Avatar de Desconhecido

Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

AS ONDAS DE CALOR E O FOGO NAS MATAS DA EUROPA

Algumas regiões da Europa, onde se destacam a Itália e os Balcãs, estão enfrentando uma onda de calor sem precedentes. Na semana passada, foi registrada a inacreditável temperatura de 47,8º na Sicília, ilha localizada no Sudoeste da Itália, o que nos dá uma mostra da situação no continente.  Os italianos estão chamando essa onda de calor de “Lúcifer” devido ao calor, literalmente, infernal. 

Outra região italiana onde as temperaturas estão em níveis alarmantes é a Calábria. De acordo com informações dos Governos locais, os bombeiros da Sicília e da Calábria realizaram mais de 500 operações para combater focos de incêndios em áreas florestais apenas entre os dias 11 e 12 de agosto, uma mostra da situação crítica nessas regiões. 

Autoridades de 15 regiões italianas, do Piemonte até a Sicília, informaram que a sensação térmica nesses locais superou a marca dos 40º C por conta da baixa umidade e dos ventos. Foram emitidos alertas por conta das elevada temperaturas em Bolonha, Bolzano, Brescia, Perugia, Turim, Ancona, Campossado, Florença e Pescara. A situação mais preocupante são as praias do país, lotadas de turistas nesse período de férias. 

Na Grécia a situação não é muito melhor, com muitas regiões apresentando temperaturas próximas dos 45º C. Essa é a mais dramática onda de calor enfrentada pelo país nos últimos 30 anos. Com as altas temperaturas e os baixos níveis de umidade, já foram registrados cerca de 150 incêndios florestais por todo o país, sendo a situação mais grave a da ilha de Evia. 

De acordo com informações do Serviço Copernicus para Alterações Climáticas da União Europeia, o mês de julho de 2021 foi o segundo mais quente já registrado no continente Europeu – pelo “andar da carruagem”, esse mês de agosto também ficará marcado como um dos mais quentes da história da região.  

Portugal e Espanha emitiram alertas nos últimos dias por conta de riscos de incêndios em áreas florestais. De acordo com informações do IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera, mais de 60 cidades do país estão em alerta máximo por conta dos riscos de incêndios

A Turquia, país que tem parte do seu território dentro da Europa, também sofreu muito nas últimas semanas com grandes incêndios florestais, além, de enfrentar uma série de problemas provocados pelas fortes chuvas que assolaram o país. Aliás, fortes chuvas e grandes enchentes também assolaram a Europa Central, onde a Alemanha e a Bélgica foram os países mais fortemente castigados. 

Nos países nórdicos, conhecidos mundialmente pelo clima frio, altas temperaturas também têm sido registradas com grande frequência nos últimos anos. A Suécia é um desses casos – em várias partes do país foram registradas temperaturas máximas de 34º C nas últimas semanas. Na região de Keno, no extremo Norte da Finlândia, chegou a ser registrada a temperatura de 33,6º C no último dia 4, a mais alta já vista na região desde 1914. 

De acordo com dados do último relatório do IPCC – Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas, na sigla em inglês, a culpada por todos esses eventos climáticos anormais na Europa são as mudanças climáticas globais, onde as ações humanas tem enorme peso em tudo o que está acontecendo.    

Segundo o IPCC, as temperaturas superficiais aumentaram mais nos últimos 50 anos do que aumentaram nos 2 mil anos anteriores. As projeções científicas apontam para um aumento das temperaturas globais entre 1,2 e 2º C nas próximas décadas, com um possível aumento de 2 metros no nível do mar. 

Em uma entrevista recente ao jornal espanhol El Pais, o porta-voz da AEMET, a agencia espanhola de meteorologia – Rúben del Campo, afirmou que as ondas de calor na Espanha dobraram em apenas uma década. Segundo suas declarações, daqui 30 anos, “um verão como o de hoje será considerado um verão frio”, tamanha a intensidade das mudanças climáticas que ainda virão. 

Diferentemente do que pregam muitos líderes europeus, onde destaco o Presidente da França Emmanuel Macron, todo esse conjunto de mudanças nos padrões climáticos do continente não podem ser lançados exclusivamente na “conta” das queimadas e desmatamentos na Floresta Amazônica. Segundo já mostramos em inúmeras postagens aqui no blog, esses desmatamentos e queimadas são graves e precisam ser combatidos com todo o rigor. 

Porém, cerca de 85% das matas do bioma Amazônico ainda estão bem preservadas, ao contrário de outras importantes florestas tropicais pelo mundo a fora. Cito como exemplo as florestas tropicais do Sul do México, das quais restam apenas 10% da área original, o sofrido Haiti, onde cerca de 95% da cobertura florestal já desapareceu, além da ilha de Madagáscar, que já perdeu mais de 80% da cobertura florestal. 

Na Europa, a exceção dos países nórdicos que tem a maior parte de suas matas nativas ainda preservadas, a situação não é das melhores – a média da cobertura florestal nos países está na casa dos 41%. Na Alemanha, a cobertura florestal é de 32%, na Itália 35,6% e na Franca de Macron é de apenas 31%. É importante lembrar que nessa conta entram todos e quaisquer fragmentos florestais, inclusive as praças urbanas. 

Além da perda maciça da cobertura florestal, um problema que vem assolando a Europa desde a antiguidade clássica, as emissões de gases de efeito estufa pelos europeus é uma das grandes responsáveis pelas mudanças climáticas em andamento em todo o mundo. Aqui precisamos destacar a queima de carvão mineral em atividades industriais e para a geração de energia elétrica em centrais termelétricas. 

Como todos devem se lembrar das aulas dos tempos do ensino fundamental, o grande impulso para a queima de grandes quantidades de carvão mineral no continente europeu começou com o início da Revolução Industrial em meados do século XVIII. Aqui entrou em cena a máquina a vapor, que foi aperfeiçoada por James Watt entre 1763 e 1775 com o apoio de Mathew Boulton. Centenas de fábricas em todo o continente adotaram esse equipamento e passaram a emitir grandes volumes de gases de efeito estufa. 

Nas últimas décadas do século XIX, com o uso da energia elétrica, a queima do carvão mineral também se estendeu para inúmeras centrais de geração termelétrica. Por fim, com o desenvolvimento e a fabricação em massa de automóveis, caminhões e outros veículos com motores de combustão interna, a queima de combustíveis fósseis derivados do petróleo tomou conta das ruas das cidades e também das estradas de toda a Europa.  

Foi a soma de todos esses poluentes emitidos pela Europa, Estados Unidos e outras nações do mundo, onde se inclui o Brasil, a principal responsável pelas mudanças climáticas que estamos assistindo hoje em todo o mundo. Ou seja – todos nós somos responsáveis pelo que está acontecendo com o clima mundial. 

E como diz um velho ditado – aqui se faz, aqui se paga! 

LAGOSTIM-VERMELHO-DA-LUISIANA: UM PREDADOR VORAZ QUE AMEACA RIOS DE PORTUGAL E DA ESPANHA

Encerrando uma série de postagens onde falamos dos inúmeros problemas ambientais que estão sendo desencadeados por causa da introdução de espécies exóticas em várias partes do mundo, vamos falar de um grave problema na Península Ibérica: a invasão de rios e lagos locais pelo lagostim-vermelho-da-Luisiana (Procambarus clarkii). 

Diferente de outros casos, onde existem apenas evidencias de onde e quando uma espécie invasora foi introduzida num ecossistema, no caso do lagostim-vermelho-da-Luisiana existe tanto a data quanto o nome dos responsáveis. Empresários da região de Badajoz, na Espanha, importaram espécimes vivos para a criação em cativeiro em 1973. Como sempre acontece nesses casos, esses empresários tinham as melhores intenções e buscavam abastecer os mercados locais com lagostins criados em cativeiro. 

Os primeiros avistamentos de lagostins-vermelhos em rios da região foram relatados em 1979. Os espécimes fugiram dos tanques de criação e passaram a viver em pequenos afluentes da bacia hidrográfica do rio Caia, afluente do rio Guadiana. Essa espécie de lagostim possui uma enorme capacidade em se adaptar a novos ambientes e rapidamente os animais passaram a ocupar rios da Espanha e de Portugal. 

