climáticas. Entre os mais radiantes estão os russos que vivem nas proximidades do Círculo Polar Ártico. Com o aumento constantes das temperaturas locais, o permafrost, uma grossa camada de solo permanentemente congelado da tundra, começou a derreter (vide foto) e esses regiões estão se tornando agricultáveis. 

E por mais surpreendente que possa lhes parecer, os russos estão plantando soja nessa região. Ainda são plantações experimentais de variedades de soja adaptadas para crescer em ambientes com temperaturas baixas, mas os resultados já obtidos são altamente promissores. 

As sementes de soja foram criadas por instituições russas como o Instituto de Pesquisas Pustovoit de Culturas Oleaginosas e o Instituto de Pesquisa Agrícola Chuvashia. Nos testes de campo já realizados, essas sementes germinaram com temperaturas ambientes acima de 10° C e as plantas necessitaram de 100 dias para se desenvolver. A exemplo do sucesso que pesquisadores brasileiros conseguiram ao adaptar a soja ao clima e aos solos do Cerrado, os pesquisadores russos estão extremamente otimistas. 

Em 2019, os russos colheram cerca de 1,1 milhão de toneladas de soja na área central do país. Isso pode parecer insignificante para nós brasileiros, tão acostumados que estamos de ouvir notícias sobre colheitas de dezenas e mais dezenas de milhões de toneladas de soja aqui em nossas terras. Para os russos, entretanto, isso é uma grande vitória – a produção da leguminosa cresceu 18 vezes ao longo da última década. 

As boas notícias para a agricultura da Rússia não se resumem apenas ao crescimento da produção de soja. A produção de grãos no país vem batendo sucessivos recordes e já supera a marca de 130 milhões de toneladas. O trigo é a principal estrela da agricultura russa, com a produção se aproximando de 80 milhões de toneladas, mas também se destacam centeio, cevada, colza, milho e sementes de girassol, entre outras. 

Até 2013, a Rússia precisava importar até 35% do volume total dos alimentos consumidos pela sua população. Com o crescimento da produção no país, o volume de alimentos importados atualmente é de menos de 20% das suas necessidades. Já as exportações de alimentos aumentaram cerca de 15 vezes na última década e tem como principais destinos Egito, Turquia, China e Coreia do Sul. O Brasil, inclusive, vem importando trigo da Rússia. 

Se fizermos uma rápida retrospectiva da história russa no último século, veremos que o país enfrentou, por diversas vezes, ciclos de baixa produção de alimentos e muita fome. Um dos casos mais graves se deu entre 1932 e 1933, sendo chamado por muitos historiadores de “fome soviética” ou holmodor, palavra russa que significa “matar pela fome”. Como era de praxe nos tempos da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a maior parte das informações relativas a esse trágico período foram escondidas. 

O que se pode afirmar com certeza é que, após a implantação do regime comunista e com a estatização das propriedades, a produção agrícola no país e em seus “satélites” foi completamente desmantelada. Tentando evitar a entrega de seus bens ao Estado, os camponeses destruíam as suas fazendas e equipamentos, arrebentavam barragens de água, matavam cavalos e outros animais domésticos. Era uma espécie de política das “terras agrícolas” arrasadas.

Algumas das imagens mais chocantes desse período vem da Ucrânia, antiga República do bloco socialista – o Governo central confiscou toda a produção agrícola local nesse período, deixando os ucranianos à mingua. A Ucrania era há época uma espécie de celeiro da URSS, mas esse confisco também foi uma represália por causa de lideranças políticas locais que criticavam o Governo central. É bem fácil pesquisar e encontrar fotografias da época com ucranianos esqueléticos. As estimativas falam de um total de mortos entre 11,5 e 14 milhões nas regiões da URSS mais atingidas pela fome, principalmente na Ucrânia, na região do rio Volga e no Cazaquistão. 

Mesmo nos períodos de maior “prosperidade” do grande “Império” Soviético, problemas pontuais de produção e de abastecimento de gêneros alimentícios aconteciam por todo o antigo território da Rússia e de suas Repúblicas satélites. A principal causa desses problemas eram as falhas, muitas vezes grotescas, do sistema de planejamento central do Governo. Fenômenos meteorológicos como nevascas, secas, enchentes e vendavais, entre outros, também cobravam o seu preço. Em alguns casos, era a complicada logística de distribuição, em especial nos territórios mais isolados, o que provocava “temporadas pontuais de fome”. 

O recente e surpreendente crescimento da produção agropecuária na Rússia tem suas raízes na ocupação da região da Crimeia pelo Exército Vermelho em 2014. A região, que até então fazia parte da Ucrânia, foi incorporada ao território da Rússia sob a alegação da grande importância estratégica do porto de Sebastopol para o país. A União Europeia protestou fortemente e impôs uma série de retaliações econômicas à Rússia. Por sua vez, Moscou impôs um boicote a importações de alimentos da União Europeia e criou uma série de mecanismos para incentivar a produção local. 

A estratégia adotada pelo Governo russo vem dando bons resultados. As importações de açúcar, por exemplo, já foram reduzidas em mais de 70%; laticínios em mais de 30% e carnes em 36%. Nesse último item, aliás, o país atingiu a autossuficiência na produção de carne de porco e de frango. A produção de frutas, legumes e verduras também segue em ritmo crescente

Os resultados de todos esses esforços começam a saltar aos olhos do resto do mundo – em pleno ano de 2020, quando o mundo inteiro parou por causa da epidemia da Covid-19, a Rússia aumentou as suas exportações de grãos em 15,2%. De acordo com o serviço de estatísticas do país, o Rosstat, foram exportadas 32,2 milhões de toneladas

O trigo foi o grande destaque dessas exportações com 23,9 milhões de toneladas. Na sequência veio a cevada, com 3,5 milhões de toneladas e o milho, com 3 milhões de toneladas. Também se incluem nessa lista a farinha de trigo e a farinha mista de trigo e centeio, com 200 mil toneladas, além de 874 mil toneladas de semente de girassol. Animados com esses bons resultados, os russos planejam duplicar as suas exportações de grãos até o ano de 2025. 