Como é normal nos casos de invasão de um bioma, as espécies locais que ocupam o mesmo nicho ecológico foram as primeiras vítimas da espécie exótica. No caso Ibérico a maior vítima foi o lagostim da espécie Austropotamobius pallipes lusitanicus, que acabou sumindo da maior parte dos rios da região. Regiões com altitudes maiores e com cursos com águas mais frias, onde se incluem Castilla y León, País Basco e La Rioja, ainda estão livres dos lagostins-vermelhos. 

Entre as espécies de peixes mais ameaçadas está o ruivaço-do-oeste, uma espécie endêmica das bacias hidrográficas dos rios Alcabrichel e Sizandro, ambos em Portugal. Os lagostins-vermelhos se alimentam das ovas e dos filhotes do peixe, o que está ameaçando a sobrevivência da espécie. Os lagostins também se alimentam da vegetação que nasce no fundo dos rios e nas margens, o que ameaça diretamente os estoques de alimentos do ruivaço-do-oeste. 

O lagostim-vermelho-da-Luisiana é nativo das regiões Central e Sul dos Estados Unidos e do Nordeste do México. Esses lagostins são chamados popularmente de lagostim-vermelho e lagostim-americano. Entre os principais habitats da espécie destacam-se as bacias hidrográficas dos rios Mississipi e Missouri. 

A cor da carapaça do crustáceo (vide foto), que normalmente tem uma cor vermelha predominante, muda de acordo com o estágio do desenvolvimento dos espécimes e também pode variar de acordo com a disponibilidade de alimentos da região. De rápido crescimento, esse lagostim pode superar um peso de 50 gramas e 15 cm de comprimento. Na natureza, a expectativa de vida da espécie é de 5 anos em média. 

Os lagostins costumam habitar ambientes lênticos, ou seja, cursos de águas com correntezas lentas, lagos, represas, áreas pantanosas e plantações como as de arroz. Esses animais são hábeis escavadores de túneis, que utilizam como abrigo durante o dia – a espécie tem hábitos noturnos. 

Em virtude do ótimo sabor de sua carne e da sua grande capacidade de procriação, esse lagostim se transformou em uma espécie de grande valor comercial e de forte apelo para a criação em cativeiro. Fugas de animais de fazendas de criação já ocorreram em todo o mundo, transformando esse lagostim em uma das espécies de crustáceos mais invasoras do mundo. A exceção da Antártida, o lagostim-vermelho é encontrado em todos os continentes do mundo. 

Autoridades de Portugal e da Espanha tem feito enormes esforços para erradicar e/ou controlar as populações de lagostins-vermelhos em rios da região. Uma das alternativas em uso é a chamada pesca elétrica – armadilhas metálicas com iscas são lançadas nos corpos d`água e são ligadas através de cabos elétricos a conjuntos de baterias ou a um gerador elétrico. Após uma descarga elétrica, os animais que entraram nas armadilhas ficam inconscientes e são capturados. 

Os lagostins-vermelhos são colocados em baldes ou em tanques de água, onde tem seus pesos e medidas catalogados. Depois, os lagostins capturados são enviados para centros de pesquisa e reabilitação de aves onde são usados como alimentos para esses animais. Esses animais também podem ser consumidos por pessoas. 

Apesar da grande eficiência da pesca elétrica e dos baixíssimos riscos para as demais espécies aquáticas, a grande dispersão dos lagostins-vermelhos por rios de toda a Península Ibérica torna o seu combate muito difícil. Felizmente, a presença de rios com águas frias em países do Norte da Europa impede o avanço desses lagostins sobre essas regiões. Porém, o Sul da Franca e regiões ao longo das costas do Mar Mediterrâneo não estão livres do avanço dessa espécie exótica. 

Em seus habitats na América do Norte, o lagostim-vermelho possui inúmeros predadores naturais como peixes, jacarés e mamíferos como os guaxinins, espécies que limitam o crescimento das populações. Na Europa, onde não existem predadores equivalentes, a espécie segue com suas populações crescendo descontroladamente e ameaçando cada vez mais espécies da fauna local. 

Como é improvável que Governantes desses países europeus passem a importar jacarés e crocodilos do rio Mississipi ou guaxinins das florestas do Sul norte-americano, e que passem a soltar esses animais em matas marginais e em rios com grandes populações de lagostins-vermelhos, será muito difícil de se encontrar um meio para controlar o avanço dos invasores. 

Conforte comentamos em várias das postagens anteriores, é muito fácil introduzir uma espécie exótica em um novo meio ambiente, se valendo principalmente do argumento da criação em cativeiro com fins comerciais. Essas fazendas de criação sempre estarão sujeitas a falhas no manejo por parte dos seus trabalhadores ou ainda a acidentes naturais provocados por vendavais, enchentes e terremotos. Os animais, que tem um forte instinto de sobrevivência, vão sair em busca de locais melhores e mais seguros. 

Essas situações sempre me trazem a mente a lenda de Pandora que, de acordo com a mitologia grega, foi a primeira mulher de todo o mundo, algo equivalente a Eva da tradição judaico-cristã. Antes de enviar Pandora a Terra, o todo poderoso Zeus lhe entregou uma caixa onde estavam presas todas as desgraças e tragédias da humanidade. Pandora foi instruída a nunca abrir essa caixa. Tomada pela curiosidade, Pandora abriu a caixa e soltou todos os males do mundo. 

Algo semelhante sempre acontece com espécies exóticas que são soltas em novos biomas – elas saem de suas respectivas “caixas” para nunca mais voltar.  

RATÃO-DO-BANHADO: UM ROEDOR SUL-AMERICANO QUE ESTÁ CAUSANDO GRANDES PROBLEMAS NA EUROPA

O ratão-do-banhado (Myocastor coypus), que também é conhecido como nútria, caxingui e ratão-d`água, é um roedor semiaquático encontrado em todo o Sul da América do Sul. No Brasil, a espécie se distribuiu em áreas de clima subtropical desde o Sul do Estado de São Paulo até o Rio Grande do Sul. Indivíduos da espécie podem ser encontrados, inclusive, nadando nas águas poluídas dos rios Tiete e Pinheiros na capital paulista. A espécie também é encontrada na Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Chile. No total são quatro subespécies. 

Como é comum em espécies de mamíferos semiaquáticos, os ratões-do-banhado possuem uma pelagem dupla e muito densa, característica que tornou o animal alvo de caçadores de pele ao longo da história. A espécie pode atingir até 1 metro de comprimento, incluindo a grossa cauda, e um peso de até 15 kg. 

Os habitats da espécie são as áreas alagadiças dos banhados, encontrados principalmente nas regiões dos Pampas, bioma que se estende desde o Rio Grande do Sul até a Argentina e o Uruguai, além das margens de rios e lagoas. Sua alimentação é diversificada e inclui capins, raízes e plantas aquáticas, herbáceas, tubérculos, folhas, grãos, carne e peixe. 

Os ratões-do-banhado são exímios nadadores, possuindo dedos com membranas interdigitais. Em terra, o animal não tem a mesma destreza e caminha devagar. Grande parte de suas “horas vagas” são dedicadas ao cuidado com sua bela pelagem. O animal possui glândulas no canto da boca que liberam uma substancia gordurosa que é esfregada com as patas na pelagem, funcionando como uma camada de proteção na água. Além dos seres humanos, seus os principais predadores são as onças e os jacarés. 

A saga dos ratões-do-banhado como espécie invasora começou ainda no século XIX, quando o uso de peles de animais pela indústria da moda estava em alta. Grandes grupos de animais foram capturados vivos e levados para os Estados Unidos, Europa e Ásia para tentativas de criação da espécie em cativeiro, como é feito com as chinchilas originárias dos Andes. Essa experiência acabou não sendo muito bem-sucedida e muitos ratões-do-banhado acabaram fugindo desses criatórios, invadindo florestas e rios desses países, e passando a competir com espécie locais como os castores norte-americanos e lontras europeias.   

Um exemplo disso foi o que aconteceu nos Condados de Norfolk Suffolk, na Inglaterra, onde ratões-do-banhado colonizaram a região de Yare Valley. Animais fugiram de uma fazenda da região em meados da década de 1940 e pouco a pouco foram ocupando as áreas alagadiças e as margens dos rios da região, onde passaram a competir com espécies as cambaleantes populações de espécies semiaquáticas locais. 

A Itália é um dos países da Europa mais afetados pela invasão dos ratões-do-banhado. Os animais estão invadindo plantações, destruindo a vegetação das margens dos rios e atacando os ninhos de aves aquáticas, que não possuem uma “programação genética” para se proteger dessa espécie exótica. Sem grandes predadores naturais, os ratões seguem expandindo seus territórios no país. O Governo italiano declarou guerra à espécie e tem liberado dezenas de milhões de Euros anualmente para o financiamento de ações para a erradicação dos animais. 

A falta de predadores locais é um fator chave para a vida fácil dos ratões-do-banhado em terras europeias. Lobos, raposas e linces, antigas espécies predadoras que no passado abundavam nas florestas da Europa, são cada vez mais raras. A Europa, que já foi o continente mais “florestado” do mundo, já estava completamente devastada por volta do ano 1000 da Era Cristã. De lá para cá, foram necessárias inúmeras ações de reflorestamento para garantir o fornecimento de madeiras e produtos florestais, além da recuperação de importantes florestas. 

Um dos casos mais interessantes foi o reflorestamento de extensas áreas na região dos Pirineus na França no início do século XIX. Napoleão Bonaparte (1769-1821), então imperador dos franceses, tinha grandes planos de invasão e conquista de territórios por toda a Europa. Além de depender de um forte exército, os franceses também precisariam construir uma poderosa armada. É foi justamente com o objetivo de garantir o fornecimento de madeiras para essa empreitada que foi ordenado o plantio de dezenas de milhares de mudas de árvore. As guerras ficaram no passado e as florestas prosperaram. 

Na Itália atual, apenas 35% do território é coberto por florestas, o que coloca o país na singela 18ª posição entre os países com maior cobertura florestal do continente. Com poucas áreas florestais, é claro, restaram poucos habitats para a sobrevivência dos predadores naturais – os ratões-do-banhado “surfam” nessa onda e se sentem à vontade para procriar e expandir seus territórios nas margens dos rios e lagos do país. 

Além da falta de predadores naturais, a espécie invasora também se beneficia da falta de espécies animais da fauna local que ocupavam o mesmo nicho ecológico, especialmente lontras e castores, desaparecidos há muito tempo da maioria dos corpos d`água do continente. Quando espécies diferentes compartilham os mesmos recursos naturais, especialmente os alimentos, a escassez limita o crescimento das populações. No caso dos ratões-do-banhado, essa competição é muito insipiente e a espécie praticamente monopoliza os recursos naturais em muitos biomas. 

Além dos inúmeros problemas ambientais e econômicos decorrentes do aumento da população da espécie, o Governo da Itália teme a proliferação de doenças como a leptospirose. Os ratões-do-banhado, assim como outras espécies de roedores, são hospedeiros da bactéria Leptospira, a responsável pela transmissão da doença.  

Conforme já tratamos em uma postagem anterior sobre a proliferação dos ratos pelo mundo, a leptospirose é uma doença infecciosa febril aguda que é transmitida pela urina de animais infectados pela bactéria. A partir do contato com águas contaminadas, por exemplo durante enchentes, a bactéria penetra no organismo humano por lesões presentes na pele ou através das mucosas. Com o aumento das populações de ratões e com sua proximidade cada vez maior de comunidades, vilas e cidades, os riscos de contágio aumentam significativamente.  

Existem comunidades de ratões-do-banhado espalhadas por rios e áreas pantanosas de toda a Europa, onde se repetem os mesmos problemas vividos pelos italianos. E a mesma dúvida de sempre se repete – o que fazer para conter o avanço da espécie invasora? 

DIKEROGAMMARUS VILLOSUS: UM PEQUENO CAMARÃO QUE ESTÁ DEVASTANDO RIOS NA EUROPA

Na nossa última postagem falamos dos graves problemas de alergia que estão sendo desencadeados em algumas regiões da Europa pelo pólen de uma erva-daninha de origem norte-americana – a Ambrosia artemisiifolia. Pólen, só para relembrar, são grãos minúsculos produzidas pelas flores de algumas plantas. Hoje vamos falar de um pequeno camarão, que invadiu importantes rios da Europa e que ganhou o sugestivo apelido de “camarão assassino”. Falamos do Dikerogammarus villosus

O Dikerogammarus villosus é uma espécie de camarão que sempre foi muito comum em rios da região do Mar Negro e do Mar Cáspio, região que fica entre a Europa Oriental e a Ásia. O animal é um crustáceo anfípode de água doce, que pode atingir o tamanho de até 30 mm e possui mandíbulas relativamente grandes, uma característica que torna esse pequeno camarão um predador bastante eficaz. A espécie possui um crescimento rápido, atingindo a maturidade sexual entre 4 e 8 semanas.

Em seu nicho ecológico natural, esses camarões não são uma espécie abundante e se alimentam de uma grande variedade de invertebrados, insetos, ovas e pequenos peixes, vermes e outras espécies que habitam as comunidades bentônicas. Fora de seu ambiente natural, as populações da espécie crescem desordenadamente e passam a competir agressivamente com as espécies nativas. Esse camarão possui uma grande tolerância às variações de temperatura, podendo colonizar águas com temperaturas entre 0 e 30° C, com baixas concentrações de oxigênio e níveis de salinidade de até 20%. Trata-se de uma espécie oportunista, que se adapta facilmente a novos ambientes em rios, lagos e canais, comendo qualquer alimento que encontre pela frente e que possa triturar com suas mandíbulas.

A dispersão geográfica dos camarões assassinos teve início nos tempos da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, período em que a navegação fluvial e lacustre ganhou uma enorme importância para os países do Bloco Comunista. Uma das mais importantes obras do setor foi a construção de um canal de ligação entre os rios Volga e Don, que passou a permitir a navegação entre o Mar Cáspio, o maior mar interno do mundo, o Mar de Azov e, por fim, o Mar Negro. Viajando dentro dos tanques de lastro de embarcações de transporte de passageiros e de cargas, esses camarões primeiro consolidaram os seus domínios nos rios que desaguam nas águas desses três mares. O passo seguinte foi o início de uma “grande operação” de desembarque em águas de grandes rios europeus, façanha que se tornou possível através da intensa navegação na Hidrovia do rio Danúbio.

A Hidrovia do rio Danúbio é uma das mais importantes do mundo, tanto em termos de volumes de cargas e de pessoas transportadas todos os anos quanto pelo número de países cortados por ela: Alemanha, Áustria, Eslováquia, Croácia, Sérvia, Hungria, Bulgária, Romênia e, na região do Delta do Danúbio, um trecho da Ucrânia nas margens do Mar Negro. A lista de países fica ainda maior quando se incluem os afluentes navegáveis da bacia hidrográfica: República Tcheca (rio March), Bósnia-Herzegovina (rio Save) e Moldávia (rio Pruth). A maior parte dos países listados não têm acesso direto ao mar, algo que representaria um enorme obstáculo ao seu desenvolvimento econômico, uma vez que o comércio marítimo é fundamental para os grandes países. A intensa movimentação de embarcações na Hidrovia do Danúbio foi o caminho de entrada do Dikerogammarus villosus na Europa Central.

A partir de 1992, com a inauguração do Canal Meno-Danúbio, o caminho para a invasão total dos camarões assassinos foi consolidado. Essa obra, um canal com 171 km de extensão, imaginada ainda no reinado do Imperador Carlos Magno há cerca de 1.200 anos, permitiu a integração entre as Hidrovias dos rios Danúbio e Reno através do rio Meno (Main em alemão), que é navegável por 388 km entre as cidades de Bamberg, na Baviera, e Wiesbaden, sua foz no rio Reno. Essa interligação passou a permitir a navegação direta por via fluvial entre a cidade romena de Constança, no Mar Negro, e o porto holandês de Rotterdam, no Mar do Norte (Oceano Atlântico).

A partir de então, o Dikerogammarus villosus passou a ser encontrado nos principais rios da Europa Ocidental, onde se inclui o Ródano, Loire, Sena, Mosela, Reno e Meno, além de ser encontrado nas águas de diversos rios que desaguam no Mar Báltico. Em 2010 surgiram os primeiros relatos sobre a chegada dos camarões assassinos na Inglaterra e no País de Gales. Um dos grandes temores atuais das autoridades é uma possível migração dos desses camarões para a região dos Grande Lagos, na América do Norte. É intenso o trafego de embarcações de carga entre os portos da Europa e da América do Norte, com enormes possibilidades dos camarões assassinos serem carregados junto com as águas dos tanques de lastro.