A depender da vontade inquebrantável do seu povo e do aquecimento global que, ano após ano, tem seus efeitos cada vez mais evidentes, a Rússia com certeza vai chegar lá. Como estudioso dos problemas ambientais, entretanto, não sei se essa perspectiva é para se comemorar ou para chorar… 

A EFICENTE E “COMPLICADA” AGROPECUÁRIA DA AUSTRÁLIA

Vou começar esta postagem fazendo uma afirmação que, à primeira vista, poderá parecer polêmica: a Austrália é uma espécie de Brasil invertido. Deixem-me explicar. 

O Brasil tem uma área total de 8,5 milhões de km², onde se encontram os climas Equatorial, na região da Amazônia, Tropical nas áreas centrais do país e Subtropical na região Sul e em parte do Sudeste. O clima Semiárido é encontrado apenas em uma pequena parte do país – falo aqui do Sertão Nordestino ou Caatinga, que ocupa uma área de menos de 1 milhão de km². 

Na Austrália, as coisas são exatamente o inverso. Com uma área de 7,7 milhões de km², a maior parte do território australiano tem climas Semiárido e Desértico. Uma estreita faixa ao longo das costas do Sul e uma grande área no Sudeste do país têm um clima Mediterrâneo, que nada mais é do que um clima temperado. Pequenas faixas ao Sudoeste e Leste do continente tem um clima Subtropical e uma faixa no extremo Norte apresenta características Tropicais (clima quente com uma forte temporada de chuvas de Monção). 

Em relação à disponibilidade de água, a situação também é totalmente oposta. O Brasil possui 12% das reservas de água doce do mundo (lembrando que a maior parte dessa água se encontra na Bacia Amazônica), com chuvas regulares na maior parte do território. Já a Austrália é o continente habitado mais seco do mundo, com cerca de 1% das reservas mundiais de água doce.  

Grande parte do território australiano sofre com a falta de chuvas, que além de irregulares, caem em volumes muito pequenos. Como se não bastassem todos esses problemas, o país convive com fortíssimos ciclos de estiagem generalizada a exemplo da chamada Seca do Milênio ocorrida há alguns anos atrás.. 

Apesar do clima, aparentemente, jogar contra o país, a Austrália é um grande produtor de alimentos e um dos maiores exportadores de carne do mundo. A área agricultável total do país é, percentualmente, bem menor do que a de grandes países como o Brasil, mas os australianos utilizam com maestria os recursos naturais que tem a sua disposição. 

Um exemplo dessa eficiência se vê na produção de carne bovina. De acordo com informações do USDA – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na sigla em inglês, a Austrália tem uma produção anual da ordem de 2,15 milhões de toneladas, o que coloca o país como o sétimo maior produtor mundial. Como exportador de carne, o país salta para a terceira posição mundial, só ficando atrás do Brasil e da Índia. Nada mal para um país “seco”! 

O país também “faz bonito” quando se fala de produção agrícola. Uma das principais regiões produtoras da Austrália é o Sudeste, mais especificamente na bacia hidrográfica dos rios Murray Darling. Ocupando uma área de 1,061 milhão de km², o que corresponde à metade do Cerrado brasileiro, essa região concentra 40% da área agrícola e 85% de toda a área irrigada do país.  

Essa região é responsável por 75% da produção de grãos da Austrália e ocupa áreas dos Estados de Queensland, Nova Gales do Sul e Vitória. Não por acaso, as cidades mais importantes da Austrália ficam nessa região: Sidney, Adelaide, Brisbane, Melbourne e Camberra, a capital do país. Um dos destaques é a produção de trigo, que supera fácil a marca das 25 milhões de toneladas. Também se destacam a cevada, o sorgo e frutas como as uvas – para quem não sabe, a Austrália é um grande produtor de vinhos. 

Muitos antes da chegada da epidemia da Covid-19, que desorganizou completamente a economia do país como fez em todo o mundo, a Austrália já convivia com problemas bem próprios como os fortes ciclos de seca e os grandes incêndios florestais, além de enchentes em algumas regiões. Essas grandes tragédias, sistematicamente, criam enormes desafios para os incansáveis australianos. 

Um exemplo recente foram os violentos incêndios florestais que devastaram grandes áreas dos Estados australianos de Nova Gales do Sul e Queensland no final de 2019. Apesar de serem relativamente frequentes, os incêndios nessa ocasião foram considerados os mais ferozes já vistos no país. As chamas devastaram, pelo menos, 4 milhões de hectares de matas e podem ter provocado a morte de meio bilhão de animais, entre espécies domésticas e selvagens.  

Fortes ciclos de estiagem, que nós brasileiros conhecemos bem no Semiárido Nordestino, também costumam assolar grandes regiões da Austrália. Um dos mais impactantes das últimas décadas assolou o país por quase dez anos e ganhou a alcunha de “Seca do Milênio”. Esse intenso fenômeno climático atingiu grande parte do país entre os anos 2000 e 2009. Os impactos econômicos para a produção agropecuária foram imensos. Como exemplos podemos citar a produção do trigo, que sofreu uma redução de 50%, e a do arroz, que caiu 98%

A exemplo do que ocorreu no Brasil, o ano de 2020 foi excepcional para a agricultura australiana apesar da pandemia da Covid-19. As condições climáticas foram as mais favoráveis dos últimos anos e houve quebra de recordes na produção de diversas culturas agrícolas. A recém concluída colheita do trigo, por exemplo, teve a maior produção em 31 anos e atingiu a marca de 33,3 milhões de toneladas. 

Mesmo vencendo sucessivos desafios econômicos ano após ano, a Austrália sofre de um mal difícil de ser solucionado a curto e médio prazo: apesar de ter uma área apenas 10% menor que a do Brasil, a população australiana é 8,5 vezes menor que a brasileira e se encontra na casa dos 25 milhões de habitantes

Um exemplo fácil para demonstrar os problemas de um mercado consumidor interno muito pequeno: perto de 70% de toda a carne bovina produzida aqui no Brasil é consumida pelos brasileiros; na Austrália, mais de 80% da produção é exportada. Falando de forma figurada: caso o mercado internacional da carne “pegue uma gripe”, para os australianos isso resultará numa “grave tuberculose”. 

Com esse mercado consumidor interno extremamente pequeno – falamos aqui de uma população que é pouca coisa maior que a da Região Metropolitana de São Paulo com seus 21,5 milhões de habitantes, a Austrália é fortemente dependente das exportações. Entre seus principais mercados estão o Japão, a Coreia do Sul e, principalmente, a China – a economia australiana é fortemente dependente da China. 

Entre todos os grandes países do mundo, a Austrália foi um dos que mais se beneficiou com o grande boom econômico da China que teve início em meados da década de 1980. Além de consumir quantidades expressivas de grãos e carnes produzidas pelos australianos, os chineses passaram a importar volumes cada vez maiores de minério de ferro, carvão e outros minerais da Austrália. O grande mercado consumidor da China se converteu no grande impulsionador do crescimento da economia da Austrália – o país cresceu ininterruptamente por mais de três décadas. 

Essa dependência quase “umbilical” da economia da Austrália em relação à China trouxe uma série de vantagens, mas, por outro lado, criou uma perigosa situação de dependência que, mais cedo ou mais tarde, poderá cobrar um alto preço. Um caso recente e que ilustra bem os riscos vividos pelo país – a Austrália aderiu à Parceria Transpacífica, o que irritou profundamente os chineses. 

A TPP – Trans-Pacific Partnership, é um acordo de livre-comércio que envolve doze países da região do Oceano Pacífico, e que tem características muito similares à União Europeia. A inciativa foi lançada em 2005, sendo assinada inicialmente por Brunei, Nova Zelândia, Chile e Singapura. A partir de 2008, a TPP passou a receber novas adesões: Canadá, Japão, Malásia, México, Peru, Estados Unidos, Vietnã e Austrália. Além dessa iniciativa, a Austrália tem se aproximado cada vez mais de outros países com os quais já tem uma longa ligação histórica como o Canadá e a Inglaterra

O receio da China é que essas parcerias econômicas transnacionais resultem, num futuro próximo, numa aliança militar entre esses países a exemplo da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, força militar que reúne países da Europa e os Estados Unidos. A China vem desenvolvendo uma política espancionista muito forte e que tem desagradado muitos países como a Índia, o Japão e, especialmente, os Estados Unidos. Mais cedo ou mais tarde, esses países poderão se reunir com o objetivo de tentar colocar um freio nas ambições dos chineses.

Os chineses, que já há um bom tempo vem desenvolvendo uma espécie de “mania de perseguição” por parte de alguns países, não tem visto essa política “adesionista” da Austrália com bons olhos e tem mandado recados através de diversas sanções econômicas a produtos australianos. Exemplos: as tarifas para importação dos vinhos australianos pela China, seu maior mercado, foram elevadas em 200% e o fluxo de turistas chineses para a Austrália, que respondem por mais de 80% do total de visitantes estrangeiros, despencaram

Moral da história: nos dias atuais, não basta ser apenas competente no agronegócio e contar com condições climáticas favoráveis – é preciso ser “amiguinho” dos chineses!

A NOVA CAPITAL DO EGITO QUE ESTÁ SENDO FINANCIADA PELA CHINA

Na nossa última postagem apresentamos um quadro geral da influência econômica e política que a China vem exercendo em todo o continente africano. Essa influência começou timidamente no início da década de 1960, quando os chineses ajudaram a financiar a construção de uma ferrovia ligando a Tanzânia a Zâmbia. Hoje, a China tem uma forte presença em todos os 54 países que formam a África. 

A maior parte dos investimentos financiados por capitais chineses estão concentrados em infraestrutura, especialmente rodovias, ferrovias, portos e centrais de geração de energia elétrica. Também não é segredo para ninguém que a China vê o continente africano como um futuro celeiro agrícola – já existem muitos projetos de agricultura irrigada em andamento e, pelo andar da carruagem, virão muitos outros mais. 

Para exemplificar a quantas anda a influência da China na África: o Governo do Egito está realizando um fabuloso investimento para a construção de uma nova capital para o país. Considerado por muitos analistas internacionais como “megalomaníaco”, esse grande projeto poderá consumir até US$ 250 bilhões. E quem está financiando e/ou vai financiar a maior parte das despesas? A China, é claro. 

Somente para o desenvolvimento da fase inicial do projeto, os custos estão estimados em US$ 45 bilhões – os chineses sozinhos estão desembolsando US$ 32 bilhões através de inúmeras linhas de crédito governamentais. Um grupo de bancos chineses vai desembolsar outros US$ 3 bilhões para a construção do centro financeiro da nova capital. 