Um exemplo da agressividade dos camarões assassinos pode ser vista nos rios e canais da Holanda – o pequeno crustáceo está ameaçando tanto a sobrevivência de espécies nativas do país como o Gammarus duebeni, quanto espécies invasoras como o Gammarus tigrinus, uma espécie originária da América do Norte, que chegou ao continente Europeu também através da água de lastro de navios. No rio Reno, onde está em plena operação a segunda mais importante hidrovia da Europa, a chegada dos camarões assassinos já levou à extinção de uma série de pequenos crustáceos nativos, alterando profundamente a cadeia alimentar de importantes espécies comerciais de peixes desse rio, incluindo-se na lista as enguias-europeias (Anguilla anguilla), sobre as quais falamos em uma postagem anterior.

E como é comum entre as espécies invasoras, os camarões Dikerogammarus villosus tem um sabor que não agrada os grandes predadores naturais das águas dos rios europeus. Sem inimigos naturais e com um apetite voraz, a espécie segue aumentando sua população e dizimando as espécies nativas que ocupam o seu mesmo nicho ecológico. Enquanto não se identificar um predador natural local, os pequenos camarões assassinos prosseguirão e aumentarão ainda mais os seus domínios nas águas de rios por todo o continente.

Esse estrago todo está sendo feito por um animal que cabe com muita folga no polegar de uma criança, o que comprova o velho ditado: tamanho não é documento…

AMBROSIA ARTEMISIIFOLIA: UMA ERVA-DANINHA NORTE-AMERICANA QUE ESTÁ CAUSANDO ONDAS DE ALERGIA NA EUROPA

Erva-daninha é o nome popular dado a inúmeras espécies de plantas que nascem espontaneamente no meio de jardins e plantações, podendo causar grandes prejuízos econômicos ou interferindo negativamente na estética buscada. Uma das mais famosas ervas-daninhas é o joio, uma espécie que costuma nascer nas plantações de trigo e que é citada inúmeras vezes na bíblia.

Assim como costuma acontecer com a introdução de espécies animais exóticas em um meio ambiente, a introdução de plantas – de propósito ou acidentalmente, também costuma ter resultados catastróficos. Citando um exemplo brasileiro: a braquiária é uma planta forrageira de origem africana que se transformou em uma espécie invasora em importantes biomas brasileiros como o Cerrado. De acordo com alguns pesquisadores, sementes da braquiária podem ter chegado ao Brasil presas nas roupas de escravos trazidos da África durante o Período Colonial. Essas sementes brotaram em áreas litorâneas próximas dos portos de desembarque dos navios negreiros e as plantas foram sendo espalhadas por todo o país.

A história da Ambrosia artemisiifolia, uma planta chamada popularmente de ambrósia, absinto americano e absinto romano, entre muitos outros, é muito parecida com a da braquiária. A espécie é nativa da América do Norte, onde é considerada uma erva-daninha, e “chegou” na Europa em algum momento entre o final do século XIX e início do século XX. Atualmente a planta tem ampla distribuição por todo o Norte da Itália e Sudoeste da Franca, possuindo um enorme potencial para aumentar sua presença por grande parte da Europa.

Você pode estar se perguntando sobre qual a importância da invasão de territórios europeus por essa erva-daninha. A resposta é simples – as flores da Ambrosia artimisiifolia são produtoras maciças de pólen, pólen esse que desencadeia inúmeras reações alérgicas em seres humanos. Essas alergias costumam ser chamadas genericamente de “febre do feno” (o feno é uma planta forrageira muito utilizada na alimentação de animais, que produz muito pólen e causa grandes problemas de alergia – por isso sua associação com essas doenças) e se caracterizam por coceira nos olhos, espirros e respiração ofegante, entre outros sintomas. O problema é mais comum em países de clima temperado, onde as plantas se desenvolvem em massa logo após o derretimento do gelo e da neve do inverno.

Os pólens de diversas espécies de plantas possuem proteínas que irritam os olhos, o nariz e a garganta, que incham e inflamam. Não existe uma cura ou tratamento específico para essas reações alérgicas, que são tratadas caso a caso sob orientação médica. Antistamínicos ajudam a proteger contra as reações alérgicas e corticoides ajudam a reduzir os inchaços e as inflamações. Para pacientes com casos mais persistentes e severos pode ser indicada a imunoterapia, quando o paciente é exposto gradualmente a quantidades crescentes de pólen, aumentando a resistência do organismo aos efeitos alérgicos.

As plantas da Ambrosia artimisiifolia atingem um tamanho entre 50 e 80 cm de altura, possuindo folhas com pequenas saliências pontiagudas e aveludadas. As flores tem cor verde-amarelado e se agrupam na forma de pequenas espigas nas pontas dos caules. As plantas costumam emergir no final da primavera e liberam sementes e pólen no final do verão. Essas sementes e o pólen são facilmente carregadas pelos ventos, o que explica a grande dispersão das plantas nas últimas décadas e o avanço da ondas de alergia. As plantas são encontradas facilmente na beira de estradas, ferrovias, terrenos baldios e em campos agrícolas.

Como se trata de uma planta invasora exótica, a Ambrosia artimisiifolia não costuma fazer parte do cardápio de animais herbívoros e de insetos da Europa. Sem esses consumidores ou “predadores” naturais, as plantas não tem qualquer tipo de controle de suas populações e aumentam gradativamente a sua expansão territorial sem maiores problemas, o que coloca toda a sua produção de pólen em regiões cada vez mais próxima das populações. E os problemas alérgicos tenderão a aumentar cada vez mais.

De acordo com projeções feitas por especialistas, as plantas colonizarão grande parte da área continental do Norte da Europa e o Sul da Grã-Bretanha dentro de poucos anos. As mudanças climáticas já em andamento poderão aumentar as regiões propicias ao desenvolvimento das plantas, o que poderá aumentar ainda mais as ondas de alergias entre os europeus. De acordo com os cientistas, as concentrações de pólen da Ambrosia artimisiifolia na atmosfera dessas regiões poderá aumentar quatro vezes até o ano de 2050.

A pergunta cuja resposta vale uma fortuna: como conter o avanço de uma planta com essas características e com todo esse potencial “destrutivo”?

VEJA NOSSO CANAL NO YOUTUBE – CLIQUE AQUI

A “BATALHA” DOS ESQUILOS-CINZENTOS CONTRA OS ESQUILOS-VERMELHOS NA GRÃ-BRETANHA

De acordo com dados do projeto DAISIE – Delivering Alien Invasive Species Inventories for Europe ou Inventários de Espécies Invasoras Alienígenas para a Europa, numa tradução livre, 10.992 espécies invasoras foram identificadas no continente desde o ano de 2002. Nessa impressionante lista estão incluídas espécies animais e vegetais, o que nos dá uma vaga ideia do tamanho dos problemas criados por espécies invasoras.

Entre os “destaques” na lista dos invasores estão os ratões-do-banhado, uma espécie de roedor encontrado na região Sul do Brasil, no Sul do Estado de São Paulo (inclusive nas águas poluídas dos rios Tiete e Pinheiros), além de algumas regiões do Uruguai e da Argentina. Também podemos citar o lagostim da Luisiana, a truta-do-arroio, o mexilhão-zebra e o bernache, uma espécie de pato selvagem norte-americano que vem se propagando na Europa. Vamos começar falando de um invasor muito simpático e “fofo”: os esquilos-cinzentos.

O esquilo-cinzento ou esquilo-cinza-oriental (Sciurus carolinensis) é nativo da América do Norte, onde seus domínios se estendem ao longo da faixa Leste e partes das regiões centrais dos Estados Unidos e parte Sul das províncias centrais do Canadá. Normalmente, a espécie possui uma pelagem na cor cinza, podendo ser encontrados indivíduos com uma cor mais para o castanho. Esses esquilos tem um comprimento de corpo (incluindo a cabeça) entre 23 e 30 cm, com uma cauda entre 19 e 25 cm. O peso de um animal adulto varia entre 400 e 600 gramas.

Segundo algumas fontes históricas, os esquilos-cinzentos foram introduzidos na Inglaterra em meados do século XIX por um banqueiro chamado Thomas Brocklehust. Segundo as informações disponíveis, esse banqueiro possuía uma grande casa de campo no interior do país e, sabe-se lá o porque, imaginou que a soltura dos roedores norte-americanos em suas terras ajudaria a embelezar o jardim. Não se considerou há época o tamanho dos impactos da introdução da espécie exótica nas populações do esquilo-vermelho, a espécie animal correspondente da fauna local.

O esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris), também conhecido como esquilo-vermelho-euroasiático, é encontrado em toda a Europa e Norte da Ásia. Essa espécie é menor que o esquilo-cinzento, apresentando um corpo (incluindo a cabeça) com um comprimento entre 19 e 23 cm, além de uma cauda entre 15 e 20 cm. O peso se situa entre 250 e 340 gramas. Os animais europeus ocupam exatamente o mesmo nicho ecológico dos esquilos norte-americanos e, num confronto direto por habitats, encontraram uma enorme desvantagem competitiva.

Apesar de compartilharem ancestrais comuns com os esquilos-vermelhos, os esquilos-cinzentos evoluíram em um ambiente mais inóspito, o que tornou os animais maiores, mais fortes e com um massa de gordura corporal mais alta. Os animais tem ninhadas com mais filhotes e conseguem se adaptar facilmente a novos ambientes, o que resultou num enorme crescimento populacional. De acordo com as mais recentes estimativas populacionais, existem cerca de 160 mil esquilos-vermelhos na Grã-Bretanha, concentrados principalmente no Sul da Escócia – já a população de esquilos-cinzentos é estimada em 3 milhões de animais, .

A verdadeira explosão populacional dos esquilos-cinzentos acabou dizimando os esquilos-vermelhos da maior parte da Inglaterra e do País de Gales. De acordo com grupos conservacionistas locais, a espécie poderá ser extinta num prazo de 20 anos. Para agravar a situação, grande parte dos esquilos-cinzentos é portadores do Parapoxvírus, um vírus que pode ser fatal para os esquilos-vermelhos.

Autoridades britânicas vem buscando formas de conter o avanço dos esquilos norte-americanos, onde se incluem o uso de armadilhas, iscas ou simplesmente o abate dos animais por caçadores. Uma alternativa promissora foi encontrada por pesquisadores da Universidade Nacional da Irlanda. De acordo com estudos realizados na região de Galway na Irlanda, a marta-do-pinheiro-europeia se mostrou um predador eficiente dos esquilos. Esse carnívoro é natural das ilhas britânicas e, segundo as observações realizadas ao longo do estudo, passou a dar preferencia a caça dos esquilos-cinzentos da região. Muito provavelmente, essa preferencia se deve ao fato dos esquilos dessa espécie serem maiores que os esquilos-vermelhos.

A boa notícia tem alguns problemas – devido aos intensos desmatamentos e a caca predatória, a marta-do-pinheiro-europeia desapareceu da maior parte dos países, apresentando pequenas populações na Escócia e na Irlanda. Ou seja, para conseguir conter o avanço das populações de esquilos-cinzentos, os britânicos precisarão fazer enormes esforços para repovoar os poucos fragmentos florestais restantes com as martas ou, melhor ainda, terão de fazer grandes esforços para aumentar suas áreas florestais e criar habitats para a reintrodução dos carnívoros predadores de esquilos.

A Inglaterra já foi um país completamente coberto por florestas e que hoje tem algo como 2% da cobertura vegetal original, o que nos dá uma ideia do tamanho do problema. Um exemplo do nível dos desmatamentos no país – a famosa Floresta de Sherwood, que já foi o esconderijo do lendário Robin Hood, hoje em dia não passa de um pequeno bosque, que lembra muito um parque urbano. Outro grave problema – devido aos mesmo problemas, os esquilos-cinzentos estão concentrados em pequenos fragmentos florestais em áreas interioranas, parques urbanos e também em árvores nos quintais de casas e condomínios. Imaginar que as martas se aproximarão dessas áreas para caçar os esquilos-cinzentos é uma “forçação de barra”, como costumamos dizer aqui no meu bairro.

Vejam o que um simples capricho de um aristocrata inglês do século XIX desencadeou – um problema praticamente sem solução.

E OS TATUS INVADEM A “AMÉRICA”…

Um caso intrigante de invasão de um grande território por uma espécie exótica é o que está acontecendo nos Estados Unidos desde o final do século XIX, época em que os tatus-galinha, chamados localmente de armadillos, começaram a atravessar o rio Grande, fronteira natural com o México e passaram a se estabelecer em terras norte-americanas. Desde então, os tatus se estabeleceram no Texas, Oklahoma, Luisiana, Arkansas, Alabama, Geórgia e Flórida. Há notícias de avistamentos desses animais no Sul de Nebraska, em Illinois e em Indiana.

Os Dasipodídeos, a grande família dos tatus, são mamíferos da ordem Cingulata, que tem como característica principal uma armadura que cobre o corpo. Essa armadura é composta por placas dérmicas ossificadas que são cobertas por escamas. Essa proteção cobre as costas, a cabeça, a cauda e as superfícies externas das pernas. A barriga, o peito e as partes internas das pernas não contam com essa proteção.

Durante dezenas de milhões de anos, as diversas espécies de tatus estavam restritas ao continente Sul-Americano. Essa saga teve início há aproximadamente 160 milhões de anos atrás, época em que o Supercontinente de Gondwana começou a se fragmentar. Relembrando, Gondwana era formado pela África, América do Sul, Antártida, Madagascar, Índia, Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas ilhas menores. Com a separação dessas grandes áreas territoriais, muitas espécies ficaram isoladas e seguiram por caminhos evolutivos absolutamente independentes.

Exemplos dessa exclusividade podem ser vistos na fauna da Austrália, com seus cangurus e coalas, e em Madagascar, onde se destacam os lêmures. Na América do Sul, o isolamento levou ao surgimento de inúmeras espécies exclusivas como macacos, gambás, tamanduás, bichos-preguiças e tatus. Esse isolamento continental terminou entre 2 e 4,2 milhões de anos atrás, ou ainda há 23 milhões de anos (ainda não há consenso entre os especialistas sobre uma data exata), quando se formou o Istmo do Panamá ou Istmo Centro-americano, unindo a América do Sul com a América Central e do Norte, e criando um corredor para a vida natural – espécies animais e vegetais que se desenvolveram isoladamente nas duas áreas passaram a migrar nos dois sentidos. 

Quando o Istmo do Panamá se formou, surgiu uma verdadeira “ponte de terra” entre esses dois mundos diferentes que estavam separados há mais de 130 milhões de anos. Animais e plantas que evoluíram separadamente, agora se encontravam e conquistavam novos territórios tanto para o Norte quanto para o Sul. As florestas de baixas altitudes que cobrem grandes áreas da América Central e do Sul do México, por exemplo, são uma espécie de “extensão” da vegetação da Floresta Amazônica da América do Sul.  

Existem inúmeros exemplos de espécies animais que expandiram seus territórios a partir deste mesmo caminho. Os ursos-de-óculos (Tremarctos ornatus), única espécie de urso ainda existente na América do Sul e que vive nos Andes, descendem de ursos que migraram a partir da América do Norte. Algumas dessas migrações de animais foram dramáticas, como no caso do temível Smilodon, mais conhecido como dentes-de-sabre. Esse felídeo era extremamente forte e robusto, com uma mordida poderosa e dois grandes dentes caninos.

A espécie surgiu na América do Norte há cerca de 2,5 milhões de anos atrás, gerando diferentes subespécies. Os dentes-de-sabre migraram para a América do Sul há cerca de 700 mil anos atrás, roubando das onças pintadas o título de maior predador do continente. Por múltiplas razões, esses animais se extinguiram há cerca de 10 mil anos, não sem antes levar diversas espécies sul-americanas à extinção, como foi provavelmente o caso das preguiças-gigantes

Entre as espécies que migraram rumo ao Norte podemos destacar as onças, felinos que colonizaram com sucesso toda a América Central e o México, onde passaram a ser chamados de jaguar. Também podemos incluir nessa lista os tamanduás, os bichos-preguiça e inúmeras espécies de macacos. Outro “imigrante” que alcançou um grande sucesso foram os tatus, animais que rapidamente encontraram nichos ecológicos por toda a América Central e México. Uma das espécies mais exitosas nessa expansão territorial foram os chamados tatus-galinha, também conhecidos como tatus-verdadeiros, tatu-de-folha, tatu-veado, tatu-liso e tatuetê. O nome hispânico mais comum para esses animais é armadillo.

Durante centenas de milhares de anos, os tatus prosperaram e se aproveitaram da estabilidade ambiental dos diferentes biomas que se formaram na região Centro-Americana. A situação mudaria drasticamente a partir da chegada dos conquistadores espanhóis no final do século XV e dos fortes movimentos de colonização que se seguiriam. Já no século XVII, grandes extensões de matas passaram a ser derrubadas e transformadas em campos agrícolas, onde destacamos a cana-de-açúcar.