O grande canteiro de obras já em andamento fica a meio caminho entre a cidade do Cairo e o Porto de Suez. Entre as obras iniciais destacam-se a construção de hotéis, residências e centros de convenções. De acordo com os planos do Governo, a nova capital, que ainda não tem nome, ocupará uma área total de 750 km², praticamente o mesmo tamanho da cidade de Nova York

Na parte central da cidade está prevista a construção de uma grande área verde com o dobro do tamanho do Central Park de Nova York, um palácio presidencial sete vezes maior que a Casa Branca, sede do Governo norte-americano, além de abrigar o edifício mais alto de toda a África. Também estão previstos inúmeros lagos por toda a cidade e uma grande usina de geração fotovoltaica para fornecer energia elétrica limpa. 

O aeroporto da nova capital está sendo pensado para ser o maior de toda a África e um dos maiores do mundo. A mania de grandeza também se mostra na ideia de se construir um imenso distrito voltado para o entretenimento, onde se preveem investimentos de US$ 20 bilhões. Como o padrão de referência dos egípcios parece ser os Estados Unidos, esse distrito terá um tamanho equivalente a quatro vezes ao da Disneylândia. 

O mega projeto foi anunciado em 2015, pelo líder do Egito, o General Abdel Fattah Saeed Hussein Khalil as-Sisi. A nova cidade será a capital administrativa do país, abrigando além do palácio presidencial os ministérios, os comandos militares, sedes de empresas públicas (que são muitas), entre outras autarquias e órgãos governamentais. 

O Governo espera assentar na cidade até 6 milhões de egípcios, desafogando a gigantesca cidade do Cairo onde já vivem perto de 20 milhões de pessoas, 1/5 da população do Egito. Considerada a segunda cidade com ar mais poluído do mundo – superada apenas por Nova Déli na Índia, o Cairo poderá chegar aos 40 milhões de habitantes nos próximos 30 anos.  

Os problemas urbanos, sociais e econômicos da cidade, que já são gravíssimos, passarão para níveis absolutamente surreais. A imensa maioria dos egípcios sobrevive com uma renda equivalente a R$ 7,00 por dia, o que nos dá uma ideia dos problemas enfrentados pela população. O baixo poder aquisitivo da população, aliás, poderá transformar a nova capital em uma terra acessível somente para os grupos econômicos mais abastados do país.

Para estimular a migração da população, o projeto prevê a construção de centenas de mesquitas, estádios de futebol, rodovias de alta velocidade, além de milhares de apartamentos de alto padrão cercados por grandes áreas verdes. Inclusive, o cuidado com a concepção das habitações para a população é um dos destaques do projeto. 

Escritórios de arquitetura e de design italianos estão trabalhando em conjunto com arquitetos egípcios no projeto dos edifícios. O projeto básico é formado por edifícios baixos no formato de cubo, com arestas de 30 metros e dotados de apartamentos com grandes varandas. Esses prédios receberão jardins verticais a exemplo de projetos já existentes em cidades como Milão, na Itália, e Paris, na França. Ao redor de cada prédio serão plantadas cerca de 350 árvores e 14 mil arbustos de espécies diferentes. já foram selecionadas mais de 100 espécies de plantas, todas adaptadas ao clima local. 

Saindo um pouco do mundo dos “contos de fadas”, a ideia do Governo destoa completamente da história de um país que, desde a independência total do Reino Unido em 1954, vem vivendo entre altos e baixos na economia e na política. Nesse período, o país se envolveu em duas guerras contra Israel – a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e do Yom Kippur, em 1973; um conflito internacional por causa do Canal de Suez, já teve um presidente assassinado e sofreu diversos golpes militares.  

Bem recentemente, em 2016, o Egito precisou pedir um empréstimo de US$ 12 bilhões ao FMI – Fundo Monetário Internacional, a fim de conseguir fechar suas contas externas. Para piorar a situação, a economia do país vem registrando déficits fiscais da ordem de 10% do PIB – Produto Interno Bruto, nos últimos anos. 

Relembrando a recente e sempre tumultuada história do Egito, o General as-Sisi assumiu o comando do país em um golpe de Estado que derrubou o então presidente eleito Mohamed Morsi em 2014. Em 2018, as-Sisi foi reeleito para um novo mandato de 4 anos, tendo obtido a “incrível” marca de 97,08% do total de votos. Analistas internacionais acusaram essas eleições de fraudulentas. 

O General as-Sisi chefiava o alto comando militar do Egito desde 2012, e conta com forte apoio dos oficiais militares do país. Em reconhecimento a todo esse apoio, militares de altas patentes foram indicados pelo Presidente para comandar a grande massa de empresas públicas do país, onde se incluem desde empresas de transportes e de geração de energia elétrica até hotéis e empresas de turismo. Dentro de uma estrutura governamental com essas características não há espaços para vozes dissonantes e/ou críticas ao projeto da nova capital do país. 

O apoio da China ao polêmico projeto tem razões de ordem geopolítica – o Canal de Suez é, ao lado do Canal do Panamá e do Estreito de Malaca, uma das artérias vitais ao seu comércio internacional. Para os que não conhecem a história local, o então presidente Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez em 1957, desencadeando uma enorme crise internacional. Na prática, a concessão do Canal ainda pertencia o Reino Unido. 

O Estado de Israel, com apoio de tropas da França e da Inglaterra, realizou uma rápida intervenção militar, o que, inclusive, custou ao Egito a perda temporária da região da Península do Sinai para os israelenses. A ONU – Organização das Nações Unidas, precisou intervir com uma Força de Paz, que contou inclusive com a participação de militares brasileiros, para assegurar o livre tráfego do comércio internacional pelo Canal de Suez. 

Além de toda uma série de coisas podem dar muito errado em um projeto dessa magnitude – o Egito já tentou criar 8 cidades sem sucesso, o volume dos empréstimos que estão sendo contraídos pelo país poderá inviabilizar a economia no médio prazo. As montanhas de dinheiro que os chineses estão emprestando ao país, mais cedo ou mais tarde, precisarão começar a ser pagas. E o valor de cada uma das parcelas é bastante salgado para o tamanho da economia do Egito. 

A história antiga do Egito está cheia de grandes faraós que sonharam com grandes palácios e cidades, mas que fracassaram de forma retumbante em seus planos. Esperemos que o moderno Egito não repita os mesmos erros. 

Para finalizar, deixo a seguinte reflexão: se a China tem cacife político e econômico para bancar um projeto que mudará completamente os rumos da história do Egito – para o bem ou para o mal, algum de vocês tem qualquer dúvida que esse país também poderá avalizar futuros grandes desmatamentos em toda a África para a implantação de projetos agropecuários de interesse do país? 

ÁFRICA: O NOVO CELEIRO DO MUNDO OU DA CHINA?

Desde o início da Era das Grandes Navegações na Europa do século XV, a África foi transformada em uma espécie de almoxarifado geral do mundo. Primeiro, o continente forneceu milhões de escravos para atender as demandas de produção agropecuária e de mineração nas Américas. Depois, a maior parte dos territórios foi partilhada entre as grandes potências europeias, que fizeram o que bem entenderam com os recursos naturais e com as populações. 

Depois dos diversos processos de independência que varreram o extenso território ao longo de todo o século XX, a Àfrica foi sendo esquecida pelas suas antigas metrópoles. A divisão artificial dos territórios feita pelos europeus, onde não se respeitou os antigos domínios tribais, acabou resultando em inúmeras guerras. Os responsáveis pelo caos se fizeram de “mortos” – com a independência vem a responsabilidade: então, se virem! 

Os chineses “descobriram” a África no início da década de 1960. Timidamente e muito longe da potência econômica atual, a China de então ajudou a financiar a construção da Ferrovia Tazara, que ligou a Tanzânia a Zâmbia. Paulatinamente e em silêncio, os investimentos chineses foram crescendo nesse grande pedaço esquecido do mundo. Hoje, a China tem uma presença forte nos 54 países da África. 

O continente africano é onde os chineses mais investem atualmente. De acordo com informações da publicação Hoje Macau, jornal de Macau (Região Autônoma da China) publicado em língua portuguesa, somente no primeiro semestre de 2016, os chineses investiram mais de US$ 50 bilhões em países africanos, superando os investimentos de americanos e europeus. Entre os anos 2000 e 2015, a China concedeu US$ 95 bilhões em empréstimos e linhas de crédito para Governos e empresas estatais africanas. E de lá para cá o ritmo desses investimentos não diminuiu

Mais de 63% desses empréstimos foram destinados a obras de infraestrutura como ferrovias e rodovias, além de projetos nas áreas de energia e telecomunicações. Países como Angola, Etiópia, Quênia e Sudão lideram a lista dos investimentos. Um exemplo é a polêmica Hidrelétrica Grande Renascença na Etiópia, prevista para gerar 6 mil MW de energia elétrica a partir do represamento das águas do rio Nilo. 

O Nilo é o segundo rio mais importante da África, só ficando atrás do rio Congo. A bacia hidrográfica do rio Nilo abrange um total de 9 países: Egito, Sudão, Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda. Mais de 500 milhões de pessoas dependem, direta ou indiretamente das águas do rio Nilo

Esse verdadeiro mundo de gentes e águas tem um grande nó: no final da década de 1950, o então Império Britânico criou um “tratado” (para atender aos interesses de suas antigas colônias), reservando 80% das águas do rio Nilo para atender os usos do Egito e do Sudão. A Etiópia começou a construção da sua grande barragem sem pedir autorização para os “donos” das águas do rio Nilo, uma atitude que poderá, inclusive, gerar um conflito armado com os demais países da bacia hidrográfica

O lago que será formado pela barragem Grande Renascença terá uma extensão de 250 km e permitirá o desenvolvimento de uma infinidade de projetos agropecuários na região das Savanas e dos terrenos semiáridos etíopes. Para quem não conhece, as Savanas da África são biomas muito parecidos com o nosso Cerrado. Usando tecnologias para irrigação e sementes adaptadas, essa extensa região poderá ser transformada em um fabuloso celeiro de grãos, que tem a grande vantagem de estar localizado a pouco mais de 1/3 da distância da China em relação ao Brasil e aos Estados Unidos. 

Um outro país onde os investidores chineses buscam viabilizar projetos agropecuários é Angola. Depois de conviver por décadas com uma sangrenta guerra civil, Angola vem buscando investimentos externos para alavancar a economia de um país rico em recursos como minerais e petróleo. O foco de interesse dos chineses é região Leste do país onde se encontram as nascentes do rio Okavango

Com cerca de 1.600 km de extensão, o Okavango é um dos mais importantes rios da África Austral. Suas águas correm desde as montanhas de Angola para as profundezas do Deserto do Kalahari na Namíbia, onde uma grande fossa tectônica desvia seu curso para o interior do continente. Em Botswana, o rio deságua em um grande delta interior, onde forma uma grande planície alagável com mais de 15 mil km² – o Delta do Okavango

As planícies semiáridas ao longo da bacia hidrográfica do rio Okavango em território angolano sustentam atualmente dezenas de milhares de famílias de agricultores pobres, que com muito custo conseguem colher 100 kg de painço para cada hectare cultivado. Os investidores chineses imaginam que, com o uso de alta tecnologia agrícola e sistemas de irrigação, esses solos possam produzir quantidades exponencialmente maiores de grãos como soja e milho. 