Essa intensa pressão ambiental passou a reduzir gradativamente os habitats de muitas das espécies nativas locais, inclusive os tatus, empurrando os animais sobreviventes numa busca por novos territórios. Um exemplo do grau de devastação das antigas áreas naturais da região são as florestas tropicais do Sul do México – mais de 90% dessas florestas já desapareceram. O mesmo se repetiu em outros países da América Central.

Conforme já citamos, os tatus-galinha passaram a ser vistos com frequência cada vez maior no Extremo Sul dos Estados Unidos nas últimas décadas do século XIX, principalmente nas áreas áridas e semiáridas do Texas, ambientes com paisagens e clima muito similares ao Norte do México. A partir dali, a espécie passou a seguir rumo ao Leste, ocupando áreas de pradarias e de matas. Sem predadores naturais, com a alta fertilidade da espécie e encontrando grande disponibilidade de alimentos, os tatus foram avançando e consolidando cada vez mais novos territórios.

A colonização do território norte-americano pelos tatus-galinha parece estar limitada apenas pelo clima – a espécie não se adapta a invernos rigorosos e não é capaz de hibernar. Com o aquecimento global e com as mudanças climáticas que temos assistido, é possível imaginar que a espécie consiga avançar ainda mais em direção ao Norte.

Por mais natural que pareça essa colonização do território norte-americano pelos tatus-galinha, o avanço da espécie prejudica uma lista enorme de espécies nativas que ocupam o mesmo nicho ecológico. Sem a mesma capacidade de adaptação dos animais “latinos”, essas espécies podem ter suas populações reduzidas e/ou ameaçadas de extinção, um drama que assola um número cada vez maior de espécies animais e vegetais pelo mundo a fora.

AS CARPAS ASIÁTICAS INVADEM O RIO MISSISSIPI NOS ESTADOS UNIDOS

Quem tem acompanhado as postagens do blog nas últimas semanas pode ter ficado com a impressão errada que são apenas os países pobres e em desenvolvimento que estão enfrentando problemas com espécies invasoras. Falo isso por que já mostramos os casos dos castores, salmões e trutas na Argentina e no Chile; os javalis, pardais, coqueiros e os eucaliptos no Brasil; os ratos em ilhas do Oceano Pacífico; a mandioca em países da África e da Ásia, entre muitos outros casos.

Os Estados Unidos, país que ainda ocupa a posição de nação mais rica e desenvolvida do mundo, também está sofrendo – e muito, com espécies invasoras. O caso mais dramático é o das carpas asiáticas, espécie que foi introduzida no país ao longo da década de 1970 em fazendas de criação de peixes no Sul norte-americano. Essas fazendas passaram a importar esses peixes com o objetivo de controlar infestações de algas e moluscos nos seus tanques de criação. Segundo as informações que foram repassadas aos aquacultores por especialistas em controle biológico, essas carpas eram peixes vorazes e com um apetite insaciável, podendo consumir diariamente até 40% do seu próprio peso em alimentos.

A carpa comum (Cyprinus carpio) é originária de lagos e rios da Ásia, especialmente da região da Eurásia Central. A espécie, que pode atingir um comprimento de até 1,2 metro e um peso de 50 kg, sempre foi utilizada para a alimentação humana. Desde a antiguidade, as carpas foram introduzidas em rios e lagos de toda a Ásia e Europa, tornando-se uma das espécies invasoras mais difundidas em todo o mundo – calcula-se que a espécie esteja presente atualmente em mais de 80 países.  

Passando a viver em novos ambientes, as carpas passaram a sofrer adaptações fisiológicas, surgindo uma infinidade de subespécies, com tamanhos e características diferentes. Um dos exemplos mais interessantes são as carpas coloridas do Japão (Cyprinus carpio haematopterus), mais conhecidas pelo nome japonês de nishikigoi, é uma das subespécies mais conhecidas do mundo.  

Ao longo de mais de 20 anos, o uso das carpas asiáticas nas fazendas de criação de peixes foi bastante satisfatório. Os problemas começaram no início da década de 1990, quando a bacia hidrográfica do rio Mississipi passou a enfrentar sucessivas cheias acima da média histórica, especialmente em regiões próximas da foz do rio. No seu trecho final, o rio Mississipi se abre num grande Delta, que se estende por cerca de 400 km de largura e ocupa uma área total de 75 mil km².  

Várias dessas fazendas foram atingidas e as carpas asiáticas acabaram sendo arrastadas dos tanques na direção da calha do rio Mississipi. Extremamente fortes e adaptáveis, as carpas passaram a colonizar as águas do rio. A exceção dos jacarés norte-americanos (Alligator mississippiensis), as carpas asiáticas não possuem predadores naturais na bacia hidrográfica do rio Mississipi e acabaram avançando vorazmente contra as espécies nativas, alterando totalmente a biodiversidade do ecossistema. 

Sem encontrar predadores naturais, dispondo de grandes estoques de alimentos e possuindo uma alta taxa de natalidade – cada fêmea da espécie possui em seu ventre cerca de 1 milhão de ovas, as carpas encontraram um meio ambiente ideal e suas populações passaram a aumentar descontroladamente. De acordo com entidades que representam os profissionais do setor, a pesca comercial no baixo curso do rio Mississipi já foi seriamente comprometida nos últimos anos. 

A produção pesqueira sempre foi uma atividade econômica das mais importantes nessa extensa região dos Estados Unidos que, além de peixes, produz grandes quantidades de crustáceos e moluscos, iguarias que sempre fizeram parte das culinárias cajun creole. Entre os pratos mais famosos da região destacam-se o jambalaya, uma espécie de paella local com arroz, frango, chouriço francês, vegetais, lagostim ou camarão, e o gumbo, um ensopado de quiabo com camarões. 

A bacia hidrográfica do rio Mississipi é uma das maiores do mundo, ficando atrás apenas das bacias hidrográficas do rio Amazonas e do rio Congo, na África. O rio Mississipi tem aproximadamente 3.800 km de comprimento, ocupando a segunda posição na lista dos maiores rios da América do Norte. Entre seus principais afluentes destacam-se o rio Missouri, o maior rio do continente norte-americano, e os rios Ohio, Illinois, Arkansas e o Atchafalaya. A bacia hidrográfica do rio Mississipi drena uma área total de 3,2 milhões de km², onde se incluem 31 Estados americanos e 2 províncias canadenses.

Avançando cerca de 80 km a cada ano, as populações de carpas asiáticas foram ocupando toda a calha do rio Mississipi  e invadindo afluentes de todos os tamanhos. Na sua marcha rumo ao Norte, as carpas atingiram também as calhas dos rios Missouri e Ohio, dois dos principais tributários da bacia hidrográfica, que em conjunto com o rio Mississipi formam a Hidrovia Mississipi-Missouri-Ohio, responsável pelo transporte anual de cargas num volume de mais de 425 milhões de toneladas. 

Um dos destaques da Hidrovia Mississipi-Missouri-Ohio é o Canal de Illinois e Michigan, concluído pelo Corpo de Engenheiros do Exército Americano em 1848. Esse Canal permitiu a interligação entre a bacia hidrográfica do rio Mississipi e os Grandes Lagos, ampliando imensamente as possibilidades de navegação hidroviária no país em meados do século XIX. Esse canal permite a navegação de barcaças de cargas vindas de toda a região dos Grandes Lagos e do rio São Lourenço na direção de New Orleans e do Golfo do México ao Sul, através do rio Mississipi.  

Importante interligação entre as duas bacias hidrográficas, o Canal de Illinois e Michigan passou a se apresentar como um caminho natural para o avanço das carpas asiáticas rumo ao extremo Norte dos Estados Unidos, além de abrir as portas do Canadá para a espécie invasora. Os Grandes Lagos representam a maior concentração de água doce do mundo e a chegada das carpas asiáticas, a exemplo do que aconteceu no rio Mississipi, poderia resultar em enormes impactos à biodiversidade local. Somente nos Grandes Lagos, a indústria pesqueira fatura US$ 7 bilhões por ano e gera dezenas de milhares de empregos. 