Entre as grandes ambições dos investidores chineses e suas montanhas de dinheiro, existem, entretanto, alguns grandes problemas. O primeiro deles é a corrupção sistêmica que assola a imensa maioria dos Governos da África. Se você acha que os políticos brasileiros são corruptos, saiba que eles são ‘pintos pequenos” diante de grandes ícones da política africana. Vou citar como exemplo José Eduardo dos Santos, ex-presidente de Angola, que tem uma fortuna pessoal estimada em US$ 20 bilhões. 

Outro gravíssimo problema é a enorme divisão étnica e cultural das populações dos países, existindo inclusive grande hostilidade entre diferentes grupos. Um exemplo é Ruanda, um pequeno país dividido entre hutus tutsis. Ao longo dos conflitos étnicos entre esses dois grupos em 1994, podem ter sido mortas até 800 mil pessoas (não existem estatísticas precisas). Também é importante lembrar que a África já tem uma população de 1,2 bilhão de habitantes e muito do que for produzido terá de ficar no continente para sustentar essa grande massa de gentes

Outro exemplo é o Congo, país que abriga importantes jazidas minerais e onde grandes empresas chinesas de mineração da China estão em operação. O país conta com um Governo oficial e possui, pelo menos, cinco grandes lideranças rebeldes com grandes exércitos próprios que comandam diferentes áreas do país. Esses rebeldes se valem dos lucros obtidos com a exploração de recursos minerais valiosos como ouro, diamantescoltan para comprar armamentos e financiar seus exércitos.  

Grandes projetos agropecuários ou de infraestrutura que se tenha em mente em qualquer região da África precisam ser negociados com os respectivos Governos oficiais e com diferentes milícias regionais. Os chineses conhecem bem esses problemas, mas, diante dos problemas maiores que envolvem a segurança alimentar da sua imensa população, eles não tem deixado de tentar fazer os seus “negócios da China” na África. 

Num curto e médio prazo, grandes países produtores como o Brasil, os Estados Unidos, Austrália e a Argentina, ainda não precisam perder noites de sono preocupados com a concorrência dos grãos africanos. Num futuro um pouco mais distante, porém, é bom já ir pensando em deixar as “barbas de molho”… 

O APETITE “INSACIÁVEL” DOS CHINESES, OU LEMBRANDO DA GRANDE FOME DE MAO TSÉ-TUNG

Uma das maiores tragédias humanitárias do século XX no período pós-Segunda Guerra Mundial foi a Grande Fome Chinesa, chamada por muitos de “A Grande Fome de Mao” (inclusive há um livro com esse nome). Entre os anos de 1959 e 1961 (muitos pesquisadores incluem também os anos de 1958 e de 1962), a população da China enfrentou um processo de fome generalizada.  

As fontes históricas falam de um número de mortos por inanição entre 15 e 55 milhões – em se tratando de estatística social no país, os números nunca são muito precisos. Existem, inclusive, inúmeros relatos de canibalismo (as famílias desenterravam os corpos de parentes mortos para comer), consumo generalizado de carne de ratos e de animais encontrados mortos, entre muitas outras coisas “nojentas”. Os casos extremos de fome levam qualquer pessoa ao mais absoluto desespero. 

Após a ascensão do líder Mao Tsé-Tung e da consolidação do poder do Partido Comunista Chinês em 1947, o país adotou todo um sistema de planejamento centralizado, a exemplo do que vinha sendo utilizado na URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas a partir de 1917. Entre as muitas políticas implementadas, destacamos o “Grande Salto Adiante” e as “comunas populares”. 

Entre as muitas consequências dessas políticas e de falhas absurdas no “planejamento” estatal, houve uma total e completa desorganização da agricultura do país. O cultivo da terra por particulares foi proibido e toda a produção passou a ser feitas pelas “comunas”. Milhões de camponeses foram retirados das lavouras e enviados para as inúmeras forjarias e siderúrgicas de todos os tamanhos, criadas para a produção de ferro e aço, produtos considerados essenciais para a industrialização do país.  

Apenas um dado para mostrar o tamanho da tragédia – a produção de grãos, que em 1958 havia sido de 200 milhões de toneladas, caiu para 143,5 milhões de toneladas em apenas dois anos. A população chinesa há essa época já superava a impressionante marca de 650 milhões de habitantes. Moral da história – a produção de alimentos no país passou a ser insuficiente para atender todas as necessidades de alimentação da população, um problema que ainda foi amplificado pela ineficiência da burocracia estatal na distribuição desses poucos alimentos e pelo seu uso como um instrumento para forçar a população a atingir as metas de produção estabelecida pelo Partido (a velha máxima – “quem não trabalha, não come”). Receita completa para a grande tragédia humana vivida nesse período histórico.

Com o extraordinário crescimento econômico da China nas últimas décadas e, talvez, ainda traumatizados pela grande fome do passado, vivida por muitos e bastante conhecida por todos, os chineses vem consumindo um volume per capita de alimentos cada vez maior. Ano após ano, a China impressiona o mundo todo com o crescimento acelerado das suas compras de commodities agropecuárias. 

Um exemplo que foi citado na última postagemdesde 2018, a China aumentou as compras de carne bovina dos Estados Unidos em 180%. O país já consome 30% de toda a produção de soja do mundo e, apenas nesses primeiros meses de 2021, a China já pode ter comprado 26 milhões de toneladas de milho dos Estado Unidos. Muitas das compras de alimentos realizadas pelo país são feitas através de empresas de Hong Kong (Região Autônoma da China), das Filipinas e de outros países da região, como forma de confundir os países vendedores. 

A maior parte da soja brasileira deste ano e que ainda está sendo colhida (as fortes chuvas estão atrasando essas operações), já tem como destino certo a China. Até o último dia 15 de fevereiro, mais de 200 navios cargueiros fretados por importadores chineses ou já estavam nos portos brasileiros aguardando a chegada dessa soja ou estavam a caminho do Brasil. 

Em tempos da pandemia da Covid-19, que paralisou a economia e a agricultura na maioria dos países do mundo, e de fenômenos climáticos como secas, chuvas e excesso de neve em algumas regiões, ocorreram diversas quebras de safra e redução da produção de alimentos. A FAO – Organização das Nações para Alimentação e Agricultura, está preocupada com o risco de fome em muitos países e regiões do mundo. Junte-se a tudo isso o avanço dos chineses contra as reservas de comida do mundo. 

O território da China ocupa uma área total de 9,5 milhões de km², o que coloca o país na terceira posição entre os maiores territórios do mundo, só ficando atrás da Rússia e do Canadá. Apesar do tamanho expressivo – tem 1 milhão de km² a mais que o Brasil, apenas ¼ do território do país é adequado para a agropecuária. Se você consultar um mapa da China, verá que toda a região Norte é tomada por gigantescos desertos como o de Gobi, e toda a faixa Oeste é ocupada pelas montanhas da Cordilheira do Himalaia

Mesmo com todas essas limitações, a China figura como um dos maiores produtores agropecuários do mundo. O problema é que o país também ostenta o título de país mais populoso do mundo e toda a sua produção é insuficiente para sustentar adequadamente a sua imensa massa de “bocas famintas”. 

Um grande exemplo da grande necessidade de alimentos do país pode ser visto neste exato momento em águas internacionais do Oceano Atlântico Sul, em frente ao litoral da Argentina. Ali está estacionada uma frota com mais de 300 embarcações pesqueiras, a imensa maioria de bandeira chinesa. Segundo as estimativas de alguns analistas, cada um desses barcos está capturando de 10 a 20 toneladas de lulas a cada dia, isso sem falar de outras espécies de peixes.  

Há poucos meses atrás, inclusive, um destroier da Marinha Argentina afundou uma embarcação da China que estava pescando ilegalmente dentro de seu mar territorial. Essa frota pesqueira já estacionou em frente aos litorais do Equador, Peru e Chile, e, muito provavelmente, em breve rumará para os limites das águas territoriais brasileiras. Vejam o potencial de conflito internacional que isso poderá gerar. 

Além de sair comprando fabulosas quantidades de commodities agropecuárias a “torto e a direito”, como dizemos no meu bairro, por todo o mundo, os chineses também vem buscando outras fontes alternativas para o sustento da sua população. Dentro do país estão sendo feitos trabalhos para aumentar as terras agrícolas em cerca de 25%. A chave para o sucesso desse projeto são gigantescas obras para a construção de canais de irrigação em áreas desérticas do país, a exemplo do que Israel faz no Deserto de Negev e que fez a antiga União Soviética no Mar de Aral

Outra frente importante envolve o continente africano. A China vem realizando inúmeros investimentos conjuntos com vários países da África com vistas ao desenvolvimento de sistemas de agricultura irrigada, além de obras de infraestrutura, especialmente a construção de ferrovias, rodovias e portos. A estratégia dos chineses será a de transformar a África em seu grande celeiro de alimentos nos próximos anos. Vamos tratar disto na próxima postagem. 

As atividades na agricultura são as maiores consumidoras de água do mundoem média, 70% dos volumes de água de uma região são consumidos por essas atividades. A expansão das fronteiras agrícolas frequentemente implica em destruição de áreas florestais, aumenta os processos de erosão de solos, reduz os caudais de rios, ameaça a biodiversidade, entre outros gravíssimos problemas ambientais. 

Além dessa imensa população de chineses, o mundo tem muitos outros bilhões de bocas para alimentar. A situação é bastante complicada – nosso planeta é grande, mas seus recursos naturais não são infinitos! 

OS PROBLEMAS CLIMÁTICOS QUE VÊM AFETANDO A AGRICULTURA DOS ESTADOS UNIDOS

Os números da agricultura e da pecuária nos Estados Unidos são, simplesmente, impressionantes. Mesmo com a pandemia da Covid-19 assolando o mundo e paralisando grande parte da economia dos países, os norte-americanos conseguiram produzir, em 2020, cerca de 390 milhões de toneladas de milho, 115 milhões de toneladas de soja e 50 milhões de toneladas de trigo, os grãos mais representativos da sua produção

No setor de carnes, a produção ficou na casa das 50 milhões de toneladas, especialmente de bovinos, suínos e de frango. Esse setor é um dos que têm feito os maiores esforços para aumentar sua produção com vistas a atender a “fome” de carne dos chineses. As compras de carne norte-americana pela China já aumentaram 150% desde 2018. 

Um grande exemplo da pujança agrícola do país é a região do Meio-Oeste americano que, há muito tempo, é conhecida como Corn Belt – o cinturão do milho. Essa região inclui, entre outros, Estados como Illinois, Iowa e Nebraska. As estatísticas indicam que nada menos de 40% da produção mundial de milho sai dessa região. Além do milho, essa região também é uma grande produtora de soja. Na gíria popular dos Estados Unidos, os trabalhadores rurais dessa região são chamados maldosamente de red neck, ou pescoços vermelhos, uma referência às queimaduras provocadas pelo forte sol nos meses de verão.

Um outro destaque nas paisagens agrícolas do país são os Estados do Kansas, Dakota do Norte, Montana e Washington, onde os imensos campos de trigo dominam os horizontes. Nos Estados do Texas, Nebraska e Kansas, as paisagens também contam com enormes rebanhos de gado bovino. 