Autoridades da cidade Chicago e do Estado de Illinois, contando com apoio do Governo Federal dos Estados Unidos e com forte pressão do Governo do Canadá, decidiram implantar uma barreira no Canal de Illinois e Michigan, de forma a bloquear o avanço das carpas. O projeto experimental foi construído pelo Exército norte-americano, sendo formado por um conjunto de telas metálicas eletrificadas, que tem como objetivo espantar as carpas. O projeto também utiliza embarcações que descarregam pulsos elétricos de alta voltagem na água, matando as carpas aglomeradas nas proximidades da cerca – esses animais podem ser consumidos por populações humanas. Uma outra alternativa que foi proposta e que, felizmente, acabou rejeitada, seria a liberação de uma veneno químico que só mataria as carpas. 

A mais recente iniciativa para tentar controlar as crescentes populações de carpas asiáticas na bacia hidrográfica do rio Mississipi se deu com a inauguração de um grande complexo industrial sino-americano no Estado do Kentucky. A empresa é especializada na produção de bolinhos de peixe, peixe defumado, peixe seco e molho de peixe, produtos voltados para o mercado chinês e que serão produzidos a partir das carpas asiáticas pescadas no rio Mississipi. O projeto também prevê o uso das tripas e resíduos resultantes do processamento dos peixes na produção de adubo. 

A solução para essa grande invasão da bacia hidrográfica do rio Mississipi ainda está muito longe de ser alcançada (se é que isso poderá ser conseguido algum dia) e exemplifica claramente o significado da introdução de uma espécie exótica em um novo ambiente. Resumidamente, podemos chamar isso de um “grande desastre”. 

ÍNDIA: DO TEMPLO DOS ADORADORES DE RATOS DE KARNI MATA AOS CACADORES DE RATOS DE MUMBAI

Conforme comentamos em uma postagem anterior, os ratos são a segunda espécie animal mais exitosa na colonização do nosso planeta – a raça humana ocupa a primeira posição. Originários da estepes do Norte da Ásia, os ratos aprenderam a conviver com os agrupamentos humanos há dezenas de milhares de anos. Os inteligentes roedores descobriram que podiam viver segura e confortavelmente se alimentando de restos de comida ou dos estoques de alimentos dessas populações. Após essa “domesticação” espontânea, os ratos passaram a seguir os humanos em suas migrações pelo mundo.

As três espécies mais difundidas no mundo são o rato-preto ou de telhado (Rattus rattus), o rato-marrom ou ratazana, conhecido como gabiru em muitas regiões (Rattus norvegicus) e os camundongos (Mus musculus), espécie de ratos pequenos, que vivem em residências. As três espécies são transmissoras de doenças, onde destaco a leptospirose e a peste bubônica, também chamada de Peste Negra, doença que matou entre 75 e 200 milhões de pessoas na Europa do século XIV. 

A imensa maioria dos seres humanos – onde eu me incluo, tem verdadeira aversão aos ratos. Uma das raras exceções é encontrada na cidade de Deshnok, no Rajastão, Estado do Norte da Índia e distante pouco mais de 500 km de Nova Délhi. Nessa cidade encontramos Karni Mata, um templo dedicado aos ratos e seus adoradores. O templo abriga centenas e mais centenas de ratos-brancos, animais considerados sagrados e que recebem a proteção dos fieis e dos sacerdotes.

Karni Mata foi uma mulher sábia hindu que viveu entre os séculos XIV e XVI (as diversas fontes divergem sobre a data do seu nascimento). Ela viveu uma vida ascética e foi altamente venerada pelos fieis durante a sua vida. A construção do templo começou a pedido do Marajá de Bikaner logo após o misterioso desaparecimento da mulher, que de uma hora para outra sumiu de sua casa e nunca mais foi vista. Os ratos começaram a se estabelecer no templo e rapidamente passaram a ser considerados uma reencarnação de Karni Mata.

Os fieis levam jarros com leite e outros alimentos até o templo, que são imediatamente oferecidos aos animais. A foto que ilustra esta postagem mostra um grupo desses ratos se servindo do leite dispensado em uma grande bacia. O templo também é aberto para a visitação pública, porém, não são todos os visitantes que tem coragem de entrar e ficar tão próximos de uma quantidade imensa de ratos. Para esses, ratos não são sagrados – são animais nojentos.

Já em Mumbai, a maior cidade da Índia, os ratos são considerados como uma grande praga urbana e os administradores locais não poupam esforços para eliminar esses animais, empregando, inclusive, um verdadeiro exército de caçadores de ratos. A Prefeitura local possui um departamento com funcionários especializados na caça aos ratos. São cerca de 40 funcionários públicos concursados e alocados especificamente para essa função. Essas vagas são bastante disputadas, atraindo milhares de candidatos – ser funcionário público em um país como a Índia é um grande privilégio. 

Além dos caçadores oficiais de ratos, a Prefeitura de Mumbai também contrata centenas de caçadores free lancer. Esses caçadores têm como meta abater, pelo menos, 30 ratos a cada noite, recebendo um pagamento equivalente a US$ 0.10 por cabeça – para os padrões salariais da Índia, esse é um ótimo rendimento. Se você gosta de cinema, recomendo o filme indiano Dhobi Ghat (Mumbai Diaries) que, entre seus personagens, conta o drama de um jovem dalit (casta mais baixa da sociedade indiana) que trabalha como lavador de roupas durante o dia e como caçador de ratos a noite, e que acaba se apaixonando por uma jovem milionária. 

Com aproximadamente 18 milhões de habitantes, Mumbai tem grande parte de sua mancha urbana formada por um labirinto de ruas e vielas, onde a população pobre teima em sobreviver e superar as grandes dificuldades do dia a dia. Existem cerca de 100 mil pequenas oficinas instaladas em fundos de quintais e casas, que produzem de tudo e até chegam a exportar seus produtos para países vizinhos. Apesar de sustentar e gerar empregos para grande parte da população, essas microempresas também geram grandes volumes de resíduos sólidos, que se juntarão aos resíduos domiciliares e esgotos domésticos que abundam nas ruas. 

Perto de 55% da população da cidade vive em favelas, como é o caso de Dharavi, a “favela celebridade” da Índia, que foi um dos cenários do filme “Quem quer ser um milionário” (Slumdog Milionaire – 2008). Ocupando uma área superior a 1,75 milhão de metros quadrados e com uma população estimada em 1 milhão de habitantes, essa favela virou um ponto turístico de Mumbai. 

De acordo com dados de 2012, Mumbai gera mais de 6% de todos os resíduos sólidos da Índia, resíduos que são depositados a céu aberto em quatro grandes lixões ao redor da cidade. Um verdadeiro exército de homens, mulheres e crianças passam suas vidas nesses lixões garimpando resíduos com algum valor. Os jovens protagonistas do filme “Quem quer ser um milionário” passam parte de suas vidas trabalhando em um desses lixões. 

Outro grave problema de Mumbai, que aliás é comum em toda a Índia, são os esgotos domésticos. Os mais de 1,34 bilhão de indianos produzem cerca de 40 bilhões de litros de águas residuais ou esgotos a cada dia. Cerca de 80% de todo esse volume de esgotos é despejado em riachos, rios e mares sem nenhum tipo de tratamento. A Índia tem 8 mil municípios e, de acordo com um estudo feito em 2011 pelo Conselho Central de Controle de Poluição, apenas 160 municípios do país contavam com centrais de tratamento de esgotos. Nos últimos anos foram feitos grandes investimentos em saneamento básico no país, mas essa situação evoluiu muito pouco.

O somatório de todos esses problemas de saneamento básico transformou a cidade de Mumbai em um verdadeiro paraíso para os ratos, que procriam sem qualquer controle e infestam todos os cantos da cidade. Ratoeiras, armadilhas e iscas envenenadas, são usadas intensivamente pela população numa tentativa de controlar essa verdadeira praga urbana.

A crescente classe média indiana fica indignada a cada nova produção cinematográfica do país que teime em mostrar todas as mazelas e os gravíssimos problemas sociais dos pobres do país. A Índia é, disparada, a maior produtora de filmes do mundo. Contando com 26 línguas oficias e mais de 400 línguas e dialetos minoritários, o país é uma verdadeira linha de produção de filmes. Bollywood, a versão indiana de Hollywood, fica em Mumbai e concentra a maior parte das produções. Os indianos mais ricos gostam mesmo é dos romances açucarados, musicais e filmes épicos, que mostram toda a beleza, a cultura e a história do país. 

Esses endinheirados sentem um imenso orgulho dos grandes avanços tecnológicos da Índia, com suas inúmeras centrais nucleares, poderosas forças armadas, bombas atômicas e, é claro, das altas taxas de crescimento econômico e da iminente trajetória do país rumo à terceira posição entre as maiores economias do mundo. Falar de pobres que ganham a vida caçando ratos, de esgotos, de lixo ou da falta de banheiros no país, é vergonhoso demais para eles. 

A realidade, porém, é muito mais forte que os desejos românticos desses “novos ricos” e os ratos teimam em continuar ocupando o seu lugar na Índia – seja no templo de Karni Mata seja nas ruas e vielas de Mumbai…

A INVASAO DAS ÁGUAS DO LAGO VITÓRIA PELA PERCA-DO-NILO

A foto que ilustra esta postagem mostra um orgulhoso pescador segurando o fruto de sua aventura – no caso, o espécime capturado é uma perca-do-Nilo, uma espécie invasora que está ameaçando toda a biodiversidade do Lago Vitória, o maior corpo de água doce da África. As percas podem superar os 250 kg de peso e um comprimento de 2 metros.

O Lago Vitória ocupa uma área total de 68 mil km² entre o Quênia, Uganda e a Tanzânia. A descoberta desse lago remonta a meados do século XIX, quando foram realizadas várias expedições em busca das lendárias nascentes do rio Nilo. Uma dessas expedições foi iniciada em dezembro de 1856, tendo a frente exploradores John Hanning Spike e Richard Francis Burton. Essa expedição buscava localizar o lendário Lago Niassa, citado em antigos mapas e documentos árabes – esses povos antigos consideravam que esse lago era a nascente do rio Nilo.

A expedição conseguiu alcançar o Lago Tanganica em fevereiro de 1858 e, cerca de quatro meses depois, descobriu um grande lago, batizado como Lago Vitória em homenagem à rainha que governou o Reino Unido entre 1837 e 1901. As verdadeiras nascentes do rio Nilo só seriam descobertas dois anos depois por uma outra expedição. Essas descobertas permitiram aos britânicos a reinvindicação dos territórios, que posteriormente formaram a África Oriental Britânica.

Com o início da colonização britânica na região, teve início um intenso processo de derrubada da cobertura florestal para permitir a implantação de grandes lavouras comerciais, especialmente de chá, café, tabaco e algodão. Para facilitar o escoamento da produção agrícola, os britânicos construíram uma ferrovia, concluída em 1902, ligando a cidade litorânea de Mombaça, no Quênia, ao Lago Vitória. 

Para aumentar a produtividade pesqueira, os britânicos introduziram o uso da rede de pesca, muito mais eficiente que as armadilhas tradicionais usadas pelos nativos. Esse incremento da pesca comercial e o crescimento da população levou a uma super exploração dos recursos pesqueiros no Lago Vitória. No início da década de 1950, o ngege, a espécie de peixe mais consumida pelas populações locais, estava extinta, o que prenunciava o forte declínio das populações de peixes no Lago. 

Numa tentativa de reverter a crise pesqueira e garantir a oferta de proteína animal para uma grande população, Autoridades Coloniais sugeriram a introdução da perca-do-Nilo (Lates niloticus) nas águas do Lago Vitória. Essa espécie é, como indicado no próprio nome, nativa do trecho etíope da bacia hidrográfica do rio Nilo. A ideia foi rechaçada de imediato pela comunidade científica, que temia um forte impacto ambiental – a perca é um predador de grande porte e de topo na cadeia alimentar que, sem predadores naturais, poderia rapidamente dizimar as espécies menores nativas do Lago Vitória.

Não se sabe exatamente como e quando, mas é certo que, em algum momento após 1954, a espécie foi introduzida clandestinamente nas águas do Lago Vitória e, cerca de 15 anos depois, a perca-do-Nilo já era encontrada com muita frequência por todo o espelho d`água. Estava dada a largada para um dos maiores desastres ambientais contemporâneos decorrentes da introdução de uma espécie exótica.

Inicialmente, as populações locais foram impactadas positivamente pela exploração desse novo recurso pesqueiro. A carne da perca-do-Nilo era muito mais rica em gordura que a grande maioria dos peixes nativos, sendo, portanto, muito mais valorizada comercialmente. Rapidamente, milhares de pescadores tradicionais do Lago Vitória passaram a se dedicar à pesca comercial da perca.

O processamento mais tradicional de peixes no interior da África é a defumação, onde os peixes são secos lentamente com a fumaça de fogueiras. A defumação de volumes cada vez maiores de percas para exportação levou a um aumento do desmatamento das matas ciliares para o fornecimento de lenha para as fogueiras, o que, consequentemente, levou a um aumento sistemático da erosão e carreamento de resíduos para as águas do Lago Vitória. 

Os ganhos econômicos com a pesca comercial da perca-do-Nilo não tardaram a aparecer: em 1978 foram processadas 1 mil toneladas do peixe no Quênia – em 1993, essa produção saltou para 100 mil toneladas. Na Tanzânia, país onde a atividade pesqueira se tornou a maior fonte de receitas, a pesca da espécie gera 1 milhão de empregos diretos e beneficia indiretamente 5 milhões de pessoas. Todos os dias, 500 toneladas de filé de perca-do-Nilo são enviadas para a União Europeia através do Aeroporto de Mwanza. Em 2015, a produção pesqueira total da Tanzânia atingiu a impressionante marca de 600 mil toneladas – nada mal para a produção de um lago localizado no interior do continente. 

Um relatório publicado em 1987 pela FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, afirmou que a pesca da perca-do-Nilo no Lago Vitória constitui “um desenvolvimento positivo do ponto de vista do bem-estar humano”. Países e populações que vivem ao redor do Lago Vitória tornaram-se dependentes da pesca da perca-do-Nilo. Existe, porém, um lado negativo nesse desenvolvimento: de acordo com estudos científicos recentes, cerca de 45% das 191 espécies nativas estão ameaçadas ou dadas como extintas

A produção de cifras tão impressionantes de pescado, é claro, tem lá seus custos energéticos. Seguindo o princípio da conservação da matéria, que diz de maneira bem simplificada que “nada se cria, nada se perde – tudo se transforma”, a produção de uma quantidade tão grande de peixes requer, no mínimo, que uma quantidade equivalente de alimentos tenha sido introduzida na equação. Apesar de grande, o Lago Vitória tem recursos naturais finitos, o que estabelece limites para o suporte de vida das populações de peixes. Além de predar todas as espécies de peixes nativos do Lago, as percas-do-Nilo passaram a se valer do canibalismo para suprir parte das suas necessidades calóricas, onde os espécimes maiores passaram a devorar os espécimes menores, um problema que pode levar a espécie ao colapso. 

Um outro problema seríssimo, que tem um enorme potencial para destruir a indústria pesqueira no Lago Vitória, é a grande degradação da qualidade das suas águas. Além dos problemas criados pelo desmatamento e carreamento de grandes volumes de sedimentos para as águas, e também do despejo de grandes volumes de esgotos sem tratamento, o Lago Vitória vem sofrendo com o carreamento cada vez maior de resíduos da mineração. Em toda a África, são inúmeras as províncias minerais e os projetos de mineração tocados por grandes grupos internacionais.  

Contando com governos fracos e não democráticos, além de militares e servidores públicos facilmente corrompíveis, as atividades mineradoras, que por natureza já são fortemente degradantes ao meio ambiente, seguem sem maiores controles na África. A Tanzânia, citando um único exemplo, é o 5° maior produtor mundial de ouro – pessoas e empresas gananciosas não medirão esforços para retirar do solo as maiores quantidades possíveis do metal e o meio ambiente “que se dane”. Com a degradação da qualidade das águas, as espécies de peixes menores e mais fracas não conseguem sobreviver. Sem a disponibilidade desses peixes nativos, que são bem mais baratos que as valorizadas percas, as populações pobres ficam sem acesso a proteína animal. 

Esse é o tamanho do nó criado pela introdução de uma espécie exótica num grande Lago – a perca-do-Nilo levou dezenas de espécies nativas à extinção, as populações ficaram dependentes da pesca da perca e a degradação da qualidade das águas do Lago Vitória por resíduos da mineração pode destruir a indústria pesqueira local. Para piorar, caso as percas-do-Nilo despareçam, restou muito pouco das espécies nativas originais para repovoar as águas moribundas do Lago Vitória. 

As boas intenções por trás da introdução das percas-do-Nilo no Lago Vitória lembram um velho ditado: de boas intenções, o inferno está cheio. Nesse caso, temos mesmo é um grande lago cheio de espécimes invasores…