As raízes da produção agropecuária dos Estados Unidos remontam a meados do século XIX, época em que o Governo norte-americano adotou uma série de políticas para ocupação do Meio-Oeste e Oeste do país. Foram esses os tempo do “go to west” e dos grandes embates entre os colonos e as populações indígenas. Essas políticas foram fortemente estimuladas após o final da Guerra Civil Americana (1861-1865), conflito que culminou com a abolição da escravatura nos Estados Unidos. 

Um marco da colonização americana foi Homestead Act, de 1862, lei que regulamentou o acesso à terra. Qualquer família interessada em cultivar terras sem proprietário tinha o direito de ocupação de um lote de até 160 hectares, que era reconhecido e titulado pelo Governo após cinco anos de cultivo. No caso de ex-escravos, o Governo doava um pequeno lote e um burro para ajudar nos trabalhos na terra. 

A chave do sucesso da agropecuária do país, entretanto, foi a criação de toda uma infraestrutura que permitia o escoamento da produção desde as fazendas até os mercados consumidores. Um grande exemplo dessa preocupação com a logística foi a criação da Hidrovia dos rios Mississipi-Missouri-Ohio

A primeira viagem de um barco a vapor entre os rios Ohio e Mississipi foi feita em 1811. A partir daí, essas águas ganharam uma enorme importância para o transporte de passageiros e cargas entre os Estados do Meio-Oeste, Norte e Sul dos Estados Unidos, tendo a cidade de Nova Orleans, bem próxima do Golfo do México, como destaque.  

Em 1848, foi concluída a construção do Canal de Illinois Michigan, que passou a permitir a navegação entre a bacia hidrográfica dos rios Ohio, Mississipi e Missouri e os Grandes Lagos. Além de aumentar a navegação dentro dos Estados Unidos, esse Canal integrou uma parte importante do Sul do Canadá ao sistema hidroviário norte-americano. 

A hidrovia dos rios Mississipi-Missouri-Ohio é considerada a maior do mundo em volume de cargas – somente no rio Mississipi, a movimentação anual de cargas atualmente é da ordem de 425 milhões de toneladas. Esse volume de cargas corresponde a quatro vezes a movimentação do Porto de Santos, o maior do Brasil. 

Outro ponto forte da logística dos Estados Unidos são as ferrovias, que começaram a rascar o território do país em meados do século XIX. Transportando grandes volumes de carga a baixos custos, as ferrovias literalmente viabilizaram a grande expansão da agropecuária no país. Ferrovias e hidrovias são a base do transporte dos produtos agrícolas nos Estados Unidos. Uma comparação – enquanto 70% do transporte da produção agrícola do Brasil é feita via transporte rodoviário, nos Estados Unidos esse modal representa apenas 1% dos volumes transportados

Feitas as devidas apresentações, vamos falar dos problemas. Essa imensa máquina produtora de grãos e de carnes vem sofrendo nesses últimos anos com a imprevisibilidade cada vez maior do clima. São secas, nevascas e chuvas temporãs, que muitas vezes ocorrem justamente na época da colheita. 

Um caso marcante ocorreu em outubro de 2019, quando a neve cobriu grandes extensões de campos de soja (vide foto), justamente na fase da colheita nos Estados de Minnesota, Dakota do Norte, Montana, Iowa e Wisconsin. Muitos produtores perderam toda a sua produção. 

Acostumados a um clima temperado, com verões quentes e invernos congelantes, os produtores norte-americanos trabalham com uma “janela” climática de aproximadamente 8 meses, que normalmente se estende entre os meses de abril e novembro na maioria dos Estados. Em algumas regiões, onde o clima é mais próximo ao subtropical, essa “janela” é maior. 

Assim que a neve derrete completamente ou a temperatura sobe para níveis adequados, os produtores correm para arar a terra e fazer a semeadura. A alta mecanização disponível nas fazendas é vital nesse momento. Dando tudo certo, principalmente em relação ao clima, as culturas terão cerca de seis meses para se desenvolver, deixando uma folga de menos de dois meses para os produtores realizarem a colheita e o transporte da produção. As anormalidades do clima tem deixado essa “janela” curta demais em algumas regiões.

Esse ano, as previsões climáticas para o Meio-Oeste e para o Sudoeste norte-americano são preocupantes. Houve queda de um volume de neve muito acima da média em regiões do Centro e do Nordeste do país, um problema que poderá atrasar o início do plantio e que implica em risco para a colheita no final do ano. O Texas, um Estado onde os invernos são mais amenos que a média geral do país, este ano sofreu com fortes nevascas e com colapsos no fornecimento de gás e de energia elétrica. 

O problema mais preocupante, porém, é a seca. Estão previstas chuvas abaixo da média em muitas regiões e, como todos sabem, uma boa disponibilidade de água é fundamental para o desenvolvimento dos grãos. Muitas regiões, inclusive, já deverão assistir o plantio das culturas sob estresse hídrico, ou seja, com volumes de água abaixo dos padrões históricos. 

Os produtores do agronegócio ‘yankee’ encaram com naturalidade esse tipo de problema – existe entre eles a cultura da contração de seguros agrícolas, onde o produtor recebe uma indenização em caso de perda da safra por desastres e fenômenos naturais. Esses seguros não são baratos, mas os produtores entendem que eles fazem parte do “jogo”. 

Em meio a tempos complicados por causa da Covid-19 e da paralização das atividades econômicas em todo o mundo, safras agrícolas estão sofrendo importantes quebras. A FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, teme pela redução da oferta de alimentos básicos, o que levaria milhões de pessoas ao risco de fome ou de subalimentação. 

Os problemas que poderão afetar a safra agrícola deste ano nos Estados Unidos são um motivo a mais para mantermos as luzes de alerta acesas.